As Mulheres do Metanoia: Uma abordagem científica

As Mulheres do Metanoia: Uma abordagem científica

As mulheres do Metanóia: uma abordagem científica

Contribuição de Juliane Soares de Sousa 10 de September de 2009 Última Atualização 1 de September de 2009

As mulheres do Metanóia: uma abordagem científica

Sabemos da existência de trabalhos que se voltam sobre o lugar da mulher em diversas áreas da sociedade. Importantes por abordar este tema bastante instigador, tais estudos têm contribuído para uma melhor compreensão da complexidade da atuação feminina, do chamado universo feminino. Sabemos ainda da emergência de estudos referentes à cultura protestante-evangélica, enfatizando as relações que ocorrem no interior desta camada da sociedade, sobretudo nas cadeiras da Antropologia e Ciências Sociais em geral. A metodologia utilizada para empreender a análise consistiu na observação da dinâmica do grupo, com idas ao Metanoia em suas reuniões dominicais, bem como o relato de Denise Carvalho, esposa do líder e fundador do grupo, o Pr. Enok Galvão.

Considerando as premissas acima, o presente trabalho busca tratar da atuação das mulheres inseridas em um determinado grupo religioso, protestante, localizado na comunidade Baixa do Sapateiro, no Complexo da Maré – Rio de Janeiro. Trata-se do Ministério Metanoia , que desde a sua fundação, há cerca de 20 anos, caracteriza-se pela peculiaridade de seus cultos, que dispensam a liturgia ritualística verificada em grande parte das demais denominações evangélicas. O Ministério Metanoia é uma espécie de “filho bastardo” das instituições evangélicas mais antigas, por não seguir à risca seus fundamentos tradicionais. O grupo é pequeno, não mais que 35 pessoas, a maioria jovens e mulheres que são atraídos pela liberdade e pelo aspecto descontraído do ministério. Ademais, o que diferencia o mencionado grupo das demais denominações protestantes é o fato ali naquele espaço se ouvir e valorizar a cultura Heavy Metal, em todas as suas vertentes e formas de expressão. Seus cultos são realizados ao som de metal pesado, e seus membros vestem-se majoritariamente de roupas pretas, quando não rasgadas. Dentro deste contexto, verifica-se a atuação das mulheres, maioria no Metanoia, que dividem tarefas específicas no grupo em questão. A mudança de mente proposta pelo Metanoia consiste, entre outras coisas, em encarar as preferências pessoais como aspecto que não pode nem deve ser vinculado aos valores religiosos. Desta maneira, os membros justificam o fato de manterem o mesmo estilo de indumentária de quando não-convertidos. São os chamados headbangers, góticos, punks, dentre outras manifestações contra-culturais.

“Rebeldes” ou Submissas?

Enfatizo aqui a importância de se empreender uma análise debruçada sobre o ponto de vista das mulheres pertencentes ao grupo, visto que são peças importantes na dinâmica interna e externa do Metanoia. Dinâmica interna, já que, talvez por serem a maioria, influem em situações importantes, participando nos momentos de decisões, assim como em atuações evangelísticas, cultos, etc. Dinâmica externa, uma vez que o Metanoia se relaciona com outros grupos protestantes com atuação similar no meio underground carioca. Assim sendo, através da abordagem das falas de uma participante do grupo e da observação, pudemos entrever a função correspondente à ala feminina do Metanoia, bem como a imagem que esta tem de si mesma enquanto membro do grupo, e a visão que as mesmas têm sobre os demais membros do Metanoia. O trabalho evangelístico do grupo consiste em panfletagem de mensagens pacíficas, e de modo mais sobressalente, na apresentação das bandas de Heavy Metal formadas majoritariamente pelos rapazes do grupo. O Metanoia intitula-se uma Missão evangelística, e não uma igreja protestante. Assim, explica o líder, como meios estratégicos de realizar seus evangelismos, o grupo formou tais bandas que se apresentam em diversos points undergrounds dentro e fora do estado do Rio de Janeiro, de modo a deixar a mensagem evangélica. Dentre as quatro bandas, três são exclusivamente masculinas, e à exceção do grupo In Kaos, que conta com duas meninas, nos vocais e contra-baixo, do louvor interno, que conta com uma vocalista e de um projeto ainda não intitulado, exclusivamente feminino. Pautando o presente trabalho não apenas na entrevista realizada, mas também na observação do grupo, é importante relembrar que as mulheres do Metanoia são maioria, quiçá por esta razão sejam tão expressivas no que tange à tomada de decisões relevantes ao funcionamento do grupo. Contudo, foi percebido que, embora se trate de um grupo que se afirma não-tradicional, resquícios de tradicionalismo cristão protestante foram encontrados, ainda que de modo sutil, na relação entre homens e mulheres do grupo. Não cabe afirmar que a atuação feminina do Metanoia encerra-se em ladear os companheiros homens (maridos, namorados, ou apenas amigos), embora, num primeiro olhar menos aprofundado, esta seria a impressão que teríamos. A questão é bem mais complexa que isto: de fato, como maior expressão identitária do Metanoia, vão à frente as bandas, exclusivamente masculinas, que contribuem na caracterização do grupo como outsider. Por um lado, o Metanoia rompe definitivamente com os padrões tradicionais evangélicos ao introduzir novos valores e comportamento. Por outro, ao colocar suas mulheres nos bastidores da exposição pública e da atuação masculina, presume um continuísmo de práticas tradicionais protestantes que o grupo afirma renegar. Considerando as apreensões da entrevistada, o papel das mulheres no grupo é importante por expressar o modo de

Metanóia Missões Urbanas http://www.metanoiaunderground.com.brFornecido por Joomla!Produzido em: 26 November, 2009, 15:17 pensar do grupo acerca do cristianismo, ou do que deveria ser, ao menos. Ao indagar sobre a função que a entrevistada exercia no grupo, a primeira fala foi que exercia o papel de ajudadora do marido, em seguida prosseguiu informando outras áreas de atuação. Assim, a percepção que tivemos nos leva a crer que as diferenças entre o Metanoia e demais instituições protestantes no tocante à atuação feminina difere em pontos específicos, mas no todo, é possível identificar semelhanças. É inegável o salto dado em direção ao desligamento do tradicionalismo, embora haja similaridades que são percebidas em pequenos gestos e falas.

Desmitificando o paradigma que se tem em senso comum que atribui à mulher cristã a característica submissa, e à mulher underground como “rebelde”, tencionei elucidar a interessante reação observada na junção destas duas características, reunidas em um mesmo grupo: o das mulheres do Ministério Metanoia. Podemos afirmar que as mulheres do Metanoia contribuem no impacto gerado entre o meio protestante e underground secular, ao saber da existência do grupo e ter contato com o mesmo, grupo que se veste, fala, e em alguns pontos, comporta-se como outsiders de fato. À guisa de conclusão, no contexto cristão underground , as mulheres são fundamentais ao tecerem relações sociais externas com outras mulheres e movimentos, ao mesmo tempo em que, internamente, dão suporte ao trabalho evangelístico, propondo encontros de discussão de temas femininos relacionados ao cenário cristão e underground.

Referências Bibliográficas Básicas: ALBERTI, Verena. Manual de História Oral. Rio de Janeiro: FGV, 2004. HOBSBAWN, Eric. A História de baixo pra cima. In: Sobre História. Rio de Janeiro: Cia das Letras, 1998. FONTANA, Joseph. A História dos Homens. São Paulo: EDUSC, 2004.

Sites: http://www.terra.com.br/istoe/1677/comportamento/1677_punks_cristo.htm Acesso em 03/06/2009

Trabalho apresentado no curso de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro para a disciplina Tópicos Especiais de História Oral

Juliane Soares é membro do Ministério Metanóia e casada com Joab Farias, do qual ela é ajudadora.

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