Abordagem do Idoso em PSF

Abordagem do Idoso em PSF

(Parte 1 de 3)

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19(3):839-847, mai-jun, 2003

Abordagem do idoso em programas de saúde da família

Approach to the elderly in family health programs

1Departamento de Medicina Interna, Universidade Federal de Rio Grande. Rua Engenheiro Alfredo Huch 475,Rio Grande,RS 96201-900, Brasil. 2Centro de Saúde de Candangolândia, Secretaria de Saúde do Distrito Federal. Área Especial 5/7,Lote 17, Candangolândia,DF 71725-500, Brasil.

Jorge Alexandre Silvestre 1 Milton Menezes da Costa Neto 2

Abstract This article discusses the role of the Brazilian National Policy for Senior Citizens’ Health in the promotion of healthy aging,preservation and improvement of functional capacity in the elderly,disease prevention,recovery of those who fall ill,and rehabilitation of those with limited functional capacity,will the goal of ensuring that senior citizens can remain in their surroundings and independently exercise their functions in society.Care for the elderly should be based primarily on the family,with support from primary health care services,under the family health strategy,representing a link between the elderly and the health system.The article goes on to list some health problems among the elderly in which family health programs can have a major impact.The Family Health Strategy in Brazil is analyzed in relation to health care for the elderly,along with the responsibilities,skills,and attributions required by the health care team. Key words Family Health Program;Aging Health;Health Services for the Aged

Resumo Discorre-se sobre a Política Nacional de Saúde do Idoso cujo propósito basilar reside na promoção do envelhecimento saudável,na manutenção e melhoria,ao máximo,da capacidade funcional dos idosos,na prevenção de doenças,na recuperação da saúde dos que adoecem e na reabilitação daqueles que venham a ter a sua capacidade funcional restringida,de modo a garantir-lhes permanência no meio em que vivem,exercendo de forma independente suas funções na sociedade.O cuidado do idoso deve basear-se,fundamentalmente,na família com o apoio das Unidades Básicas de Saúde sob a Estratégia de Saúde da Família,as quais devem representar para o idoso,o vínculo com o sistema de saúde.Após,são listados alguns dos problemas de saúde do idoso em que os programas de saúde da família podem causar um impacto importante.Se analisa a Estratégia de Saúde da Família no Brasil em relação à atenção ao idoso, além das competências,habilidades e atribuições necessárias da equipe. Palavras-chave Programa Saúde da Família;Saúde do Idoso;Serviços de Saúde para Idosos

SILVESTRE, J. A. & COSTA NETO, M. M. 840

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19(3):839-847, mai-jun, 2003

A política nacional de saúde do idoso

No Brasil, em dezembro de 1999, o Sr. Ministro da Saúde, considerando a necessidade de o setor saúde dispor de uma política devidamente expressa relacionada à saúde do idoso, bem como, a conclusão do processo de elaboração da referida política que envolveu consultas a diferentes segmentos direta e indiretamente envolvidos com o tema e, considerando ainda, a aprovação da proposta da política mencionada pela Comissão Intergestores Tripartite e pelo Conselho Nacional de Saúde, resolveu aprovar a Política Nacional de Saúde do Idoso e determinar que os órgãos e entidades do Ministério da Saúde (MS), cujas ações se relacionem com o tema objeto da Política aprovada, promovam a elaboração ou a readequação de seus planos, programas, projetos e atividades na conformidade das diretrizes e responsabilidades nela estabelecidas (Brasil, 1999).

Esta Política, em sua introdução, assume que o principal problema que pode afetar o idoso, como conseqüência da evolução de suas enfermidades e de seu estilo de vida, é a perda de sua capacidade funcional, isto é, a perda das habilidades físicas e mentais necessárias para a realização de suas atividades básicas e instrumentais da vida diária.

Estudos populacionais realizados no país têm demonstrado que não menos que 85% dos idosos apresentam pelo menos uma doença crônica, e cerca de 10% apresentam pelo menos cinco dessas enfermidades (CEI-RS, 1997; Ramos et al., 1993). A presença de uma ou mais enfermidade crônica, no entanto, não significa que o idoso não possa conservar sua autonomia e realizar suas atividades de maneira independente. De fato, a maioria dos idosos brasileiros é capaz de se autodeterminar e organizar-se sem necessidade de ajuda, mesmo sendo portador de uma ou mais enfermidade crônica. Os mesmos estudos citados acima revelam que cerca de 40% dos indivíduos com 65 anos ou mais de idade precisam de algum tipo de auxílio para realizar pelo menos uma atividade instrumental da vida diária, como fazer compras, cuidar das finanças, preparar refeições ou limpar a casa, e que 10% requerem ajuda para realizar tarefas básicas, como tomar banho, vestir-se, ir ao banheiro, alimentar-se e, até, sentar e levantar de cadeiras e camas (Ramos et al., 1993).

Nesse sentido, a Política Nacional de Saúde do Idoso apresenta “como propósito basilar a promoção do envelhecimento saudável,a manutenção e a melhoria,ao máximo,da capacidade funcional dos idosos,a prevenção de doen- ças,a recuperação da saúde dos que adoecem e a reabilitação daqueles que venham a ter a sua capacidade funcional restringida,de modo a garantir-lhes permanência no meio em que vivem,exercendo de forma independente suas funções na sociedade” (Brasil, 1999:21).

Para o alcance do propósito da Política Nacional de Saúde do Idoso, foram definidas como diretrizes essenciais a promoção do envelhecimento saudável; a manutenção da capacidade funcional; a assistência às necessidadesde saúde do idoso; a reabilitação da capacidade funcional comprometida; a capacitação de recursos humanos especializados; o apoio ao desenvolvimento de cuidados informais; e o apoio a estudos e pesquisas.

Todas as ações em saúde do idoso, como o previsto na referida Política, devem objetivar ao máximo manter o idoso na comunidade, junto de sua família, da forma mais digna e confortável possível. Seu deslocamento para um serviço de longa permanência, seja ele um hospital de longa estada, asilo, casa de repouso ou similar, pode ser considerada uma alternativa, somente quando falharem todos os esforços anteriores (Galinsky, 1993).

A internação dos idosos em serviços de longa permanência representa um modelo excludente e que causa uma importante deterioração na capacidade funcional e autonomia. Mesmo a internação hospitalar por curto prazo de tempo leva a este tipo de perda. Sager et al. (1996) demonstraram que, comparando a capacidade para realização de atividades básicas da vida diária que o idoso possuía antes da internação, em um leito de agudos por curto prazo de tempo, em relação à do momento da alta, levou a uma significativa queda desta capacidade. Em nova avaliação, três meses após, verificou-se que os níveis de capacidade funcional não tinham sido totalmente recuperados em relação aos de antes da internação.

O retorno ao modelo de cuidados domiciliares, como proposto na política em tela, não pode ter como única finalidade baratear custos ou transferir responsabilidades. A assistência domiciliar aos idosos com comprometimento funcional, demanda programas de orientação, informação e apoio de profissionais capacitados em saúde do idoso e depende, essencialmente, do suporte informal e familiar, constituindo-se num dos aspectos fundamentais na atenção à saúde desse grupo populacional. Isso não significa, no entanto, que o Estado deva deixar de ter um papel preponderante na promoção, proteção e recuperação da saúde do idoso nos três níveis de gestão do SUS, capaz de otimizar o suporte familiar.

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19(3):839-847, mai-jun, 2003

O cuidado comunitário do idoso deve basear-se, especialmente, na família e na atenção básica de saúde, por meio das Unidades Básicas de Saúde (UBS), em especial daquelas sob a estratégia de saúde da família, que devem representar para o idoso, idealmente, o vínculo com o sistema de saúde.

Características e demandas do idoso na atenção básica de saúde

Na Tabela 1, são listados alguns dos problemas de saúde do idoso em que a atuação dos Programas de Saúde da Família pode causar um impacto importante.

A estratégia de saúde da família no Brasil

O Brasil, nas últimas décadas, vem conquistando importantes avanços no campo da saúde. O processo de construção do SUS, regulamentado pela Constituição Federalde 1988 e pelas Leis Complementares, vem gradativamente ocorrendo sobre os pilares da universalização, da integralidade, da descentralização e da participação popular.

Porém, o modelo assistencial ainda forte no país é caracterizado pela prática médica voltada para uma abordagem biológica e intra-hospitalar, associada a uma utilização irracional dos recursos tecnológicos existentes, apresentando cobertura e resolubilidade baixas e com elevado custo. Dessa forma, gera grande insatisfação por parte dos gestores do sistema, dos profissionais de saúde e da população usuária dos serviços. Assim sendo, o grande desafio para o sistema é conseguir traduzir os avanços obtidos no campo legal em mudanças efetivas e resolutivas da prática da atenção à saúde da população. O êxito da reforma proposta com o uso potencializado da atenção básica, complementada pela rede de serviços especializados e hospitalares, vem sendo a busca permanente dos gestores de saúde.

Nesse contexto, o MS assumiu, a partir de 1994, a Estratégia de Saúde da Família, visando à reorganização do modelo tradicional por intermédio da reesquematização da atenção básica à saúde. A proposta é uma nova dinâmica para a organização dos serviços básicos de saúde, bem como para a sua relação com a comunidade e entre os diversos níveis de complexidade, assumindo os compromissos de: •Reconhecer a saúde como um direito de cidadania, humanizando as práticas de saúde e

ABORDAGEM DO IDOSO EM PROGRAMAS DE SAÚDE DA FAMÍLIA841 buscando a satisfação do usuário pelo seu estreito relacionamento com os profissionais de saúde; •Prestar assistência universal, integral, equânime, contínua e, acima de tudo, resolutiva e de boa qualidade à população, na unidade de saúde e no domicílio, elegendo a família, em seu contexto social, como núcleo básico de abordagem no atendimento à saúde; •Identificar os fatores de risco aos quais a população está exposta e neles intervir de forma apropriada; •Proporcionar o estabelecimento de parcerias pelo desenvolvimento de ações intersetoriais que visem à manutenção e à recuperação da saúde da população; •Estimular a organização da comunidade para o efetivo exercício do controle social.

Apesar de essa Estratégia ser operacionalizada a partir das UBS, todo o sistema deve estar estruturado segundo a sua lógica, pois a continuidade da atenção deve ser garantida, por um fluxo contínuo setorial. A implantação da mesma vem possibilitando a integralidade da assistência e a criação de vínculos de compromisso e de responsabilidade compartilhados entre os serviços de saúde e a população.

O profissional deve ser capaz de perceber a multicausalidade dos processos mórbidos, sejam físicos, mentais ou sociais, tanto individuais, quanto coletivos, contextualizando, sempre, o indivíduo em seu meio ambiente. Deve estar voltado à criação de novos valores, trabalhando mais a saúde do que a doença e, basicamente, por meio do trabalho interdisciplinar. Dessa maneira, o profissional de uma UBS sob a nova estratégia atua nos fatores que alteram o equilíbrio entre o indivíduo e o ambiente, compreendendo a saúde em seu sentido mais abrangente. Para tanto, ele busca conhecer detalhadamente a realidade das famílias que moram em sua área de abrangência, incluindo seus aspectos físicos e mentais, demográficos e sociais. Cabe a ele, também, identificar os problemas de saúde prevalentes na área de sua abrangência e, construir, junto com as famílias, um diagnóstico psicossocial que detecte situações de vulnerabilidade familiar. Ele planeja, organiza e desenvolve ações individuais e coletivas, avaliando, de forma constante, seus resultados. Para tanto, é necessário que ele tenha uma visão sistêmica e integral do indivíduo e da família, trabalhando com suas reais necessidades e disponibilidades, valendose de uma prática tecnicamente competente e humanizada, pelas ações de promoção, proteção e recuperação da saúde.

SILVESTRE, J. A. & COSTA NETO, M. M. 842

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19(3):839-847, mai-jun, 2003

Tabela 1 Idoso na atenção básica de saúde – características e demandas.

Problema de saúdePrevalência (p) Impacto individual/Implicação RequisitoResultado incidência (i) familiar operacional esperado

Inatividade crônicap: 75%Risco de Avaliar capacidade Programa ↑Qualidade dependência funcional de exercícios de vida

Redução de funçãop: 42%Dependência Avaliar causas Programa Prevenção funcional médiareversíveisde reabilitaçãoda dependência

Imobilidadep: 4%Dependência Dx Considerar Programa Prevenção funcional grave,causas reversíveisde reabilitaçãode complicações Risco para e dependência hospitalizações ou Institucionalização

Desnutrição Desnutrição ↓Qualidade de DxPrograma de ↑Qualidade protéico-calórica Calórica:vida pessoal alimentaçãode vida e micronutrientesp: 20-30%↑Riscos

Tabagismop: 18%↓Capacidade DxEducação, ↑Qualidade respiratória programa de vida ↑DBPOC, Ca, de recuperação coronariopatias

Alcoolismop: 10-20%↓Qualidade DxEducação, ↑Qualidade de vida pessoal programa dede vida e familiar; Riscosrecuperação

Maus tratos: p: 4-10%↓Qualidade Dx Detectar riscosEducação familiar,↑Qualidade negligência e abusode vida pessoaldenunciar suspeitade vida

Acidentes (Quedas)I: 20-30% 1acausa de Avaliação pessoal, Controle dos riscos↓acidentes ao anoincapacidademedicamentosa entre os idosose ambiental

Enfermidade ocultap: 50%↓Riscos de Morbi-DxTriagem para Controle precoce mortalidade alto risco

Multipatologiasp: 10% ↓Riscos de Dx Reavaliação Estabelecer ↑Controle mais que Polimedicaçãoperiódicaprioridades, ↓Fármacos 5 crônicascontrole↓ Iatrogenia

Multifármacosp: 1% ↓Riscos Reavaliação Estabelecer ↓Fármacos mais que 4 de Iatrogeniasperiódicaprioridades, ↓iatrogenia fármacos Descontinuar desnecessários

Demênciap: 5%↓Qualidade Dx positivo Referenciar Melhor controle de vida pessoal Dx diferencial para avaliação↓Carga familiar e familiarDx etiológico

Depressão maiorp: 6-10%2acausa de Dx positivoRx↑Qualidade incapacidade Dx diferencial de vida entre os idososDx etiológico

Isolamentop: 10-15%↓Qualidade de DxEducação, ↑Qualidade vida e risco para programade vida institucionalização de recuperação

Hipertensão Arterial p: 20-25%↑Riscos de morbi-DxRx↓Prevenção Sistêmica mortalidade de complicações e dependência

Hipertensão Sistólica p: 35-40%↑Riscos de morbi-DxRx↓Prevenção Isolada mortalidade de complicações e dependência

Insuficiência p: 1,5-2,5%1acausa de DxReferenciar para ↓Hospitalizações Cardíaca Congestivahospitalização eavaliação Rxe re-hospitalização re-hospitalizações ↑Qualidade em idososde vida

Cardiopatia isquêmicap: 10-20%Principal causa de DxReferenciar para ↓Hospitalizações morte no idosoavaliação Rxe re-hospitalização

(Parte 1 de 3)

Comentários