Atlas da Biodiversidade de Minas Gerais

Atlas da Biodiversidade de Minas Gerais

(Parte 1 de 2)

Gláucia Moreira Drummond

Cássio Soares Martins

Angelo Barbosa Monteiro Machado

Fabiane Almeida Sebaio Yasmine Antonini

Fundação Biodiv ersitas

Biodiv ersidade em Minas Gerais

O mapa-síntese das áreas prioritárias apresenta as 112 áreas mais importantes para a conservação da biodiversidade no estado de Minas Gerais. Elas foram definidas pela sobreposição e análise dos mapas gerados pelos grupos temáticos, classificados num contexto multidisciplinar e, portanto, mais abrangente.

Nessa classificação, considerou-se a categoria originalmente indicada pelo grupo temático, a justificativa da indicação, a sobreposição de áreas indicadas por mais de um grupo, as pressões antrópicas, as novas discussões no âmbito dos grupos regionais e as recomendações dos grupos temáticos não-biológicos. Os rios, todos eles indicados como áreas prioritárias no mapasíntese e mantidos em sua categoria original, tiveram suas faixas de preservação permanente consideradas, visando garantir a conservação do sistema fluvial e a diversidade de peixes.

Padronizou-se que as áreas indicadas como de importância biológica Especial por apenas um grupo temático foram classificadas, no mapa-síntese, como de importância biológica Extrema. As classificadas como de importância Especial por dois ou mais grupos foram mantidas como tal. Áreas definidas como alta prioridade por apenas um grupo temático não entraram no mapa-síntese. As áreas definidas pelo grupo de Flora (exceto aquelas consideradas como de importância Potencial e Alta) foram mantidas no mapa-síntese, com a mesma categoria anterior. Como resultado, algumas áreas indicadas originalmente por determinado grupo temático mudaram de categoria de importância biológica enquanto outras se mantiveram na categoria original. No entanto, aquelas áreas não incluídas no mapa final permaneceram nos mapas temáticos originais.

Embora os limites e tamanhos das áreas tenham sido aperfeiçoados em fase posterior ao workshop, algumas áreas não puderam ser mapeadas em suas dimensões reais, especialmente por questões de escala. Sendo assim, as informações constantes no mapa devem ser tomadas apenas como referência aproximada, devendo cada área ser detalhada localmente em escala geográfica mais apropriada.

As áreas foram numeradas seqüencialmente, de norte para sul, em relação a sua distribuição no Estado. A cada uma foi atribuído um nome em função de sua localização, de uma unidade de conservação principal, do nome do rio ou da bacia hidrográfica principal, entre outras opções. Áreas distintas que apresentavam muitas características em comum, justificativas semelhantes para a indicação, idêntica importância biológica e prioridade de ação emergencial foram agrupadas e receberam a mesma numeração. Assim, a área Remanescentes Lóticos do Rio Paranaíba é composta de vários trechos de rios que compõem a bacia do rio Paranaíba; a área Pequenas Bacias do Leste é composta por rios formadores de pequenas bacias localizadas na porção leste de Minas Gerais; e a área Rio São Francisco e Grandes Afluentes é composta principalmente por parte do médio rio São Francisco, rio Carinhanha, rio Paracatu e rio Urucuia.

– Sul de Minas

Pinheiro brasileiro (Araucaria angustifolia) Fotografia: Roberto Murta próximas páginas: Barriguda (Ceibasp.)

Fotografia: Cuia Guimarães

Foram definidas como áreas de importância biológica Especial a Vereda São

Marcos, a Região do Jaíba, a Serra do Cabral, o Espinhaço Meridional e Setentrional, a Área Peter Lund (em Lagoa Santa), o Quadrilátero Ferrífero, o Complexo do Caparaó, a Serra do Brigadeiro, a Região do Parque Estadual do Ibitipoca, a Região de Barbacena e Barroso, a Região da Serra da Mantiqueira, a Serra da Canastra, o Parque Estadual do Rio Doce, as Várzeas do Médio Rio São Francisco, o Alto Rio Santo Antônio (leste de Minas), as Lagoas do Rio Doce e o Vale do Rio Peruaçu.

A Serra do Espinhaço, de notável relevância, destaca-se nos cenários nacional e internacional, pois além de abrigar nascentes de diversos rios que drenam para diferentes bacias, constitui um ecossistema único no contexto mundial no que se refere à formação geológica e florística. Apresenta altíssimo grau de endemismo de várias famílias de plantas e é considerada como o centro de diversidade das sempre-vivas. Nessa serra se concentram cerca de 80% de todas as espécies de sempre-vivas do País e cerca de 70% das espécies do planeta. A serra abriga ainda 40% das espécies de plantas ameaçadas do Estado. Esses fatores, aliados à sua importância como eixo de migrações pré-históricas, justificaram a recomendação, no workshopde 1998, de criação de uma Reserva da Biosfera que englobe todo o maciço do Espinhaço. Para viabilizar essa proposta, o Estado deverá requerer ao Programa Man and Biosphere– MAB, da UNESCO, a criação da Reserva.

A Tabela 1 apresenta a distribuição das áreas prioritárias para a conservação com relação à categoria de importância biológica. Entre as áreas indicadas, 25% referem-se aos rios e suas margens, 47% dos quais classificados como áreas de importância biológica Muito Alta, e a maior parte (60%) das recomendações sugeridas se relaciona à ações de manejo, como a recuperação /reabilitação das margens e dos cursos d'água, e à investigação científica. Mesmo os rios indicados como de Extrema importância para a conservação apresentam sinais de alterações ou insuficiência de amostragem, o que indica a urgência de um plano de ação para a sua efetiva conservação.

Grande parte das áreas prioritárias (85%) abrange, em quase toda sua extensão, ambientes terrestres: 3% delas foram consideradas como de importância biológica Extrema e 15% como áreas de importância biológica Especial. A criação de Unidades de Conservação (46%) e a necessidade da investigação científica (29%) constituíram as principais e mais urgentes razões para a indicação das áreas.

Na distribuição das áreas pelos biomas, foram definidas 59 áreas na Mata Atlântica, 35 no Cerrado, 13 áreas de transição entre Cerrado e Mata Atlântica, 4 áreas de transição entre Caatinga e Cerrado e uma área de transição entre Caatinga, Mata Atlântica e Cerrado. Cerca de 5% das áreas constituem ou abrangem Unidades de Conservação, o que influenciou a definição das ações emergenciais, direcionadas, em sua grande maioria, para a implementação da unidade

Tabela 1.

Número de áreas prioritárias para conservação da biodiversidade no estado de Minas

Gerais, distribuídas pela categoria de importância biológica.

Nº de áreas% Importância biológica e/ou de seu plano de manejo. A ampliação da área protegida ou a mudança na categoria da Unidade de Conservação foram também, por vezes, recomendadas.

Algumas áreas prioritárias foram definidas em função da presença de cavidades subterrâneas formadas pelo desgaste de maciços calcários, graníticos, quartizíticos e até ferríticos que abrigam uma fauna única, que inclui peixes e invertebrados troglóbios. Além disso, algumas delas, abrigam um vasto patrimônio paleontológico. Dentre essas áreas destacam-se a Caverna do Salitre, a Área Cárstica de Lagoa Santa, a Área Peter Lund e a Área Cárstica Arcos/Pains.

A tabela a seguir apresenta a relação das áreas indicadas como prioritárias para a conservação da biodiversidade em Minas Gerais, com a justificativa para sua inclusão em cada categoria, as principais pressões antrópicas a que estão sujeitas e as recomendações para a sua conservação.

167 Prioridades para a conservação da biodiversidade em Minas Gerais – Ações prioritárias

1Complexo Jaíba / Peruaçu 2Vale do Rio Peruaçu 3Região de Jaíba 4Várzeas do Médio Rio São Francisco 5Cabeceiras do Urucuia 6Parque Nacional Grande Sertão Veredas 7São Miguel 8Vereda São Marcos 9Rio São Francisco e Grandes Afluentes 10 Espinhaço Setentrional 11Rio Itacambiruçu 12Bacia do Alto Rio Pardo 13Região de Pedra Azul / Águas Vermelhas 14Região de Bandeira 15Reserva Biológica da Mata Escura 16Região de Salto da Divisa 17Reservatório de São Simão 18Região de Jacinto / Rubim 19Região de Cariri 20Pequenas Bacias do Leste 21Região de Joaíma 22Região de Novo Oriente de Minas 23Rio Pampã 24Rio Mucuri 25Alto Mucuri 26Região de Itinga / Araçuaí 27 Médio Jequitinhonha 28Rio Preto 29 Alto Jequitinhonha 30Serra do Cabral 31Região de Buritizeiro / Pirapora 32Região de Brasilândia 33Fazenda Brejão 34Região de Paracatu 35Vereda Grande 36Serra da Carcaça 37Matas de Itumbiara 38Remanescentes Lóticos do Rio Paranaíba 39Reservatório de Salto e Ponte 40Lagoas do Rio Uberaba 41Reserva do Panga 42Fazenda Tatu 43Veredas de Uberaba 44Reservatório de Miranda 45Região de Conquista 46RPPN Galheiro 47Ribeirão do Salitre 48Região de Araxá 49Estação Ecológica de Pirapitinga 50Fazenda Santa Cruz 51Rio Paraopeba 52Região de Paraopeba 53Caverna do Salitre 54Província Cárstica de Lagoa Santa 55Área Peter Lund 56Tributários do Rio das Velhas 57 Espinhaço Meridional

58Florestas da Encosta Leste do

Espinhaço Meridional 59Alto Rio Santo Antônio 60Serra do Ambrósio 61 Braúnas 62Bacia do Rio Suaçuí Grande 63Baixo Rio Doce 64Parque Estadual Sete Salões 65Região de Aimorés / Itueta 66Rio Manhuaçu e José Pedro 67Entorno do Parque Estadual do Rio Doce 68RPPN Fazenda Macedônia 69Serra de Jaguaruçu 70Parque Estadual do Rio Doce 71Lagoas do Rio Doce 72Pingo D’água 73Entre Folhas 74Complexo Caratinga / Sossego 75Região de Caratinga 76RPPN Mata do Sossego 77Região de Carangola 78Complexo do Caparaó 79Serra do Brigadeiro 80Complexo da Serra do Brigadeiro 81Região de Porto Firme 82Região de Viçosa 83Rio Piranga 84Florestas da Borda Leste do Quadrilátero 85 Quadrilátero Ferrífero 86Área Cárstica de Arcos / Pains 87Caverna do Peixe 88Alto Rio São Francisco 89Entorno da Serra da Canastra 90Serra da Canastra 91Região de Passos / Carmo do Rio Claro 92Região de Guaxupé 93Região de Monte Belo 94Região de Poços de Caldas 95Várzeas do Rio Sapucaí 96Bacia do Rio do Cervo 97Região de Itumirim 98Rio das Mortes e Capivari 99Serra de São José 100Região de Barbacena e Barroso 101Alto Rio Pomba 102Rio Pomba 103Matas de Pirapetinga 104Região de Além-Paraíba / Pirapetinga 105Região de São João Nepomuceno 106Região de Juiz de Fora 107Região do Parque Estadual do Ibitipoca 108Região de Bom Jardim 109Alto Rio Grande / Aiuruoca 110Rio Preto / Afluente do Paraibuna 111Região de Luminárias / São Tomé das Letras 112Região da Serra da Mantiqueira

2Vale do Rio PeruaçuAlta riqueza de espécies da fauna ameaçada, relevância espeleológica, arqueológica e paleontológica. 3Região de JaíbaAmbiente único no Estado, alta riqueza de espécies endêmicas e ameaçadas. 4Várzeas do Médio Rio SãoAmbiente único, alta riqueza de peixes,

Franciscoespécies endêmicas de peixes e aves. 8Vereda São MarcosAmbiente único: única área de contato entre as bacias dos rios São Francisco e Paraná. 10Espinhaço SetentrionalAlta riqueza de espécies de aves endêmicas.

30Serra do CabralAves e plantas endêmicas.

55Área Peter LundÁrea de migração de aves raras e ameaçadas, espécies de invertebrados endêmicas e ameaçadas. 57Espinhaço MeridionalEspécies de aves endêmicas, alta riqueza de espécies da flora e da fauna. 59Alto Rio Santo AntônioEspécie endêmica de peixe.

70Parque Estadual do Rio DoceAlta riqueza de espécies da fauna e da flora, espécies endêmicas de plantas, beleza cênica. 71Lagoas do Rio DoceAmbiente único no Estado, beleza cênica. 78Complexo do CaparaóAlta riqueza de espécies da fauna e da flora. 79Serra do BrigadeiroAlta riqueza de espécies da fauna e flora endêmicas, raras e ameaçadas. 85Quadrilátero FerríferoEndemismo de anfíbios e plantas, alta riqueza de vertebrados, ambiente único no Estado (campos ferruginosos). 90Serra da CanastraAlta riqueza de espécies da fauna e da flora endêmicas e ameaçadas de extinção. 100Região de Barbacena eAlta riqueza de invertebrados ameaçados

Barrosode extinção. 107Região do Parque EstadualPresença de anfíbio endêmico no mundo. do Ibitipoca 112Região da Serra daAlta riqueza de espécies de fauna e flora Mantiqueirararas, endêmicas e ameaçadas.

Síntese das áreas indicadas como prioritárias para a conservação da biodiversidade em Minas Gerais

Número da Área

Nome da Área Recomendações específicas

Justificativas para inclusão Pressões

Antrópicas

Consulte legenda dos ícones desta tabela na orelha da página 202.

1Complexo Jaíba / PeruaçuAmbiente único: vários ecossistemas diferentes conectados (mata seca, caatinga arbórea, carrascal, caatinga hiperxerófila sobre afloramentos calcários), alta riqueza de espécies da fauna e flora ameaçadas. 6Parque Nacional GrandeAlta riqueza de espécies da fauna e da flora

Sertão Veredas ameaçadas. 7São MiguelAlta riqueza de aves e mamíferos com espécies raras e ameaçadas. 11Rio ItacambiruçuAlta riqueza de peixes endêmicos. 14Região de BandeiraAlta riqueza de espécies da fauna e da flora. 15Reserva Biológica da MataAlta riqueza de espécies da fauna e da flora

Escuraameaçadas de extinção. 16Região de Salto da DivisaEspécies ameaçadas de mamíferos e da flora, alta riqueza de espécies endêmicas. 19Região de CaririAlta riqueza de espécies da fauna e da flora ameaçadas de extinção, ambiente único no Estado. 24Rio MucuriPresença de peixes diádromos.

29Alto JequitinhonhaAlta riqueza de espécies endêmicas e ameaçadas. 31Região de Buritizeiro /Alta riqueza de espécies de aves raras,

Piraporaendêmicas e ameaçadas. 33Fazenda BrejãoAlta riqueza de espécies da fauna e da flora ameaçadas de extinção. 36Serra da CarcaçaEspécies silvestres de plantas cultivadas, espécies endêmica da flora, alta riqueza de aves, incluindo espécies raras e ameaçadas. 38Remanescentes Lóticos doRemanescentes lóticos significativos, alto grau

Rio Paranaíbade conservação, presença de espécies de peixes ameaçadas. 40Lagoas do Rio UberabaÚnico local de ocorrência de fósseis de Porifera, local de alimentação e pouso de aves aquáticas migratórias. 42Fazenda TatuÚnico registro de Bothrops itapetiningaepara MG. 43Veredas de UberabaAlta relevância na manutenção de aves paludícolas raras em Minas Gerais. 46RPPN GalheiroAlta riqueza de espécies da fauna e da flora. 52Região de ParaopebaRemanescentes significativos de Cerrado.

Número da Área

Nome da Área Recomendações específicas

Justificativas para inclusão Pressões

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