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Copyright 2006 José Cláudio da Silva Todos os direitos desta edição reservados:

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Dados Internacionais de Catalogação da Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro), SP,Brasil

ISBN 85:7712-029-5CDD - 869.93

Silva, José Cláudio da, 1959 O pacto maldito e outras histórias de morte. José Cláudio da Silva, Casa do Novo Aurtor, São Paulo, 2006. 06-4733 Índice para catálogo sistemático

1. Literatura infanto-juvenil. I Título

O pacto maldito A vingança da casa Por que está chorando, meu amor? O plano macabro O acampamento fatal Os cães não roem apenas ossos A comida está boa, meu bem? Eros e Tânatos A morte mora em minha alma O regime amaldiçoado O gato preto O arquivo morto O diabo e a humanidade O dia da minha morte A morte planejada

Sexta-feira, um grupo de amigos está num bar conversando e bebendo cerveja. Todos são motoqueiros. O assunto da conversa é a notícia do jornal que dizia que morria pelo menos um motoqueiro por dia no trânsito. Todos têm pelo menos um conhecido que morreu em acidente com moto. - É o maior mistério se há vida após a morte.

- Ninguém voltou para dizer o que realmente tem do outro lado.

-Eu tenho a maior curiosidade em saber como é do outro lado. Sem morrer, éclaro.

-Vamos fazer um pacto?

-Qual?

- Se um de nós morrer, voltará para dizer como é o outro lado – disse Jurandir.

- Você está louco! Quero distância deste assunto.

-Como é, ninguém topa?

-... .-Nem você, Jorge? -Não sei.

-Você não tem curiosidade?

-Todo mundo tem.

-Então?

-Não me coloque nisso.

-Eu topo – disse Jorge.

-Que fique só entre os dois.

-Certo. Longe dali o relógio da igreja marcava meia-noite. Passaram a falar de mulheres e futebol. As horas avançaram e todos voltaram para suas casas. Mais uma semana de trabalho. Outros encontros no bar e o assunto não voltou mais a ser discutido.

Meses depois, quando estavam no bar, Jorge chegou correndo apavorado.

- Sabem quem morreu num acidente com a moto? -Quem?

-Jurandir!

-Nossa! Onde foi?

-Em Guarulhos. Ele bateu na traseira de um caminhão.

-Onde está o corpo?

-No velório do Cemitério da Lapa.

-Vamos para lá.

- Vocês se lembram da nossa conversa sobre vida após a morte.

-É mesmo. Vocês combinaram que quem morresse viria dizer ao outro se há algo após a morte. Pura besteira de bêbados. -Será besteira mesmo?

-Não sei?

- Vamos ao velório nos despedir do amigo. -Eu não vou.

-Está com medo?

-Não.

- Então vamos. Pegaram as motos e foram para o velório. Chegando lá, Jorge tremia. Aproximaram-se do caixão. Cumprimentaram a mãe e o pai do Jurandir. As conversas nos pequenos grupos tinham a morte como assunto. Jorge, branco como um papel,falou do pacto com o amigo. Um do grupo disse: -Vá até o caixão. Coloque a mão no pé direito dele e reza um Pai Nosso. Assim ele não voltará. Jorge caminhou até o caixão. Disfarçando, colocou a mão no pé do morto e rezou. Não um, mas dez. -Será que dará certo?

-Não.

-Por que? Eu fiz o que você disse!

-Você segurou o pé esquerdo do morto e isto significa que você quer ir com ele. Você rezou para isso. Confirmou o trato e ele não só virá lhe dizer como é, mas também levará você com ele para o outro lado. Jorge sentiu o mundo girar. Quase desmaiou. Jurandir foi enterrado. Jorge não compareceu ao enterro. Os amigos não ficaram chateados porque entenderam o medo dele. Quando saiu do cemitério, Jorge foi até a igreja da Lapa. Passou o dia inteiro rezando e fazendo promessas. A noite chegou e o pegou ainda na igreja. Jorge voltou para casa. - Jorge, onde você esteve o dia inteiro? Você não foi ao enterro do Jurandir? Jorge se benzeu. - Fui, mãe.

- Venha jantar.

- Não estou com fome.

- Você está se sentindo bem?

-Está tudo bem, mãe. Os irmãos de Jorge chegaram comentado sobre a morte do Jurandir. Pálido, Jorge foi para o quarto. Entrou, acendeu a luz e se deitou. O tic-tac do relógio o deixava nervoso. Tirou as pilhas do relógio para ele parar de trabalhar. Aos poucos a casa foi ficando silenciosa. Dois meses se passaram. Jorge não se alimentava, não dormia direito. Não saia mais de casa. Abandonou tudo: escola, emprego, amigos. Estava sempre triste. Deitado, prestava atenção em todos os barulhos. Seu coração só batia acelerado. Seus olhos nem piscavam olhando para o teto. Certa noite, acordou no meio de uma enorme escuridão. Gritou. Seus irmãos correram para o quarto com velas na mão. -O que houve Jorge? Que grito foi esse?

-Por que está tudo escuro?

-Acabou a energia elétrica.

-Eu pensei que eu tinha morrido.

-Besteira! -Não é besteira!

-Você não morreu. Vamos dormir.

-Quero uma vela. Uma não, quatro.

-Vou buscar para você na cozinha. Jorge acendeu todas as velas e ficou deitado suando frio e tremendo. O medo era crescente. Estava com as costas virada para a porta, olhava a parede. Sentiu um vento frio que apagou as velas. Uma voz baixa, sombria, fria e triste disse: -Jooorge! Joooorge! Jooooooooorge! Jorge ficou paralisado de medo. - Jooorge, eu voltei para levar você comigo. Jorge mijou nas calças. Seu pavor era imenso. Tentava gritar e não conseguia. Sentiu que algo frio estava perto dele. Uma força tentava virá-lo para o lado da porta. Sua garganta estava seca e a respiração difícil. Sua mente estava tomada pelo medo. Num grande esforço conseguiu gritar. - Aaaaaaaaaaaaaaaaaiiii! Novamente seus irmãos correram até o quarto e encontraram Jorge desmaiado no chão. Reanimaram-no. -O que aconteceu, meu filho?

-Mãe, Jurandir voltou para me levar.

-Como é que é, meu filho? Jorge contou-lhe a história. -Eu não quero morrer, mãe. Os dois se abraçaram chorando. O dia amanheceu. Logo mais uma noite chegou. Conforme as horas iam avançando, o coração batia mais rápido. A mãe de Jorge contou para todos da casa o que estava acontecendo. Jorge pediu que seus irmãos dormissem com ele no mesmo quarto. Os três irmãos não queriam. Mas a insistência da mãe e o olhar desesperado de Jorge acabaram convencendo a todos. Armaram as camas no quarto de Jorge e todos se recolheram para dormir. Toda a casa dormia, menos Jorge. Estava novamente de costas para a porta olhando a parede. As luzes do corredor se apagaram e antes que Jorge pudesse esboçar uma reação ele ouviu a mesma voz da noite anterior. Baixa, triste e fria. - Jooorge! Joooorge! Eu voltei para levar você comigo. O coração de Jorge, disparado, parecia que ia explodir dentro do peito. Sentia que tentavam fazê-lo se virar para a porta. Sua mente desordenada tentava uma oração. Não conseguia. Sentia seu corpo molhado, frio, trêmulo. -Jooorge! Não resista. Você já pertence ao outro lado.

-Aaaaaaaaaaaaaaaaaiii! O grito de Jorge acordou todos da casa. Ele desmaiara e nada o fazia voltar a si. No dia seguinte, ele acordou pálido e viu sua mãe ao seu lado. -Jorge, meu filho. Jorge estava magro demais.Algo lhe sugava as energias. Morria aos poucos. Desesperada, sua mãe chamou um médico que nada diagnosticará de errado. Receitou vitaminas e um psiquiatra . Um padre, amigo da família, foi chamado. O padre decidiu levar um grupo de oração para rezar pela alma do Jurandir e pedir para que ele deixasse Jorge em paz. Ele não se alimentava, só ficava olhando para o teto e murmurava sem parar: - Eu não quero morrer. Eu não quero morrer. Oito horas da noite, o padre e os fiéis chegaram. Entraram no quarto de Jorge e rezaram durante horas. No final, o padre disse que tudo se resolveria. Alegre, a mãe de Jorge o deixou só. Jorge olhava para o teto sem piscar. A noite avançava. O vento frio entrou no quarto, fazendo o corpo de Jorge tremer. -Jooorge, não lute. Venha comigo. Você pediu e rezou muito para isso. Não tem jeito. Vaaaamos agoooooora. No outro dia, sua mãe o encontrou morto na cama.

O bairro da Lapa é tranqüilo. Possui muitas ruas arborizadas onde os moradores caminham tranqüilamente. Numa dessas ruas, sem saída, morava um casal de velhos aposentados. Passavam os dias ocupados com o jardim, os pássaros na gaiola e a costura. Moravam na mesma casa que compraram quando se casaram. Viviam naquela casa há quarenta anos. A casa tem três quartos, sala, cozinha, dois banheiros, um quintal no fundo e um jardim na frente, onde cultivam rosas. Ambos têm sessenta anos. E esperam pacificamente a morte. Desejam que ela os leve juntos para o descanso eterno. Um não saberia viver sem o outro. Ali criaram os dois filhos. Ambos moram no Canadá. Mas esqueceram que têm pais vivos. Apesar do descaso dos filhos, eles são felizes porque um basta ao outro. Começaram as vidas sozinhas e vão terminar sozinhos. A aposentadoria dos dois não estava dando para comprar os remédios caros que usavam. Resolveram alugar dois quartos. Colocaram uma placa no poste. Logo surgiram candidatos. O casal entrevistava os candidatos querendo saber sobre os hábitos e costumes dos pretendentes. Escolheram dois jovens e acertaram as condições da locação.

A vida seguia seu curso normal, agora só quebrado pela presença dos jovens. Eles não eram de ficar muito em casa. Chegavam tarde e saíam cedo. Diziam que cursavam faculdade: um de direito e, o outro, de engenharia. Mas os velhos nunca os via estudando ou carregando livros. Nem mesmo livros nos quartos havia. No entanto, eles pagavam o aluguel pontualmente e não causavam transtornos.

Os meses batiam na porta e traziam novos dias monótonos e as estações do ano se sucediam. Às vezes, no final do domingo, os jovens ficavam ouvindo as histórias do casal. Faziam algumas perguntas e se recolhiam. Os jovens notaram que ninguém visitava os velhos. Ninguém telefonava para eles, ninguém escrevia para eles e até mesmo os vizinhos os ignoravam. Os velhos davam a entender que eram sós no mundo.

A casa era grande e espaçosa. Ficava numa rua tranqüila. Se vendida, renderia um bom dinheiro. Os jovens comentaram isso com os velhos e eles responderam que naquela casa estava a vida dos dois e que ela fazia parte da história deles. Ela sabia todos os segredos, havia presenciado todas as alegrias e tristezas dos dois e que jamais venderiam a casa enquanto fossem vivos, além do que, não precisavam de dinheiro. Depois que partissem, os filhos poderiam fazer o que quisessem com a casa. Pela primeira vez mencionaram a existência de filhos. Os jovens, interessados, perguntaram mais algumas coisas e logo perceberam que os filhos ignoravam totalmente a existência dos velhos. Os jovens se entreolharam e a sorte dos velhos estava decidida. Num domingo frio do mês de julho, os jovens entraram no quarto dos velhos. Os dois estavam dormindo. Eram cinco horas da manhã. Com os travesseiros os jovens sufocaram os velhos. Depois desceram até a cozinha, saíram no quintal e abriram duas covas. Carregaram os corpos até as covas e os enterraram.

Aliviados e satisfeitos saíram. Andaram pela cidade. Quando estava anoitecendo, voltaram para casa. Tudo estava como eles haviam deixado. A semana passou e a rotina da casa não foi quebrada. Para a venda da casa precisavam forjar um documento de doação da casa para um deles. Só assim poderiam efetuar o negócio. Procuraram nos documentos pessoais dos velhos e encontraram papéis com as assinaturas deles. Um dos jovens começou a praticar a imitação da assinatura para poder assinar o documento e reconhecer a firma em cartório. Um mês passou. Tudo estava indo muito bem. No mês seguinte, começaram a acontecer fatos estranhos. A casa possuía um jardim com roseiras vermelhas, amarelas e brancas. As rosas começaram a desabrochar. No entanto, todas vermelhas, de um vermelho escuro, muito escuro, quase negro. No princípio, eles não notaram a mudança, mas, num domingo, quando um deles estava olhando o jardim, notou que as rosas, antes de cores variadas, agora eram todas vermelhas. Mas de um vermelho muito forte. Os transeuntes se admiravam da cor vermelha daquelas rosas. Alguns jovens enamorados roubavam rosas do jardim, mas elas murchavam imediatamente após serem cortadas. No fundo da casa, no local onde eles enterraram os velhos, nasceu uma planta. Quando abriu a primeira flor, exalava um perfume forte que invadia todos os cômodos da casa. Era um cheiro doce e enjoativo. Os rapazes cortaram várias vezes a planta, arrancaram pela raiz, mas ela sempre ressurgia, cada vez mais forte. Uma flor fênix. Aquele cheiro os incomodava muito. No entanto, nenhum vizinho viera reclamar do cheiro da flor. Sete meses se passaram. Os rapazes mal ficavam na casa. Tudo os incomodava. Os jovens já haviam forjado o documento e estavam prontos para efetuarem a venda da casa. Contrataram uma imobiliária e foi colocada uma placa no poste. A placa ficou dois dias afixada e sumiu misteriosamente. A imobiliária colocou outra. Sumiu de novo. Foram várias placas. Todas sumiram. Resolveram escrever na parede o anúncio da venda. No dia seguinte não havia nada escrito. A imobiliária desistiu pensando que os jovens estavam brincando com eles. Os jovens procuraram outra imobiliária e os mesmos fatos se sucederam. Colocaram um anúncio no jornal do bairro. Ninguém respondeu ao anúncio. Verificaram que o endereço e o telefone estavam errados. O funcionário disse que estava no ramo há vinte anos e que nunca havia acontecido um fato desses. Anunciaram de novo. Saiu outro endereço e outro telefone publicado. Resolveram publicar num jornal de grande circulação. O endereço e o telefone saíram publicados errados. Num domingo frio do mês de julho o telefone tocou às cinco horas da manhã. O jovem atendeu e uma voz, que parecia estar vindo de muito longe, disse que gostaria de comprar aquela casa e que dias depois ligaria para marcarem um encontro. Voltou a dormir. Acordaram. Um deles foi ao banheiro tomar banho. Fez a barba. Ligou o chuveiro. A água morna caía mansamente sobre seu corpo. Na cozinha, o outro preparava o café quando ouviu um grito vindo do banheiro. Era um grito horrível. Correu até o banheiro. A porta estava trancada. Nunca trancavam. Bateu e ninguém respondeu. Arrombou a porta. O banheiro estava nublado. Cheio de vapor denso. O jovem estava caído no chão do banheiro com queimaduras pelo corpo todo. Levou-o até a cama e correu até a farmácia mais perto. Comprou pomada para queimaduras. Quando voltou ele não estava no quarto. Procurou-o pela casa e o encontrou ao lado da árvore que teimava em não morrer. Carregou para dentro de casa e colocou na cama. Passou a pomada por todo o corpo. Mais tarde, ele acordou e contou que estava tomando banho com água morna quando a água começou a cair fervendo sobre o seu corpo. Tentou abrir a porta do box, mas ela não abria. Estava emperrada. A água caía por todos os lados. Tentou fechar o registro. Ele fechava mas a água continuava caindo. Não agüentando mais de dor berrou e desmaiou. À noite uma febre alta tomou conta de seu corpo. No outro dia amanheceu morto. O jovem carregou o corpo até o quintal e enterrou. Felizmente era ele que sabia assinar os nomes dos velhos. Assim poderia vender a casa por qualquer preço e sumir dali. Na segunda-feira colocou uma placa na parede e anúncios em todos jornais. Esperou dois, três dias, nada. O telefone não dava sinal de vida. No domingo, às cinco horas da manhã, o telefone tocou. Uma voz fraca disse que desejava comprar a casa. Marcaram para a manhã da terça-feira seguinte. Aliviado, o jovem voltou a dormir. Quando acordou, foi para a cozinha preparar o café. Ao tentar abrir a porta da geladeira não conseguiu. A porta estava emperrada. Forçou, forçou até que conseguiu abrir. Tudo, dentro da geladeira, estava congelado como se ela tivesse se transformada num freezer. As coisas eram blocos de gelo. Assustado, foi até a sala e ligou a televisão. Estava passando um filme antigo com dois velhos que sorriam para ele. Desligou a televisão, mas ela continuou passando a imagem dos velhos. Arrancou o fio da tomada, a imagem continuou na tela. Jogou a televisão no chão. Foi até a porta da rua e não conseguiu abrir. Estava trancada. Tentou as janelas, estavam trancadas. Era prisioneiro da casa. Sentou-se no sofá. O coração batia acelerado. Seu corpo tremia e estava banhado de suor. Uma sede enorme invadiu sua garganta. Abriu a torneira, não saiu água. Correu para o banheiro, abriu a torneira, o chuveiro, nada. No outro banheiro também. Desceu, entrou na cozinha. Abriu a despensa para pegar uma cerveja e deparou com vários ratos mortos. Eles haviam comido toda a comida e roído as latas. A mancha de cerveja derramada estava espalhada. Desligou a geladeira para descongelar os alimentos e beber o gelo derretido. Depois de horas tudo continuava congelado na geladeira. Lembrou-se do telefone. Ligaria para a polícia. Mas o telefone estava mudo. Sete dias. A sede e a fome estavam atormentando sua mente, seu corpo. Deitou-se. Lá fora já estava escuro novamente. Só restava esperar a morte. Alguns dias depois ela apareceu com os dois velhos ao lado dela. Numa rua tranqüila da Lapa existe uma casa abandonada. Os moradores de rua dizem que ela é assombrada. Ninguém tem coragem de dormir ali.

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