Hades Através dos Tempos

Hades Através dos Tempos

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO

CURSO DE LETRAS E LITERATURA – LICENCIATURA PLENA

HADES ATRAVÉS DOS TEMPOS:

A construção da imagem do deus Hades

Cuiabá

2009

ALINE DOS SANTOS ROSSI

HADES ATRAVÉS DOS TEMPOS:

A construção da imagem do deus Hades

Trabalho apresentado ao Curso de Letras da UFMT - Universidade Federal de Mato Grosso, para o 1° Ano.

Docente: Elisana de Carli

Disciplina: Latim

Turma: 1° Ano – Letras Língua Portuguesa e Literatura – Licenciatura Plena

Unidade: Cuiabá – Mato Grosso

Cuiabá

2009

HADES ATRAVÉS DOS TEMPOS

Aline dos Santos Rossi1

RESUMO

Esse trabalho tem por objetivo estabelecer um percurso histórico-cronológico da construção de imagem do personagem mítico Hades, deus da mitologia grega; e como essa figura se transforma perante influências internas e externas no mito. Hades é apresentado como o deus mais distante do panteão grego, senhor do submundo, hospedeiro das almas e dono das riquezas. Esses fatores, juntamente com muitos outros, deram asas à mutação do mito, que serão aqui apresentadas.

PALAVRAS-CHAVE: Mitologia. Hades. Imagem.

O MITO

De acordo com o panteão grego, Hades era filho dos titãs Cronos e Réia, irmão de Zeus, Poseidon, Héstia, Deméter e Hera. Quando os titãs foram vencidos e destronados, os três irmãos partilharam o universo entre si: o Olimpo para Zeus, as profundezas marítimas para Poseidon e para Hades, o mundo inferior.

Os romanos conheciam-no por Plutão, que significa “O rico”, justamente porque Hades reinava sobre a parte mais abastada: o submundo era onde ficavam os minérios da terra. Tanto que, no mito sobre o Rapto de Core, quando Hades seqüestra sua futura esposa (logo depois conhecida como Perséfone), em algumas versões conta-se que o deus surge para buscá-la em uma carruagem de ouro.

Acima de tudo, o deus dos mortos era apresentado antigamente como um personagem de grande justeza, porém também era frio, astuto e o mais distante dos deuses, o que não lhe trazia muitos seguidores. Segundo Wilson A. Ribeiro:

De Hades, nenhum favor ou benefício era esperado; assim, ele não tinha templos e nenhum culto específico lhe era dedicado. Seu nome não era pronunciado, e a ele se referiam através de eufemismos. Era, também, raramente representado; quando isso ocorria, mostravam-no com um cetro, e às vezes com uma cornucópia, símbolo da fartura e da riqueza. (RIBEIRO JR., W.A. Hades.)

Mesmo apresentado como o deus dos mortos, não era Hades quem julgava as almas no submundo. Essa tarefa cabia aos juízes Minos, Radamante e Éaco, que definiam o destino dos réus (Campos Elíseos ou Tártaro). Somente quando a decisão era realmente difícil, Hades era chamado para intervir e dar seu julgamento acerca do assunto. Também não era o deus quem torturava as almas condenadas (esse era o dever das Eríneas), Hades era então não uma figura má, mas sim neutra.

Para constituir o visual do deus na antiguidade, além do cetro e da cornucópia, deve ser ressaltado seu famoso elmo da invisibilidade. Hades teria ganhado o item dos Cíclopes, quando ajudou a libertá-los da prisão imposta por Cronos, e ninguém podia vê-lo quando usava o capacete. Daí o nome Hades, que em grego quer dizer “o invisível”. O item seria também uma justificativa para a pouca aparição do deus entre os mortais, já que poucas vezes vinha à superfície e mais raramente ainda era notado.

Figura - Hades representado na série de Vasos Negros de Figuras Vermelhas

REPRESENTAÇÕES ATUAIS

§ 1. O deus pela Disney

Como afirmado anteriormente, os conceitos acerca de Hades sofreram mutações tendenciosas através do tempo. Por exemplo, a imagem hoje apresentada pela Disney na animação “Hércules”: o deus é uma figura que sempre surge envolto em sombras, com chamas na cabeça, acompanhado de seus escravos, os diabretes Pânico e Agonia. Seu objetivo, na história, é destronar Zeus e dominar o mundo. Essa imagem sofre, claramente, influências da mitologia judaico-cristã, associando o deus mítico do submundo ao Diabo, também senhor dos mortos e “rei” do inferno.

Seguindo a etimologia da palavra ‘inferno’, podemos ver o motivo da associação dos dois personagens e a construção da imagem de Hades baseada no Diabo bíblico: a palavra ‘inferno’ é traduzida do latim infernus (inferi, -órum), que significa “inferior” – referência ao local onde habitavam ambos. O mundo inferior cristão é um local de fogo e martírio para onde vão as almas condenadas. Porém, na antiguidade grega, o submundo (como o deus, também chamado de hades) é para aonde vão todas as almas, boas ou más, para ser julgadas pelo deus dos mortos e receber sua sentença: os heróis e escolhidos dos deuses vão para os Campos Elíseos, as almas desafortunadas, mas não propriamente criminosas, ficam no Érebo – equivalente ao purgatório – esperando pela sua segunda chance (reencarnação), e as almas perversas vão para o Tártaro, local de tormento eterno.

Figura - Hades, Pânico e Agonia, da Disney.

Por fim, não só a figura, mas também a personalidade do deus foi distorcida na animação da Disney; a imagem agora oferecida é a de um deus malvado, ambicioso, trapaceiro2 e que quer tomar o trono do irmão (Zeus). Aqui se ajustam as assimilações traçadas entre o deus e o Diabo. Outra figura vendida pela empresa para assemelhar os personagens, são os escravos que seguem e servem à Hades no filme. Pânico e Agonia, além de carregarem nomes que representam sentimentos ruins, são dois diabretes: criaturas que não fazem parte da mitologia grega.

§ 2. O deus no universo japonês

Também encontramos a figura de Hades no mundo da animação japonesa. Aqui o deus aparece no anime Cavaleiros do Zodíaco: A Saga de Hades. Dessa vez, há semelhanças de personalidade entre este e o deus do mito original, mas ainda há intervenção na história: o Hades japonês é frio, distante e pouco mostra de si mesmo. Habita no submundo (onde ainda há as divisões do Tártaro e Campos Elíseos) e seu objetivo, no desenho, é aniquilar todos os humanos da Terra.

A aniquilação humana não aparenta um aspecto tão abominável quando entendido o motivo principal; Hades não pretende fazê-lo apenas por maldade. Pela perspectiva do deus, os humanos estão cheios de pecados, “impuros” e não merecem habitar o mundo.

Sua obsessão pela pureza é tamanha que, no anime, ele sempre reencarna3 no corpo de um ser humano puro. Em “A Saga de Hades”, o deus retorna no corpo do cavaleiro Shun de Andrômeda, o personagem mais sensível e casto da animação.

Figura - Hades em Cavaleiros do Zodíaco

Quanto ao visual, o deus é apresentado usando armadura negra e empunhando a Espada do Mundo dos Mortos4. Fisicamente, tem cabelos negros longos, pele clara e olhos verdes.

2.1 Personagens relacionados

O deus, agora, traz em sua companhia mais que dois simples diabretes. Na animação, Hades tem sob seu domínio um exército de mortos, e a cada componente deste exército intitula-se espectro. Esta seria uma ‘habilidade’ do deus: ressuscitar qualquer humano e acrescentá-lo à sua hoste. Os espectros tem livre passagem do mundo inferior à superfície, sem precisar passar por provações ou qualquer coisa que lhes cause dano – algo impossível para os demais (deuses que não se relacionem com Hades, humanos e etc.) – e são destemidos em batalha, pois não podem ser mortos.

Outra companhia curiosa é a irmã e representante de Hades na saga japonesa, Pandora Heinstein – diretamente relacionada com a Pandora da Mitologia Grega. A personagem, cheia de curiosidade, abriu uma caixa de onde saíram (invés de todos os males do mundo) as almas dos gêmeos Thanatos (deus da morte) e Hypnos (deus do sono). Por castigo à curiosidade, Pandora foi fadada a ser guardiã do espírito de Hades até sua reencarnação. Quando o deus retornou, Pandora tornou-se seu braço direito e comandante do exército dos mortos.

Alguns personagens do antigo mito grego são mantidos no anime com suas funções originais: Caronte, o barqueiro, Rhadamantys, Aiacos (Éaco) e Minos, os três juízes do submundo.

§ 3. O Hades de Rick Riordan

Rick Riordan é autor da saga “Percy Jackson e os Olimpianos”; uma saga recente de aventura infanto-juvenil, completamente imersa no mundo da mitologia grega em pleno século XXI.

Nesta saga, Hades é um deus mal-humorado em crise econômica por ter que dobrar o salário dos súditos, e estressado pela superlotação no mundo inferior. Em suma, sua personalidade segue de perto o mito original: procura não se envolver com nada nem ninguém, é justo e se enraivece apenas quando se sente insultado5.

Inicialmente, Hades inspira medo nos demais personagens do livro, que estremecem ao falar sobre o deus dos mortos. Quíron (2008, p. 82) – um dos personagens – comenta sobre o deus no primeiro volume da série: “-Alguém que guarda um ressentimento, alguém que está infeliz com a parte que lhe coube desde que o mundo foi dividido eras atrás, cujo reinado se tornará poderoso com a morte de milhões. [...]”. E em outro momento, Annabeth, uma das personagens principais, diz que o deus é ‘enganador, cruel e ganancioso’ (RIORDAN, 2008, p. 115).

Quanto à sua aparência, Hades é descrito pelo protagonista Percy, quando ele e seus amigos chegam ao palácio do deus, no mundo inferior:

Para início de conversa, ele tinha pelo menos três metros de altura, e usava mantos de seda preta e uma coroa de ouro trançado. Sua pele era branca como a de um albino, o cabelo comprido até os ombros era preto-azeviche. Não era corpulento como Ares, mas irradiava força. Reclinava-se em seu trono de ossos humanos fundidos parecendo flexível, elegante e perigoso como uma pantera. (RIORDAN, 2008, p. 178)

Poucas linhas depois, o mesmo personagem compara Hades a Adolf Hitler e Napoleão Bonaparte, dizendo que o deus tinha ‘o mesmo olhar intenso, o mesmo tipo de carisma hipnotizador e maligno’ (p. 179). Ainda na mesma página, Percy Jackson oferece uma descrição sombria acerca das vestes do deus: “[...] rostos sombrios apareceram nas dobras dos seus mantos negros, rostos atormentados, como se o traje fosse feito de almas dos Campos da Punição pegas ao tentar escapar, costuradas umas nas outras.”.

Apesar da aparência funesta e a má percepção inicial sobre Hades, ao final do volume, o deus é compreendido, enfim, como um personagem neutro; não era, de fato, um Senhor enfurecida e cruel, somente estava irritado pelo roubo de seu Elmo de Cobre, que lhe foi devolvido com toda a trama descoberta, desfazendo a perversa imagem que todos faziam de si.

CONCLUSÃO

Comparado ao mito original, as versões atuais do deus mítico foram fortemente distorcidas sob a perspectiva “bem e mal” – sendo que, na antiguidade clássica, não era ainda admitida essa divisão.

O deus Hades, para os pagãos antigos, era apenas uma divindade distante do panteão, de personalidade neutra e sem qualquer referência ao plano de dominação mundial. As novas apresentações, porém, mesmo carregando certas semelhanças, trazem sempre características negativas, principalmente associando o deus à maldade, à morte (quando não era Hades quem matava ou torturava) e ao já citado plano de domínio do mundo – exceto a obra de Rick Riordan.

Estas são concepções novas e tendenciosas, com fortes influências da sociedade judaico-cristã, quando diz respeito à associação da figura do deus com fogo, desejo de matar, etc.. No entanto, não deve ser visto como uma transformação exclusivamente fundada em questões religiosas. Mas antes adaptada ao novo público-alvo desse universo mitológico e a idéia convencional de heróis e vilões, a dualidade vigente nos dias de hoje, pois essa é a idéia que melhor vende na sociedade atual; principalmente quando se tem em vista que as visões errôneas apresentadas são televisivas (o anime, o filme da Disney, etc), e a visão mais aproximada do mito antigo vem no livro do escritor Riordan.

Este é o percurso histórico-cronológico da construção de imagem do personagem mítico Hades: do deus frio e neutro, com elmo e caduceu, a uma divindade maléfica e dominadora, de armadura e espada para diversas outras imagens que, com certeza, sucederão em novas formas de apresentação conforme o público se modifica.

BIBLIOGRAFIAS:

BULFINCH, Thomas. O livro de Ouro da Mitologia: história de deuses e heróis. 4ª ed. São Paulo: Martin Claret, 2006.

BRANDÃO, J.S. Mitologia Grega Vol. II. 5ª ed. São Paulo: Vozes, 1992.

IMAGESHACK. Hades. Disponível em: <http://img11.imageshack.us/i/hadesdx.jpg/>. Consulta: 01/11/2009.

KURUMADA, Massami. Os Cavaleiros do Zodíaco: A Saga de Hades [DVD]. Brasil: Playarte, 2006.

PORTAL EmDiv. Hades, o deus do Submundo – Mitologia Grega. Disponível em: <http://www.emdiv.com.br/pt/mundo/povosetradicoes/1729-hades-o-deus-do-submundo-mitologia-grega.html> Consulta: 28/10/2009.

RIBEIRO JR., W.A. Hades. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. Disponível em www.greciantiga.org/arquivo.asp?num=0172. Consulta: 22/10/2009.

RIORDAN, Rick. Percy Jackson e Os Olimpianos: O Ladrão de Raios. São Paulo: Intrínseca, 2008.

TEIXEIRA, Alexandre Quinta Nova. O Mito de Deméter e Perséfone. Disponível em: < http://www.portaldomarketing.com.br/Artigos_Psicologia/Mito_de_demeter_e_Persefone.htm> Consulta: 28/10/2009.

1 Graduanda de Letras, com licenciatura em Língua Portuguesa, pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

2 No filme, o oráculo diz que Hércules era o único capaz de atrapalhar os planos de Hades para dominar o mundo. O deus então propõe à personagem Mégara que seduza Hércules para que o deus possa derrotá-lo, em troca ele devolveria a alma da jovem, que estava em sua posse.

3 Segundo o anime, Hades tinha muito zelo por seu corpo original. Por esse motivo, separou sua alma do corpo e o guardou num mausoléu localizado nos Campos Elíseos. Sua alma sempre reencarna no ser mais puro da Terra.

4 Quando a espada toca algum ser vivo, ela retira, aos poucos, a alma da criatura até que esta seja morta por completo.

5 No livro, Hades está irado porque teve seu elmo da invisibilidade roubado.

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