Toxicologia Geral Módulo 4

Toxicologia Geral Módulo 4

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CURSO DE

TOXICOLOGIA GERAL

MÓDULO IV

MÓDULO IV

INTOXICAÇÕES POR METAIS PESADOS

A denominação de Metais Pesados deve-se basicamente ao fato destes metais apresentarem elevado peso atômico e não necessariamente por sua densidade. Do ponto de vista toxicólogico, este grupo de metais possui uma propriedade química que os distingue em relação aos efeitos dentro organismo. Muitos metais têm grande afinidade com o Oxigênio formando os óxidos metálicos, os metais pesados possuem também acentuada afinidade com o Enxofre (que é do mesmo grupo do Oxigênio) originando os sulfetos, forma na qual podem ser encontrados na natureza como minérios.

Dentro do organismo o fato se repete, contudo na ausência de enxofre ou sulfetos livres, o metal pode encontrar o enxofre na forma de um radical –SH (sulfidrila). O enxofre desempenha papel importante na estrutura das moléculas, mantendo, por exemplo, a estrutura tridimensional de proteínas, através das pontes de dissulfeto que pode ser alterada em contato com um metal pesado este pode deslocar o hidrogênio e ligar-se ao enxofre, assim a estrutura pode ser alterada. Sendo uma proteína plasmática ou um fio de cabelo, pouco problema pode ser originado, porém se for uma enzima, sua atividade metabólica pode ser diminuída ou até mesmo paralisada.

Caracterização da exposição.

A exposição ocupacional a metais pesados pode ser observada em diversos locais e atividades. Citamos a seguir os principais metais pesados em relação ao número de expostos e alguns exemplos de atividades que envolvem exposição ocupacional:

  • Arsênico: Fabricação de ligas metálicas, pigmentos e reagentes.

  • Cádmio: Solda Prata e tratamento de superfícies.

  • Chumbo: Fabricação e reforma de baterias de chumbo/ácido. Têmpera e trefilação de metais. Fundição de ligas de bronze e similares.

  • Cobre: Galvanoplastia, Solda MIG e oxi-acetileno.

  • Cromo: Galvanoplastia, Solda em aço inoxidável, Fabricação de tintas e Pintura.

  • Ferro: Fundição de ferro, Soldas em geral, em ferro ou aço.

  • Manganês: Solda MIG, Fundição de ferro.

  • Mercúrio: Fabricação de Lâmpadas, Garimpo, Odontologia.

  • Níquel: Galvanoplastia, Solda em aço inoxidável.

  • Zinco: Galvanoplastia, Solda oxi-acetileno.

Outros metais ainda podem ser identificados, porém com menor importância toxicológica, ou de pouca utilização no Brasil, como o Cobalto e o Molibdênio, e a relação anterior não tem a pretensão de ser completa nem de citar todas os locais ou atividades que podem originar uma exposição ocupacional a metais pesados mas, nos dá uma idéia da diversidade destes locais ou atividades.

ALUMÍNIO

Vem sendo associada a presença de alumínio no organismo com demência senil (Doença de Alzheimer), balanço negativo de cálcio e magnésio(com remoção óssea destes), angústia, ansiedade, anorexia, irritação gastrointestinal e encefalopatia pós-diálise.

Fontes deste metal:

água potável, utensílios de cozinha, desodorantes, queijos processados, antiácidos e recipientes de alumínio para alimentos (quentinhas).

CÁDMIO

Está associado c/ freqüência à lesão renal, hipertensão, litíase renal, cardiomegalia, aterosclerose, imunodepressão, em fumantes, dores osteoarticulares, lesão do epitélio germinativo e infertilidade masculina. Há transmissão materno-fetal nos casos de mães intoxicadas.O conteúdo do Cádmio no cabelo do recém-nascido tem relação inversa com o peso.

Fontes deste metal:

tubulações residenciais, papel do cigarro, frutos do mar, fumaça de automóveis, poluição industrial,, café, chá, água potável, suplementos de cálcio.

CHUMBO

Leva a distúrbios de aprendizagem em crianças, cefaléia intensa, vertigem, tremores, dores articulares, irritabilidade, agressividade, distúrbios mentais, hiperatividade, anorexia, lesões musculares e dores abdominais.

Fontes deste metal:

aditivos da gasolina(tetra etil chumbo), água potável, suplemento e cálcio(dolomita), contaminação dos alimentos por inseticidas,, poluição atmosférica, pasta de dentes, tintas de cerâmica, latas com solda de chumbo, fertilizantes, tintas de cabelo(acetato de chumbo) e o fumo.

ARSÊNICO

Esta condição pode estar associada com a presença de fadiga, astenia, prostração, fadiga,  fraqueza, dores musculares, neuropatia periférica, pigmentação linear das unhas, cefaléia, diarréia ou constipação.

Fontes deste metal:

água, fumo (cachimbo), "smog", pesticidas, desfolhantes, cerveja, frutos do mar e cosméticos.

MERCÚRIO

A intoxicação deste metal leva freqüentemente a tremores, ataxia, anomalias do desenvolvimento fetal, estomatite, perda de dentes, neurite periférica e reações alérgicas.

Fontes deste metal:

amálgamas dentais, acidentes com termômetros e barômetros, fungicidas (freqüentemente usados em tomates), contaminação de peixes e plânctus marinho, poluição de rios pelo garimpo de ouro, filtros de ar condicionado, baterias, poluição do ar, cosméticos, calomelano(utilizado nos talcos) e uso de supositórios para hemorróidas(mercuriais).

NÍQUEL

Está freqüentemente associado à lesões cutâneas; distúrbios renais e hepáticos, infertilidade, neoplasias (câncer) pulmonares, apatia, cefaléias, insônia, diarréia, náuseas e em fumantes(aumento discreto).Alguns autores atribuem ao níquel alguns papéis biológicos, o que o faria ser também classificado de mineral essencial.

Fontes deste metal:

soja, lentilha, nozes avelãs, trigo mourisco e cereais integrais. Alguns destes, a exposição ao fumo, baterias de níquel, ligas metálicas, poluição industrial, etc., podem ser os agentes causadores desta condição.

BÁRIO

A ingestão pode causar vômitos, diarréia, dor abdominal e desalojar o potássio das células.

Fontes deste metal:

É usado como contraste de RX. Outras fontes são: indústrias de cerâmica, plásticos, tintas, pesticidas e combustível.

INTOXICAÇÃO POR DERIVADOS DO PETRÓLEO

ASFALTO: Asfalto de petróleo, betumem, betumem de petróleo, piche, piche mineral. Mistura complexa de hidrocarbonetos, usado em pavimentação, impermeabilização, formulação de tintas e vernizes. Considerado de baixa toxicidade devido alta viscosidade, baixa volatilidade e insolubilidade em meio aquoso.

QUADRO CLÍNICO: Inalação/Exposição: vapores e fumos são irritantes para olhos, trato respiratório e pele. Contato: Asfalto aquecido pode causar queimaduras graves. Ingesta: “mascar” pedaços de asfalto pode resultar risco mecânico se deglutido.

TRATAMENTO: Contato: RESFRIAMENTO IMEDIATO da pele ou áreas atingidas, com água fria corrente, durante 20min. NÃO tentar remover partículas. Lavar a pele com água e sabão. Não usar solventes. Podem ser usados produtos contendo glicerina ou lanolina; antibióticos tópicos. Inalação: remoção imediata para local bem ventilado, assistência respiratória. Medidas sintomáticas e de manutenção.NAFTALINA: Produto químico/Pesticida doméstico. Sinônimos: naftaleno, nafteno, alcatrão branco, alcatrão canforado. Usado como repelente de traças “bolinhas de naftalina”, desinfetante sanitário, fumigante de solos, sínteses químicas, manufatura de tintas. São cristais brancos e transparentes, extraídos do alcatrão da hulha por solventes orgânicos. Evapora facilmente, umidade do ar e luminosidade causam sua degradação em poucas horas. Inflamável ou explosivo quando exposto ao calor ou chamas. Naftalina tem rápida absorção oral, sendo também absorvida via inalatória ou dérmica, é potencializada por solventes orgânicos ou lipídio. Dose letal estimada em humanos: 1-2 gramas (cada “bolinha” íntegra pode conter 2 – 3g).

QUADRO CLÍNICO: Irritação gastro-intestinal, sudorese, irritação do trato urinário; hiper-excitabilidade, letargia, convulsões, coma. Hemólise em 1-3 dias, insuficiência renal. Possível metemoglobinemia. Irritante ocular ou por contato dérmico.

TRATAMENTO: Esvaziamento gástrico até 2 horas. Êmese somente imediata e se não houver cânfora associada. Cuidar risco de obstrução mecânica por “bolinha”. Lavagem gástrica com água morna. Carvão ativado, catárticos salinos. Tratamento Geral: assistência respiratória, diazepam se convulsões, hidratação, alcalinização urinária, pode ser necessário transfusão sangüínea. Medidas sintomáticas.

GASOLINA E QUEROSENE: Combustível para veículos automotores leves, solventes, iluminação, aquecimento, veículo para pesticidas, limpeza. Depressor do SNC, irritante de pele e olhos e de trato respiratório. Absorção importante por inalação, baixa por via digestiva.

QUADRO CLÍNICO: Tosse, dificuldade respiratória, confusão mental; taquicardia, náuseas, vômitos. Maior risco: PNEUMONITE QUÍMICA por aspiração.

TRATAMENTO: Assistência respiratória. Tratar broncoespasmo. Ingesta de pequenas quantidades (5-10ml): NÃO fazer esvaziamento gástrico devido alto risco de aspiração e baixa toxicidade sistêmica. CONTRA-INDICADO: Induzir vômitos, alimentos ou laxantes lipídicos (aumentam absorção). Fazer repouso gástrico (4h) para evitar êmese, carvão ativado, catárticos salinos. avaliar função pulmonar (controle radiológico até o 3º e 5º dia). Ingesta maciça (maior que 30ml) ou quando misturada a substâncias mais tóxicas (p.ex. pesticidas agrícolas): lavagem gástrica cuidadosa com entubação endotraqueal. Equilíbrio hidroeletrolítico, ácido-básico. Avaliar gasometria arterial. Casos graves avaliar função renal e hepática. Para pneumonite química: assistência respiratória (NÃO usar corticóides, NÃO fazer antibiótico profilático). Demais medidas sintomáticas e de manutenção.METANOL: Sinônimos: álcool metílico, álcool de madeira, carbinol. Líquido volátil, inflamável, odor alcoólico quando puro e desagradável quando misturado a impurezas. Utilizado como solvente de tintas, vernizes; combustível, aditivos de gasolina, anticongelantes em radiadores, líquido de freios de veículos, fabricação de bebidas clandestinas.

QUADRO CLÍNICO: Risco tóxico: ingestão acidental e exposição ocupacional (monitorar metanol na urina de trabalhadores expostos).Intoxicação crônica: primeiros sintomas são redução dos campos visuais e embaçamento da visão. A combinação de distúrbios visuais, acidose metabólica e história de exposição ao metanol, e presença de ácido fórmico na urina, confirmam quadro clínico. Intoxicação aguda: ingestão de 15ml causa cegueira, de 70 a 100ml costuma ser fatal.

TRATAMENTO: Deverá ser instalado logo após a obtenção dos níveis séricos de metanol. Dosagens acima de 40ml/dl indica uso de antídoto específico: etanol (álcool etílico) EV ou VO. Níveis acima de 50mcg/dl e a presença de acidose metabólica indicam uso de etanol + hemodiálise, para melhor prognóstico do caso. BENZENO: Solvente. Usado em pesticidas, detergentes, estireno, fenol, ciclohexano, anilina e outros produtos da petroquímica; adesivos, combustíveis, indústria de calçados e cola para carpetes. Bem absorvido por via oral e pulmonar e pouco por via dérmica. Severo irritante ocular e moderado irritante de pele.

QUADRO CLÍNICO: Na intoxicação aguda, após exposição a vapores e ingestão: EUFORIA, com cefaléia, tonturas, ataxia, confusão mental e coma nos casos graves, hipertonia muscular e hiperreflexia associados ao coma. Convulsões ocorrem comumente na presença de asfixia. Principal risco: Pneumonite química por aspiração pulmonar. Ingestão: queimação da mucosa oral, náuseas, vômitos e salivação; pode ocorrer gastrite hemorrágica. Aspiração durante a ingestão ou vômitos causa severa pneumonite química. Morte pode ocorrer por falência respiratória ou fibrilação ventricular.Intoxicação crônica: sintomas inespecíficos como anorexia, nervosismo, tonturas, fadiga, letargia, alucinações, parestesias, lesões dermatológicas e discrasias sangüíneas com plaquetopenia, leucemia, aplasia de medula devido ação mielotóxica do benzeno.

TRATAMENTO: Assistência respiratória, se necessário. Ingesta de pequenas quantidades (5 a 10ml): repouso gástrico, para evitar vômitos, após 4 horas, administrar líquidos frios fracionados. Controle radiológico. Ingesta maior de 1ml/Kg/peso corporal – lavagem gástrica cuidadosa com intubação endotraqueal para prevenir aspiração. Administrar catárticos salinos. Monitorar eletrocardiograma pelo risco de fibrilação ventricular. Controlar convulsões com benzodiazepínicos. Na contaminação ocular ou pele – lavar abundantemente com água corrente. Se irritação ocular, avaliação oftalmológica. Manter equilíbrio hidroeletrolítico e ácido-básico. Medidas sintomáticas e de manutenção.

INTOXICAÇÃO CRÔNICA: não existe nenhum tratamento específico ou antídoto. Em suspeita ou confirmação de intoxicação crônica, o afastamento da exposição deve ser imediato.

TOLUENO: Solvente em tintas, vernizes, removedores, desengraxantes.

QUADRO CLÍNICO: Depressor do SNC e mesmo em baixas concentrações ambientais produz fadiga, fraqueza e confusão mental. Ao contrário do benzeno, o tolueno não produz anemia aplástica e leucemia. Pode sensibilizar o miocárdio aos efeitos arritmogênicos das catecolaminas. O tolueno é irritante da mucosa respiratória e ocular. Abuso crônico de tolueno pode levar a desmielinização difusa do SNC, miopatia e dano renal. Ocorre dermatite na exposição cutânea prolongada. A ingestão de tolueno pode causar irritação da boca, faringe, vômitos e diarréia. Secundariamente aos vômitos podem ocorrer manifestações de tosse, sufocação, broncoespasmo e cianose.

TRATAMENTO: Ingesta de pequenas quantidades (5 a 10ml): repouso gástrico para evitar vômitos. Ingesta maior de 1ml/Kg/peso corporal: lavagem gástrica cuidadosa com intubação para prevenir aspiração(é mais eficaz nos primeiros 30 min após a ingestão). Assistência respiratória. Controle radiológico. Atenção risco de arritmia cardíaca. Manter equilíbrio ácido-básico. Medidas sintomáticas e de manutenção.

GASES TÓXICOS

Gás Sarin

Fórmula química: C4H9PFO2

Características Gerais:           O Gás Sarin é produzido através da combinação de três compostos não-tóxicos. Para evitar problemas com visitantes mal intencionados, optamos por não divulgar sua síntese, omitindo os reagentes que produzem o gás. Usado como arma militar desde a década de 50, o Sarin era lançado por aviões em pleno vôo. Em sua forma de vapor, este gás é mais denso que o ar, portanto tende sempre a descer quando lançado em um local. Este gás é altamente solúvel em água e penetra em vários tipos de materiais, como tinta, plástico, borracha e madeira. Uma vez penetrado nestes materiais o gás se liberta lentamente durante um longo período de tempo, tornando muito perigosa a permanência em locais fechados atingidos por ele.

Toxidez:

        O Sarin é um neurotóxico letal. Pode ser absorvido através da respiração e do contato com a pele ou mucosas da boca e dos olhos. Uma vez na corrente sangüínea o Sarin afeta o sistema nervoso central causando desmaios, convulsões e colapso nervoso. Uma vez inalado, o Sarin mata em poucos segundos. 

GÁS VX

Fórmula química: C11H26NO2PS

Características Gerais:

        O VX é um líquido incolor e inodoro criado na década de 50 pelos Estados Unidos. Apesar de seu ponto de ebulição ser 298ºC, o VX pode ser lançado por borrifamento, espalhando-se assim gotículas do líquido tóxico pelo ar.

Toxidez:

       A ação do gás VX é bastante parecida com a do Sarin. Ele pode ser absorvido por inalação, ingestão, ou contato com as mucosas. O VX é um potente neurotóxico que ataca o sistema nervoso central e a pele, causando irritações. Menos de 10 segundos de esposição ao gás são suficientes para causar a morte. Estudos têm comprovado, também, seu efeito abortivo.

COMPOSTOS TÓXICOS PROTOPLASMÁTICOS

Os compostos tóxicos protoplasmáticos são aqueles que agem diretamente sobre as células, principalmente, naquelas ricas em protoplasma.

Podem agir mesmo em pequenas quantidades, sem necessitar de outras alterações anatômicas ou funcionais para que a sua ação se manifeste. Por exemplo, o monóxido de carbono (CO) combina-se com a hemoglobina impedindo o transporte normal de oxigênio para os tecidos.

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