Historia Hoje - Roger Chartier

Historia Hoje - Roger Chartier

(Parte 1 de 3)

Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 7, n. 13, 1994, p. 97-113.

A HISTÓRIA HOJE: dúvidas, desafios, propostas

Roger Chartier

"Tempo de incerteza", "epistemological crisis", "tournant critique": estes são os diagnósticos, geralmente inquietos, feitos sobre a história nos últimos anos. Basta lembrar duas declarações que abriram o caminho para uma ampla reflexão coletiva. De um lado, aquela estampada no editorial do número de março-abril de 1988 da revista Annales, que dizia:

"Hoje, parece ter chegado o tempo das incertezas. A reclassificação das disciplinas transforma a paisagem científica, questiona as primazias estabelecidas, afeta as vias tradicionais pelas quais circulava a inovação. Os paradigmas dominantes, que se ia buscar nos marxismos ou nos estruturalismos, assim como no uso confiante da quantificação, perdem sua capacidade estruturadora (...) A história, que havia baseado boa parte de seu dinamismo em uma ambição federativa, não é poupada por essa crise geral das ciências sociais."1

A segunda declaração, inteiramente diferente em suas razões mas semelhante em suas conclusões, foi feita em 1989 por David Harlan em um artigo da American Historical Review que suscitou uma discussão que se prolonga até hoje:

"A volta da literatura mergulhou os estudos históricos numa extensa crise epistemológica. (questionou nossa crença num passado fixo e determinável, comprometeu a possibilidade da representação histórica e minou nossa capacidade de nos localizarmos no tempo."2

O que indicam esses diagnósticos, que parecem ter algo de paradoxal numa época em que o movimento editorial na área de história demonstra uma vitalidade invejável e uma inventividade renovada, traduzidas na continuidade das grandes obras coletivas, no lançamento de coleções européias, no aumento do número de traduções, no eco intelectual de algumas obras importantes? Eles denotam, creio, essa grande mutação que representa para a história o desaparecimento dos modelos de compreensão, dos princípios de inteligibilidade que foram de modo geral aceitos pelos historiadores (ou ao menos pela maior parte deles) a partir dos anos 60.

A história dominante baseava-se então em dois projetos. Primeiro, a aplicação ao estudo das sociedades antigas ou contemporâneas do paradigma estruturalista, abertamente reivindicado ou implicitamente praticado. Tratava-se antes de mais nada de identificar as estruturas e as relações que, independentemente das percepções e das intenções dos indivíduos, comandam os mecanismos econômicos, organizam as relações sociais, engendram

1 "Histoire et sciences sociales. Un tournant critique?", Annales ESC, 1988, p. 291-293 (citação p. 291-292). 2 David Harlan, "Intellectual history and the return of literature", American Historical Review, 94, jun 1989, p. 879-907 (citação p. 881).

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as formas do discurso. Daí a afirmação de uma separação radical entre o objeto do conhecimento histórico propriamente dito e a consciência subjetiva dos atores.

Segunda exigência: submeter a história aos procedimentos do número e da série ou, melhor dizendo, inscrevê-la num paradigma do conhecimento que Carlo Ginzburg, em artigo célebre,3 designou como "galileano". Tratava-se aí de, graças à quantificação dos fenômenos, à construção de séries e aos procedimentos estatísticos, formular rigorosamente as relações estruturais que eram o objeto próprio da história. Deslocando a fórmula de Galileu em Il Saggiatore, o historiador supunha que o mundo social "é escrito em linguagem matemática" e dedicava-se a estabelecer suas leis.

Os efeitos dessa dupla revolução da história, estruturalista e "galileana", não foram pequenos. Graças a ela, a disciplina se afastou de uma simples cartografia das particularidades ou de um simples inventário, jamais concluído, aliás, de casos ou fatos singulares. A história pôde assim retomar a ambição que havia fundado no início deste século a ciência social, especialmente na sua versão sociológica e durkheimiana: identificar estruturas e regularidades, e portanto, formular relações gerais.

Ao mesmo tempo, a história se libertava da "bien maigre idée du réel" expressão de

Michel Foucault - que a havia durante muito tempo habitado, uma vez que ela considerava que os sistemas de relações que organizam o mundo social são tão "reais" quanto os dados materiais, físicos, corporais, percebidos na imediatez da experiência sensível. Essa "nova história" estava portanto fortemente ancorada, para além da diversidade dos objetos, dos territórios e dos costumes, nos mesmos princípios que sustentavam as ambições e as conquistas das outras ciências sociais.

Nos últimos dez anos, foram essas certezas, longa e amplamente partiIhadas, que foram abaladas. De um lado, sensíveis a novas abordagens antropológicas ou sociológicas, os historiadores quiseram restaurar o papel dos indivíduos na construção dos laços sociais. Daí resultaram vários deslocamentos fundamentais: das estruturas para as redes, dos sistemas de posições para as situações vividas, das normas coletivas para as estratégias singulares. A "micro-história", inicialmente italiana, hoje espanhola,4 foi a tradução mais viva dessa transformação da abordagem histórica baseada no recurso a modelos interacionistas ou etnometodológicos. Radicalmente diferente da monografia tradicional, a microstoria pretende construir, a partir de uma situação particular, normal porque excepcional, a maneira como os indivíduos produzem o mundo social, por meio de suas alianças e seus confrontos, através das dependências que os ligam ou dos conflitos que os opõem. O objeto da história, portanto, não são, ou não são mais, as estruturas e os mecanismos que regulam, fora de qualquer controle subjetivo, as relações sociais, e sim as racionalidades e as estratégias acionadas pelas comunidades, as parentelas, as famílias, os indivíduos.

Uma forma inédita de história social assim se afirmou, centrada nas distâncias e discordâncias existentes, de um lado, entre os diferentes sistemas de normas de uma sociedade e, de outro, dentro de cada um deles. O olhar se desviou das regras impostas para suas aplicações inventivas, das condutas forçadas para as decisões permitidas pelos recursos próprios de cada um: seu poder social, seu poder econômico, seu acesso à informação. Habituada a estabelecer hierarquias e a construir coletivos (categorias sócio-profissionais,

3 Carlo Ginzburg, "Spie. Radici di un paradigma indiziario", em Miti, emblemi, spie. Morfologia e storia (Turim, Eunaudi, 1986), p. 158-209. 4 Giovanni Levi, L'éredità, immateriale. Carriera di un esorcista nel Piemonte del Seicento (Turim, Einaudi, 1985); Jaime Contreras, Sotos contra Riquelmes. Regidores, inquisidores y criptojudíos (Madri, Anaya/Mario Muchnik, 1992).

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classes, grupos), a história das sociedades atribuiu-se novos objetos, estudados em pequena escala. É o caso da biografia ordinária, já que, como escreveu Giovanni Levi, "nenhum sistema normativo é de fato suficientemente estruturado para eliminar toda possibilidade de escolha consciente, de manipulação ou interpretação das regras, de negociação. Parece-me que a biografia constitui nesse sentido o lugar ideal para se verificar o caráter intersticial - e ainda assim importante -da liberdade de que as pessoas dispõem, assim como para se observar a maneira como funcionam concretamente os sistemas normativos que nunca estão isentos de contradições".5

Assim também a reconstituição dos processos dinâmicos (negociações, transações, trocas, conflitos etc.) que desenham de maneira móvel, instável, as relações sociais, ao mesmo tempo em que recortam os espaços abertos às estratégias individuais. Jaime Contraras diz isso muito bem em seu recente livro Sotos contra Riquelmes:

"Os grupos não anulavam os indivíduos, e a objetividade de suas forças não impedia a estes de trilhar uma trajetória pessoal. As famílias (...) desenvolveram suas estratégias para ampliar suas esferas de solidariedade e de influência, mas seus homens, individualmente, também exerceram seu papel. Se o chamado do sangue e o peso das linhagens eram intensos, também o eram o desejo e as possibilidades de criar espaços pessoais. No drama que criou o fantasma da heresia - uma criação pessoal de um inquisidor ambicioso defrontaram-se, em duro jogo, interesses coletivos e concepções diferentes do próprio mundo, mas também cada indivíduo pôde reagir pessoalmente a partir de sua própria tramazon original."6

Uma segunda razão abalou ainda mais profundamente as certezas antigas: a conscientização dos historiadores de que seu discurso, qualquer que seja sua forma, é sempre uma narrativa. As reflexões pioneiras de Michel de Certeau,7 em seguida o grande livro de Paul Ricoeur,8 e mais recentemente a aplicação à história de uma "poética do conhecimento" que tem por objeto, segundo a definição de Jacques Rancière, "o conjunto dos procedimentos literários pelos quais um discurso se subtrai à literatura, se atribui um estatuto de ciência e significa isso",9 obrigaram os historiadores a reconhecer, querendo ou não, que a história pertence ao gênero da narrativa-entendido no sentido aristotélico da "articulação em um enredo de ações representadas". Essa constatação não foi ponto pacífico para aqueles que, rejeitando a história événementielle em beneficio de uma história estrutural e quantificada, pensavam ter posto fim às aparências enganosas da narração e à demasiado longa e duvidosa proximidade entre a história e a fábula. A ruptura entre as duas tinha parecido definitiva: no lugar ocupado pelas personagens e os heróis das narrativas antigas, a "nova história" instalava entidades anônimas e abstratas; o tempo espontâneo da consciência, ela substituía por uma temporalidade construída, hierarquizada, articulada; ao caráter auto-explicativo da narração, ela opunha a capacidade explicativa de um conhecimento controlável e verificável.

Em Temps et récit, Paul Ricoeur mostrou o quanto era ilusória essa proclamada cesura. De fato, toda história, mesmo a menos narrativa, mesmo a mais estrutural, é sempre

5 Giovanni Levi, "Les usages de la biographie", Annales ESC, 1989, p. 13251336 (citação p. 1333-1334). 6 Jaime Contreras, op. cit., p. 20. 7 Michel de Certeau, L'Ecriture de l'Histoire (Paris, Gallimard, 1975). 8 Paul Ricoeur, Temps et récit (Paris, Editions du Seuil, 1983-85, 3 tomos). 9 Jacques Rancière, Les mots de l'histoire. Essai de poétique du savoir (Paris, Editions du Seuil, 1992), p. 21.

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construída a partir de fórmulas que governam a produção das narrativas. As entidades com que os historiadores lidam (sociedade, classes, mentalidades etc.) são "quase personagens", dotadas implicitamente das propriedades dos heróis singulares ou dos indivíduos ordinários que compõem as coletividades que essas categorias abstratas designam. De outro lado, as temporalidades históricas mantêm uma forte dependência em relação ao tempo subjetivo: em páginas soberbas, Ricoeur mostra como o Méditerranée au temps de Philippe I, de Braudel, no fundo se baseia numa analogia entre o tempo do mar e o tempo do rei, e como a longa duração não passa aí de uma modalidade particular, derivada, do ato de colocar o acontecimento dentro de um enredo. Enfim, os procedimentos explicativos da história continuam solidamente ancorados na lógica da imputação causal singular, ou seja, no modelo de compreensão que, no quotidiano ou na ficção, permite dar conta das decisões e das ações dos indivíduos.

Semelhante análise, que inscreve a história na classe das narrativas e identifica os parentescos fundamentais que unem todas as narrativas, sejam elas de história ou de ficção, tem várias conseqüências. A primeira permite considerar como uma questão mal-colocada o debate travado em torno do suposto retorno da narrativa" que, para alguns, teria caracterizado a história nesses últimos anos. Como, na verdade, poderia haver "retorno" ou redescoberta onde não houve nem partida nem abandono? A mutação existe mas é de outra ordem. Ela tem a ver com a preferência dada recentemente a algumas formas de narrativa em detrimento de outras, mais clássicas. Por exemplo, as narrativas biográficas entrecruzadas da micro-história não acionam nem as mesmas figuras nem as mesmas construções das grandes "narrativas" estruturais da história global ou das "narrativas" estatísticas da história serial.

Daí decorre uma segunda proposta: a necessidade de recuperar as propriedades específicas da narrativa histórica em relação a todas as outras. Elas estão ligadas, em primeiro lugar, à organização "em camadas" ou "folheada" (como escrevia Michel Certeau) de um discurso que compreende em si mesmo, sob a forma de citações que constituem efeitos da realidade, os materiais que o fundamentam e cuja compreensão ele pretende produzir. Elas estão ligadas, igualmente, aos procedimentos de acreditação específicos graças aos quais a história mostra e proclama seu estatuto de conhecimento verdadeiro. Todo um conjunto de trabalhos, inscritos no literary criticism à americana, dedicou-se assim a recuperar as formas através das quais se dá o discurso da história. A empreitada pôde abarcar projetos diferentes, uns empenhados em estabelecer taxinomias e tipologias universais, outros desejosos de reconhecer as diferenças localizadas e singulares.

No primeiro caso pode-se incluir a tentativa de Hayden White, que visa a identificar as figuras retóricas que comandam e constrangem todos os modos possíveis da narração e da explicação históricas - a saber, os quatro tropos clássicos, metáfora, metonímia, sinédoque e, com um estatuto particular, "metatropológico", ironia.10 E uma mesma busca de constantes -constantes antropológicas (que constituem as estruturas temporais da experiência) e constantes formais (que governam os modos de representação e de narração das experiências históricas) - que conduz Reinhart Koselleck a distinguir três tipos de história: a história-notação (Aufschreiben), a história cumulativa (Fortschreiben), a história-reescritura (Umschreiben).1

10 Hayden White, Metahistory: the historical imagination in the ninteenth-century (Baltimore e Londres, The Johns Hopkins University Press, 1973); The tropics of discourse: essays in cultural criticisrn (Baltimore e Londres, The Johns Hopkins University Press, 1978), e The content of the form: narrative discourse and historical imagination (Baltimore e Londres, The Johns Hopkins University Press, 1986). 1 Reinhart Koselleck, "Erfahrungswandel und Methodenwechsel. Eine historisch-anthropologische Skizze", em Historische Methode, sob a direção de C. Meier e J. Rüsen (Munique, 1988), p.13-16.

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No segundo caso, o de uma poética do conhecimento sensível às distâncias e às diferenças, colocar-se-ão os trabalhos que, como o recente livro de Philippe Carrard, Poetics of the new history,12 recuperam como diferentes historiadores, membros de uma mesma "escola" ou de um mesmo grupo, mobilizam de formas bastante diversas as figuras da enunciação, a projeção ou o apagamento do eu no discurso do conhecimento, o sistema dos tempos verbais, a personificação das entidades abstratas, as modalidades da prova: citações, quadros, gráficos, séries quantitativas etc.

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