Tecnica farmaceutica e farmacia galenica vol. i

Tecnica farmaceutica e farmacia galenica vol. i

(Parte 1 de 4)

I Volume

4- Edição

13 Preâmbulo

Circunstâncias várias concorreram para que fosse ganhando corpo a ideia de escrever este livro sobre Técnica Farmacêutica e Farmácia Galénica.

E como era por demais sensível a falta de um ic\lo no nosso próprio idioma sobre estas disciplinas basilares do curriculum cios estudos farmacêuticos, não quisemos esquivar-nos, uma vez equacionada a possibilidade da sua publicarão, a tentar converter em realidade um tão aliciante projecto.

Por is.so, assegurada a sua edição pêlos competentes serviços da benemérita Fundação

Calouste Gulbenkian, lançámo-nos. entusiasticamente, na realizarão da tarefa que nos propuséramos levar a cabo. guiados pela ideia de sermos tileis aos estudantes e aos nossos colegas.

No entanto, se bem que ao iniciarmos a feitura deste livro tivéssetnos a consciência das dificuldades com que iríamos deparar, a verdade é que elas se revelaram, à medida que prosseguia o trabalho, bem custosas de tornear.

De facto, os assuntos relacionados com a Técnica Farmacêutica e a Farmácia Galénica são hoje Ião vastos e multiformes que se tornou, em certos casos, extremamente difícil concatená-los de modo a dar-lhes uma forma harmoniosa e equilibrada.

Poderá ta/vê: parecer que a obra agora apresentada se In um tatuo extensa e excessivamente pormenorizada em certos capítulos. A razão disso filia-se, porem, fio carácter que pretendemos emprestar a este livro, que foi escrito com a dupla finalidade de servir de texto a estudantes e poder, simultaneamente, interessar aos pós-gradtiados.

Exactamente por causa da sua vastidão e variedade dos tópicos nele tratados, admitimos, francamente, que este livro não fera saído tão perfeito quanto desejávamos que ele se apresentasse. Por isso, .serão bem acolhidas todas as críticas e sugestões tendentes a aperfeiçoálo, se algum dia viermos a ter oportunidade para o fazer.

É-m>s particularmente graio reconhecer, neste momento, que um dos principais motivos que nos levou a escrever este manual foi o caloroso incitamento que alguns categorizados colegas nos dispensaram, fcsie fado contribuiu para que nunca nos sentíssemos desamparados e se não fosse os estímulos deles recebidos, a ajuda que nos deram e os sábios conselhos que nos prodigalizaram talvez não tivéssemos »hegado ao fim. E se apesar de tudo alguma deficiência houver que apontar nas páginas que se seguem, a culpa é exclusivamente nossa, que não soubemos apreender convenientemente aquilo que outros nos transmitiram correctamente.

Resta-nos agradecer a todos quantos directa ou indirectamente concorreram, de algum modo, para tornar possível a concretização desta obra. Um imperativo de consciência impõe-nos, contudo, que individualizemos algums agradecimentos.

Assim, confessamo-nos particularmente gratos ao E\mo. Senhor Professor Dr. José Vale

Serrano, que gentilmente se dignou discutir alguns capítulos deste livro e cujas sugestões e elevado espírito crítico muito contribuíram para o melhorar em vários aspectos.

Também ao Exmo. Senhor Professor Dr. Carlos Ramalhào desejamos agradecer o ter amavelmente acedido a apreciar o capítulo sobre Esterilização.

Aos nossos colegas Exmos. Senhores Doutores Aluísio Marques Leal, Alfredo do Amaral e

Albuquerque e Alberto Roque da Silva queremos, do mesmo modo, patentear a nossa gratidão pela prestimosa ajuda que nos dispensaram. igualmente agradecemos ao Exmo. Senhor Doutor Rui Morgado a sua valiosa colaboração, a qual, entre outros aspectos, nos foi particularmente útil na compilação e ordenação das gravuras que ilustram o texto.

E também com o maior prazer que registamos a amável anuência de Wulkex ao pedido para que nos fosse permitida a utilização de várias gravuras do seu catálogo de instrumentos de vidro para laboratório, o mesmo acontecendo com a firma Emílio de Azevedo Campos, Lda., que com a melhor vontade nos cedeu fotografias de alguns aparelhos de marcas por si representadas.

E porque os últimos não são, necessariamente, os menos importantes, queremos terminar expressando o nosso reconhecido agradecimento à Fundação Calousle Gulbcn-kian, sem cujo decisivo apoio este livro talvez nunca viesse a ser publicado.

Porto, Setembro de 7967.

I PARTE

15 TÉCNICA FARMACÊUTICA

2 Operações farmacêuticas de uso geral

Como o seu nome indica, consideram-se neste grupo as operações incaracterísticas do ponto de vista farmacêutico mas correntemente praticadas em todos os laboratórios, como a pesagem e a medição de volumes de líquidos.

2.1PESAGEM

Pode di/,er-se que a pesagem é a operação mais vulgarmente executada na preparação de formas farmacêuticas. Tanto a teoria da pesagem como a dos instrumentos utilizados para a sua execução são estudadas, com o devido pormenor, nos cursos de Física, motivo por que nos dispensamos de lhes fazer aqui qualquer referencia.

Entretanto, lembramos que, por imposição legal, o farmacêutico deve possuir, no seu laboratório, uma balança de precisão e uma balança ordinária ou de Roberval.

2.1.1BALANÇAS DE PRECISÃO

As balanças de precisão destinam-se à pesagem rigorosa de substâncias prescritas em pequenas quantidades c podem ser dos mais variados modelos e sensibilidades utilizando-se hoje correntemente as balanças monopralo sensíveis a 0,1 mg.

As balanças ordinárias, muitas delas sucessoras da clássica balança de ROBIÏRVAL, são também de diversos tipos, desde as que utili/.am massas marcadas e possuem um ou dois pratos, até às que constituem alavancas interfixas de braços desiguais c de dimensões variáveis em que o equilíbrio é conseguido pelo deslocamento de uma massa de peso fixo. Destinam-se ã pesagem de quantidades de substâncias que podem oscilar entre algumas fracções do grama e vários kg de peso. A sua sensibilidade é, na maior parte das vezes, da ordem de 0,1 a 0,2 g

2.1.2PESOS

Na maioria dos países vigora o sistema métrico decimal, cuja unidade fundamental é o kg, com os seus múltiplos e submúltiplos.

dos diversos pesos apotecários e o seu valor em g, a qual é dada na Tabela I
Tabela IPesos apotecários
/'*.,,Sinthvh

Acontece que na Inglaterra e nos Estados Unidos o sistema decimal tem sido facultativo, ulili/undo-se ainda hoje os pesos usados no comércio em geral ou em Farmácia, designando-se estes últimos por por pesos, apotecúrios. l'ma vê/ que lais pesos figuram nos livros sobre Farmácia Galé nica originários daqueles países, julgamos conveniente indicar a correspondência Corresporiênci*

1 'ítlor cm <*ráuía

Libra1 i b

12 onças

On<,a;1

8 dracmas

Dracma5

3 escrúpulos

Hscrópulo:)

20 grãos

Gr:iogr
2.2MEDIÇÃO DE VOLUMES DE LÍQUIDOS
2.2.1INSTRUMENTOS UTILIZADOS

A medição do volume de líquidos é outra das operações correntemente praticada nos laboratórios farmacêuticos e fa/-se utili/andu instrumentos de vidro ou plástico, como buretas, pipetas, provetas, balões volumétricos e copos graduados, os quais têm gravada uma escala cuja unidade fundamental é o ml.

Sempre que seja necessário medir com rigor um determinado volume de liquido deve utili/ar-se uma pipeta, que pode apresentar duas modalidades de graduações. Umas apenas permitem medir o volume que indicam e que pode ser definido a partir de um traço superior até escoamento lotai, ou por dois traços entre os quais se limila o volume marcado e que pode ser de l, 2, ,5. IO. 20. 25. 50, 100 ml. Outras apresentam uma graduação em ml com subdivisões em décimos e até mesmo em centésimos de ml. Assim, é evidente que deve escolher-se o tipo de pipeta mais apropriado á medição que se pretende efectuar.

Por seu turno, os balões volumétricos destinam-se a preparar soluções de concentração rigorosa. Diferem dos balões vulgares por apresentarem um colo bastante estreito, onde existe um círculo gravado a toda a volta que marca o volume assinalado no balão.

Finalmente, os copos graduados, deforma

. Há-os de variadíssimas capacidades, desde alguns ml até l litro e mais. As provetas servem para medir volumes de líquidos quando tal operação não exija um rigor extremo. As de menor capacidade são graduadas em 0,1 ml, espaçando-se a graduação à medida que a sua capacidade aumenta. cónica, são os instrumentos que menor rigor dão na medição de volumes, dado que a sua parte superior é sempre bastante larga, o que provoca erros apreciáveis na lei-tura do volume pretendido. Como já alrás dissemos a respeito dos pesos, também ainda se usam hoje as medidas antigas de capacidade na Inglaterra e nos Estados Unidos, indicando-se na Tabela

I a sua correspondência com as medidas decimais.

Tabela ICorrespondência das medidas antigas de capacidade
Símbolo InglaterraEstados Unidos
2.2.2CONTA-GOTAS NORMAL

Correspondem- ia

Acontece que certos medicamentos líquidos, geralmente muito activos, são prescritos em gotas e não em peso ou em volume. Para contar o número de gotas indicado na prescrição é costume retirar incompletamente a rolha do frasco que contém o líquido

Fig. 1Vários instrumentos usados para a medição

de líquidos

Medida

Galão C 4,546 l

Pinto O 0,568 l

Onça fluida fl. oz., f 28,4(K) ml

Dracma fluida fl. dr., f 3,550 ml

Mínimo m 0,059 ml e deixá-lo escoar do gargalo, ou utili/ar pequenas pipetas munidas com tetmas de borracha, o que está longe de constituir um modo rigoroso de executar esla operação.

Qualquer destes processos não origina gotas de peso uniforme, pois tanto este como o volume da gota dependem de vários factores, como a forma do recipiente donde aquela escoa, a temperatura, a capilaridade e a densidade do líquido. Deste modo, corre-se o risco mais que provável de a mesma prescrição, executada em duas farmácias diferentes, poder apresentar uma actividade variável se as golas forem contadas por qualquer dos processos acima indicados, pois só por mero acaso as condições instrumentais serão as mesmas nos dois laboratórios. Para evitar esta variabilidade do peso das golas criou-se o conta-gotas normal, instrumento que ta/ parle do equipamento obrigatoriamente existente em todos os laboratórios farmacêuticos, cujas características vêm indicadas na Farm Porl. V, V. 1.1.

Como aí se di/, podem ser utili/ados outros contas-gotas desde que satisfaçam ao seguinte ensaio: 20 gotas de água a 2()±1"C que se escoam em queda livre de um conta-golas ? normal conservado em posição vertical, com um débito de uma gota por segundo, pesam 1000 -t 50 mg, lendo o conta-gotas sido lavado cuidadosamente antes do emprego. Com um dado conla-gotas, executar pelo menos 3 determinações: nenhum resultado deverá afaslar-se mais de 5 por cento da média das 3 determinações.

de líquidos sem recorrer ao emprego de uma balança, o que torna esta operação exlrema-J.OU
J,O.) mente simples de executar. Na realidade, uma vê/ que o refe-Fig. 2Conta-gotas normal r

Outra das vantagens do conta-goias nornuil é a de permitir determinar pequenas massas '°

instrumento permite a obtenção de gotas de peso eons-Dimensões em milímetros(ante. basta
líquido por este processoNa Tabela I dá-se o número de

saber-se o número de golas originado por l g de golas correspondente a l g de líquido, medido por um conta-goitis nanuul à temperatura de 15"C. indicando-se também o peso de X golas do mesmo líquido fornecidas pelo referido instrumento.

Vejamos como se utili/am, na prática, os valores que figuram na Tabela 1 e, para isso, suponhamos que pretendíamos usar 0,2 g de tintura de ópio. Conforme está indicado na referida tabela, LV1 gotas desta tintura pesam I g; logo, por uma simples regra do três. calcula-se que a 0,2 correspondem 1.2 gotas, Basta, portanto, contar XI golas de tintura de ópio, utili/.ando o conta-goias nonuiíl. para que tenhamos o peso pretendido.

Tabela IN.° de gotas correspondente a 1 g e peso de x gotas dos principais

25 medicamentos líquidos à temperatura de 15°C (')

A'." de golas corrres- Peso de x golas

Medicamento pondente a l ,ç em g

Acetato de amónio (solução)

»» etilo 63 0,316
»clorídrico, d = 1,171 21 0,942
»láctico, d = 1,24 39 0,515
»fosfórico, d = 1,349 19 1,032
»sulfúrico, d = 1 ,84 26 0,781
»de 95° 64 0,315
»» 90 61 0,330
»» 80°
»» 70° 56
»» 60° 53 0,380

Álcool canforado 60 —

Elixir paregórico 53

»» hortel ã-pi menta 52 0,385
»» terebintina 56

Éter sulfúrico 93 0.214

Extracto fluido de boldo 38 0,526

»» » bardana 38 0,526
»» » coca 54 0,372
»» » cravagem
»» » grindélia 56 0.357
»» » hamamélia 50 0.4ÍK)
»» » hidraste 59 0,339
»» » viburno 58

óleo de cróton 50 0,398

Salicilato de metilo 37 0,537

Solução de adrenalina a l%o 20

»» digitalina a l%o 50 0,356
»» trinilrina 60 0,3
»» beladona 57 0,35 1
»» dedaleira 52 0,351
»» grindélia
»» noz vómica 57 0,348
»» ópio

Vinho de ipecacuanha 2 —

Vinagre cilílico 26

C) Extraído de VEIGA, J. URBANO da, Formulário Oficial e Magistral, 4* Hdição, Lisboa.

Querendo utilizar os dados indicados na coluna que nos dá o peso corresponde n lê a X gotas de medicamenlo, verifica-se, no exemplo apontado, que X gotas de tintura de ópio pesam 0,354 g. Desle modo, pelo processo atrás retendo, calcula-se que são precisas XI gotas para se obter 0,2 g de produto.

2.2.3. CORRESPONDÊNCIA ENTRE PESO E VOLUME

Ao executar uma prescrição médica é necessário ter em consideração as densidades dos líquidos que nela figuram, nunca se devendo, sem prévia correcção, medir um volume quando se indica um peso, ou inversamente. Assim, por exemplo, se o médico prescrever 10 g de uma tintura e quisermos executar a prescrição medindo o volume de líquido correspondente àquele peso, teremos de medir 10,75, 1 ou 1,23 ml conforme a tintura tiver uma densidade de 0,930, 0.910 ou 0,890. respectivamente, sendo esses volumes calculados pela fórmula:

P V = — d

Dum modo geral, pode dizer-se que as tinturas têm uma densidade compreendida entre 0,870 e 0,980. e os extractos fluidos uma densidade que vai desde 1,030 a 1,10 e mais, ao passo que os xaropes são ainda mais densos: d= 1.30-1,3. A Tabela IV indica a densidade de alguns líquidos de interesse farmacêutico, podendo, com os dados nela contidos, fazer-se, sem dificuldade, a conversão de um peso em volume, ou vice-versa, para o que basta ulili/ar a fórmula acima referida.

Tabela IVDensidades de vários líquidos a 15°C (')

Produto Densidade

»» amónio (sol.) 1,032-1.034
»azótico 1,390
»clorídrico l. l H6
»láctico 1.210-1,220
»sulturico 1.S30-1.843
»» diluído 1.068
(')Segundo DKNOFL, A., Cours de Pharmacie Pratique. L pág. 34. 1955, Lês Presses, Unívcrsilaires de

2.2.4. MEDIÇÃO DE DOSES DE MEDICAMENTOS

Um medicamento líquido para uso interno, como um xarope, uma poção, etc., raramente é prescrito para ser administrado de uma só vez. Em regra destina-se a ser ingerido em doses fraccionadas, as quais são, quase sempre, indicadas na respectiva prescrição. Como não é de esperar que o doente possua em casa os instrumentos de medida usados nos laboratórios, é bastante corrente usarem-se certos utensílios caseiros, como colheres, cálices ou copos, na medição das doses das preparações farmacêuticas líquidas. Deste modo, c da maior conveniência que o farmacêutico conheça a capacidade dos recipientes geralmente utilizados para esse fim, bem como o peso de medicamento que podem conter, a fim de ser possível estabelecer, com certo rigor, a posologia de um medicamento assim adminislrado. Na Tabela V indica-se a capacidade de algumas dessas medidas mais utilizadas na prática diária, bem como a quantidade, expressa em g, correspondente ao volume assinalado, para o caso da água, de um xarope e de um óleo.

Tabela VMedidas usadas na administração de medicamentos líquidos

Volume

Medida Xarope

»» sobremesa
»» sopa 13,75

Colher de café 4,75

»>•* vinho licoroso

Cálice de licor Copo de vinho

»» água
»» chá

Chávena de café

As capacidades referidas para os diversos tipos de colheres são obtidas enchendo--as bem e rasando, depois, a superfície do líquido com a lâmina de uma faca. Os volumes indicados são geralmente aceites como mais ou menos uniformes, mas já o mesmo não acontece no caso dos copos e chávenas. Na realidade, a capacidade destes recipientes varia de tal modo que não devem ser utilizados na medição de doses de medicamenlos bastante aclivos. Para minimi/ar este inconveniente, muitos destes medicamentos, hoje de preparação industrial, são acompanhados de um instrumento de medida próprio que pode consistir numa colher de material plástico ou de um pequeno copo convenientemente graduado.

DENOCL, A., Cours de Pharmaàe Pratique, Lês Presses Universitaires de Liège1955, Tomo I. GouwrhiN,

BIBLIOGRAFIA S. W., Metrology, in RF,MINGTON'S Pharniaceutical Sciences. Cap. 9, 81. Marck Puhlishitig Company. Easlon. U. S. A. 1980.

31 Operações farmacêuticas propriamente ditas

As operações farmacêuticas propriamente ditas são todas aquelas que se praticam com o objectivo de transformar um fármaco numa forma farmacêutica. Se bem que nalguns casos se utilize uma única operação, acontece, por vezes, que a obtenção de uma forma farmacêutica implica a execução de várias operações devidamente programadas. Assim, para obtermos um pó a partir de uma droga de natureza vegetal teremos que a submeter, previamente, a uma série de tratamentos, como a monda, secagem e divisão grosseira, e só então ela estará apta a ser pulverizada mediante um processo adequado. Além disso, para que o pó a obter apresente as características de tenuidade requeridas, aquele terá que ser submetido à tamisação.

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