A construção da identidade cultural em torno do mito michael jackson e sua morte

A construção da identidade cultural em torno do mito michael jackson e sua morte

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ - UFPI

CENTRO DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO - CCE

DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

DISCIPLINA: CULTURA CONTEMPORÂNEA II

PROFESSORA: LUCIENE UCHÔA

A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE CULTURAL EM TORNO DO MITO MICHAEL JACKSON E SUA MORTE: UMA ANÁLISE DA PRODUÇÃO JORNALÍSTICA VEICULADA NO PORTAL DE NOTÍCIAS DA GLOBO (G1)

Renée Barbosa Moura

Julho de 2009

A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE CULTURAL EM TORNO DO MITO MICHAEL JACKSON E SUA MORTE: UMA ANÁLISE DA PRODUÇÃO JORNALÍSTICA VEICULADA NO PORTAL DE NOTÍCIAS DA GLOBO (G1)

Renée Barbosa Moura1

INTRODUÇÃO

De modo geral, entende-se por identidade cultural o conjunto das mais diversas formas de identidades coletivas que caracterizam determinado grupo social. As interações sociais atuam na construção da identidade cultural de modo a fazer com que haja partilha das mesmas crenças e atitudes, apoiadas num passado comum e sustentadas por um ideal coletivo projetado. A identidade cultural representa também a consignação de uma construção social que faz com que os indivíduos se sintam mais próximos e semelhantes.

O processo de construção da identidade cultural, dentro das particularidades e dos localismos culturais, está em fase de transformação no atual contexto histórico social. Com a globalização, costumes locais são embaralhados com costumes e valores de outras culturas e isso afeta inclusive o comportamento de algumas pessoas, essencialmente no que se refere à admiração por ícones da música mundial.

O objetivo deste trabalho é examinar as repercussões midiáticas sobre a morte repentina do cantor norte americano Michael Jackson e principalmente avaliar de que forma a mitificação do artista influenciou e contribuiu para a consolidação de uma identidade cultural dos fãs.

Para tanto serão analisadas algumas matérias2 referentes à cobertura sobre a morte do ídolo, veiculadas no site de notícias da Rede Globo, o portal G13, na editoria de Música. Será examinada a questão do reconhecimento de Michael Jackson como parte da identidade cultural da geração de 1990 e de que forma o conteúdo noticioso veiculado pelo portal reflete esse reconhecimento.

Família de Michael Jackson pede nova necrópsia” – G1, 27/06/2009

Na matéria publicada dois dias após a morte de Michael Jackson, são apresentadas informações acerca da necrósia no corpo do cantor, que morreu no dia 25 de junho de 2009 na sua mansão em Los Angeles4 (EUA). Na matéria, chega-se à conclusão de que as causas da morte não puderam ser esclarecidas nos primeiros exames realizados no corpo do cantor.

A continuação da matéria mostra não o desconforto provocado pela morte do astro, mas o descontentamento com relação à falta de informações sobre o funeral e o envolvimento e o provável erro de conduta do médico particular de Michael – que o acompanhava no momento em que o artista teria passado mal. Neste ponto, há menção do abuso de remédios5 por parte do astro, o que levanta as suspeitas de má conduta de seu médico.

Na quarta parte da matéria, inicia-se uma retrospectiva no que se refere às apresentações de Michael Jackson, citando a turnê em Londres que não se realizou e também trazendo um pouco da história do cantor no grupo Jackson Five6, onde começou sua carreira.

Neste ponto, podemos notar algumas marcas discursivas que evidenciam a importância do ídolo para a música mundial, destacando as canções que viraram sucesso, principalmente na década de 90.

Com isso, vale lembrar, Michael Jackson influenciou o comportamento de milhões de pessoas na época, representando parte da identidade cultural daqueles que o vivenciaram. Assim, a morte só veio a reforçar o sentimento de pertencimento à cultura revolucionária trazida por Michael e, portanto, constitui mais do que um simples um aspecto isolado da identidade cultural, que esteve em fase de construção na época do surgimento do mito Michael Jackson e atualmente mostra-se consolidada no contexto de sua morte.

Babá dos filhos de Michael Jackson diz que o cantor era viciado em remédios” – G1, 28/06/2009

Explorando a questão do vício, considerado sinal de declínio, esta matéria traz, além do impacto provocado pela própria palavra “vício”, algumas marcas que denotam a desarmonia entre Michael Jackson e sua família. Esta matéria traz um novo ponto em relação à anterior, que é o interesse da família de Michael nos bens deixados por ele. Traz também a ênfase no vício do astro e a estranha e polêmica relação que tinha com os filhos, tudo através de relatos da babá Grace Rwaramba. Na entrevista, a babá sugere que Michael não amava os filhos, que desenvolveram um certo pavor ao pai, e também fala das dificuldades que o astro tinha em lidar com o dinheiro.

Como sugerido na análise da matéria anterior, existe nesta matéria também uma leve condenação do médico que acompanhava a saúde de Michael Jackson e traz também o impacto que a morte do ídolo causou em cerca de 750 mil fãs que haviam compado os ingressos para a turnê prevista para 2009.

Segundo o pensador Stuart Hall (1999), “as culturas nacionais produzem sentidos com os quais podemos nos identificar e constroem, assim, suas identidades”. Ao torna-se internacional nas proporções em que se concedeu, Michael Jackson adere a cada uma das nacionalidades das pessoas que o tomam como ídolo.

Portanto, ao dispor lado a lado as dúvidas sobre o caso e os fãs, a matéria evidencia o pensamento tido por muitas pessoas, que o identificam como parte até mesmo de sua nação, o que é um resultado direto da importância de Michael para a identidade cultral dos fãs.

Filmagens dos últimos ensaios de Michael Jackson podem virar DVD” – G1, 29/06/2009

Esta matéria traz especulações sobre um suposto DVD que será lançado contendo as últimas imagens do cantor nos seus ensaios. Além do apelo midiático, provocado pelo próprio marketing em torno do artista, o DVD seria essencial aos fãs que, segundo muitos ouvidos pelas mídias nacionais e internacionais, “não tiveram tempo de se despedir do astro”.

A matéria também traz a opinião de outros artistas sobre a morte do cantor, visões quase que unânimes no que se refere à representação de Michael como parte da vida dessas pessoas.

Essa necessidade do “último adeus” ao ídolo é uma das evidências mais fortes de que Michael representava parte importante da identidade cultural dos fãs e admiradores, parte essa que causa grande desconforto e dificuldade ao “separar-se” do indivíduo.

Ingressos para shows de Michael Jackson viram relíquia para fãs” – G1, 30/06/2009

Esta matéria traz um pouco do inconformismo dos fãs com a perda de Michael Jackson, que faria cerca de 50 apresentações7 em até o fim de 2009. A matéria, pode-se dizer, é uma continuação da “necessidade de dar um último adeus ao ídolo”, citada na análise anterior.

Ao manter os ingressos, que segundo a matéria foram idealizados pelo próprio Michael, os fãs se sentem mais próximos ao ídolo e portanto conseguem manter em si um “pedaço” da identidade cultural construída em torno do mito Michael Jackson em quase 50 anos de sua carreira.

Jackson sofria de insônia e insistia na prescrição de sedativos, diz enfermeira” – G1, 01/07/2009

Na útima matéria sob análise, há uma retratação da mídia no que se refere à culpa imposta ao médico particular que acompanhava o estado de saúde de Michael Jackson. Tentando dividir as atenções entre o vício do artista e a falta de conduta ética dos médicos que o acompanharam, o julgamento antes feito ao méidico particular de Michael é esquecido.

Isso mostra que o olhar da mídia sobre o caso tomou rumos diferentes, numa tentativa de suprir as informações ausentes sobre as prováveis causas da morte do cantor. Nesta matéria não existem identificações com aspectos da identidade cultural, mas sim, leves indícios de abordagem sensacionalista.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise do conteúdo noticioso, veiculado no recorte de tempo que corresponde entre dois a sete dias após a morte de Michael Jackson, nos revela que o Rei do Pop, como é denominado constantemente em várias passagens das matérias, foi um importante elemento na construção da identidade cultural de muitas pessoas, tanto no que se refere aos padrões de comportamento, quanto às questões mais íntimas, que remontam toda uma nostalgia da década de 1990.

Michael Jackson (ainda) é, portanto, condizente com a identidade cultural de toda uma geração de fãs e admiradores de sua música.

REFERÊNCIAS

BARBOSA DE OLIVEIRA, Lúcia Maciel. Identidade Cultural. Alunos online, 2006. Disponível em <http://www.alunosonline.com.br/barra/index.htm?url=http://www.esmpu.gov.br/dicionario/tiki-index.php?page=Identidade+cultural>

HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. 3º ed. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 1999.

Identidade Cultural. Wikipédia, a enciclopedia livre. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Identidade_cultural> Acesso em 01/07/2009 às 9:16.

Michael Jackson, o Mito e a Tragédia de nosso tempo. Blog da Identidade Musical. Disponível em: <http://identidademusical.com.br/blog/2009/06/26/michael-jackson/> Acesso em 01/07/2009 às 9:35.

ANEXOS

1 Graduanda do quarto período do curso de Comunicação Social – Hab. Jornalismo pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).

2 Vide anexo ao final do artigo.

3 Manchetes aleatórias veiculadas entre os dias 27 de junho e 1º de julho de 2009.

4 Próximo a cidade foi construído o famoso rancho “Neverland”, lugar em que se fazem constantes ligações com os escândalos das acusações de pedofilia cometida por Michael.

5 Principalmente analgésicos e sedativos, pois o cantor sentia muitas dores no corpo com frequência.

6 Banda composta pelo pai e irmãos de Michael Jackson que fez sucesso na década de 60.

7 Vide anexo ao final do trabalho.

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