Atlas da Biodiversidade de Minas gerais

Atlas da Biodiversidade de Minas gerais

(Parte 1 de 2)

Gláucia Moreira Drummond

Cássio Soares Martins

Angelo Barbosa Monteiro Machado

Fabiane Almeida Sebaio Yasmine Antonini

Fundação Biodiv ersitas

Biodiv ersidade em Minas Gerais

O Brasil é considerado um país megadiverso em relação à fauna de peixes de água doce, fato relacionado à grande diversidade e ao tamanho de suas bacias hidrográficas. Abrigando 3.0 espécies de peixes de água doce, o País ocupa a 1ª posição em relação ao resto do mundo (McAllister et al., 1997). Além do grande número, uma parcela considerável das espécies é endêmica, ou seja, só ocorre no Brasil.

Minas Gerais, pela sua posição geográfica, possui um sistema hidrográfico que abrange a maior parte das bacias brasileiras, exceto a Amazônica. Ao todo, são quinze bacias, das quais apenas duas (Paraíba do Sul e Tietê) não possuem suas nascentes dentro dos limites estaduais. Um resumo das características dessas drenagens encontra-se na Tabela 1.

Tabela 1. Características gerais das bacias hidrográficas do estado de Minas Gerais.

Fonte: CETEC (1983), exceto dados de Peruípe, que foram extraídos do mapa ‘Estado de Minas Gerais – Bacias Hidrográficas’ número 9.800-PG/EG- 258 elaborado pela CEMIG.

Bacia Área (m il km

)Área no Est ado

(m il km

% da bacia no Estado% do Est ado drenado pela bacia

Extensão dentro do Estado (km) Cota altimétrica na nascente (m)Cot a altimétrica na divisa do Estado (m) Declividade média no Est ado (m/km)

No Estado, as principais informações sobre a fauna de peixes têm sido obtidas através dos inventários realizados na calha principal, os quais são normalmente solicitados pelos órgãos ambientais durante o licenciamento para construção de usinas hidrelétricas. As lagoas marginais, as cabeceiras e os pequenos afluentes têm sido explorados com menor intensidade. Algumas regiões particulares, como o complexo lacustre do médio rio Doce e os lagos da região cárstica do planalto de Lagoa Santa, por exemplo, foram parcialmente amostrados. Se, por um lado, os estudos promovidos para a construção das hidrelétricas permitem ampliar o quadro sobre a distribuição das espécies, por outro, a efetivação das barragens tem sido considerada a principal causa de impacto para a ictiofauna.

Os dados obtidos permitiram avaliar a composição da ictiofauna para sete bacias, das 15 consideradas na análise e indicação das áreas prioritárias. Em função de revisões taxonômicas publicadas recentemente e da atualização do banco de dados sobre os peixes que ocorrem no Estado, o número de espécies foi alterado em relação à versão anterior deste Atlas.

Minas Gerais abriga uma ictiofauna nativa estimada em 354 espécies, o que representa quase 12% do total encontrado no Brasil (n = 3.0) (McAllister et al., 1997). Em relação à região Neotropical – 4.475 espécies de peixes de água doce –, esse percentual seria de 7,9%, conforme informações mais recentes (Reis et al., 2003).

A bacia do São Francisco apresenta o maior número de espécies (173), seguida das bacias do Paranaíba (103), Grande (8), Doce (64), Paraíba do Sul (5), Mucuri (51) e Jequitinhonha (35). Na Tabela 2 são apresentados os dados comparativos de 1998 e 2004.

Tabela 2.

Riqueza de espécies de peixes nas maiores bacias hidrográficas de Minas Gerais, considerando os dados disponíveis em 1998 e 2004.

BaciaRiqueza em 1998Riqueza atual

O número de espécies decresceu em todas as drenagens, exceto para o São Francisco e Mucuri. Excetuando-se o Jequitinhonha, cujos levantamentos ainda são pouco abrangentes, o número de espécies em cada uma das demais bacias pode ser interpretado como bem próximo da realidade. As demais drenagens permanecem com informações escassas, panorama que não se modificou desde 1998.

Apesar das lacunas no conhecimento acerca da distribuição dos peixes, nas últimas duas décadas o número de descrições de espécies no Estado foi ampliado acentuadamente. Das 70 espécies de peixes que têm como localidade típica o estado de Minas Gerais, quase 50% (32 espécies) foram descritas nesse período. O maior número de espécies descritas pertence ao grupo dos Loricariidae (cascudos), Rivulidae (peixes anuais) e Characidae (lambaris).

Os rivulídeos constituem um caso particular, pois até 1981 não eram conhecidos representantes desse grupo no Estado. As 15 espécies atualmente descritas, em sua maioria, vivem em poças temporárias e possuem um ciclo de vida muito diferenciado do restante da ictiofauna. Esse ciclo de vida envolve a deposição dos ovos no substrato, a morte dos pais quando a poça seca e eclosão no período de chuvas seguinte. Em função desse comportamento, são conhecidos como “peixes anuais” ou “peixes das nuvens”, pois aparecem em poças isoladas sem comunicação direta com o rio. A maior parte dessas espécies encontra-se ameaçada de extinção, principalmente em áreas do Cerrado mineiro (Costa, 2002; MMA, 2004).

Excetuando-se a vermelha (Brycon vermelha), um caracídeo de grande porte do rio

Mucuri, nos últimos 20 anos todas as demais espécies descritas são de pequeno porte (até 15 cm). Essas espécies quase sempre possuem distribuição restrita a pequenos trechos das drenagens, condição delicada sob o ponto de vista da conservação, visto que impactos nessas áreas podem significar a extinção da espécie. Isso é particularmente verdadeiro para os rivulídeos, cuja área de uso, que deixa de ser um ambiente aquático durante os períodos de seca e quase nunca está conectada diretamente ao rio.

As principais ameaças para a ictiofauna de Minas Gerais estão relacionadas a poluição, assoreamento, desmatamento, mineração, introdução de espécies exóticas e construção e operação de barragens. Devido ao seu elevado potencial hidrelétrico, Minas Gerais tem sido foco de rápida expansão de usinas hidrelétricas desde a década de 1950. Esse processo foi ampliado acentuadamente nos últimos anos, principalmente com a construção de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs). As análises de impactos ambientais em rios a serem barrados têm sido tradicionalmente focadas em espécies de peixes economicamente importantes ou migradoras. Esse procedimento tem contribuído para o declínio de peixes nativos de pequeno porte ou que requerem ambientes lóticos (reofílicos1), mas que, não necessariamente, realizam longas migrações ou apresentam importância econômica. O resultado dessa visão simplificada tem sido o empobrecimento progressivo da ictiofauna em diversas bacias do Estado. A operação da usina para geração de energia é outro aspecto que interfere na ictiofauna, mas que no Estado, e mesmo no País, ainda não foi adequadamente avaliado.

Os problemas relacionados à introdução de espécies exóticas são comuns a todas as drenagens de Minas Gerais e representam uma ameaça real à diversidade de peixes no Estado. Entretanto, esse problema não tem sido avaliado com a devida atenção. Diferentemente das informações disponíveis durante a elaboração do primeiro Atlas em 1998, quando foram relatadas 24 espécies exóticas no Estado, sabe-se que hoje existem 63 espécies de peixes introduzidas em Minas Gerais (Alves et.al., 2004). A bacia com maior grau de contaminação é a do Paraíba do Sul (41 sp. exóticas), seguida do Doce (30) e Alto Paraná – Paranaíba e Grande (20). O alto grau de contaminação da drenagem do rio Paraíba do Sul está intimamente relacionado ao pólo de criação de peixes ornamentais, considerado o maior da América do Sul (Vidal & Costa, 2000).

A aqüicultura é uma fonte importante de introdução de espécies exóticas. Devido às dificuldades para se evitar a fuga de peixes das instalações de criação, é provável que mais espécies venham a se estabelecer nos ambientes aquáticos de Minas Gerais. Diversos setores da comunidade, como prefeituras, clubes de pescadores e empresas particulares, também têm sido responsáveis pela introdução de espécies. A crença popular de que o peixamento é a solução para aumentar a abundância de peixes, associada às facilidades para aquisição de alevinos, tem criado condições para que diversas espécies sejam introduzidas nos ambientes aquáticos do Estado.

Diversas medidas de proteção devem ser tomadas para a conservação da fauna de peixes de Minas Gerais, e, em sua maioria, dependem da participação de diferentes segmentos da sociedade. Entretanto, é um fato que ações de conservação adotadas em nível estadual são muito modestas quando se trata da ictiofauna. De modo geral, essas ações estão limitadas à interdição temporária da pesca (defeso) e respectiva fiscalização. Outra forma rotineiramente noticiada são as multas aplicadas por danos ambientais à fauna de peixes. Algumas vezes, as medidas “punitivas” derivadas desses processos também incluem peixamentos, que, já de longa data, vêm sendo questionados quanto a sua real efetividade (Vieira & Pompeu, 2000). Assim, associada à capacitação de profissionais especializados em conservação e manejo da fauna de peixes, é urgente a implementação de medidas que eliminem ou reduzam a poluição nos ambientes aquáticos, regulamentem as atividades de pesca e estabeleçam critérios claros para o cultivo de peixes.Peixes reofílicos são aqueles que necessitam do ambiente lótico para completarem o seu ciclo de vida. Esses peixes podem ser migradores ou não.

páginas anteriores: Perereca (Hyla Alvarengai)

Fotografia: Magno Segalla

Rio Cipó no Parque Nacional da Serra do Cipó.

Fotografia: Miguel Aun

Com relação às áreas prioritárias para conservação da fauna de peixes definidas anteriormente, nenhuma ação efetiva foi desenvolvida para torná-las uma realidade, fato que contribuiu para o decréscimo da qualidade ambiental em diversas regiões. Assim, atualmente duas áreas não mantêm mais as características anteriores consideradas na sua seleção, fato que culminou com a exclusão no documento atual, uma perda considerada irreparável visto que não existem áreas similares que possam substituí-las. Essas áreas eram o baixo-médio rio Araguari e o alto rio Grande, que já foram alteradas ou estão em processo de modificação pela construção de três usinas hidrelétricas. O panorama para diversas outras áreas definidas em 1998 é o mesmo, pois em grande parte continuam submetidas a fortes pressões para exploração econômica.

Um único estudo com peixes, desenvolvido em uma das áreas definidas em 1998, foi realizado por Vieira et al.(2004). Esse estudo avaliou a drenagem do rio Santo Antônio e identificou três áreas principais para desenvolvimento das ações de conservação. Ações desse tipo devem se tornar regra após a definição das áreas prioritárias de conservação, condição essencial para que elas possam desempenhar o papel para o qual foram selecionadas.

Na atual edição do Atlas, 3 áreas foram consideradas prioritárias para conservação da biodiversidade de peixes, sendo quatro de importância biológica Especial, quatro de importância biológica Extrema, nove de importância biológica Muito Alta, 1 de importância biológica Alta e cinco de importância biológica Potencial. As áreas indicadas compreendem o corpo d'água, a faixa de preservação permanente (Lei nº 7.511, de 7 de julho de 1986) e a planície de inundação, quando existente.

É claro que somente reconhecer as áreas prioritárias para conservação da diversidade de peixes em Minas Gerais não será o meio único para manutenção desse componente da biota aquática. Esse fato é expresso pela perda de algumas áreas importantes desde 1998, embora tenhamos que ponderar que a Instrução Normativa que homologou o primeiro Atlas tenha sido editada somente em 2002. Assim, o primordial é que os indicativos apresentados sejam incorporados à estratégia de desenvolvimento estadual em longo prazo, criando as condições reais de proteção e conservação dos peixes que ocorrem em Minas Gerais.

1Rio São Francisco e Grandes AfluentesAlta 2Caverna Olhos do BriocoPotencial 3Várzeas do Médio Rio São FranciscoEspecial 4Bacia do Alto Rio PardoMuito Alta 5Vereda São MarcosEspecial 6Alto Jequitinhonha / Rio ItacambiruçuExtrema 7Médio JequitinhonhaMuito Alta

8Pequenas Bacias do LesteAlta 9Rio PampãMuito Alta 10Rio MucuriExtrema 11Rio PretoAlta 12Tributários do Rio das VelhasMuito Alta 13Alto Rio Santo AntônioEspecial 14Bacia do Rio Suaçuí GrandeMuito Alta 15Baixo Rio DoceAlta 16Rios Manhuaçu / Rio José PedroAlta 17Lagoas do Rio DoceEspecial 18 Caverna Salitre Alta 19Rio ParaopebaAlta 20Rio PirangaMuito Alta

21 Rio Carangola Potencial 22Rio PombaExtrema

23Tributários do Baixo Rio GrandePotencial 24Remanescentes Lóticos do Rio ParanaíbaExtrema 25Alto Rio São FranciscoMuito Alta

26Caverna do PeixeAlta 27Lagoas Marginais do Rio GrandePotencial 28Rio das Mortes / Rio CapivariAlta 29Alto Rio Grande / AiuruocaMuito Alta 30Bacia do Rio do CervoAlta 31Várzeas do Rio SapucaíAlta 32Bacia do Alto Rio SapucaíPotencial 33Rio Preto / Afluente do ParaibunaMuito Alta

Relação das áreas indicadas para a conservação dos peixes de Minas Gerais

Número da Área

Nome da ÁreaCategoriaRecomendações Pressões

Antrópicas

Consulte legenda dos ícones desta tabela na orelha da página 202.

1Rio São Francisco e Grandes Afluentes 2Caverna Olhos do Brioco 3Várzeas do Médio Rio São Francisco 4Bacia do Alto Rio Pardo 5Vereda São Marcos 6Alto Jequitinhonha / Rio Itacambiruçu 7 Médio Jequitinhonha 8Pequenas Bacias do Leste 9Rio Pampã 10Rio Mucuri 11Rio Preto 12Tributários do Rio das Velhas 13Alto Rio Santo Antônio 14Bacia do Rio Suaçuí Grande 15Baixo Rio Doce 16Rio Manhuaçu / Rio José Pedro 17Lagoas do Rio Doce 18Caverna Salitre 19Rio Paraopeba 20Rio Piranga 21Rio Carangola 22Rio Pomba 23Tributários do Baixo Rio Grande 24Remanescentes Lóticos do Rio Paranaíba 25Alto Rio São Francisco 26Caverna do Peixe 27Lagoas Marginais do Rio Grande 28Rio das Mortes / Rio Capivari 29Alto Rio Grande / Aiuruoca 30Bacia do Rio do Cervo 31Várzeas do Rio Sapucaí 32Bacia do Alto Rio Sapucaí 33Rio Preto / Afluente do Paraibuna

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