Atlas da Biodiversidade de Minas Gerais

Atlas da Biodiversidade de Minas Gerais

Gláucia Moreira Drummond

Cássio Soares Martins

Angelo Barbosa Monteiro Machado

Fabiane Almeida Sebaio Yasmine Antonini

Fundação Biodiv ersitas

Biodiv ersidade em Minas Gerais

O Brasil detém grande parte da biodiversidade do planeta, o que se reflete na sua riqueza de espécies em geral. Das 4.890 espécies de mamíferos atualmente existentes em todo o mundo, cerca de 530 (1%) ocorrem no Brasil. Nesse contexto, a fauna de mamíferos brasileira lidera o ranking, sendo os grupos dos pequenos mamíferos (pequenos ratos silvestres, cuícas, gambás, morcegos) e dos primatas os mais representativos, englobando 83% (cerca de 440 espécies) da mastofauna do País (Fonseca et al., 1996; Rylands et al., 2000).

Apesar dos crescentes níveis de degradação ambiental observados no País, novas espécies de mamíferos vêm sendo descobertas ainda hoje, na Amazônia e na Mata Atlântica, por exemplo. Ao mesmo tempo, com o aumento do conhecimento e também em função dos elevados níveis de destruição dos hábitats florestais, muitas espécies de mamíferos vêm sendo incluídas nas listas de espécies ameaçadas de extinção.

O estado de Minas Gerais abriga três dos biomas mais importantes do Brasil (Mata

Atlântica, Cerrado e Caatinga) e, conseqüentemente, uma fauna muito diversificada, chegando a 243 as espécies de mamíferos conhecidas. Dessas, 40 espécies estão ameaçadas de extinção, sendo o principal fator de ameaça atribuído às ações de desmatamento no Estado. Entre as espécies ameaçadas, os animais de grande porte, como carnívoros e primatas, representam os grupos sob o maior risco de extinção.

É importante citar que a revisão do Atlas possibilitou o registro de uma nova espécie de mamífero para Minas Gerais: a Potos flavus, jupará ou macaco-da-noite, a qual era conhecida apenas através de peles depositadas em um museu. Esse dado é também significativo, uma vez que o último registro desse animal aconteceu há 60 anos. Sua ocorrência foi registrada na divisa com o estado do Rio de Janeiro (na região de Tombos). Em função desse registro e da confirmação da presença de diversas espécies ameaçadas de extinção, como a Cabassous tatouay(tatude-rabo-mole) e a Callithrix aurita(sagüi-da-serra-escuro), a região de Tombos (Pedra Dourada) foi incluída no novo documento com o statusde área de Extrema importância biológica.

Destaca-se também, como relevante, o primeiro registro confirmado de Chaetomys subspinosus(ouriço-preto), na região de Bandeira, e de Leontopithecus chrysomelas(mico-leão-dacara-dourada) na região de Salto da Divisa, uma vez que ambas as espécies só eram indicadas para Minas com base em relatos de avistamento (Oliver & Santos, 1991; Pinto & Rylands, 1997).

Importantes redescobertas, especialmente no grupo de pequenos mamíferos, merecem ser comentadas, como a presença de Rhagomys rufescens(rato-do-mato-vermelho) encontrado na região de Viçosa. Segundo Percequillo e colaboradores (2004), João Moojen o tinha indicado equivocadamente para Minas Gerais. Apesar de amplamente citada como de ocorrência para o Estado, a R.rufescensnunca tinha sido efetivamente coletada em território

Tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla)

Fotografia: Miguel Aun mineiro. Por essa razão, Viçosa deixou a categoria de importância Potencial e entrou para a categoria de importância biológica Muito Alta neste documento. Já a Phyllomys brasiliensis(ratoda-árvore), considerada extinta na natureza, foi recentemente capturada próximo à cidade de Felixlândia, que, por esse motivo, entrou no novo Atlas como área de importância Potencial para a fauna de mamíferos. Essa espécie era conhecida, até então, apenas pelos exemplares coletados por Peter Lund, no século XIX (Paglia, com. pess.; Leite & Costa, 2002). A ocorrência desses ratos equimídeos (família que inclui as espécies dotadas de pêlos modificados em espinhos), como também a de Carterodon sulcidens, na região da Área de Proteção Ambiental (APA) Carste de Lagoa Santa, faz com que esta área seja categorizada como de Especial importância biológica. As formações de cavernas dessa região proporcionaram um ambiente único de fossilização, e podemos considerá-la, hoje, como a localidade brasileira mais bem conhecida com relação à sua mastofauna passada e presente (Leite & Costa, 2002).

A outra área considerada de Especial importância biológica foi a região de Delfim

Moreira, próximo à região da APA Fernão Dias e do Parque Estadual Serra do Papagaio, por causa da descrição de uma nova espécie de Phylomys, a P.mantiqueirensis(Leite, 2003).

Duas áreas anteriormente definidas como de importância Especial (Jaíba e Peruaçu) mudaram de categoria, sendo agora consideradas de Extrema importância biológica em função do grande número de espécies de mamíferos ameaçados de extinção.

No total foram indicadas 50 áreas prioritárias para a conservação de espécies de mamíferos em Minas. Com relação ao Atlas publicado no ano de 1998, houve um acréscimo de 15 novas áreas prioritárias para a conservação da fauna de mamíferos de Minas Gerais, além de 12 novas sub-áreas, totalizando 74 regiões divididas nas seguintes categorias: duas áreas de Especial importância biológica, 20 áreas de Extrema importância, 16 áreas de importância Muito Alta, 19 de Alta importância e 17 áreas de importância Potencial. No bioma da Caatinga foram definidas duas áreas prioritárias, no Cerrado 25, e na região da Mata Atlântica, 47 áreas, incluindo-se aquelas nas divisas entre os estados de São Paulo, Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro.

Entre as ações emergenciais que visam à conservação das áreas indicadas citam-se, de um modo geral, a criação de Unidade de Conservação, a necessidade de investigação científica, o manejo, a recuperação/reabilitação e a promoção de conectividade entre remanescentes de vegetação.

A criação de UCs favoreceria algumas espécies como o mico-leão-da-cara-dourada

(L.chrysomelas), o rato-da-árvore (P.brasiliensis), o ouriço-preto (C.subspinosus), que não estão representadas em quaisquer das Unidades de Conservação públicas ou privadas do Estado e, portanto, são consideradas espécies com lacuna de proteção.

Assim como o Atlas de 1998, espera-se que este documento seja efetivamente utilizado como uma ferramenta indicadora de qualidade e de ações prioritárias para as áreas nele indicadas. Foi assim que áreas relacionadas na versão anterior, como, por exemplo, áreas localizadas nos vales dos rios Jequitinhonha e Doce, foram mais bem investigadas e ganharam novo statuse proteção. O alto grau de refinamento das informações sobre os principais fragmentos florestais existentes nas referidas bacias permitiu ao IEF e ao Curso de Pós-Graduação em Ecologia, Manejo e Conservação da Vida Silvestre da Universidade Federal de Minas Gerais direcionarem imediatamente o uso de recursos e a aplicação de esforços conservacionistas em tais áreas, que então haviam sido apontadas como de importância para a conservação da fauna de primatas.

Na região dos vales do Mucuri e Jequitinhonha, em função dos trabalhos realizados pelo IEF nos anos de 1999 e 2001, norteados pelo Atlas da Biodiversidade, grupos da herpetofauna e avifauna estão sendo inventariados, resultando, inclusive, em novas descobertas e redescobertas para a ciência, além de estudos na área da botânica. Esses dados estão subsidiando o Estado na indicação de áreas para a criação de Unidades de Conservação, a exemplo da recém-criada Reserva Biológica da Mata Escura, no município de Jequitinhonha. Essa UC foi implementada graças às observações feitas por Melo et al.(2002), que confirmaram uma grande quantidade de espécies da fauna ameaçadas de extinção, incluindo a descoberta de um grupo de muriquis-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) na área.

Melo (2004) reforça a necessidade de estender a experiência do vale do Jequitinhonha para outras regiões de Minas, enfatizando a importância de dados técnicos para subsidiar a criação de novas UCs. Ações como essas representam uma demanda mundial, como uma garantia de se preservarem ecossistemas tão ameaçados e sua biota associada (Bruner et al., 2001). Unidades de Conservação, de maneira ampla, correspondem a ações centrais em estratégias conservacionistas. Acredita-se que tanto a criação de novas UCs quanto a implementação de UCs já decretadas serão, de fato, a solução de longo prazo na conservação da biodiversidade mineira e, certamente, de outras regiões tropicais do mundo (Bruner et al., 2001).

1Região de Manga / Missões 2Parque Nacional Grande Sertão Veredas 3Serra das Araras - Veredas do Acari 4Veredas de Januária 5Vale do Rio Peruaçu 6 Jaíba 7Região de Grão-Mogol / Janaúba 8Mata de Cipó 8.1Laje Branca 9 Jequitinhonha 9.1Reserva Biológica da Mata Escura 9.2 Limoeiro 9.3São Simão 9.4Região de Felisburgo 10Região de Bandeira / Mata Verde 11Região de Salto da Divisa 12Região de Jacinto 13 Cariri 14São Miguel 15Veredas do Cotovelo / Paracatu 15.1Fazenda Brejão 16Região de Bocaiúva 17Veredas de Botumirim 18Parque Estadual do Acauã 19Região de Teófilo Otoni 20Região de Buritizeiros / Pirapora 21Área de Proteção de Pau da Fruta 22Águas Vertentes / Rio Preto 2.1Parque Estadual do Rio Preto 2.2Pico do Itambé 23Região de Itamarandiba 24Região de Coroaci 25Região de Governador Valadares 26RPPN Vereda Grande 27Região de Felixlândia 28Serra do Cipó 29Vertente Leste do Espinhaço 30Entorno do Parque Estadual Sete Salões

30.1Parque Estadual Sete Salões 31Entorno do Parque Estadual do Rio Doce 31.1Parque Estadual do Rio Doce 31.2Região de Pingo D'água 31.3Região de Entre Folhas 31.4Serra de Marliéria 32Complexo Caratinga / Simonésia 32.1RPPN Feliciano Miguel Abdala 32.2RPPN Mata do Sossego 33Região de Mutum 34Complexo Caparaó 34.1Parque Nacional do Caparaó 34.2Pedra Dourada 35Serra do Brigadeiro 35.1Parque Estadual da Serra do Brigadeiro 36Complexo Caraça / EPDA Peti 36.1RPPN Caraça 36.2EPDA Peti 37Região de Viçosa 38Complexo do Itacolomi / Andorinhas 39Serra do Rola Moça 40Serra Azul / Rio Manso 41Região do Carste de Lagoa Santa 41.1APA Carste de Lagoa Santa 42Região de Prata 43Região de Uberlândia 44RPPN Galheiros 45Complexo Serra da Canastra 45.1Parque Nacional Serra da Canastra 46Região de Arco / Pains / Doresópolis 47Região de Poços de Caldas 48Complexo da Mantiqueira 48.1Parque Nacional do Itatiaia / Parque

Estadual Serra do Papagaio 48.2Região de Delfim Moreira 49Região de Camanducaia 50Parque Estadual do Ibitipoca

1Região de Manga / MissõesPotencial 2Parque Nacional Grande Sertão VeredasExtrema 3Serra das Araras / Veredas do AcariPotencial 4Veredas de JanuáriaPotencial 5Vale do Rio PeruaçuExtrema 6 Jaíba Extrema 7Região de Grão-Mogol / Janaúba Potencial 8Mata de Cipó Alta 8.1Laje Branca Extrema 9Jequitinhonha Potencial 9.1Reserva Biológica da Mata Escura Extrema 9.2Limoeiro Extrema 9.3São Simão Alta 9.4Região de Felisburgo Alta 10Região de Bandeira / Mata Verde Muito Alta 11Região de Salto da Divisa Extrema

12Região de Jacinto Muito Alta 13Cariri Extrema 14São Miguel Muito Alta 15Veredas do Cotovelo / Paracatu Muito Alta 15.1 Fazenda Brejão Extrema 16Região de Bocaiúva Alta 17Veredas de Botumirim Extrema 18Parque Estadual AcauãPotencial 19Região de Teófilo Otoni Potencial 20Região de Buritizeiros / Pirapora Extrema 21Área de Proteção de Pau da Fruta Potencial 22Águas Vertentes e Rio Preto Potencial 2.1Parque Estadual do Rio Preto Muito Alta 2.2Pico do Itambé Alta 23Região de Itamarandiba Potencial 24Região de Coroaci Alta 25Região de Governador Valadares Potencial

26RPPN Vereda Grande Alta 27Região de Felixlândia Potencial 28Serra do Cipó Extrema 29Vertente Leste do Espinhaço Potencial 30Entorno do Parque Estadual Sete SalõesPotencial 30.1Parque Estadual Sete Salões Muito Alta 31Entorno do Parque Estadual do Rio DoceAlta 31.1Parque Estadual do Rio Doce Extrema 31.2Região de Pingo D'água Muito Alta 31.3Região de Entre Folhas Muito Alta 31.4Serra de Marliéria Muito Alta 32Complexo Caratinga / Simonésia Alta 32.1RPPN Feliciano Miguel Abdala Extrema 32.2RPPN Mata do Sossego Muito Alta 33Região de Mutum Potencial

34Complexo Caparaó Muito Alta 34.1Parque Nacional do Caparaó Extrema 34.2Pedra Dourada Extrema 35Serra do Brigadeiro Alta 35.1Parque Estadual da Serra do Brigadeiro Extrema

Relação das áreas indicadas para a conservação dos mamíferos de Minas Gerais

Número da Área

Nome da ÁreaCategoriaRecomendações Pressões

Antrópicas

36Complexo Caraça / EPDA PetiAlta 36.1RPPN CaraçaMuito Alta 36.2EPDA PetiMuito Alta 37Região de Viçosa Muito Alta 38Complexo do Itacolomi / Andorinhas Alta 39Serra do Rola Moça Alta 40Serra Azul / Rio Manso Alta

41Região do Carste de Lagoa Santa Alta 41.1APA Carste de Lagoa Santa Especial 42Região de Prata Alta 43Região de Uberlândia Potencial 44RPPN Galheiros Extrema

45Complexo Serra da Canastra Alta 45.1Parque Nacional Serra da Canastra Extrema 46Região de Arco / Pains / DoresópolisPotencial 47Região de Poços de Caldas Alta 48Complexo da Mantiqueira Muito Alta 48.1Parque Nacional do Itatiaia / Parque Extrema

Estadual Serra do Papagaio 48.2Região de Delfim Moreira Especial

49Região de Camanducaia Muito Alta 50Parque Estadual do Ibitipoca Alta

Número da Área

Nome da ÁreaCategoriaRecomendações Pressões

Antrópicas

Consulte legenda dos ícones desta tabela na orelha da página 202.

Recomendações

Educação ambiental Fiscalização Inventários Monitoramento Plano de manejo Promover conectividade Recuperação Regularização fundiária Unidades de Conservação

Pressões Antrópicas

Agropecuária e Pecuária Agricultura Assoreamento Barramento Caça Desmatamento Espécies exóticas invasoras Expansão urbana Extração de madeira Extração vegetal Isolamento Mineração Monocultura Pesca predatória Piscicultura Queimada Turismo desordenado

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