Adiministração

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Perspectivas da economia dos Estados Unidos: um olhar a partir da história econômica recente (1980-2004)

Enquadramento JEL F02, E66, E22

Vitor Eduardo Schincariol

Departamento de Economia –

Universidade Federal de Alagoas Doutorando em História Econômica pelo DH-FFLCH-USP

A atual crise no sistema financeiro dos Estados Unidos pode ser enfocada a partir dela mesma ou pode ser vista num âmbito mais global, que a veja como parte de um todo. Como se sabe, a crise remete a um excesso de empréstimos de alto risco, ligados ao financiamento de residências, que culminou num amontoado de empréstimos não pagos. O acúmulo de empréstimos não pagos propagou-se entre as casas de crédito potenciando uma crise de liquidez sistêmica. O Fed interveio, liberando recursos às empresas com capital mais comprometido. As autoridades também preparam favorecimentos fiscais às famílias e um plano para reestruturação do sistema financeiro que aponta, depois de anos de “farra” liberalizante, para mais regulação novamente. Como observa The Economist, “Americas plan to put out blazes in the credit markets

[signs that] regulation needs to catch up with innovation”. 1 A seqüência de falências, com perdas bilionárias para os investidores inclusive estrangeiros, expressam: (a) o endividamento externo da economia; (b) a dificuldade em superar-se a crise com meras políticas monetárias,

De fato, o sistema financeiro norte-americano é tão extenso que uma crise sistêmica é sempre uma possibilidade latente, principalmente depois da liberalização pela qual as transações financeiras passaram na última década. Porém, argumenta-se neste texto que, mesmo a resolução da crise não pode pôr a economia dos Estados Unidos numa rota de rápido crescimento, devido ao comportamento subjacente das variáveis macroeconômicas principais. A taxa de lucro nos setores da economia “real” estão estagnadas desde a crise de 2001; a taxa de poupança das famílias está beirando seu limite; os déficits federais também estão altos, e financiando duas agressões externas (Afeganistão e Iraque).

Portanto, as atuais chances de a economia manter algum crescimento maior residem em: (a) uma elevação sustentada da taxa de lucro nos setores manufatureiros, o que impulsionaria elevações do investimento agregado dos setores privados, empurrando à frente o consumo e a arrecadação do Estado; (b) uma redistribuição da renda que permita um aumento do consumo das famílias mais pobres, mediante uma diminuição da propensão a poupar média da economia; (c) um aumento ainda maior do endividamento externo, que, facilitando o crédito às empresas, ao Estado e às famílias, permitiria obter crescimento à custa de um aumento ainda mais acentuado da taxa de endividamento externo.

A elevação sustentada das taxas de lucro nos setores manufatureiros depende fundamentalmente da relação salários/lucros. Em todas as flutuações da economia a partir dos anos (19)80, as variações da taxa de produção nos setores não-agrícolas, tal como informa o Economic Report of the President de 2008, tem sido bastante intensas, contrariamente às variações do salário real nos setores não-agrícolas. De fato, mesmo que nas variações negativas do PIB as flutuações da produção sejam mais acentuadas,

1 “O plano dos Estados Unidos para apagar as chamas nos mercados de crédito aponta que a regulação tem de coadunar-se com a inovação.” The Economist, “Dousing the fire”. 14.03.2008. Disponível em: w.economist.com /.

estas perdas são mais que compensadas pelas ascensões. O comportamento da variação dos salários é bem mais estável e, com exceção do período da ascensão induzido pela “bolha” que explodiu em 2001, tem suas variações bem mais achatadas que os níveis de produção. Em tempo: entre 1970 e 2004, a soma das variações dos níveis de produção chega a 42,5%, enquanto que as dos níveis de produção a 119%.

Assim, à luz de tal estabilidade duradoura da relação lucros/salários, é improvável que se possam esperar maiores induções negativas significativas ao poder dos salários reais, o que necessariamente conduzirá as taxas de lucro ao atual estado de estagnação nos setores “reais”. O fato de a economia não ter apresentado um crescimento historicamente maior que o verificado antes da década de (19)70, não obstante esta relação ao longo dos últimos trinta anos ter sido bastante favorável às taxas de lucro em detrimento dos salários, mostra que os capitais terão cada vez mais que desenvolver a técnica como meio de elevar a taxa de lucro. Todavia, a taxa de lucro global baixará à medida que tais técnicas se difundirem por todo o sistema. Neste sentido, não deixa de ser curioso que no mesmo período em que tenha ocorrido uma grande revolução técnica nos modos de produzir (a revolução da microeletrônica ou a assim chamada “Terceira Revolução Industrial”), as taxas de crescimento do PIB no período tenham sido, vistas sob o longo prazo, menores. Evidentemente, a revolução tecnológica é uma própria reação à queda da lucratividade nos centros do sistema.

Pode-se afirmar que os ganhos corporativos à custa dos salários não permitiram aumentos contínuos da taxa de lucro nos setores industriais, a troco de a economia ter crescido muito mais na situação oposta. O gráfico abaixo é outra maneira de ver isto. A própria massa dos lucros real caiu ao longo dos anos oitenta nos manufaturados, e mesmo durante o boom dos anos noventa não tinha recuperado ainda o montante atingido antes da crise do petróleo (1974-79). O fato de que os setores financeiros têm tido ganhos continuamente maiores indica a dificuldade das inversões crescentemente lucrativas nos ramos industriais. A economia paira numa situação de “maturidade” onde a taxa de lucro nas indústrias não se eleva mais com facilidade, o que contribui para a diversificação dos investimentos em outros setores, exportação de capital, e crescimento menor.

Variação do salário realProdução

Gráfico 1. Estados Unidos. Variações da produção nos setores não-agrícolas e dos salários reais por hora. Fonte: apêndice estatístico do Economic Report of the President, 2008.

Manufatureiros Financeiros Serviços

Gráfico 2. Estados Unidos. Lucros deflacionados (1980) nos setores manufatureiros, de serviços e financeiros, entre 1971 e 2001. Em milhões de dólares. Fonte: apêndice estatístico do Economic Report of the President, 2008.

Não se pode esperar das variáveis agregadas de consumo e déficits públicos do governo federal um desempenho mais significativo do que aquele que já têm tido. Desde que a economia tornou-se devedora líquida do exterior, durante a primeira administração de Ronald Reagan (1981-1984), ambas variáveis puderam se comportar de modo muito mais “flexível”, com acento particularmente grande para os gastos das famílias. A perenidade da entrada de capitais estrangeiros na economia tem servido tanto (1) à compra de títulos do Tesouro Norte-Americano como (2) base ao financiamento do consumo das famílias alicerçado num crescente endividamento. Assim, com o crescimento do financiamento externo dos gastos do Estado e das famílias, há mais espaço para a manutenção das taxas de investimento, pressionando relativamente menos as taxas de juros. Esta é uma vantagem importante da economia atribuída à posição de sua moeda no mundo.

1984 144,1 1994 201,9 1985 152,6 1995 184,9 1986 169,9 1996 116 1987 132,6 1997 16,7 1988 116,6 1998 -90,8 1989 109,3 1999 -154 1990 164,8 2000 -239,4 1991 217,9 2001 -51,5 1992 296,7 2002 282,1 1993 272,6 2003 392,5

Tabela 1. Estados Unidos. Déficits do governo federal, em bilhões de dólares correntes. Fonte: Economic Report of the President, 2006. Sinais negativos indicam superávits.

Uma revolução tecnológica ainda maior dos meios de produção poderia dar lugar a uma nova rodada de investimentos que fizesse com que as taxas de lucro nos setores produtivos aumentassem a ponto de desviar os recursos excedentes dos investimentos “financeirizantes”. Esta revolução da técnica, que poderia ser centrada na “nanotecnologia”, poderia baratear radicalmente os custos de produção, principalmente os custos energéticos, com eliminação do petróleo como a base energética principal dos atuais sistemas produtivos, em favor, por exemplo, de um aproveitamento ainda maior da luz solar. 5

Gráfico 3. Estados Unidos. Taxa de poupança líquida das famílias (%) como porcentagem da renda disponível. Fonte: OCDE.

Os oligopólios do petróleo não se interessam, porém, por estas transformações.

Daí que enquanto sua representatividade política permanecer decisiva, estas mudanças serão retardadas – quer dizer, o apoio ao desenvolvimento de novas técnicas não terá tanto apoio dos governos e corporações como teriam no caso de uma escassez iminente do petróleo e derivados. Em todo caso, a levar-se a sério a teoria das ondas longas de Kondratiev, necessitar-se-ia de uma revolução tecnológica para dar vazão a mais um período de vinte e sete/oito anos de crescimento sustentado da economia norteamericana, com começo datado aproximadamente para o início do século X.

Este é um ponto interessante de discussão da história econômica recente centrado nas idéias de Kondratiev. Poder-se-ia argumentar que um novo ciclo já se estabeleceu, e que este está centrado na China. Porém, como contra-argumento, poderse-ia afirmar que um novo ciclo de Kondratiev deve-se basear-se precipuamente na aplicação de tecnologias produtivas inovadoras, e não nas que se já conhecem.

Ativos Estrangeiros nos EUA PIB Linear (PIB) Linear (Ativos Estrangeiros nos EUA)

Gráfico 4. Estados Unidos. Ativos estrangeiros totais na economia dos Estados Unidos e PIB. Em bilhões de dólares correntes. Fonte: Economic Report of the President, vários anos (1984-2008).

À luz do que foi observado acima, pode-se afirmar que as perspectivas de crescimento da economia dos Estados Unidos – excetuadas punções positivas nas taxas de lucro vindas de (i) um rebaixamento ainda maior dos salários ou (i) de revoluções técnicas no modo de produzir – deveriam basear-se em três modos principais: (a) inversões do excedente no complexo industrial-militar; (b) redistribuição da renda para grupos com maior propensão ao consumo potencial; (c) aumento do endividamento externo.

Gráfico 5. Estados Unidos. Variações dos níveis de produtividade nos setores nãoagrícolas (Output per hour of all persons). Fonte: Economic Report of the President, 2008.

Novas agressões a países periféricos criariam uma demanda efetiva adicional que tornaria viável novas inversões no complexo industrial-militar, que por sua vez aumentariam produção e emprego. Sem esta demanda efetiva adicional por meio da guerra, não se elevam os investimentos no setor militar – não se dá o “efeito acelerador”. Na ausência da guerra, as corporações militares investem de modo financeiro ou simplesmente poupam, o que é ruim para o comportamento global da economia. É especialmente significativa a criação da demanda efetiva por aumentos dos déficits federais com o setor militar, porque vantagem da guerra é que tais gastos podem gerar demanda efetiva com limites não determinados pela capacidade de consumo doméstico. Com isto, a utilização de poupança inativa pelos déficits e pelos próprios investimentos corporativos é potencializada, diferentemente do aumento do consumo baseados nos setores onde há marcos mais estreitos de capacidade de demanda (vestuário, alimentos, automóveis).

Quanto a (b), trata-se de componente clássico das políticas keynesianas. Porém, aumentar o consumo via aproveitamento das maiores margens da propensão a consumir dos setores mais pobres parece estar fora de cogitação nas políticas dos administradores, que preferem a via da extensão do crédito ao consumo e favorecimentos às corporações, mediante amplos déficits fiscais. Ainda que esta opção de política eleve as pressões por maiores crises financeiras, ela se apresenta politicamente mais coadunada com o regime de forças existente no país. Logo, não é um componente de expansão da economia factível dentro do espectro político existente hoje. O mesmo não se passa com a continuidade do endividamento externo.

À luz do comportamento histórico-econômico dos principais agregados da economia norte-americana, pode-se afirmar que são poucas as chances de que a rota da “reprodução simples” seja debelada. Mesmo superada a crise atualmente em curso, evitando-se o colapso das casas de crédito e do próprio sistema de financiamento do investimento e consumo domésticos, a economia depara-se com um comportamento extenuado das principais variáveis macroeconômicas que permitiriam obter mais crescimento. Quais sejam:

a) A taxa de lucro nos setores industriais continua estagnada, não obstante as constantes defasagens dos salários face aos lucros; b) A poupança agregada das famílias vem caindo continuamente, desde que o país se tornou devedor internacional. Os déficits federais vêm elevando-se continuamente desde 2001. De fato, a poupança agregada do país vem sendo negativa desde 1981, aumentando-se anualmente a necessidade de influxos de capital. Trata-se, pelo lado da poupança agregada, de um “keynesianismo elevado à enésima potência”. Logo, o único modo de dinamizar ainda mais a poupança é transferir poder de compra para os setores mais pobres, o que se avizinha muito improvável. c) Estagnada a taxa de lucro nos setores da “economia real”, à economia restam três opções para debelar a tendência à estagnação: (i) a abertura de um novo ciclo de reprodução ampliada baseado no crescimento da taxa de lucro nos setores produtivos mediante aplicações lucrativas de novas técnicas produtivas – o que se poderia chamar de um novo ciclo ascendente de Kondratiev; (i) uma nova rodada de agressões militares a outros países periféricos, que se avizinha politicamente difícil, mas não impossível, no cenário atual; (i) a continuidade do endividamento externo, que possibilita aumentos absolutos no consumo das famílias, do Estado e facilita os investimentos corporativos.

Ronald I. McKinonn, professor em Stanford, explica a lógica do endividamento externo no artigo Government Deficits and Desindustrialization of America:

“The United States is the worlds champion borrower in international markets. Foreign central banks, which hold more than half of the outstanding stock of U.S. Treasury bonds, have become the principal source of finance for the federal governments bourgeoning fiscal deficits – about 4 percent of gross domestic product (GDP) in 2004. Besides this massive government dissaving, meager saving by American households forces U.S. corporations also to borrow abroad to supplement finance for domestic investment. Thus dollar earnings by foreigners selling exports to the United States that would normally be used to buy American goods and services are being diverted and used to buy Treasury bonds instead. The upshot is todays current account deficit of more than $600 billion per year, a measure of overall net borrowing from foreigners amounting to almost 5.5 percent of U.S. GDP. Heavy foreign borrowing and associated trade deficits began in earnest in the 1980s, and so today Americas cumulative net foreign indebtedness is 30 percent of GDP and rising fast.” 2

O endividamento externo como solução parcial à tendência à estagnação, porém, traz implícita uma fragilidade crescentemente grande do poder liberatório do dólar, na medida em que os níveis de aceitação da relação dívida/PIB dos investidores estrangeiros tendam a cair. Caso a atual queda do dólar se reflita de vez numa fuga para outros ativos (inclusive outras moedas), os Estados Unidos terão de interromper a lógica do crescimento baseado no endividamento externo. No curto prazo, isto causaria recessão profunda e uma enorme necessidade de reorganização da economia para seu crescimento com base na poupança doméstica. Isto inevitavelmente provocaria um vagar ainda maior do andamento da economia, tal como no Japão e na Alemanha.

2 Ronald MCKINNON, The Economists Voice – Top economists take on todays problems, p.101. 10

Não é certo, porém, o modo pelo qual as autoridades lidarão com o problema do endividamento. Uma reorganização com base apenas em previsões certamente teria dificuldades em desmontar a lógica do crescimento com base no endividamento, dado que quanto menor o endividamento, menor a taxa de crescimento. Ela certamente fracassaria. Não se descarta, com isso, que uma crise do dólar obrigue as autoridades à condução de medidas que, na ausência da crise, mostrar-se-iam insustentáveis.

Enquanto não se dá o desfecho para a situação crescentemente instável, o país desfruta de recursos maiores do que os que de fato produz, o que sustenta um nível de riqueza sem precedentes na história moderna. Neste sentido, mesmo um crescimento limitado torna-se mais fácil de ser administrável, dada a farta disponibilidade de capital vindo de fora e níveis de crescimento demográfico tendentes a zero.

Fontes de dados

BEA – Bureau of Economic Analysis: http://bea.gov BLS – Bureau of Labor Statistics: http://bls.gov Bureau of the Census: http://censu.gov FMI – Fundo Monetário Internacional: http://www.imf.org OCDE – Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico: http://stats.oecd.org

Sugestões de leitura

1999. Disponível em http://homepage.newschool.edu/~AShaikh/

KRUGMAN, Paul. A desintegração americana. Os Estados Unidos perdem o rumo no século XXI. Rio de Janeiro: Editora Record. 2006. SHAIKH, Anwar. Explaining the Global Crisis. New School University. Dezembro de STIGLITZ, Joseph E., EDLIN, Aaron S. e De LONG, J. Bradfor. The Economists Voice – Top economists take on todays problems. New York: Columbia University Press. 2008.

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