cartilha de manejo de solo

cartilha de manejo de solo

(Parte 1 de 2)

Estudos e Publicações • Cartilha com técnicas de preparo de solo

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - MAPA através da Secretaria de Apoio Rural e Cooperativismo - SARC, vêm desenvolvendo ações com a parceria de lideranças do agronegócio.

Estas ações, em comum, têm o objetivo de apoiar o Produtor Rural na implantação de suas atividades, melhorar sua produtividade e aumentar a renda no campo.

A presente Cartilha busca de maneira simples, responder de forma objetiva às freqüentes indagações e dúvidas no momento da preparação da terra e da decisão do plantio.

É importante para o agricultor ter, e de maneira objetiva, esclarecimentos sobre como proceder a uma correta amostragem de solo, conhecer sua fertilidade, entender questões relativas ao correto uso de calcário agrícola, a adequada utilização e as diferentes formas de adubação e a importância do plantio de uma semente de qualidade comprovada.

Estes fatores, implementados sob orientação técnica, garantirão ao Produtor Rural êxito quando da colheita.

A primeira e mais crítica etapa para obter uma correta recomendação de calagem e adubação para obtenção de produtividades rentáveis é o processo de amostragem do solo a ser cultivado para, em seguida, proceder-se à análise química em laboratório.

Os cuidados com a coleta de amostras de solo devem merecer atenção especial do agricultor, porque um erro na amostragem pode comprometer as etapas seguintes para a definição da quantidade de calcário e adubos a serem utilizados na lavoura, ou seja, a análise não corrige os erros cometidos no momento da coleta da amostra.

Para se obter amostras de solo que sejam representativas da área a ser cultivada, deve-se adotar os seguintes passos:

Subdividir a área a ser amostrada em glebas ou talhões homogêneos quanto à cor do solo, textura (maior ou menor presença de areia), grau de drenagem, tipo de vegetação ou cultura anterior, declividade, histórico de uso e manejo. A figura 1 exemplifica uma eficiente divisão do terreno para amostragem de solos: a gleba 1 representa a encosta íngreme, parte que recebeu calagem (1a) e parte que não recebeu calagem (1b); a gleba 2, a encosta mais suave usada com agricultura esporádica; a gleba 3, pastagem no sopé da encosta; a gleba 4 constitui-se de área de relevo suave-ondulado, de coloração mais acinzentada (4a) e de cor mais amarelada (4b); a gleba 5 consiste em pastagem nativa com drenagem deficiente. Na gleba 4b, está representado o sistema de coleta de amostras simples (20 pontos) para formar uma amostra composta. Para cada gleba homogênea deve ser feita uma amostragem em separado e enviada uma amostra ao laboratório. No caso de culturas perenes, os talhões com variações de cultivar, idade ou produtividade devem ser considerados como áreas distintas.

Figura 1. Divisão das áreas de amostragem conforme as diferenças no terreno (para cada gleba devem ser coletadas amostras em separado).

As amostragens devem ser feitas coletando-se amostras simples em 20 pontos ao acaso (caminhando em ziguezague) em cada gleba ou talhão homogêneo. Misturando-se bem as amostras simples, obtém-se uma amostra composta, da qual separam-se mais ou menos 300 gramas em saco plástico limpo, que, por sua vez, devem ser colocadas dentro de outro saco plástico, junto com a etiqueta de identificação da amostra (Figura 2) e a ficha com as informações adicionais que ajudam na interpretação dos resultados da análise (Figura 3). Esse cuidado deve ser tomado para evitar que a umidade da terra estrague a etiqueta e o formulário. Os diversos tipos de equipamentos que podem ser utilizados para a coleta de amostras de solos são mostrados na figura 4. Como a pá-de-corte é o mais simples e comumente usado para essa finalidade, os procedimentos de amostragem são detalhados na figura 5. As operações representadas nos quadros A, F, G e H da figura 5 são também aplicáveis quando do uso de qualquer tipo de trado.

Figura 2.Modelo da etiqueta para identificar cada amostra.

Figura 4. Procedimentos de amostragem de solo, utilizando-se diferentes equipamentos.

Figura 5. Seqüência de operações na coleta de amostra de solo, utilizando-se enxadão e pá reta (pá-de-corte).

A profundidade de coleta de cada amostra simples deve variar de acordo com o tipo de cultivo das culturas anuais (convencional aração e gradagem - ou plantio direto), culturas perenes (formação ou produção), pastagens (formação ou manutenção) e campo natural sem revolvimento do solo.

- Culturas anuais com sistema de cultivo convencional (aração e gradagem), formação de culturas perenes e de pastagens, e até a 6ª cultura anual sob sistema de plantio direto adubada em linha: amostrar a camada de 0 a 20 cm de profundidade.

- Culturas anuais sob sistema de plantio direto após a 6a cultura adubada em linha, produção de culturas perenes e manutenção de pastagens formadas: amostrar a camada de 0 a 10 cm de profundidade. Também, em campo natural sem revolvimento do solo, amostrar a camada de 0 a 10 cm.

Observação: para culturas anuais em sistemas de plantio direto, as amostras simples devem ser coletadas com a pá-de-corte, numa fatia de 3 a 5 cm, transversalmente aos sulcos e até a profundidade desejada. Nesse caso, como cada amostra simples é constituída, não de um ponto, mas de uma faixa no solo, recomenda-se 8 a 10 amostras simples para formar uma amostra composta. (Figura 6).

Figura 6. Coleta de amostra simples para formar amostras compostas em área com manejo

sob o sistema de plantio direto.

É recomendável, também, proceder de quando em vez, a amostragem de camadas mais profundas do solo (20 a 40 cm e às vezes de 40 a 60 cm) com o objetivo de se detectar a ocorrência de barreiras físicas (pedregosidade, compactação) ou químicas (toxidez de alumínio, deficiência de cálcio), que impedem o crescimento radicular em profundidade, limitando a absorção de nutrientes e água. Nesse caso o número de amostras simples que irão formar a amostra composta pode ser reduzido à metade.

Em culturas perenes já implantadas (fruticultura, cafeicultura), as amostras simples devem ser coletadas na faixa que recebe as adubações, ou seja, da projeção da copa para dentro, como mostra a figura 7.

Figura 7. Local de coleta da amostra de solo (amostra simples) em culturas

perenes.

Não coletar amostras próximo a casas, brejos, voçorocas, caminhos de pedestres, formigueiros etc, e nunca utilizar recipientes usados ou sujos como sacos de adubo, cimento, embalagens de defensivos ou saquinhos de leite para acondicionar as amostras.

• A época de coleta e envio das amostras ao laboratório é variável, mas o ideal para culturas anuais é no início do período de seca e com boa antecedência em relação ao plantio. Nessa época, o solo ainda apresenta certa umidade, o que facilita os procedimentos de amostragem e o agricultor terá tempo suficiente para planejar a compra do calcário e dos adubos. Para culturas perenes em produção, a amostragem deve ser feita preferencialmente logo após a colheita.

• A análise, na mesma gleba, deve ser repetida em intervalos que variam de 1 a 4 anos. As áreas cultivadas intensivamente (2 ou mais safras por ano) ou de altas produtividades devem ser analisadas anualmente.

• Deve-se guardar os resultados das análises de uma determinada gleba ou talhão para comparações futuras visando o acompanhamento das modificações da fertilidade do solo.

• É importante que o agricultor se informe, em sua região, dos laboratórios que realizam análises para avaliação da fertilidade do solo como base para uma correta calagem e adubação de sua lavoura. Essas informações podem ser obtidas nas agências da EMATER, nos escritórios do Ministério e das Secretarias da Agricultura, nos escritórios de planejamento e empresas de insumos.

Interpretação da análise do solo

A interpretação dos resultados das análises dos solos realizadas em laboratórios assim como os cálculos de doses de calcário e adubos, para cada cultura em particular, devem ser feitos sob a orientação de um engenheiro agrônomo. Esse profissional, com base nas recomendações oficiais por Estado, de calagem e adubação para as mais diversas culturas, das informações que constam do questionário sobre o ambiente geral da gleba ou talhão e do histórico de manejo irá ajudá-lo na tomada de decisão que seja técnica e economicamente mais adequada.

A análise do solo é a “ferramenta” básica para identificar a necessidade de calagem, em uma área, com vistas à correção da acidez, diminuição da toxidez de alumínio e correção das deficiências de cálcio e magnésio os quais são problemas comuns em um grande número de solos no Brasil. Além disso, a dose adequada de calcário propicia uma diminuição da “fixação” de fósforo, tornando-o mais disponível para as plantas, aumenta a disponibilidade de vários nutrientes, estimula a atividade microbiana no solo e melhora suas condições físicas.

É necessário, entretanto, que certos princípios básicos sejam considerados para tornar a prática da calagem a mais eficiente possível:

• PRNT: a qualidade do calcário é determinada pelo Poder Relativo de

Neutralização Total (PRNT), o qual reflete a intensidade de reação do produto no solo, no período de 3 meses. Esse PRNT é resultado do teor de compostos químicos presentes no calcário que agem na neutralização da acidez (PN Poder de Neutralização) e do grau de finura na moagem (RE Reatividade). Em geral, quanto mais alto o PRNT, mais rápida a reação. Portanto, para escolha do calcário a ser adquirido, deve-se levar em conta sua qualidade, indicada pelo PRNT. reatividade.

• Época de aplicação: a calagem pode ser feita em qualquer época do ano, contudo é importante que a aplicação do calcário seja realizada com a maior antecedência possível (mínimo de 3 meses) ao plantio e, ou, adubação.

• Modos de aplicação: O calcário aplicado ao solo reage principalmente pelo contato de suas partículas com as partículas do solo, e para que isso aconteça, é necessário, também, que haja umidade no solo. Por essa razão, para a maioria dos casos, sua mistura ao solo deve ser a mais homogênea possível a uma profundidade mais explorada pelas raízes das plantas, em geral incorporado na camada superficial de 0 a 20 cm. Entretanto, em áreas sob plantio direto já estabilizado, com culturas perenes já instaladas, pastagens formadas e campos naturais sem revolvimento do solo essa regra não se aplica. Assim sendo as recomendações sobre modos de aplicação podem ser divididas em dois grupos:

1. Culturas anuais com sistema de cultivo convencional (aração e gradagem), formação de culturas perenes e de pastagens:

a. Distribuir a lanço em área total metade da dose de calcário recomendada (em geral calculada para a camada de 0 a 20 cm e corrigida para PRNT 100%) e fazer a aração; b. Distribuir a outra metade da dose do calcário e proceder a gradagem.

2. Culturas anuais sob sistema de plantio direto, culturas perenes, pastagens formadas e campos naturais sem o revolvimento do solo:

- Distribuir o calcário a lanço em área total, utilizando 1/3 da dose recomendada se a amostragem da gleba ou talhão for feita na camada de 0 a 20 cm ou utilizar 2/3 da dose recomendada se a amostragem foi feita na camada de 0 a 10 cm (nestes casos, a dose também deve ser corrigida para PRNT 100%).

• Cuidado com o excesso de calcário: O uso de quantidade de calcário acima da recomendável, além de ser um desperdício, leva a efeitos negativos no desenvolvimento e produção das culturas, principalmente por induzir deficiências de alguns micronutrientes, podendo também diminuir a disponibilidade de fósforo.

APLICAÇÃO DO GESSO A aplicação correta de calcário corrige a acidez, elimina a toxidez de alumínio e aumenta os teores de cálcio e magnésio na camada superficial do solo. Entretanto, problemas ligados à acidez e toxidez de Al, além de deficiência de Ca podem persistir no subsolo. Essas limitações químicas do subsolo levam a uma menor exploração do volume do solo em profundidade, diminuindo a absorção de água e nutrientes dessa camada e aumentando os riscos de quedas na produtividade decorrentes de déficits hídricos causados por “veranicos” na estação das chuvas. Quando essas limitações químicas forem diagnosticadas através da amostragem do solo e análise das camadas de 20 a 40 e, às vezes de 40 a 60 cm, como anteriormente mencionado, elas podem ser minimizadas pela aplicação superficial, a lanço, do gesso agrícola. As doses recomendadas são baseadas no teor de argila do solo. Esta recomendação deve ser feita por profissional habilitado, em decorrência de alguns pontos importantes quanto ao uso do gesso agrícola:

• O gesso deve ser aplicado após a calagem, nunca antes, se ela se fizer necessária;

• Doses excessivas de gesso podem levar a grandes perdas de magnésio e potássio por lixiviação;

• O efeito residual da aplicação de gesso, na dose correta, pode chegar a 4 ou 5 anos, não sendo, em geral, necessário reaplicá-lo antes desse período;

O gesso é, também, uma excelente fonte de cálcio e enxofre para as culturas e, quando aplicado na dose correta, supre perfeitamente a necessidade desses nutrientes.

Para que uma cultura possa crescer, desenvolver e atingir boas produções é necessário que o solo forneça quatorze nutrientes minerais essenciais: nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio, enxofre, boro, cobalto, cloro, cobre, ferro, manganês, molibdênio e zinco. Quando o solo não possui quaisquer desses nutrientes em quantidades suficientes, eles devem ser adicionados através de uma adubação adequada.

Essa adubação adequada é, normalmente, feita por aplicação, via solo, de fertilizantes minerais que carreiam um ou mais nutrientes essenciais. Para certas situações especiais, essa aplicação pode ser feita via adubação foliar e, ou, tratamento de sementes.

(Parte 1 de 2)

Comentários