Mansfield Park

Mansfield Park

(Parte 1 de 8)

MANSFIELD PARK – JANE AUSTEN Tradução de Rachel de Queiroz

CAPÍTULO 1

Há cerca de trinta anos, Miss Maria Ward, de Huntingdon, com o minguado dote de sete mil libras, teve a felicidade de cair nas graças de Sir Thomas Bertram, senhor do solar de Mansfield Park, em Northamton, e dessa forma erguer-se à posição de dama nobre com todos os confortos e privilégios de uma bela casa e enorme renda. Toda a cidade de Huntingdon comentou a suntuosidade da união, e o seu tio, advogado, habilmente, tratou de passar para o seu próprio nome no mínimo três mil libras. Maria tinha duas irmãs que deveriam lucrar com a sua elevação de nível social; pelo menos assim pensavam suas relações, que não hesitaram em predizer para Miss Ward e Miss Frances, tão bonitas quanto Maria, casamentos com as mesmas vantagens. Acontece, porém, que não há no mundo tantos homens ricos quantas mulheres bonitas que os mereçam. Miss Ward, ao fim de seis anos, viu-se obrigada a casar com o Reverendo Mr. Norris, amigo de seu cunhado, quase pobre, e Miss Frances teve ainda pior sorte. O casamento de Miss Ward, na verdade, não poderia dizer que fosse dos piores: Sir Thomas de boa vontade veio em auxílio do amigo, que passou a viver em Mansfield; assim foi que o casal Norris iniciou a sua feliz carreira conjugal com pouco menos de mil libras por ano. Miss Francês, entretanto, casou-se, como se diz, para contrariar a família, com um tenente da marinha, sem educação, sem fortuna e sem relações. Não poderia ter feito pior escolha. Sir Thomas Bertram, não só por princípio como por orgulho – num desejo natural de proceder bem e de ver acomodadas todas as coisas que se relacionassem consigo, quis ajudar a irmã de sua mulher; mas a profissão do marido dela anulava qualquer tentativa e antes mesmo de ele chegar a planejar outros meios de auxiliá-los, deu-se uma séria desavença entre as irmãs. Resultou isto de procedimento de ambas as partes, como geralmente acontece por causa de tais casamentos. Para evitar exprobrações inúteis a Mrs. Price nunca tocou no assunto com a família senão depois de já estar casada. Lady Bertram, que era muito calma, de temperamento acomodado e indolente, preferiu não pensar mais na irmã e esquecer o caso; Mrs. Norris, mais impetuosa, não se contentou enquanto não escreveu a Fanny (Frances?) uma longa carta em que censurava a loucura de seu procedimento e lhe vaticinava todas as suas possíveis más conseqüências. Mrs. Price, por sua vez, sentiu-se ofendida e zangou-se; a resposta, cuja aspereza atingia a cada uma das irmãs, e se refletia com tal desrespeito no orgulho de Sir Thomas que Mrs. Norris não a pôde ocultar, pôs termos a todas as relações entre elas por longo tempo.

Suas casas eram tão distantes e os círculos em que se moviam tão à parte, que, durante os onze anos seguintes, quase nunca tiveram notícias da existência uns dos outros, e era mesmo de estranhar que Mrs. Norris tivesse meios de informá-los, como de vez em quando informava, que Fanny tinha tido outro filho. No fim de onze anos, porém, Mrs. Price viu que não estava em condições de manter orgulhos e ressentimento nem perder uma ligação que lhe poderia ser útil. A família numerosa e ainda em vias de aumentar, o marido incapaz para o trabalho, dado às más companhias e a bebidas, e a insuficiência de meios para atender as suas necessidades, fizeram com que ela ansiosamente desejasse reaver os amigos que tão facilmente desprezara; escreveu, então, a Lady Bertram uma carta em que demonstrava tanta contrição e abatimento, tanta miséria e tanta necessidade de tudo, que todos se sentiram dispostos à reconciliação. Estava se preparando para o nono parto; depois de lamentar sua situação e lhes implorar que aceitassem como afilhada a criança que ia nascer, não pôde ocultar a importância que os Bertram poderiam ter na futura manutenção dos seus oito filhos já existentes. O primeiro filho, que estava com dez anos, era um menino de belo caráter e que desejava muito viajar pelo mundo; mas que poderia ela fazer? Não haveria alguma oportunidade, mais tarde, de ser ele útil a Sir Thomas em alguma de suas propriedades na Índia? Qualquer situação lhe serviria; ou quem sabe se Sir Thomas não preferiria Woolwich; ou então como poderia ele ir para o Oriente?

A carta surtiu efeito. Restabeleceu paz e amizade. Sir Thomas deu amáveis conselhos sobre a profissão do rapaz. Lady Bertram remeteu dinheiro e roupas de criança e Mrs. Norris escreveu as cartas.

Mas não ficou tudo nisso, pois dentro de doze meses essa carta ainda resultou em maiores benefícios para Mrs. Price. Mrs. Norris estava sempre dizendo que não podia esquecer a pobre irmã e sua família e que, apesar de tudo que eles todos já tinham feito, ele ainda queria fazer mais alguma coisa; finalmente confessou que desejava aliviar inteiramente Mrs. Price do encargo da despesa de um de seus numerosos filho.

- Que tal se eles tomassem conta da filha mais velha que agora estava com nove anos, em idade que necessitava de mais atenção do que a que a pobre mãe lhe poderia dar? O trabalho e a despesa para eles não representavam nada comparados com a bondade da ação. Lady Bertram concordou imediatamente. – Creio que não poderíamos fazer nada melhor, disse ela, vamos mandar buscar a menina.

Sir Thomas não deu consentimento com tanta facilidade. Debateu o assunto, hesitou: era um compromisso sério; uma menina já tão crescida necessitava de cuidados especiais, do contrário era antes crueldade do que benefício tirá-la da família. Pensou nos seus próprios quatro filhos, nos dois rapazes, imaginou namoros futuros, etc.; mas todas as suas objeções eram interrompidas por Mrs. Norris, com argumentos para todas elas, embora com ou sem razão.

- Meu caro Sir Thomas, compreendo-o perfeitamente e faço justiça à generosidade e à delicadeza de seus sentimentos, que, na verdade, não diferem de sua conduta em geral; e estou inteiramente de acordo com você quanto à necessidade de se fazer tudo o que é possível pela criança de que nos encarregarmos; estou certa de que eu seria a última pessoa no mundo a por obstáculos em tal ocasião. Já que não tenho filhos, de quem hei de me encarregar senão dos filhos de minhas irmãs? E tenho certeza de que meu marido é bastante justo - mas você sabe que eu sou de poucas palavras e poucos meios. Por causa de uma ninharia não vamos deixar de fazer uma boa ação. Educaremos a menina, introduzi-la-emos convenientemente na sociedade e com toda probabilidade ela achará os meios de se arranjar na vida de modo a não pesar sobre mais ninguém. Uma sobrinha nossa, Sir Thomas, posso dizer, ou antes, uma sobrinha sua não poderá deixar de ter grande vantagem vivendo neste ambiente. Não quero dizer que ela seja tão bonita quanto suas primas; ouso mesmo dizer que não; mas desde que fosse apresentada a nossa sociedade em circunstâncias assim favoráveis, nada impediria que viesse mais tarde a ter uma situação digna. Você está pensando em seus dois filhos; mas não sabe que “isto” é justamente o que não poderá acontecer, se forem criados como serão, sempre juntos, como irmãos? É moralmente impossível. Nunca houve um exemplo disso. É, aliás, a melhor maneira de evitar tais situações. Suponhamos que ela venha a ser uma pequena bonita e que Tom e Edmund a vejam pela primeira vez daqui a sete anos; sou capaz de apostar em que haveria aborrecimentos. A simples lembrança do que ela havia sofrido distante de todos nós, no meio da pobreza e do esquecimento, seria o bastante para qualquer um dos dois se apaixonar pela pequena, sendo eles meigos como

- Há uma grande verdade no que você diz, respondeu Sir Thomas, e longe de mim

são. Agora, crie-a junto dos rapazes desde já e mesmo supondo que ela fique tão bela como um anjo, nunca será para eles mais do que uma irmã. trazer impedimentos a um plano que só poderá resultar em benefícios para as situações de cada um. Quero apenas observar que o caso não deve ser tomado levianamente e que, para que o ato seja realmente útil a Mrs. Price e digno de nós, devemos assegurar um meio de vida futuro à criança, ou nos considerarmos obrigados a assegurá-lo mais tarde, pois tudo pode acontecer, caso não se apresentem as possibilidades de matrimônio que você espera com tal confiança.

- Compreendo-o perfeitamente, exclamou Mrs. Norris: O senhor é todo generosidade e bom senso e eu creio que não estaremos em desacordo neste ponto. Tudo que eu puder, como o senhor bem sabe, estou sempre pronta a fazer pelo bem daqueles a quem amo e embora nunca possa sentir por essa menina a centésima parte da afeição que tenho pelos seus filhos, nem considerá-la, de qualquer modo, como minha própria filha, odiar-me-ia se a descuidasse. Não é ela filha de minha irmã? E poderia eu suportar que passe fome enquanto eu tenha um último pedaço de pão para lhe dar? Meu caro Sir Thomas, apesar de todas as minhas faltas tenho bom coração; e embora pobre, mais facilmente me privaria de minhas necessidades, do que deixaria de praticar uma ação generosa. Portanto, se o senhor não se opõe, escreverei amanhã à minha pobre irmã e lhe farei a proposta; e logo que fique resolvido, eu mesma providenciarei para trazer a criança a Mansfield; vocês não precisarão incomodar-se. Minhas dificuldades, o senhor sabe, nunca as levo em conta. Mandarei Nanny a Londres e lá ela arranjará dormida em casa de um seleiro que é primo dela e onde a criança lhe poderá ser entregue. De Portsmouth para a cidade eles poderão facilmente mandá-la de carro em companhia de qualquer pessoa honrada que por acaso venha de lá. Em geral há sempre uma senhora respeitável, mulher de algum comerciante que vai a Londres.

Excluindo a oposição ao primo de Nanny, Sir Thomas não fez mais objeções e uma vez substituído o plano do encontro por um outro mais digno embora menos econômico, tudo se arranjou, ficando todos desde logo na agradável expectativa da realização do projeto. Aquela lisonjeira sensação, porém, não deveria, por justiça, ser dividida igualmente; pois Sir Thomas estava sinceramente resolvido a tomar sob sua inteira proteção a criança eleita, enquanto que Mrs. Norris não tinha a menor intenção de fazer qualquer despesa para mantê-la.Desde que se tratasse de movimentar, falar e combinar planos ela estava sempre pronta e ninguém, melhor que ela, sabia recomendar liberalidade aos outros; seu amor ao dinheiro era tão forte quanto a vontade de mandar e quando se tratava de despesas sabia muito bem guardar o seu para gastar o dos amigos. Tendo o casamento lhe proporcionado renda muito menor do que esperava, determinou, de início, que necessitava por em prática a mais estrita economia, e aquilo que começara por prudência logo se transformou numa questão de vontade. Se ela tivesse filhos, decerto nunca poderia ter economizado; mas já que não tinha essa preocupação, nada havia que a impedisse de ser sóbria ou que diminuísse o prazer de aumentar anualmente a renda que nem chegavam a gastar. Sob a influência deste princípio, levando-se em conta a pouca afeição que tinha à irmã, era de se esperar que ela não pretendesse mais do que o crédito de haver projetado e arranjado uma tão dispendiosa caridade; no entanto talvez nem ela mesma o soubesse, tanto assim que ao voltar para o Presbitério, depois dessa conversa, sentia-se muito feliz com a impressão de ser a irmã e a tia mais liberal do mundo.

Quando novamente discutiram o assunto, porém, ficou inteiramente explicada a sua maneira de pensar pois tendo Lady Bertram perguntado “para onde deverá a cirança ir de início, para a sua ou para minha casa?”, Sir Thomas ouviu surpreso que Mrs.

Norris se declarava absolutamente impossibilitada de cuidar pessoalmente da criança. Ele supunha, como é natural, que a criança seria recebida com alegria no Presbitério e que a tia , que não tinha filhos, a consideraria uma companheira agradável para seus dias; estava, porém, bem enganado. Mrs. Norris sentia muito dizer que o fato da menina ir morar com eles, pelo menos no momento, estava inteiramente fora de suas cogitações. Era impossível, dado o estado de saúde do pobre Mr. Norris; ele, coitado, não poderia mais suportar o barulho que a criança com certeza faria; se um dia ele ficasse bom da gota de que estava sofrendo tanto, então seria diferente; ela ficaria muito contente em poder cumprir a sua parte no compromisso e não se queixaria do incômodo; mas justamente agora seu pobre marido lhe tomava a maior parte do tempo e ela estava certa de que a simples menção de tal coisa o iria atormentar.

- Então é melhor que ela venha para nossa casa, disse Lady Bertram com a maior calma. – Depois de um momento Sir Thomas acrescentou com dignidade: - Sim, que o seu lar seja esta casa. Procuraremos cumprir nosso dever para com essa criança e aqui ela terá, ao menos, a vantagem de ter companheiros da mesma idade e uma preceptora permanente.

- Muito certo, exclamou Mrs. Norris, são duas razões muito importantes; e para

Lady Bertram não fez oposição.

Miss Lee será o mesmo se ela tiver três meninas para ensinar em vez de duas – não há a menor diferença. Só desejaria poder ser mais útil; mas vocês vêem que eu faço tudo o que posso. Não sou dessas pessoas que se poupam de trabalhos, e embora me seja bastante inconveniente dispensar minha principal empregada por três dias, Nanny a irá buscar. Suponho, minha irmã, que a menina possa ficar no quartinho branco do sobrado, ao lado do antigo quarto das crianças. Será muito melhor para ela, pois ficará perto de Miss Lee e não muito distante das meninas; e ainda com a vantagem de estar ao lado das empregadas que poderão ajudá-la a vestir-se, não é? E cuidar das roupas dela, pois acredito que você não conte com Ellis para olhar por ela ao mesmo tempo que as outras. Na verdade não vejo outro lugar mais adequado.

- Espero que ela seja uma menina de boa índole, continuou Mrs. Norris, e reconheça a sorte extraordinária que lhe oferece uma tal amizade.

Se a índole dela for realmente má, continuou Sir Thomas, não poderemos, para o bem de nossos próprios filhos, conservá-la em casa; mas não há razão para se esperar uma tal desgraça. Por força teremos muito que corrigir nela e devemos nos preparar para encontrar uma total ignorância, muita baixeza de sentimentos, muita vulgaridade de maneiras; esses defeitos, porém, não são incuráveis; nem tampouco, espero, constituirão perigo para as outras crianças. Se minhas filhas tivessem menos idade do que ela, eu consideraria a aproximação de tal companheira como uma séria ameaça para elas; mas assim como é, tenho esperança de que nada tenhamos a temer por minhas filhas e sim que dessa aproximação só resulte benefício para a pequena.

- Só desejo que ela não atormente meu pobre cãozinho, disse Lady Bertram. Ainda

- É justamente o que eu penso, exclamou Mrs. Norris, e o que estive dizendo a meu marido esta manhã. O fato de viver junto das primas, disse eu, já é uma educação para a criança; e mesmo que Miss Lee não lhe ensinasse nada, ainda assim ela aprenderia com as outras a ser boa e ajuizada. há pouco precisei dizer a Julia que o deixasse em paz.

- Temos ainda uma questão muito difícil a resolver, Mrs. Norris, observou Sir

Thomas, quanto à justa diferença a ser feita entre as meninas depois de crescidas: de que maneira haveremos de incutir na consciência de minhas filhas o que elas são, sem ao mesmo tempo fazer com que elas não venham a fazer da prima um conceito muito inferior? E como, sem humilhar demais a menina, haveremos de fazê-la compreender que ela não é uma “Bertram”? Desejaria vê-las muito amigas e, de modo algum, consentiria que minhas filhas mostrassem a menor arrogância para com a outra; mas, embora assim, elas não poderão ser equiparadas. O meio social, a fortuna, os direitos e as expectativas de cada uma serão sempre diferentes. É uma questão muito delicada e você nos deve auxiliar em nossos esforços para encontrar exatamente a melhor maneira de nos conduzirmos.

Mrs. Norris se pôs logo a disposição dele; e embora ela concordasse perfeitamente que a questão era das mais difíceis, encorajou-o a esperar que tudo se resolveria facilmente.

de ares era do que precisavam os filhos

É fácil prever que Mrs. Norris não escreveu em vão à irmã. Mrs. Price ficou surpresa de que justamente a menina fosse escolhida, quando havia tantos meninos tão aproveitáveis, mas aceitou o oferecimento muito agradecida, assegurando-lhes que a filha era menina de muito boa índole e temperamento dócil e que esperava nunca tivessem motivos para arrependimento. Estendeu-se em detalhes sobre a delicadeza da saúde da filha, que dizia ser muito franzina mas que com a mudança de ares tinha a esperança de que viesse a melhorar. Pobre mulher! Sem dúvida achava que a mudança

CAPÍTULO 2

A menina fez a longa viagem sem novidade: em Northampton foi entregue a Mrs.

Norris, que dessa maneira se sentiu muito lisonjeada por ser a mais indicada para receber a menina e pela importância em que se dava em apresentar a garota aos outros parentes, recomendando-a à bondade deles.

Fanny Price tinha nesta ocasião justamente dez anos e embora à primeira vista sua aparência não fosse muito cativante, não tinha, pelo menos, nada que pudesse desgostar os parentes. Era pequena para a idade, de compleição pouco atraente e sem nenhuma beleza especial; excessivamente tímida e acanhada, retraia-se por qualquer observação. Sua aparência, embora desajeitada, não era vulgar; a voz era doce e, quando falava, sua fisionomia se tornava bonita. Sir Thomas e Lady Bertram receberam-na amavelmente; e Sir Thomas vendo que ela necessitava de ânimo, procurou lhe ganhar a simpatia; mas teve que lutar contra o mais rebelde temperamento; quanto a Lady Bertram, sem muito trabalho, dizendo uma só palavra enquanto ele dizia dez, apenas com o auxílio de um sorriso, imediatamente se tornou menos terrível.

As outras crianças estavam todas presentes e representaram muito bem os seus papéis na apresentação, portando-se com muita cortesia e sem o menor embaraço, pelo menos quanto aos dois filhos, os quais já com dezessete e dezesseis anos e altos demais para a idade, tinham toda a imponência de homens feitos aos olhos da pequena prima. Já as duas meninas não se sentiam tão à vontade, pelo fato de serem mais jovens e respeitarem muito o pai, que as preparou especialmente para a ocasião. Mas elas estavam por demais acostumadas à sociedade e aos elogios para que se sentissem acanhadas; e a sua confiança aumentando à medida que a prima mais se retraía, começaram com a maior indiferença a examinar-lhe o rosto e o vestuário.

Eles formavam uma família notavelmente distinta, os filhos muito bem parecidos e as filhas positivamente belas, todos bem desenvolvidos para as idades, o que demonstrava uma diferença patente entre os primos quanto ao meio em que haviam sido criados; ninguém julgaria haver tão pouca diferença de idade entre as três meninas.

Havia de fato apenas dois anos entre a mais jovem e Fanny. Julia Bertram tinha doze anos e Maria era apenas um ano mais velha. A pequena visitante, por esse tempo, sentia-se tão infeliz quanto é possível. Com receio de todos, envergonhada de si própria e com saudades da casa que deixara, não tinha coragem de levantar a cabeça e mal conseguia murmurar as palavras sem chorar. Mrs. Norris, durante a viagem, desde Northampton, veio lhe falando de sua sorte incomparável e da gratidão e do bom comportamento que ela deveria ter por isso mesmo, de forma que a consciência de sua própria miséria aumentou com a idéia de que por causa disso não poderia ser feliz. O cansaço, também, de uma viagem tão longa em breve não se tornou menos doloroso. Em vão foram as bem intencionadas amabilidades de Sir Thomas e todos os prognósticos de Mrs. Norris de que ela seria uma boa menina; em vão Lady Bertram sorriu e fê-la sentar-se ao seu lado no sofá e em vão foi, até, a vista da torta de groselha para a confortar; mal pôde engolir dois bocados e irrompeu em soluços; levaram-na então para a cama o amigo sono terminou suas tristezas.

- Esse princípio não é muito promissor, disse Mrs. Norris quando Fanny deixou a sala. Depois de tudo o que eu lhe disse durante a viagem, esperava que ela se portasse melhor; disse-lhe o quanto poderia depender do seu comportamento de início. Desejo que não tenha sido um pouco por birra – sua mãe, coitada, era bem rebelde; mas devemos ser indulgentes para com essa criança, - aliás acho que o fato de ela se sentir triste por ter deixado seu lar só a pode elevar em nosso conceito, pois, com todos os defeitos, era o seu lar e ela ainda não pode compreender o quanto a mudança foi para melhor; enfim, há limites para todas as coisas.

Contudo foi preciso muito mais tempo do que Mrs. Norris supunha para reconciliar Fanny com a mudança para Mansfield e a separação de todas as pessoas a quem ela estava habituada. Seus sentimentos eram por demais sutis e por serem mal compreendidos não os levaram na devida conta. Não que seus parentes fossem intencionalmente pouco amáveis, mas ninguém cuidava em deixar suas comodidades para lhe ser agradável.

A folga permitida às Misses Bertam no dia seguinte, a fim de que pudessem mais à vontade travar conhecimento e entreter a jovem prima, produziu pouco efeito. Elas não podiam deixar de olhar com pouco caso para a prima ao descobrirem que ela só possuía duas faixas e que nunca havia aprendido francês; e quando perceberam a pouca admiração que demonstrou pelo dueto que elas tão bem executavam ao piano, contentaram-se em presenteá-la generosamente com alguns de seus brinquedos menos preciosos e se desinteressaram da pequena completamente, entregando-se ao seu divertimento favorito no momento, que consistia no fabrico de flores artificiais ou em colecionar papéis dourados.

Fanny, quer estivesse perto ou longe dos primos, tanto na sala de aulas quanto na sala de visitas ou no parque, sentia-se igualmente desamparada, encontrando motivos para receio em cada pessoa ou lugar. Sentia-se desanimada diante do silêncio de Lady Bertram, receosa do olhar grave de Sir Thomas e completamente vencida com as admoestações de Mrs. Norris. Seus primos mais velhos mortificavam-na pela sua superioridade em altura e confundiam-na chamando atenção para sua timidez; Miss Lee admirava-se de sua ignorância e as criadas riam-se de suas roupas; e quando a todas essas tristezas se juntava a lembrança de seus irmãos entre os quais ela sempre fora a mais importante, tanto como companheira de brinquedos como no papel de mestra e enfermeira, o desespero em que mergulhava seu pequeno coração era enorme.

A magnificência da casa a atordoava mas não a consolava. As salas eram grandes demais para que nelas se sentisse tranqüila; tinha a impressão de que qualquer coisa que segurasse havia de quebrar-se em suas mãos e vivia num constante terror de tudo, freqüentemente escondendo-se em seu quarto para chorar; e a menina que, segundo comentavam na sala de visitas, parecia estar tão agradecida à sua boa fortuna, terminava as tristezas de cada dia chorando até adormecer. Dessa forma passou-se uma semana sem que pelo seu modo passivo ninguém suspeitasse do seu desgosto, até que uma manhã o primo Edmund, o mais jovem dos dois filhos, encontrou-a chorando sentada na escada do sobrado.

- Minha querida priminha, disse ele com toda a doçura de uma excelente criatura, que foi que houve? – E sentando-se ao lado dela procurou por todos os meios dominarlhe o embaraço de ter sido assim surpreendida e persuadi-la a falar abertamente.

- Estava doente? Ou alguém tinha zangado com ela? Ou tinha brigado com Maria e Julia? Estava atrapalhada com algum problema de suas lições que ele poderia explicar? Ou desejava, finalmente, alguma coisa que ele poderia talvez conseguir ou fazer? – Durante muito tempo não conseguiu outra resposta além de um – Não – não – de modo algum – não, obrigada; porém ele insistiu; e mal começou a se referir à família dela os soluços aumentaram, mostrando onde se achava o ponto sensível. Tentou consolá-la.

- Você está triste por ter deixado a sua mamãe, não é, minha pequenina? Disse o rapaz. Isto mostra que você é uma boa menina; mas deve lembrar-se de que está no meio de parentes e amigos, que gostam muito de você e que desejam fazê-la feliz. Vamos passear no parque, conversar sobre seus irmãos.

- Mas William vai escrever a você com certeza.
- Sim, ele me prometeu que escreveria mas disse que eu deveria escrever primeiro.
- E quando é que você vai escrever?
Ela inclinou a cabeça e respondeu hesitante: - Não sei; não tenho papel.

Prosseguindo no assunto ele viu que, embora muito quisesse aos irmãos havia um entre todos para quem seus pensamentos mais revertiam. Era de William que ela mais falava e a quem mais desejava ver. William, um ano mais velho do que ela, era seu companheiro e amigo mais constante; seu defensor perante a mãe (de quem era o predileto) em todas as contingências. – William não queria que eu viesse; ele disse que iria sentir muito a minha falta.

- Sim, muito.

- Se essa é toda a sua dificuldade, posso arranjar papel e tudo o mais, e você pode escrever sua carta quando quiser. Quer mesmo escrever a William?

- Mas, primo, a carta depois vai para o correio?

- Então escreva agora mesmo. Venha comigo à sala de almoço, lá encontraremos tudo o que é preciso e ninguém nos incomodará.

- Meu tio? Repetiu Fanny assustada.
- Sim, depois que você escrever a carta eu a darei para meu pai a selar.

- Sim, só depende de mim; irá com as outras cartas; e visto que seu tio pagará o selo, não custará nada a William.

Fanny achou a medida arriscada mas não ofereceu maior resistência; foram juntos para a sala de almoço onde Edmund preparou o papel traçando nele as linhas de tão boa vontade como seu próprio irmão o faria e talvez até com maior exatidão. Permaneceu ao seu lado todo o tempo em que ela escrevia, para ajudá-la a apontar o lápis e auxiliá-la na ortografia, pois que disso bem precisava; e junto a estas atenções, que ela muito apreciou, demonstrou uma grande bondade para com seu irmão que a alegrou acima de tudo. Ele próprio escreveu algumas linhas ao primo William e lhe mandou meio guiné para o selo. O contentamento de Fanny naquela ocasião foi tal que ela não soube como o expressar.Mas o seu rosto e as poucas palavras ingenuamente proferidas demonstraram toda a sua gratidão e o seu prazer; o primo começou a não a achar tão desinteressante quanto parecia. Conversou ainda com ela e, por tudo que disse a pequena, convenceu-se de que ela possuía um coração afetuoso e um forte desejo de proceder bem; achou que ela merecia maior atenção, dada a sua suscetibilidade, a sua situação e a sua grande timidez.. Que ele soubesse, nunca lhe havia causado sofrimento; porém sentia agora que Fanny necessitava de maior carinho. E assim pensando, procurou, em primeiro lugar, diminuir os receios que ela tinha deles todos, aconselhou-a a que brincasse com Maria e Julia e que fosse alegre quanto possível.

Desse dia em diante Fanny sentiu-se mais consolada e a bondade do primo

Edmund trouxe-lhe melhor disposição para com os outros parentes. A casa se lhe tornou menos estranha e as pessoas menos imponentes; se havia ainda alguém entre os outros a quem ela não pudesse deixar de temer, começou pelo menos a conhecer-lhes os hábitos e procurou adaptar-se a eles da melhor maneira. As pequenas grosserias que a princípio ameaçavam a tranqüilidade de todos, senão dela própria, desapareceram e ela já não se sentia fisicamente receosa de aparecer em frente do tio nem tampouco se assustava com a voz da tia Norris. Ocasionalmente já fazia companhia às primas. Embora por sua inferioridade em idade e porte não pudesse interessá-las como companheira, havia certas brincadeiras em que se tornava necessário o concurso de um terceira pessoa, especialmente se essa pessoa era de tal maneira submissa e conformada; e não podiam deixar de confessar quando a tia as sondava sobre os defeitos da menina ou seu irmão Edmund recomendava que a tratassem com bondade, que “Fanny não era de todo má”.

Edmund por si era sempre bom; e da parte de Tom ela não tinha outra queixa senão aquela maneira de brincar que um rapaz de dezessete anos sempre tem para com uma criança de dez. Estava justamente começando a viver, cheio de entusiasmos, com todos os privilégios de filho mais velho, que se sente no direito somente para o prazer e os gastos. Sua bondade para com a pequena prima era conseqüente de sua situação e direitos: dava-lhe bonitos presentes e ria-se dela.

A medida que ela ia melhorando de aparência e caráter, Sir Thomas e Mrs. Norris se congratulavam pela sua boa ação; e em breve reconheceram que, embora muito inteligente, Fanny demonstrava possuir um temperamento bastante dócil, que, com toda probabilidade, lhes daria pouco trabalho. Quanto às suas habilidades, nada lhes tinham dito. Fanny sabia ler, trabalhar e escrever, mas não lhe ensinaram nada mais; e quando as primas descobriram o quão ignorante ela era acerca de coisas que lhes eram a longo tempo familiares, acharam-na prodigiosamente estúpida e durante as duas ou três primeiras semanas não cessavam de trazer à sala de visitas novos comentários sobre a pouca instrução da prima. – Imagine, mamãe, que nossa prima não conhece nem o mapa da Europa – ou minha prima não sabe dizer os principais rios da Rússia – ou ela nunca ouviu falar da Ásia Menor – ou ela não sabe distinguir aquarela de desenho a carvão! Que coisa estranha! – Já se viu alguém mais estúpida, tia Norris?

- Minha querida, dizia indulgente a tia, isto é realmente de lastimar, mas você não pode esperar que todos estejam tão adiantados ou que tenham a mesma facilidade de aprender que você tem.

- Mas minha tia, ela é mesmo muito ignorante! Imagine, ontem a noite nós lhe perguntamos que caminho deveria tomar para ir à Irlanda; e ela disse que atravessaria a Ilha de Wight e chama-a simplesmente de “Ilha” como se não houvesse outra ilha no mundo. Eu morria de vergonha se na idade dela soubesse tão pouco. Nem me lembro mais do tempo em que eu não sabia uma porção de coisas de que ela ainda não tem a menor noção. Quanto tempo faz, minha tia, que nós enumerávamos por ordem cronológica todos os reis da Inglaterra, com datas e suas ascensões e a maior parte dos acontecimentos principais de seus reinados?

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