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INTRODUÇÃO

O álcool é a droga mais antiga de todas as drogas usadas para afetar o cérebro, com o objetivo de mudar a mente e as emoções. É uma substância com efeitos depressores sobre o Sistema Nervoso Central, apesar dos efeitos estimulantes ou euforizantes, se tomado em dose alta colocará o ser humano inconsciente, funcionando como anestésico geral. As bebidas destiladas resultam do fato do álcool possuir ponto de ebulição. O álcool tem tido uma aceitação social alta, principalmente no mundo ocidental.A diferenciação não é fácil entre o beber socialmente, o uso abusivo ou nocivo do álcool e a síndrome de dependência do álcool. É variável a aceitação individual ou do grupo cultural moderado ou excessivo em decorrência da forte desaprovação social ao beber imoderadamente, a maioria dos alcoolistas com sérios problemas sociais e de saúde tendem a negar a sua dependência de bebidas alcoólicas.

O presente trabalho abordará o Alcoolismo que de acordo com as conclusões a que chegaram os peritos da O.M.S. encarregados de estudar o assunto, deve ser considerado como problema de saúde pública, de natureza complexa, na qual o álcool atua como fator determinante sobre causas psicossomáticas preexistentes no individuo e para cujo tratamento é preciso recorrer a processos profiláticos e terapêuticos de grande amplitude. A mais recente definição do subcomitê do alcoolismo é a seguinte: “ Alcoolistas são bebedores excessivos cuja dependência ao álcool chega ao ponto deles apresentarem perturbação mental evidente, manifestações afetando sua saúde física e mental, suas relações individuais, seu comportamento social e econômico ou pródomos de perturbações deste gênero e que por isto necessitam de tratamento (PAIM, 1991, p. 85). O presente trabalho estará abordando também as causas do alcoolismo e os efeitos que o uso abusivo do álcool causam ao organismo e também estará citando e comentando os vários tipos de psicose alcoólica.

ALCOOLISMO OU DEPENDÊNCIA ALCOÓLICA

O alcoolismo é uma síndrome de dependência conseqüente ao uso excessivo e prolongado do álcool, é bem mais comum em homens do que em mulheres, embora muitas diferenças que eram visualizadas no passado resultavam de dificuldades de diagnósticos e da identificação de mulheres com problemas de alcoolismo.

Os alcoolistas sentem-se culpados pela dependência e tornam-se irritados e agressivos, não se alimentam adequadamente, tendem a desenvolver deficiência de vitaminas, particularmente as do grupo B. O mecanismo psicológico de defesa do tipo negação, onde o individuo age de forma a se recusar a vivenciar a realidade externa, nega sua existência para se proteger do sofrimento que essa possa lhe causar (por exemplo: o filho morreu e a mãe coloca o prato dele na mesa todos os dias como se ele fosse voltar, isto para se proteger do sofrimento que essa realidade externa pode lhe causar.) é empregado pelos alcoolistas, eles ficam ciumentos, deprimidos, magoados ou mesmo paranóides, apresentando medos não rasoáveis que outras pessoas estão conspirando contra eles.

O alcoolismo é um problema complexo, que envolve não só a profissão médica, mas também magistrados, polícia, advogados, religiosos, assistentes sociais e autoridades educacionais entre outros.Ocorre em todos os níveis sociais e graus de inteligência. A tolerância ao álcool desenvolve-se progressivamente com o alcoólatra passando a precisar de crescentes quantidades para produzir os mesmos efeitos, bebe as escondidas antes de festas ou reuniões e ainda mantém reservas guardadas em sua casa e no local de trabalho, sua vida passa a se organizar de acordo com sua necessidade de beber, onde as finanças familiares passam a sofrer as conseqüências surgindo problemas conjugais, podendo o alcoolista tentar se controlar e abster-se totalmente por dias ou até semanas, mas acaba por voltar a beber novamente. Aparecem alterações físicas e dependências, a tolerância diminui, aparecem os tremores, ele acorda sentindo-se mal, com náuseas, trêmulo, incapaz de se lembrar dos fatos sucedidos na noite anterior, sentindo a necessidade de um drinque para controlar os sintomas da abstinência e acaba por beber o dia todo, suas relações pessoais são prejudicadas, ele perde o emprego, sua vida familiar fica desestruturada e entra em um contínuo declíneo social, o julgamento, o bom senso e a memória são afetados, ele perde o auto-controle a menos que receba o tratamento aparecem sérias complicações físicas e mentais.

CAUSAS DO ALCOOLISMO

  • Familiar: 45% dos alcoólatras tem pais que são ou foram alcoólatras, sendo os fatores genéticos elementos importantes;

  • Sexo: è mais incidente em homens do que em mulheres, proporção de seis para um, mas o fato esta mais relacionado a fatores ambientais do que a diferenças constitucionais. As mulheres alcoólatras acabam pó ter um prognóstico pior que o dos homens, são bem menos ajustadas e mais propensas à depressão;

  • Racial: é mais freqüente entre os Irlandeses e menos freqüentes entre os judeus;

  • Social: quanto mais fácil à obtenção do álcool maior é a incidência do alcoolismo, por exemplo, a profissão de cervejeiro e atividades que envolvem espetáculos de diversão, são propícios ao desenvolvimento do alcoolismo;

  • Psiquiátrico: a ansiedade na juventude, a depressão na meia-idade e a solidão na velhice, são fatores condizentes ao alcoolismo, é alta a incidência de depressão em alcoólatras, especialmente mulheres e a propensão ao suicídio é muito maior em comparação com os não-alcoólatras.

A PERSONALIDADE DO PACIENTE ALCOOLISTA

O paciente apresenta ego frágil; hipersensibilidade e sofrimento físico e emocional; baixa tolerância à frustração; imaturidade; passividade; dependência; impulsividade; insegurança; auto-conceito, auto-estima e auto-imagem pobres; acrescentando-se ainda ansiedade, hostilidade, sociopatia e depressão.

PRINCIPAIS TIPOS DE PSICOSE ALCOÓLICA

As psicoses alcoólicas são consideradas psicoses orgânicas, que apresentam causa física definida, sendo possível a constatação em exames de imagens, onde o uso abusivo do álcool modifica a estrutura cerebral.

  • DELIRIUM TREMENS: Geralmente aparece entre 24 e 72 horas após a última ingestão de bebidas alcoólicas e apresenta uma taxa de mortalidade de 5 a 15%, essa síndrome é caracterizada por agitação extrema, febre, delírio, psicose (delírios e alucinações), onde as ilusões e alucinações são geralmente visuais e as idéias delirantes são acentuadas. O paciente fica confuso, amedrontado, desassossegado, suando, anoréxico e com insônia. A desidratação e aos distúrbios eletrolíticos podem ser profundos, sendo a pneumonia uma complicação comum nesses casos. Quanto às convulsões por abstinência de álcool elas ocorrem com maior freqüência entre 6 a 48 horas após a interrupção ou redução da ingesta de álcool, podem ser causadas por transtornos metabólicos como hipoglicemia ou hipomagnesemia. O Delirium tremens dura entre uma a duas semanas, podendo ocorrer a morte geralmente na primeira semana.

  • ALUCINOSE ALCOÓLICA: A enfermidade inicia-se geralmente de modo súbito, ao anoitecer ou durante a noite, com a ocorrência de ansiedade e alucinações auditivas, onde estas alucinações são complexas, o paciente ouve ruídos, sons indistintos e vozes que pronunciam palavras e frases, de um modo geral as alucinações auditivas são dotadas de conteúdo desagradável como vozes injuriosas, que fazem ameaças, censuras, insinuações maliciosas ou planos de extermínio, sendo em alguns casos as alucinações dotadas de nitidez perfeita e tem sentido definido, em outros o alcoolista não percebe o diálogo mantido pelas vozes, mas sim um vozerio ensurdecedor. O enfermo é dominado pela ansiedade,mesclada de medo, que o leva a tentativas de suicídio.

  • ESTADOS PARANÓIDES OU DELÍRIO DE CIUMES: O enfermo elabora as suas primeiras interpretações e tece uma trama delirante, um ponto importante destacado pelo Professor Nobre de Melo é que os alcoolistas possuem condições psicológicas capazes, em si mesmas,de determinarem o aparecimento de idéias de ciúme e até de reações criminais de grande intensidade e violência. O próprio vício já é por si só abominável e repugnante, é a razão pela qual o alcoolista está exposto à infidelidade conjugal, pois ao lado disto há uma progressiva debilitação sexual, que é acompanhada de proporcional decréscimo da libido, sendo que em alguns casos o alcoolista procura satisfações anormais mediante manobras eróticas grosseiras, sem a correspondente aprovação da companheira, e por isto serve como ponto de partida para interpretações falsas, favorecidas com freqüência por alucinações visuais e auditivas. O delírio de ciúmes apresenta características especiais como: violência noturna dos acessos, exteriorização agressiva do delírio, a ação é orientada exclusivamente para a mulher e não para supostos amantes e progressiva extensão das interpretações e das intuições delirantes até atingir o absurdo, o que pressupõe o comprometimento grave da capacidade de julgamento e de autocrítica.

  • DELIRIUM DE ABSTINÊNCIA ALCOÓLICA: caracteriza-se por uma serie de sintomas psíquicos e alterações físicas como tremor, ataxia e agitação motora, ocorre quase exclusivamente no sexo masculino e nunca antes dos 30 anos, o alcoolista permanece durante vários dias ou semanas com delírios, ficando angustiado, com medo inexplicável, sendo que em alguns casos quando o individuo é forçado a manter a abstinência os sintomas desaparecem, essencialmente é caracterizada como uma síndrome de excitação psíquica com estado confusional angustiosos,numerosas e intensas alucinações, sobretudo visual e tátil, que são dotadas de perfeita nitidez sensorial e combinadas em arranjos cenográficos,as visões são múltiplas, móveis,sem cor e pequenas e muitas vezes apresentam aspecto de fios, cabelos, chispas, sombras, animais dos mais diversos aspectos e tamanhos como ratos,aranhas, pulgas, macacos e homens em tamanho natural ou reduzido. A capacidade do raciocínio é limitada, a memória está profundamente alterada, a orientação geralmente está perturbada, em suma, a concentração, a tenacidade, a vigilância e a extensão estão muito limitadas, a desorientação no tempo e espaço é completa, mas a consciência da personalidade costuma ser conservada, sendo que nos casos mais intensos a perturbação da consciência manifesta-se através da incoerência dos juízos e do raciocínio. A debilidade geral aumenta com a duração do delírio e os alcoolistas passam a falar em voz baixa e tremula, podendo haver perturbações da linguagem, confusão na articulação e distorção disfásica das palavras. Apresentando ainda os sintomas físicos tais como tremor, hipertermia, hiperidrose e as perturbações do equilíbrio que se fazem acompanhar de fenômenos neuríticos e de ligeiras anomalias pupilares, o pulso é freqüente, irregular e nos casos graves filiforme, a PA pode ser baixa ou elevada, a face é pálida e coberta de suor, os reflexos profundos estão exaltados podem aparecer ataques convulsivos no inicio ou no decorrer do delírio e podem ocorrer sintomas cerebrais como desordem da coordenação ou ataxia cerebelar, e em alguns doentes é observado analgesia completa.

  • SINDROME DE KORSAKOV: consiste em uma perda da memória quanto a fatos recentes, é um estado de amnésia onde o paciente não pode lembrar o que foi dito ou feito segundos atrás e para preencher as lacunas da memória ele acaba por inventar histórias que freqüentemente são muito convincentes, a poucas possibilidades de recuperação completa.

  • ENCEFALOPATIA DE WERNICKE: é caracterizada por desorientação associada com a paralisia de músculos oculares, nistagmo, ataxia, sintomas de parestesia em extremidades, pode ter inicio agudo ou desenvolver-se lentamente ao longo de aproximadamente uma semana. Acredita-se que isto se deve a uma grande deficiência crônica de vitaminas do grupo B.

  • DEMÊNCIA ALCOÓLICA: as dificuldades de memória acompanham um déficit persistente das funções cognitivas que leva a perda na formação e compreensão de pensamentos abstratos e para aprender coisas novas, observa-se acentuada decadência da personalidade, atingindo a alteração em primeiro lugar a esfera afetiva e moral e secundariamente os processos intelectuais, embora alguns autores neguem a existência de uma demência alcoólica, entretanto, existem estados de deterioração de tipos orgânicos consecutivos ao alcoolismo e que são resultados de lesões cerebrais significativas. Tomografias e imagens por Ressonância magnética sugerem atrofia cortical acompanhada por alargamento dos ventrículos cerebrais, a neuropatia periférica é geralmente simétrica e ocorre nas extremidades inferiores, podendo ocorrer a encefalopatia hepática porque o fígado não é mais capaz de metabolizar e de neutralizar a toxicidade de substâncias, apresentam como sintomas iniciais: confusão, agitação e mudanças da personalidade.

  • SÍNDROME ALCOÓLICA FETAL (FAS): pode ocorrer em crianças nascidas de mães alcoólatras, causando déficits intelectuais, anormalidades físicas e apresentando problemas secundários como: dificuldade de aprendizado escolar, delinqüência juvenil, drogadição e alcoolismo, que resulta numa alta taxa de desajustamento social.

TRATAMENTO DO ALCOOLISMO

De maneira geral, podemos dizer que o principal objetivo do tratamento é ajudar o paciente a viver abstinente, retornar suas atividades produtivas sociais e familiares. É evidente que não é uma tarefa fácil, uma vez que durante muito tempo o álcool ocupou um lugar de destaque na vida do alcoolista, sendo muitas vezes o fator relevante prioritário, importante mesmo nos seus pensamentos e no seu dia-a-dia. Em alguns casos o tratamento é ministrado por médicos psiquiatras associados a uma equipe de profissionais da saúde. Inicia-se por exame físico, mental e psicossocial, para se avaliar a saúde emocional, a saúde familiar, a qualidade de vida social e os estresses ocupacionais. O período de tratamento depende de uma desintoxicação da droga que deve ser orientado por médicos psiquiatras experientes, e depende da severidade da dependência e da condição de saúde geral, a duração também varia de pessoa para pessoa, quanto mais cedo se puder diagnosticar e intervir, melhor o resultado.

O melhor lugar para se fazer a desintoxicação é o hospital, o paciente com delirium tremens necessita de internação para receber sedativos fortes e grandes doses de vitaminas do complexo B, as drogas mais usadas como sedativos são Heminevrin, Clorpromazina e Clordiazepóxido. A Clorpromazina aumenta o risco de convulsões, mas isto pode ser reduzido acrescentando-se a Fenitoína sódica. A terapia de grupo em unidades hospitalares especializadas é muito útil. A terapia aversiva como uso de apomorfina ou dolorosos choques elétricos seguidos de terapia de relaxamento, é aconselhada em pacientes selecionados.

Disulfiram ou Citrato de cálcio carbamido são geralmente utilizados porque são eficazes na prevenção de reincidências. Os tranqüilizantes devem ser utilizados com muito cuidado, pois também envolvem o risco de criar dependência e os antidepressivos poderão ser ministrados se houver depressão.

CONCLUSÃO

O alcoolismo é o resultado final de uma série de processos que iniciam e depois perpetuam a excessiva ingestão de álcool, onde a bebida proporciona temporariamente uma sensação de euforia e/ou alivio temporário para alguma tensão física ou psíquica, onde, entretanto, a ingestão crônica de álcool gera reações fisiológicas e psicológicas que aumentam o desejo de consumir cada vez mais. Conclui-se que a dependência psicológica secundária se desenvolve como inicio da dependência física, há necessidade de beber para evitar a perda da sensação prazerosa causada pela droga e para evitar os sintomas de abstinência, onde a combinação dessas duas dependências psicológicas traduz-se no aparecimento do desejo contínuo de beber, desejo este que é reforçado especialmente por fatores externos. Com o abandono do álcool, essas duas dependências psicológicas diminuem razoavelmente em seis meses e praticamente desaparecem após 2 anos. Sabe-se que as psicoses alcoólicas fazem parte das psicoses orgânicas que são aquelas que apresentam causas físicas definidas, são facilmente diagnosticadas por exames de imagem e portanto causam alterações na estrutura cerebral.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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