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Milho: Estresses abióticos e bióticos afetam desempenho e produtividade

Soja: Ferrugem-asiática avança e exige cuidados

2 CORREIO

Correio Agrícola - 2007

A revista Correio é uma publicação anual da Bayer CropScience, dirigida a engenheiros agrônomos, agricultores, técnicos agrícolas, faculdades de agronomia e bibliotecas. Coordenação geral: Comunicação Corporativa Bayer CropScience Coordenação técnica: Engenheiros Agrônomos Paulo Renato Calegaro, Gilmar Franco, Luiz Weber e Pedro Singer. Editor: Allen A. Dupré, MTb 9057. Editoração: Assessoria de Propaganda Bayer S.A. Gráfica: Neoband Soluções Gráficas Ltda. Tiragem: 50.0 Bayer S.A. Rua Verbo Divino, 1207, Bloco B São Paulo - SP / Fone (0xx11) 2165-7600 w.bayercropscience.com.br

Deixamos de publicar a bibliografia da maioria das matérias desta edição, que permanece à disposição dos interessados.

Índice

Soja Ferrugem asiática avança e exige cuidados

Soja Lagartas causam preocupação

Milho Estresses abióticos e bióticos

Milho Plantas daninhas exigem maior controle

Milho Controle químico das principais doenças foliares

Cetoenol Inseticida e acaricida com novo mecanismo de ação

Cana-de-açúcar Manejo da broca protege produtividade

Arroz Bicheira-da-raiz, o inimigo da cultura irrigada

O controle eficiente da ferrugem exige diferentes medidas, dependendo da região, incluindo "vazio sanitário", uso planejado de produtos fitossanitários, técnicas apuradas de aplicação para evitar sub-doses, acompanhamento das condições climáticas e manejo integrado da cultura

Originária do Oriente (China) e tradicionalmente presente na maioria dos países da Ásia e naAustrália, a ferrugem-asiática, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, foi detectada pela primeira vez fora desses países no Havaí, em 1994 (Bonde & Peterson, 1996; Killgore, 1996). Considerada a pior doença da soja, foi constatada pela primeira vez no continente africano em 1996, causando severos danos em uma área experimental em Uganda (Kawuki et al, 2003). Posteriormente, atingiu plantações do Zimbabue e de Zâmbia, em 1998 (Levy, 2004), e na África do Sul, em 2001 (Caldwell & McLaren, 2004; Pretorius et. al., 2001). Ainda em 2001, foi detectada no continente americano, no Paraguai e no sul do Brasil, respectivamente, em março e maio de 2001 (Morel Paiva, 2001; Yorinori & Morel Paiva, 2002). Desde então, disseminou-se por todos os países produtores de soja do continente americano (Navarro et al., 2004; Rossi, 2003; Yorinori, 2004; Schneider et al., 2005). No Brasil, a doença só não foi detectada em Roraima, no hemisfério Norte. Nos Estados Unidos, o primeiro foco foi detectado em 6 de novembro de 2004 (Schneider et al., 2005); em 2005, foram confirmados 139 focos (em soja e kudzu: Pueraria lobata) em oito estados; em 2006, foram confirmados em soja 231 focos em 15 estados e mais 43 focos em kudzu; em 2007, até 30 de junho, a ferrugem havia sido detectada em 28 localidades, em cinco estados (USDA Puplic PIPE Website: w.sbrusa.net). No presente trabalho é analisada a situação da ferrugem no Brasil, de 2001/02 a 2006/07: importância econômica, fatores que dificultam o controle e como manejar a doença.

Importância econômica

A importância da ferrugem-asiática no Brasil pode ser avaliada por sua rápida expansão, virulência e pelo montante de perdas causado (Yorinori, 2004; Yorinori et al. 2004; Yorinori et al., 2005), atingindo níveis que, freqüentemente, inviabilizam a colheita. Essa situação é comum nos Cerrados, onde o clima favorece a doença, dificulta as aplicações de fungicidas e as grandes extensões das lavouras representam um desafio a mais. De 2001/02 a 2005/06, os estados mais afetados foram: BA (2003), GO, MG, MT, MS (região de Chapadão do Sul), sul do PR, RS (2004 e 2007) e SP (região de Guaíra, em 2004). Diversas propriedades tiveram perdas de 100%, considerando a inviabilidade das colheitas. A severidade da ferrugem tem variado de um ano para outro em distintas regiões e, em alguns estados, as principais causas da redução de rendimento foram falta de chuva e altas temperaturas. O total do custo ferrugem estimado nesse período, incluindo perdas de grãos (18.986.830.0 t, equivalendo a US$3.739.239.220,0), custos do controle (US$ 3.259.229.050,0) e perdas de arrecadação de tributos incidentes sobre os grãos perdidos (US$ 739.650.30,0), somou US$ 7.738.118.570,0 (Costamilan et al., 2002; Yorinori et al. 2004; Yorinori et al. 2005). Em 2006/07 o montante de perdas de grãos somado aos custos de controle atingiu US$2,19 bilhões. Com isso, no período de 2001/02 a 2006/07, o custo ferrugem atingiu US$10 bilhões. O que não se pode calcular é o "efeito dominó" dessas perdas, principalmente na economia das cidades do interior que dependem quase exclusivamente da renda da soja.

Os dados de perdas mencionados foram baseados em estimativas de áreas afetadas, comparações de rendimentos de lavouras com e sem proteção de fungicida, perdas em relação ao estádio em que houve a morte da lavoura, dados de produção de cooperativas e produtores, de técnicos da assistência e estatísticas da CONAB (w.conab.com.br).

"Ponte verde"

Disseminado pelo vento, o fungo P. pachyrhizi não encontra barreiras que o impeçam de se espalhar. Nas safras 2003/04 a 2005/06 a dificuldade no controle da ferrugem foi causada pela contínua produção do fungo da ferrugem em soja "safrinha" (semeada logo após a colheita de verão: janeiro a março), na soja irrigada da entressafra (junho a setembro/outubro) e na soja guaxa, esta existente em áreas de lavouras e ao longo das estradas (Figura 1). Elas favoreceram a sobrevivência e a multiplicação do fungo e serviram de elo ("ponte verde") entre uma safra e a seguinte, antecipando o surgimento da doença. O problema foi mais sério em Mato Grosso, notadamente nas regiões de Primavera do Leste (MT), em Minas Gerais (região de Frutal sofreu perdas de 10% a 40%) e em São Paulo (região de Guaíra), onde há grande concentração de pivôs centrais. Além dessas regiões, o cultivo da soja na entressafra (junho a final de setembro/outubro) nas várzeas tropicais de Tocantins (vale do Araguaia e do Rio Formoso: municípios de Luís Alves, Lagoa da Confusão, Duerê e Formoso do Araguaia) representa potencial fonte de inóculo para a região Central do Brasil, com sobreposição da fase de maturação com os primeiros plantios de verão, na segunda quinzena de setembro. Desde 2006, a Agência de Defesa Agropecuária de Tocantins – Adapec, tem feito um grande esforço no sentido de eliminar essa fonte de inóculo, regulamentando os plantios destinados à pesquisa e à produção de sementes, porém o controle da ferrugem na entressafra de 2006 apresentou várias falhas.

CORREIO 3

Ferrugem Asiática avança e exige cuidados mais intensos

O cultivo da soja nas várzeas tropicais é essencial para a economia da região e necessita ser continuado. Além dos plantios de "safrinha", realizados em janeiro e fevereiro, logo após a colheita de verão, o cultivo na entressafra (plantios em junho/julho)(Figura 2) ganhou impulso a partir de 2003, com a frustração da produção de semente na safra 2002/03 em Mato Grosso. Em 2004, o motivador do plantio na entressafra foi o preço recorde dos grãos. Em 2005 o plantio da soja na entressafra foi motivado pelo baixo preço da soja de verão e pela expectativa de renda com a multiplicação de

sementes das cultivares transgênicas, liberadas oficialmente para cultivo no Brasil. Mesmo após três a sete pulverizações, ainda havia lesões com esporos viáveis nas áreas irrigadas. Os resultados dos plantios da entressafra foram grandes perdas e custos exagerados no controle da ferrugem de 2003/04 a 2005/06. Na região de Primavera do Leste, a partir da safra 2003/04, os primeiros sintomas de ferrugem começaram a ser detectados aos 18-30 dias após a emergência (V3/V4), de meados ao final de outubro, recebendo a primeira aplicação de fungicida. No final de outubro, lavouras mais adiantadas, nos estádios R1 a R3, já haviam recebido duas a três pulverizações.Até o final do ciclo, essas lavouras receberam quatro a sete aplicações, inviabilizando a produção. Em diversas lavouras a interrupção do controle aos 35-40 dias antes da maturação multiplicou o fungo no final do ciclo, tornando difícil, senão impossível, o controle da ferrugem nas lavouras vizinhas e em grande parte da região. Durante três safras seguidas, a região de Primavera do Leste, que engloba diversos municípios e uma área aproximada de 600.0 ha, foi conhecida como a "capital mundial da ferrugem." O cultivo da soja "safrinha", feito no período de janeiro a junho (colheita) não deve influir diretamente na incidência da doença na safra de verão, com início em meados de setembro. Porém, as plantas guaxas originadas das perdas das colheitas da "safrinha" geralmente produzem grãos viáveis que ficam guardados nas vagens durante o período seco (junho a setembro), caem ao solo nas primeiras atividades de verão, germinam e são infectadas, servindo como fonte de inóculo para os primeiros plantios. Nos Cerrados, as plantas guaxas podem ser infectadas por esporos oriundos de cultivos de entressafra da região das várzeas de Tocantins e da Bolívia (região ao norte de Santa Cruz de la Sierra) onde, no período de julho a outubro, são cultivadas extensas áreas para produção de semente. Em 2007 deverão ser cultivados cerca de 300.0 hectares de soja (Engº.Agrº. Marin, ANAPO, comunicação pessoal). Nas regiões Sudeste e Sul, as fontes de inóculo podem ser as plantas guaxas da entressafra do oeste do Paraná e do Paraguai. Portanto, o monitoramento da ferrugem deve ser iniciado desde as plantas guaxas que antecedem os primeiros plantios de verão.

"Vazio sanitário"

Levantamentos realizados nas entressafras, a partir do final da safra 2002/03, mostraram que as principais causas da ocorrência da ferrugem no início da soja de verão eram as "pontes verdes", representadas pelos cultivos de "safrinha" e de entressafra, sob irrigação (junho/julho a final de outubro), e as plantas guaxas. Esses cultivos permitiram a contínua sobrevivência e multiplicação do fungo da ferrugem no campo, obrigando os produtores a iniciarem as pulverizações nos primeiros plantios de setembro, aos 18-30 dias após a semeadura. Com base nesses levantamentos e nas avaliações do impacto negativo que representavam os plantios da entressafra, foi sugerida a instituição de um período durante o qual não seria permitido o cultivo da soja irrigada e com a obrigatoriedade da eliminação das plantas guaxas. Esse período que se denominou de "vazio sanitário" foi definido entre 15 de junho e 15 de setembro. Os estados de Goiás e do Mato Grosso foram os primeiros a baixarem medidas normativas que proibiram o cultivo da soja irrigada com pivô central e com obrigatoriedade de eliminar as plantas guaxas. Infelizmente, a eliminação da soja guaxa não foi concretizada em 2006, devendo ser enfatizada nas próximas safras. Durante o período do "vazio sanitário" somente serão permitidos os cultivos da soja para pesquisa e avanço de gerações de materiais genéticos, sob rigoroso controle da ferrugem e sujeitos a fiscalização pelos órgãos oficiais. A partir de 2008, todos os estados produtores de soja deverão adotar o "vazio sanitário". Em Mato Grosso, o benefício do "vazio sanitário" na safra 2006/07 foi a redução de uma aplicação de fungicida (US$ 38,70/ha) e o aumento da produtividade em 6 sacas/ha (300 kg/ha, equivalendo a US$ 72,0/ha, para o preço de US$ 12,0/saca na região). Considerando a área cultivada nessa safra (5,3 milhões de hectares), o total do benefício auferido foi de US$ 102.60.0,0 (economia no controle da ferrugem) mais US$ 381.60.0,0 (redução na perda de grãos), totalizando US$ 484.20.0,0. Esse resultado só foi obtido graças à rigorosa atuação e à soma de esforços de diversas entidades do estado, notadamente do Sindicato Rural de Primavera do Leste, do MAPA/DSV, do INDEA, da Aprosoja e da Embrapa Soja. Produtores que insistiram e semearam soja durante o "vazio sanitário", em Lucas do Rio Verde (2006) e em Primavera do Leste (2007), foram autuados e tiveram que dessecar suas lavouras. Em Goiás, a aplicação da portaria normativa que instituiu o "vazio sanitário" não foi devidamente efetivada e o estado ainda sofreu grandes perdas na safra 2006/07.

4 CORREIO

Figura 1. Plantas guaxas ao lado da estrada (grãos caídos de caminhões)

Figura 2. Soja irrigada na entressafra

Figura 3. Primeiras lesões aos 40 dias, na soja de entressafra

O manejo da ferrugem

Desde sua primeira identificação em 2001, a ferrugem mostrou sua capacidade de disseminação e de destruição, não permitindo falhas no controle. A cada ano, aumenta a severidade nas regiões que a favorecem. Apesar da redução dos preços da maioria dos fungicidas, o custo do controle tem aumentado devido ao crescente número de aplicações. Desde os primeiros fungicidas recomendados emergencialmente, para a safra 2002/03 (azoxystrobin, difenoconazole, fluquinconazole, pyraclostrobin + epoxiconazole e tebuconazole), um grande número de novas formulações foi acrescentado ao arsenal para enfrentar a ferrugem (Embrapa Soja, 2007). Entre diferentes ingredientes ativos (isolados ou em mistura), marcas comerciais e formulações, mais de 20 produtos estão disponíveis para uso. Entre os fungicidas, há diferenças de eficácia, período residual e capacidade de translocação ou sistemicidade, exigindo, do produtor e da assistência técnica, cuidados na escolha do produto a ser utilizado para cada situação. Freqüentemente, além da ferrugem, é necessário levar-se em conta a ocorrência de outras importantes doenças (antracnose, doenças de final de ciclo – DFC, mancha-alvo, mela e oídio), o que poderá exigir a combinação de diferentes ingredientes ativos. Apesar dograndenúmerodeprodutoscomerciaisexistentes, os fungicidas se restringem apenas a dois grupos de princípios ativos: as estrobilurinas e os triazóis. Isso traz preocupações quanto à possibilidade do desenvolvimento de tolerância por parte do fungo P. pachyrhizi. O uso freqüente de sub-doses, aplicações seqüenciais de até sete pulverizações e a inevitável sub-dose que ocorre em cada aplicação nas partes interna e inferior das plantas podem induzir o fungo a desenvolver tolerância aos fungicidas. Ao longo dos anos têm aumentado as reclamações sobre redução da eficácia e período residual dos fungicidas, com aplicações seqüenciais sendo feitas a intervalos de 7 a 12 dias. Observações nas regiões que apresentaram dificuldades no controle da ferrugem (por exemplo, em Frutal, Minas Gerais, municípios do noroeste de São Paulo como Colômbia, Miguelópolis, Guaíra e Ipuã; e municípios de Mato Grosso como Pedra Preta/Serra da Petrovina, Alto Garça, Campo Novo do Parecis, Primavera do Leste e Itiquira) mostraram que as deficiências de controle eram devidas a várias causas: • produção contínua de inóculo em áreas irrigadas da entressafra ("ponte verde"); • falha na identificação correta da ferrugem no estágio inicial (Figura 3), com conseqüente ou atraso na aplicação de fungicida (Figura 4); • momento (horário) e condições climáticas inapropriadas para aplicação; • equipamentos inadequados;

• uso de sub-dose de fungicida e baixo volume de pulverização; • deficiência da cobertura foliar (Figura 5);

• densidade excessiva de plantas e de massa foliar; • excesso de chuva no momento crítico, dificultando a pulverização; • aplicação de fungicida sob condições adversas, durante o dia todo, em virtude da grande extensão da lavoura; • grandes áreas que dificultam a aplicação em tempo hábil; • uso de fungicida não indicado para o nível de ferrugem; e • presença de outras doenças.

Para um controle eficiente da ferrugem, é fundamental que o planejamento seja feito antes da semeadura, com definição da janela de semeadura e população de plantas para um bom arejamento foliar. A pulverização deve atingir o máximo de área foliar, com fungicidas de maior período residual e sistemicidade. A proteção das plantas deve ocorrer antes do surgimento das primeiras lesões (preventiva) ou no seu início (Figuras 3 e 6), quando o potencial de inóculo é ainda baixo. Em Primavera do Leste, MT, onde as primeiras pulverizações, nas safras 2003/04 a 2005/06 foram realizadas a partir de 18-30 dias após a semeadura, com o passar dos dias o fungicida foi perdendo o efeito residual e, com o crescimento das plantas, aumentou a dificuldade de acesso do fungicida à parte sombreada. Isso favoreceu a multiplicação do fungo nas partes não atingidas e tornou impossível o controle da ferrugem, mesmo com cinco a sete aplicações. Testes de cobertura foliar realizados com papel sensível mostraram que a deposição de fungicida na parte interna da folhagem diminui do topo para a parte inferior das plantas, qualquer que seja a tecnologia de aplicação e o volume da pulverização. Isso indica deposição de subdose nas folhas inferiores, podendo não afetar o fungo ou apresentar um efeito muito curto, permitindo a ressurgência da ferrugem em poucos dias. Essa é a principal razão das reclamações sobre a redução do período residual de um fungicida que deveria estar ativo por 25-30 dias. Esses detalhes necessitam ser avaliados pelos especialistas em tecnologia de aplicação e pela indústria de pulverizadores e observados pelos técnicos de campo. Para um controle eficiente da ferrugem, é fundamental o máximo de cobertura foliar, que o fungicida tenha

CORREIO 5 período residual adequado (20-25 dias) e sistemicidade (ou uso de adjuvante) que compense eventual falha de cobertura.

O que aprimorar no controle da ferrugem

A ferrugem é uma doença que, sob condições climáticas favoráveis, não permite descuido ou falhas no controle. Por ser disseminada pelo vento, exige vigilância, treinamento e capacitação contínua na identificação da doença e adoção rigorosa das práticas de manejo da cultura e das técnicas para otimização da pulverização. A diversidade das condições climáticas de um ano para outro, nas distintas regiões do Brasil, torna impossível elaborar uma "receita de bolo" que atenda todo o País. O uso de cultivar resistente ou tolerante já é quase realidade, porém, a resistência não será duradoura se não houver um esforço contínuo para redução das fontes de inóculo da entressafra e das plantas guaxas. O fungo P. pachyrhizi é muito "versátil", sendo capaz de expressaroudesenvolvernovasraçaspatogênicas, capazes de quebrar a resistência da nova variedade. Portanto, o uso de cultivar resistente ou tolerante não dispensa totalmente o fungicida e deve ser entendido como uma forma de reduzir o número de aplicações, considerando essa tecnologia como uma parte do manejo integrado da cultura da soja.

O controle eficiente da ferrugem exige o acompanhamento das condições climáticas e o manejo integrado da cultura, que envolve

as seguintes medidas: a) treinamento e capacitação dos inspetores de campo na correta identificação da ferrugem; b) treinamento e capacitação em tecnologia de aplicação; c) inspeção contínua da lavoura para identificação da ferrugem; d) estar sempre informado sobre os locais onde a ferrugem já foi detectada; e) acompanhar permanentemente as condições climáticas e a previsão do tempo para a região; f) adequar o tamanho da área cultivada à capacidade de pulverização; g) manter nível adequado de adubação e equilíbrio nutricional do solo; h) dar preferência a cultivares precoces com menor densidade foliar; i) reduzir a janela de plantio, concentrando a semeadura no início da época indicada quando as condições climáticas são menos favoráveis à ferrugem; j) semear a soja com espaçamento e densidade de plantas que permitam o máximo de penetração do fungicida no interior do dossel foliar; k) eliminar as plantas daninhas que interferem na eficiência da cobertura foliar da soja com fungicida; l) reduzir ao mínimo as perdas na colheita, para redução das plantas guaxas; m) eliminar as plantas guaxas; n) seguir, criteriosamente, as recomendações técnicas de aplicação: escolha do fungicida, momento correto de aplicação, volume da calda e tipo(s) de bico(s) para cada situação; o) medir a eficiência da deposição do fungicida nas diferentes alturas do dossel foliar com o uso do papel sensível, tanto nas pulverizações aéreas como terrestres, e p) no caso de alguma dúvida, sempre consultar um técnico capacitado.

É também importante evitar a semeadura ao longo das bordas das lavouras, ao redor dos postes de energia elétrica e onde haja obstáculos que dificultem a pulverização e a colheita. Essas áreas ficam desprotegidas, multiplicam o fungo e produzem plantas guaxas.Além disso, ocorre a presença inevitável de plantas guaxas ao longo das estradas, em razão de grãos caídos de caminhões (Figura 1).

Consórcio Anti-Ferrugem

Desde a primeira detecção da ferrugemasiática no Paraguai e no Brasil, em 2001, a Embrapa Soja, juntamente com todas as demais instituições de pesquisa, órgãos da defesa sanitária estadual e federal, assistência técnica pública e privada, empresas de insumos, cooperativas e produtores, têm-se empenhado no acompanhamento da evolução da doença, pesquisando e difundindo as medidas de controle. Como conseqüência dessa atividade cooperativa, em nível nacional, foi estabelecido em 2004 o "Consórcio Anti-Ferrugem", com o objetivo de gerar e difundir informações que melhorem a eficiência do controle da doença. As informações estão disponíveis na internet: w.cnpso.embrapa.br/alerta. Passados seis anos de intensa pesquisa, orientação, treinamento e capacitação técnica visando seu controle, a ferrugem-asiática continua causando sérios prejuízos e elevado custo na produção da soja. Para que seja possível a convivência com essa doença e a soja continue a ser rentável, é fundamental que se crie uma consciência de responsabilidade nacional, com obediência ao "vazio sanitário" e uso correto das medidas de controle. Sem isso, a ferrugem-asiática continuará sendo um grande desafio por muito tempo.

Agradecimento

O presente trabalho não teria sido possível sem a participação e colaboração de inúmeros produtores, colegas da assistência técnica, instituições de pesquisas e empresas privadas, aos quais o autor expressa o mais profundo agradecimento.

Autor: José Tadashi Yorinori , Engº Agrônomo - CREA 2845/D - e-mail: jose.tadashi@gmail.com; tadashiyorinori@tmg.agr.br

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Figura 4. Diferença de severidade de ferrugem com 7 dias de atraso (à direita), após duas aplicações

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