Atlas da Biodiversidade de Minas Gerais

Atlas da Biodiversidade de Minas Gerais

(Parte 1 de 2)

Gláucia Moreira Drummond

Cássio Soares Martins

Angelo Barbosa Monteiro Machado

Fabiane Almeida Sebaio Yasmine Antonini

Fundação Biodiv ersitas

Biodiv ersidade em Minas Gerais

O histórico de ocupação do estado de Minas Gerais remonta ao início do século

XVII, com a descoberta de jazidas de ouro. De 1750 até o século XIX, a base da economia mineira foi a atividade agrícola de subsistência. No século XIX, a entrada do café no Estado, inicialmente na Zona da Mata, provocou uma nítida mudança em seu perfil econômico, impulsionando o desenvolvimento de obras de infra-estrutura e o crescimento de cidades. Essa fase estendeu-se até 1950, quando o Estado descobriu sua potencialidade para tornar-se um grande pólo siderúrgico, em virtude da expressiva riqueza mineral e da disponibilidade energética representada pelas florestas nativas e pelo alto potencial hidrelétrico. As décadas de 1960 e 70 foram marcadas por um intenso processo de industrialização, com a implantação de inúmeros projetos nos setores metalúrgico, mecânico, elétrico e de transportes, entre outros. Em décadas mais recentes, o setor de serviços, em rápido crescimento, ultrapassou o setor industrial e o agropecuário.

A infra-estrutura e os recursos naturais do Estado propiciaram um rápido desenvolvimento, com forte processo de ocupação e supressão das formações vegetais primitivas. A expansão das atividades agropecuárias, da produção de matérias-primas e insumos de origem vegetal, da produção mineral e a expansão urbana fizeram do Estado a segunda maior economia do País, porém com um grande passivo ambiental. A pressão sobre os remanescentes vegetais nativos tem levado à rápida degradação e exaustão desses recursos, com drásticos reflexos ambientais, sendo ainda insuficientes os investimentos em reposição florestal para atender às demandas e transformar a atual exploração extrativista em uma atividade sustentável.

A análise da evolução do crescimento populacional no Estado indica uma tendência de crescimento moderado, porém bastante regular durante as quatro últimas décadas, com taxa média de crescimento de 1,5 entre 1970 e 2000. Destaca-se que o crescimento da população de Minas Gerais na última década (1,4%) foi menor que o da Região Sudeste (1,62%) e do Brasil (1,64%). Nesse período, enquanto a população urbana apresentou uma taxa de crescimento de 2,5%, a população rural apresentou uma taxa de crescimento negativo de 2,3%, elevando o grau de urbanização da população de Minas para 82%.

Apesar de haver uma tendência ao processo de urbanização, existem discrepâncias entre as várias regiões no ritmo de crescimento urbano e nas taxas de crescimento negativo da população rural, em parte explicadas pela dinâmica dos fluxos migratórios ocorridos no Estado. A Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde se localiza a capital do Estado, tem sido historicamente uma região de atração para os migrantes do próprio Estado. Esse quadro tem experimentado mudanças com o surgimento de novas áreas de atração populacional, como a região do Triângulo e Alto do Paranaíba, especialmente em virtude do dinamismo econômico de Uberlândia e Uberaba. Por outro lado, algumas regiões apresentam perdas líquidas populacionais, como a do Rio Doce e a do Jequitinhonha/Mucuri, ainda que três municípios nessas

Parreiral na região de Lassance

Fotografia: Cuia Guimarães

regiões – Montes Claros, Paracatu e Jaíba – tenham apresentado crescimento devido aos projetos agrícolas em processo de expansão.

A distribuição do setor produtivo em Minas Gerais revela altíssimas concentrações da atividade econômica nos setores industriais e de serviços, conforme indica o Produto Interno Bruto (PIB) desagregado nos três principais setores econômicos que o compõem: agropecuário, industrial e serviços. O setor agropecuário, apesar de ter apresentado um crescimento expressivo nos últimos anos, mantém uma baixa participação na composição do PIB da economia mineira, em torno de 8,5%, enquanto a indústria e os serviços representam 43,3 e 48,2%, respectivamente.

Considerando a distribuição regional do PIB, segundo as regiões de planejamento, as atividades industriais apresentaram uma alta concentração na região Central do Estado, especialmente na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e na região Sul de Minas. Por sua vez, o setor agropecuário apresentou um padrão espacial bastante disperso pelas diversas regiões do Estado, mas com um movimento de expansão em direção ao oeste, com o aumento do cultivo de soja e café no Cerrado. Tanto a região Central (45% do PIB e 35% da população total) quan-

to a região Sul de Minas (12,8% do PIB e 13,3% da população) apresentaram maior participação no PIB estadual, tanto no industrial quanto no de serviços, concentrando também a maior parte da população. As regiões Rio Doce, Mata e Triângulo ocupavam uma posição intermediária na produção de riquezas em Minas Gerais (PIB em torno de 8% e população em torno de 9%). As demais regiões – Norte de Minas, Centro-Oeste e Alto Paranaíba – apresentam participação no PIB estadual em torno de 3,5 a 5,0% e população em torno de 6%.

No ano 2000, o PIB agropecuário se distribuiu de forma mais homogênea entre as regiões, destacando-se as regiões Sul de Minas (23%), Triângulo (14,1%), Alto Paranaíba (10,8%) e Central (10,2%). Apenas as regiões Alto Paranaíba e Noroeste apresentam uma distribuição mais eqüitativa entre os três setores econômicos que compõem o PIB. As regiões Central e Rio Doce apresentam as menores participações relativas do setor agropecuário na composição do PIB.

As microrregiões Uberlândia, Patrocínio, Varginha, Frutal, Paracatu e Patos de

Minas são as principais produtoras do setor agropecuário, destacando-se as culturas do café, soja, cana de açúcar, batata inglesa e milho. Essas lavouras estão em processo de expansão na área do

Fonte: Fundação João Pinheiro (FJP, 2002), Centro de Estatística e Informações (CEI).

Estrutura produtiva setorial do Produto Interno Bruto (PIB) segundo regiões de planejamento – Minas Gerais – 2000 (%)

Região de

Planejamento Total Agropecuário Industrial Serviços

Cerrado do noroeste de Minas, verificando-se também um processo de expansão agrícola no norte do Estado, em torno das microrregiões de Montes Claros e Jaíba, graças à implantação do pólo de irrigação. Em 2002, por exemplo, a soja teve um desempenho 40,3% maior que em 2001.

Fonte: Fundação João Pinheiro (FJP, 2002), Centro de Estatística e Informações (CEI).

Estrutura regional do PIB e da população de Minas Gerais por região – 2000

Região de

PlanejamentoTotalProduto Interno Bruto Agropecuário Industrial Serviços População

Embora os principais produtos agropecuários de Minas Gerais ainda sejam o café e o leite, que representam 50% e 30% da produção nacional, há um movimento de concentração da atividade agrícola em produtos de maior valor agregado – café, soja, algodão – integrados a cadeias produtivas complexas, especialmente na área do Cerrado, onde as regiões Triângulo, Alto Paranaíba e Noroeste apresentam melhores indicadores de produção e produtividade.

A região Sul de Minas continua liderando a produção de café no Estado, mas observa-se uma tendência de crescimento do produto na região do Cerrado, especialmente na microrregião de Patrocínio. Também cresce a produção nas regiões Rio Doce e Jequitinhonha/Mucuri, aumentando a dispersão espacial da cultura, ao contrário do movimento de especialização da soja, bastante concentrada e localizada na área do Cerrado de Minas, nas microrregiões Uberaba e Uberlândia, e em Araxá, Unaí, Paracatu, Frutal, Patrocínio e Ituiutaba. O milho, cultura com grande volume de produção no Estado, importante insumo para as cadeias produtivas de leite e carne, apresenta padrão disperso, sendo mais encontrado nas microrregiões de Araxá e Unaí. O cultivo do arroz, bastante disperso no Estado, se destaca nas microrregiões de Paracatu e Aimorés.

A produção pecuária faz com que o estado de Minas Gerais se destaque no cenário nacional. Na produção de leite (regiões Alto Paranaíba e Triângulo), Minas ocupa o primeiro lugar no rankingnacional; na produção de carne bovina (padrão disperso, concentrando-se no Triângulo e na região Noroeste), o segundo lugar.

Esse padrão espacial reflete a estrutura industrial de Minas Gerais, cujos principais segmentos são: metalurgia (região Central), produtos alimentares, extrativa mineral (região Central), química (região Central e Triângulo), material de transporte (região Central e Juiz de Fora, Sul de Minas), minerais não-metálicos (região Central). Destaca-se, por sua importância, a produção de bens intermediários da indústria mineira. Os principais grupos de produtos, em ordem decrescente do valor de transformação industrial, são: metalurgia, produtos alimentares (Sul de Minas, Triângulo, Central), extrativa mineral, química, material de transporte, minerais não-metálicos, têxtil (mais disperso), material elétrico e eletrônico e de comunicações (regiões Central, Sul de Minas e Triângulo).

As principais atividades industriais de Minas situam-se na região Central, em torno da microrregião de Belo Horizonte e dos municípios industriais – Betim, Contagem –, de onde provêm as mais significativas participações do PIB industrial de praticamente todos os gêneros da indústria. Aí se encontra o maior complexo industrial do Estado, com destaque para os setores de mineração, siderurgia, fabricação de automóveis e de autopeças, mecânica, têxtil, material elétrico e cimento.

O padrão espacial do setor de serviços é bastante heterogêneo e, de modo geral, está relacionado com a distribuição espacial da população, principalmente a urbana, com o atendimento de necessidades básicas como educação e saúde, com as atividades produtivas e com os requisitos para o processo de circulação de mercadorias. As regiões Central e Sul de Minas lideram as atividades terciárias em Minas Gerais por apresentarem concentração das atividades produtivas e elevados estoques de população urbana. Destaca-se o turismo, que integra o setor serviços, por apresentar uma característica mais particular no padrão espacial e mais autônoma em relação à concentração populacional e de atividades, em suas várias vertentes: histórica, cultural, ecológica, rural, de eventos, religiosa e esportiva. É uma atividade que se apresenta atualmente como potencialmente promissora na geração de renda, o que se deve à grande diversidade e riqueza natural e humana de Minas Gerais e à implantação de programas governamentais, como o PRODETUR, de incentivo e de desenvolvimento de infraestrutura. Destaca-se a recente atuação desse programa nas regiões do Jequitinhonha/Mucuri e Norte de Minas.

Para identificar as pressões socioeconômicas que atuam sobre o estado de Minas

Gerais, foi usado como instrumento de medida o Índice de Pressão Socioeconômica (IPSE). Esse índice reflete, de forma sintética, um conjunto de indicadores demográficos e econômicos, tais como população, taxa de crescimento demográfico, PIB industrial, agropecuário e de serviços. Para tanto foram analisados os impactos de cada variável, do ponto de vista socioeconômico, sobre o meio ambiente e os recursos naturais.

Considerando o IPSE, a área que sofre maior pressão socioeconômica no Estado é a microrregião de Belo Horizonte, onde se concentram as principais indústrias de alta tecnologia, modernos serviços de comunicação e de lazer, ensino superior de bom nível, setor comercial dinâmico e alto grau de urbanização. Situada numa área de exploração mineral, principalmente do minério de ferro, com presença de indústrias siderúrgicas e químicas, essa microrregião e seu entorno apresentam desequilíbrios de toda ordem, a começar pelos aspectos ambientais, com a degradação constante dos seus recursos naturais. No aspecto social, destaca-se o aumento galopante da pobreza, da favelização e da violência urbana.

A segunda microrregião em pressão socioeconômica é a de Ipatinga, que concentra a maior participação da indústria metalúrgica do Estado (29,7%), fundamentalmente nos municípios de Ipatinga (18,1%) e Timóteo (1,6%). O setor metalúrgico destaca-se pela produção de uma variada gama de produtos, como aços de alto, médio e baixo teores de carbono, de baixa e alta liga, aço inoxidável, chapas eletrogalvanizadas, lingotes e tarugos, vergalhões, fios-máquina, arames, etc. A microrregião, localizada no vale do Rio Doce, passou a ser conhecida nacionalmente como Vale do Aço, pois lá se encontram algumas das mais importantes indústrias siderúrgicas do País.

Completando a lista das cinco microrregiões que mais sofrem pressão socioeconômica, seguem-se Divinópolis, Pouso Alegre e Ouro Preto, que apresentam, respectivamente, o 3º, 4º e 5º maiores IPSEs do Estado.

Tendência do desenvolvimento socioeconômico / Projetos estruturadores de desenvolvimento econômico

O Atlas do Desenvolvimento Humano, recentemente publicado pela Fundação

João Pinheiro, informa que entre os anos de 1991 e 2000 todos os municípios de Minas Gerais melhoraram o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que considera 125 indicadores de demografia, educação, renda, habitação e população, agregados em três grupos principais: educação, longevidade e renda.

No ano 2000, nenhum dos municípios mineiros se classificou na categoria de baixo desenvolvimento humano. No entanto, apenas 37 municípios (4,5% dos 853) se classificaram como de alto desenvolvimento humano. Tais municípios concentram um terço da população do Estado. Em 1991, não havia qualquer município nessa categoria. A mudança resultou principalmente do acesso ao Ensino Fundamental e de melhorias nas taxas de matrículas. Apesar disso, as taxas de analfabetismo continuam muito altas.

Os índices de mortalidade infantil (um dos principais componentes da longevidade) apontam, no ano 2000, uma média de 27 óbitos por mil nascimentos, sendo que apenas 47 municípios mineiros já alcançaram a “meta do milênio”, que é de 17 óbitos por 1.0 nascimentos, estipulada para 2015.

A geografia social de Minas se assemelha muito à configuração espacial do País.

As regiões Norte e Nordeste apresentam os piores indicadores; o Sul e o Triângulo, os melhores. As desigualdades são imensas no Estado, maiores que no restante do País: os 20% mais pobres recebem 2% da renda, os 40% mais pobres recebem 8% da renda e os 10% mais ricos recebem 50% da renda.

A análise da variável renda mostrou que apenas 9% dos municípios de Minas Gerais apresentaram melhorias entre 1991 e 2000. Mesmo com a melhoria social verificada nesse período, a desigualdade de renda cresceu, embora tenha aumentado a renda per capitae diminuído a proporção de pobres, de 43,3% para 29,8% da população. A taxa média de crescimento anual da população nesse período foi de 1,49%. No ano 2000, o Estado tinha 17.919.925 habitantes.

Tendências das atividades econômicas

As atividades industriais e de serviços estavam em declínio em Minas Gerais no primeiro semestre de 2003, devido à conjuntura recessiva da economia nacional. Segundo dados apresentados pela Fundação João Pinheiro, verificava-se queda da produção de veículos, autopeças, alimentos, cimento e cerâmica. Mas as indústrias extrativa mineral (minério de ferro) e metalúrgica na região Central estavam e continuam em expansão, estimuladas pela exportação.

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