behaviorismo

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“Carlos, você já foi correr hoje?”

MELHORANDO O COMPORTAMENTO DE EXERCITAR-SE DE CARLOS1

Após uma aposentadoria precoce aos 5 anos, Carlos decidiu fazer algumas mudanças em sua vida. Mas não sabia ao certo por onde começar. Sabendo que tinha que modificar alguns de seus antigos hábitos, inscreveu-se num curso de modificação de comportamento no centro comunitário local. A seguir, a conselho de seu médico, resolveu iniciar um programa regular de exercícios. Carlos, durante toda a vida, sempre foi um sedentário. Tipicamente, chegava em casa após o trabalho, pegava uma lata de cerveja e se plantava em frente ao aparelho de TV. Carlos deu início ao seu programa de exercícios com uma promessa a sua esposa de que correria quatrocentos metros todos os dias. Mas, após algumas tentativas, ele voltou a sua rotina sedentária. Sua expectativa foi muito alta para muito pouco tempo. Decidiu, então, tentar um procedimento chamado modelagem que havia estudado em seu curso de modificação de comportamento. Os três estágios abaixo resumem tal procedimento.

1. Especificar o comportamento final desejado. O objetivo de Carlos era correr quatrocentos metros diariamente.

Mas, para um sedentário crônico, isso era mais do que se poderia esperar. Para atingir tal objetivo, era necessário reforçar antes algum outro comportamento.

2. Identificar uma resposta que possa ser usada como ponto de partida, em direção ao comportamento final desejado. Carlos decidiu que, no mínimo, calçaria seus tênis e caminharia uma vez ao redor da parte externa da casa (aproximadamente 30 metros). Embora isso estivesse longe dos 400 metros, era pelo menos um início.

3. Reforçar a resposta inicial; depois, realizar tentativas sucessivas e cada vez mais próximas à resposta final desejada, até que por fim a resposta desejada seja alcançada. Carlos decidiu usar a oportunidade de beber uma cerveja como reforçador. Explicou seu programa à esposa e pediu-lhe que o lembrasse de que tinha que completar seu exercício, antes de poder tomar uma cerveja. Depois que a primeira aproximação ocorreu em várias tardes sucessivas, Carlos aumentou a exigência para andar ao redor da casa duas vezes (aproximadamente 60 metros). Alguns dias depois, a distância foi aumentada para caminhar ao redor da casa quatro vezes (aproximadamente 120 metros), depois seis vezes (180 metros), depois mais e mais, até que a distância fosse de aproximadamente 400 metros, e depois, finalmente, percorrer essa distância correndo. Carlos alcançou o ponto em que corria 400 metros regularmente. (A aplicação de técnicas de modificação de comportamento para melhorar o autocontrole é discutida em mais detalhe no Capítulo 26.)

Nos dois capítulos anteriores, descrevemos como o treino de discriminação de estímulos e o esvanecimento podem ser utilizados para estabelecer controle de estímulo adequado sobre um comportamento, desde que tal comportamento ocorresse ao menos ocasionalmente. Mas o que fazer quando um comportamento desejado nunca ocorre? Em tal caso, não é possível aumentar a freqüência do comportamento, apenas esperando que ele ocorra e depois o reforçando. No entanto, um procedimento chamado modelagem pode ser utilizado para instalar um comportamento que o indivíduo nunca emitiu. O modificador de comportamento começa por reforçar uma resposta que ocorre com freqüência superior a zero e que se pareça, pelo menos remotamente, com a resposta final desejada. (Carlos, por exemplo, foi reforçado inicialmente por caminhar uma vez ao redor da casa porque tal comportamento ocorria ocasionalmente e porque se aproximava remotamente do comportamento (inexistente) de correr quatrocentos metros.) Quando tal resposta inicial está ocorrendo numa freqüência elevada, o modificador de comportamento pára de reforçá-la e começa a reforçar uma resposta ligeiramente mais próxima à resposta final desejada. Assim, a resposta final desejada é por fim instalada pelo reforçamento de aproximações sucessivas da mesma. Por essa razão, a modelagem às vezes é chamada de “método das aproximações sucessivas”. A modelagem pode ser definida como o desenvolvimento de um novo comportamento através do reforçamento sucessivo de respostas cada vez mais próximas ao comportamento final desejado e da extinção das respostas anteriormente emitidas.

Os comportamentos que um indivíduo adquire durante a vida se desenvolvem a partir de uma variedade de fontes e influências. Às vezes, um comportamento novo se desenvolve quando o indivíduo emite algum comportamento inicial e o ambiente (seja o ambiente físico, sejam outras pessoas) então reforça variações pequenas de tal comportamento, durante uma série de ocorrências. Eventualmente, o comportamento inicial pode ser modelado de maneira que a forma final não se pareça mais com ele. Por exemplo, a maioria dos pais utiliza a modelagem para ensinar seus filhos a falar. Quando um bebê começa a balbuciar, alguns dos sons emitidos se aproximam remotamente de palavras do idioma dos pais. Quando isso acontece, os pais geralmente reforçam o comportamento com abraços, carícias, beijos e sorrisos. Os sons “m” e “paa” recebem, tipicamente, doses excepcionalmente grandes de reforço por parte de pais que falam português. Eventualmente, “mã-mã” e “pa-pa” são emitidos e são fortemente reforçados, e o “m” e o “paa” mais primitivos, são submetidos à extinção. Num estágio posterior, o reforço é dado quando a criança diz “mamãe” e “papai”, e “mã-mã” e “pa-pa” são colocados em extinção.

O mesmo processo ocorre com outras palavras. Primeiro, a criança passa por um estágio em que aproximações muito remotas de palavras do idioma dos pais são reforçadas. Depois, a criança entra em um estágio em que a fala infantil (ou seja, aproximações mais claras de palavras verdadeiras) é reforçada. Finalmente, os pais e outras pessoas exigem que a criança pronuncie as palavras de acordo com as práticas da comunidade verbal, antes que o reforço seja apresentado. Por exemplo: se uma criança diz “ua” num estágio inicial, lhe é dado um copo de água, e se ela está com sede, isso reforça a resposta. Num estágio posterior, “aua”, em vez de “au”, é reforçado com água. Finalmente, é exigido que a criança diga “água”, antes que o reforçador água seja apresentado.

Logicamente, tal descrição simplifica extremamente a maneira pela qual uma criança aprende a falar. No entanto, serve para ilustrar a importância da modelagem no processo pelo qual crianças normais progridem gradualmente do balbuciar para a fala infantil e, por fim, para falar de acordo com as convenções sociais prevalentes. Outros processos que têm papéis importantes no desenvolvimento da fala são discutidos em outras partes do livro; por exemplo, o reforçamento automático, descrito no Capítulo 4, a equivalência de estímulos, no Capítulo 8, e o esvanecimento no Capítulo 9.

Há cinco aspectos ou dimensões do comportamento que podem ser modelados: topografia, freqüência, duração, latência e intensidade (ou força). Topografia se refere à configuração espacial ou à forma de uma determinada resposta (i.e., os movimentos específicos envolvidos). Escrever uma palavra em letra de forma e escrever a mesma palavra em letra cursiva são exemplos da mesma resposta, apresentada com duas topografias diferentes. A modelagem da topografia ocorre, por exemplo, quando se ensina uma criança a passar de uma resposta de escrever em letra de forma, para uma resposta de letra cursiva; ao modelar uma criança para falar “Mamãe”, em vez de “Mamã”; ao aprender a patinar com passos cada vez maiores, em vez de com pequenos passos curtos; ao modelar os movimentos de dedos adequados para comer com hashi2. Um exemplo de um estudo antigo, relacionado à modelagem de topografia, envolveu ensinar uma criança a usar seus óculos, através do reforçamento de aproximações sucessivas de tocá-los, erguê-los, colocálos no rosto e, finalmente, usá-los (Wolf, Risley e Mees, 1964).

Eventualmente nos referimos à freqüência ou à duração de um determinado comportamento como quantidade de tal comportamento. A freqüência de um comportamento é o número de vezes que ele ocorre em um determinado período de tempo. Exemplos de modelagem de freqüência incluem aumentar o número de passos (a distância) que Carlos caminhava em seu programa de exercícios; ou aumentar gradualmente o número de vezes que um jogador de golfe treina um determinado lance. A freqüência de uma resposta também pode ser reduzida por modelagem, como num programa de modificação de comportamento em que um paciente com esclerose múltipla aprendeu, através de modelagem, a aumentar gradualmente o tempo entre (e, conseqüentemente, reduzir a freqüência de) as idas ao banheiro (O’Neill e Gardner, 1983). A duração de uma resposta é o período de tempo que ela dura. Exemplos de modelagem de duração incluem estender gradualmente o tempo que se passa estudando, antes de fazer um intervalo; ou ajustar gradualmente o tempo durante o qual se mistura massa de panquecas para que atinja a consistência correta.

Latência se refere ao tempo entre a ocorrência de um estímulo e a resposta evocada por tal estímulo. Um termo comum para latência é tempo de reação. Em programas de perguntas e respostas na TV, o tempo entre a apresentação de uma pergunta pelo animador e até que um participante pressione o botão é a latência do participante em responder àquele estímulo em particular. Numa corrida, o tempo entre o disparo da pistola e a saída do atleta da marca de largada é a latência da resposta do atleta ao disparo da pistola. A modelagem da latência pode fazer com que o atleta reaja mais rapidamente ao som da pistola. A intensidade ou força de uma resposta se refere ao efeito físico que a resposta tem (ou potencialmente tem) sobre o ambiente. Como exemplo de modelagem de força, imagine um jovem trabalhador agrícola cujo serviço é bombear água de um poço com uma antiga bomba de mão. Quando a bomba foi instalada, estava recém-lubrificada e o rapaz aplicava uma certa força à manivela; esta se movia facilmente para cima e para baixo, produzindo água. Suponhamos, no entanto, que por falta de lubrificação regular a bomba tenha gradualmente adquirido um pouco de ferrugem. A cada dia, o rapaz provavelmente aplica aproximadamente a mesma força que aplicara no dia anterior. Quando tal força não for mais reforçada pela produção de água, porque o acréscimo da pequena quantidade de ferrugem tornou a manivela da bomba mais difícil de movimentar, o rapaz provavelmente aplicará um pouco mais de força e perceberá que isso dá resultado. Com o decorrer de vários meses, o comportamento do rapaz é modelado gradualmente, de forma que ele pressiona com muita força na primeira tentativa, o que é um comportamento final bem diferente do comportamento inicial. Outros exemplos de modelagem de intensidade incluem aprender a cumprimentar com um aperto de mão mais firme e aprender a aplicar a força ideal ao se coçar, a fim de aliviar a coceira sem prejudicar a pele. Um exemplo de

2 Utensílios (par de varetas) que japoneses e chineses utilizam para levar a comida à boca (N. da T.).

modelagem de intensidade, em um programa de modificação de comportamento, envolveu ensinar uma menina socialmente retraída, cuja fala mal se podia ouvir, a falar cada vez mais alto, até chegar a um volume normal de voz (Jackson e Wallace, 1974). Ver Tabela 10-1 para um resumo das dimensões do comportamento.

Anotação 1 A modelagem é tão comum na vida diária, que a maioria das pessoas nem têm consciência dela. Às vezes, o procedimento de modelagem é aplicado sistematicamente (como no caso de Carlos), às vezes não sistematicamente (como quando os pais modelam a pronúncia correta das palavras ditas por seus filhos) e, às vezes, a modelagem ocorre devido às conseqüências existentes no ambiente natural (você aperfeiçoa gradualmente seu método para virar as panquecas na frigideira).

É preciso cuidado para evitar confusão entre modelagem e esvanecimento. Ambos são procedimentos de mudança gradual. No entanto, como descrito no Capítulo 9, o esvanecimento envolve o reforçamento de uma resposta específica na presença de ligeiras mudanças num estímulo, de maneira que o estímulo venha gradualmente a se parecer com aquele que você quer que controle aquela resposta em particular. A modelagem, por sua vez, envolve o reforçamento de ligeiras mudanças no comportamento, de maneira que ele venha gradualmente a se parecer com o comportamento-alvo.

1. Especificando o Comportamento Final Desejado

O primeiro estágio da modelagem é identificar claramente o comportamento final desejado, que muitas vezes é chamado de comportamento terminal. No caso de Carlos, o comportamento final desejado era correr quatrocentos metros todos os dias. Com uma definição tão específica quanto essa, havia pouquíssima possibilidade de que Carlos ou sua esposa desenvolvessem expectativas diferentes a respeito do desempenho dele. Caso as diferentes pessoas que estão trabalhando com o mesmo indivíduo esperem coisas diferentes, ou se uma das pessoas não for consistente, de uma sessão de treinamento para a próxima, então é provável que o progresso seja lento. Uma identificação exata do comportamento final desejado aumenta as chances de reforçamento consistente das aproximações sucessivas de tal comportamento. O comportamento final desejado deve ser determinado de maneira que todas as características relevantes do mesmo (sua topografia, quantidade, latência e intensidade) sejam identificadas. Além disso, as condições sob as quais o comportamento deve ou não ocorrer têm que ser determinadas, e quaisquer outras diretrizes eventualmente necessárias para a consistência devem ser fornecidas.

2. Escolhendo um Comportamento Inicial

Como o comportamento final desejado inicialmente não ocorre e como é necessário reforçar algum comportamento que se aproxime dele, você deve identificar um ponto de partida. Este deve ser um comportamento que ocorra com freqüência suficiente para ser reforçado dentro do tempo de duração da sessão e deve se assemelhar ao comportamento final desejado. Por exemplo: o comportamento de Carlos de andar ao redor da casa uma vez (aproximadamente 30 metros) é algo que ele fazia periodicamente. Esse era o comportamento mais próximo, entre os que ele regularmente emitia, do objetivo final de correr quatrocentos metros.

Num programa de modelagem, é crucial saber não apenas onde você está indo (o comportamento terminal), mas também o nível de desempenho do indivíduo no início do programa. O objetivo do programa de modelagem é passar do comportamento atual para o desejado através do reforçamento de aproximações sucessivas, ainda que os dois comportamentos sejam muitos dessemelhantes. Por exemplo: num estudo clássico, Isaacs, Thomas e Goldiamond (1960) aplicaram modelagem para reinstalar comportamento verbal em um homem esquizofrênico catatônico que estivera mudo por 19 anos. Usando goma de mascar como reforçador, o pesquisador acompanhou o paciente através de passos de modelagem que avançaram de movimento de olhos em direção à goma de mascar, para movimentos faciais, movimentos de boca, movimentos de lábios, vocalizações, emissão de palavras até, finalmente, a fala compreensível.

3. Escolhendo os Passos da Modelagem

Antes de iniciar o programa de modelagem, é de grande auxílio planejar as aproximações sucessivas através das quais a pessoa será conduzida, na tentativa de se aproximar do comportamento final desejado. Por exemplo: suponha que o comportamento final desejado, num programa de modelagem para uma criança, seja dizer “papai”. Foi observado que a criança diz “paa”, e tal resposta é definida como comportamento inicial. Suponhamos que tenhamos decidido partir do comportamento inicial “paa”, passando pelas seguintes etapas: “pa-pa”, “papa”, “papi” e “papai”. Inicialmente, o reforço é apresentado durante algumas vezes diante da emissão do comportamento inicial (“paa”). Quando tal comportamento estiver ocorrendo repetidamente, o treinador passa para a etapa 2 (“pa-pa”) e reforça tal aproximação durante várias ocorrências. Tal procedimento passo a passo continua, até que a criança finalmente diga “papai”.

Quantas aproximações sucessivas deve haver? Em outras palavras, qual o tamanho razoável para cada passo? Infelizmente, não há diretrizes específicas para identificar o tamanho ideal de cada passo. Ao tentar especificar as etapas comportamentais, do comportamento inicial até o comportamento terminal, o modificador de comportamento pode tentar pensar nos passos ele próprio seguiria. Além disso, algumas vezes é útil observar aprendizes que já conseguem emitir o comportamento terminal e pedir-lhes que emitam o comportamento inicial e as aproximações subseqüentes. Quaisquer que sejam as diretrizes ou hipóteses usadas, é importante tentar mantê-las e, ao mesmo tempo, ser flexível caso o treinando não avance rápido o bastante ou esteja aprendendo mais rápido do que era esperado. Algumas diretrizes a serem seguidas no programa comportamental são oferecidas na seção seguinte.

Anotação 2

4. Avançando no Ritmo Certo

Quantas vezes cada aproximação deve ser reforçada, antes de passar para a aproximação seguinte? Mais uma vez, não há regras específicas para responder a tal pergunta. No entanto, há várias regras baseadas na experiência que podem ser seguidas no reforçamento de aproximações sucessivas de uma resposta final desejada:

a. Reforce a aproximação várias vezes antes de passar para o passo seguinte. Em outras palavras, evite o sub-reforçamento de uma etapa da modelagem. Tentar passar para um novo passo, antes que a aproximação anterior esteja bem instalada, pode resultar em perda da aproximação anterior através de extinção, além de não alcançar a nova aproximação. b. Evite reforçar um número excessivo de vezes quaisquer dos passos da modelagem. O item a adverte contra ir rápido demais. É igualmente importante não progredir de maneira excessivamente lenta. Caso uma aproximação seja reforçada por tanto tempo que se torna extremamente forte, novas aproximações terão menor probabilidade de aparecer.

c. Caso você perca um comportamento porque está caminhando muito rápido ou por dar um passo grande demais, volte a uma aproximação anterior na qual possa retomar o comportamento. Talvez você tenha também que inserir um ou dois passos a mais.

Tais diretrizes podem não parecer muito úteis. Por um lado, é aconselhável não caminhar rápido demais de uma aproximação para outra; por outro lado, é aconselhável não caminhar muito devagar. Caso pudéssemos acrescentar a tais diretrizes uma fórmula matemática para calcular o tamanho exato dos passos que devem ser dados em qualquer situação e exatamente quantos reforços deveriam ser dados a cada passo, as diretrizes seriam muito mais produtivas. Infelizmente, ainda não foram realizados os experimentos necessários para fornecer tais informações. O professor deve observar o comportamento cuidadosamente e estar preparado para fazer modificações no procedimento — mudando o tamanho das etapas, reduzindo sua velocidade, apressando-as ou voltando atrás — sempre que o comportamento não pareça estar se desenvolvendo adequadamente. A modelagem exige muita prática e habilidade para ser realizada com um máximo de eficácia.

Anotação 3 Assim como os outros princípios e procedimentos do comportamento, a modelagem pode ser acidentalmente mal utilizada por pessoas que não tenham conhecimento sobre a mesma. Um exemplo disso pode ser visto na Figura 10-1. Um comportamento prejudicial que, sem modelagem, talvez não tivesse ocorrido é desenvolvido gradualmente como resultado desta.

Figura 10-1 Uma aplicação errada da modelagem.

Outro exemplo da má utilização da modelagem, observado às vezes em crianças com desenvolvimento atípico, leva a comportamento autodestrutivo. Lembre-se do caso da criança que batia a cabeça em superfícies duras, que foi dado nos Capítulos 8 e 9 como possível exemplo de ciladas na utilização do treino de discriminação de estímulos e do esvanecimento, respectivamente. Ele também poderia ser um exemplo de cilada da modelagem. Suponha que, devido a uma situação familiar incomum e lastimável, uma criança pequena receba pouca atenção social quando emite comportamento adequado. Um dia, a criança talvez caia acidentalmente e bata a cabeça de leve contra um piso duro. Mesmo que a criança não tenha se machucado seriamente, um pai (ou mãe) pode vir correndo e cumular a criança com atenções exageradas a respeito do incidente. Devido a tal reforço, e porque tudo o mais que a criança faz de adequado raramente evoca atenção, ela tem probabilidade de repetir a resposta de bater levemente a cabeça contra o piso. Nas primeiras vezes em que isso voltar a ocorrer, o pai (ou mãe) talvez continue a reforçar a resposta. Aos poucos, no entanto, ao ver que a criança não está realmente se machucando, a pessoa talvez pare de reforçá-la. Uma vez que o comportamento foi agora colocado em extinção, a intensidade do comportamento pode aumentar (ver Capítulo 5). Ou seja, a criança pode começar a bater a cabeça com mais força, e o barulho ligeiramente mais alto talvez faça com que o pai (ou a mãe) venha correndo novamente. Caso tal processo de modelagem continue, a criança eventualmente baterá a cabeça com força suficiente para causar danos físicos. É extremamente difícil, se não impossível, usar extinção para eliminar um comportamento tão violentamente autodestrutivo. Teria sido melhor nunca ter permitido que o comportamento se desenvolvesse até o ponto em que os pais da criança foram forçados a continuar a reforçá-lo, aumentando sua força.

Muitos comportamentos indesejados comumente observados em crianças com necessidades especiais — por exemplo: ataques violentos de birra, agitação constante, machucar outras crianças, vômitos voluntários —são, com freqüência, produtos de modelagem. É bem possível que tais comportamentos possam ser eliminados através de uma combinação de extinção do comportamento indesejado e reforçamento positivo do comportamento desejado. Infelizmente, isso muitas vezes é difícil de fazer, porque (a) o comportamento às vezes é tão prejudicial que não se pode permitir que ocorra nem uma vez durante o período em que a extinção deveria acontecer, e (b) adultos que ignoram os princípios do comportamento às vezes frustram, sem saber, os esforços daqueles que estão cuidadosamente tentando aplicar tais princípios.

No Capítulo 2, descrevemos como diagnosticar e tratar comportamentos problemáticos que podem ter sido desenvolvidos inadvertidamente através de modelagem. Como na medicina, no entanto, a melhor “cura” é a prevenção. De maneira ideal, todas as pessoas responsáveis por cuidar de outras pessoas deveriam ser conhecedoras tão profundas dos princípios de comportamento, que evitariam a modelagem de comportamentos indesejados. Outra cilada. Outro tipo de cilada é quando uma pessoa, inadvertidamente, deixa de aplicar a modelagem quando esta deveria ser aplicada. Alguns pais, por exemplo, simplesmente não são muito sensíveis ao comportamento de balbuciar de seu filho. Talvez esperem demais da criança, desde o início, e não estejam inclinados a reforçar aproximações remotas da fala normal. (Alguns pais, por exemplo, parecem esperar que seu pequenino gênio diga “Pai!”, de cara, e não ficam nem um pouco impressionados quando a criança diz “pa-pa”.) Ou talvez seus problemas pessoais os impeçam de devotar a necessária atenção à criança. O tipo oposto de comportamento também existe. Ao invés de não apresentar suficiente reforço para o comportamento correto, alguns pais dão à criança bastante reforço de maneira não-contingente. Talvez sejam tão preocupados com o bemestar da criança, que fornecem a ela todos os tipos de reforço, sem que a criança jamais tenha que dizer ou fazer algo para isso. Em outras palavras, embora a modelagem seja um processo que a maioria dos pais aplica mais ou menos adequadamente (provavelmente sem nem mesmo estarem totalmente cientes de o estarem fazendo, na maioria dos casos), há alguns pais aos quais isso não se aplica. Assim, muitas variáveis podem impedir que uma criança fisicamente normal receba a modelagem necessária para estabelecer comportamentos normais. Caso uma criança não tenha aprendido a falar até uma certa idade, pode ser rotulada como tendo déficit de desenvolvimento ou autismo. É bem possível que existam indivíduos com déficits de desenvolvimento cuja deficiência exista não devido a algum defeito físico ou genético, mas simplesmente porque nunca foram expostos a procedimentos eficazes de modelagem.

1. Selecione o comportamento terminal. a. Escolha um comportamento específico (tal como trabalhar tranqüilamente em uma escrivaninha por 10 minutos), em vez de uma categoria geral de comportamento (por exemplo: “bom” comportamento em sala de aula). A modelagem é adequada para modificar quantidade, latência e intensidade de comportamento, assim como para desenvolver um comportamento novo com uma topografia (forma) diferente. Caso seu comportamento terminal seja uma seqüência complexa de atividades (tais como arrumar uma cama), que você dividiu em etapas seqüenciais, e caso seu programa se resuma a ligar tais etapas numa determinada ordem, então seu programa não pode ser descrito como modelagem. Em vez disso, deve ser desenvolvido através de encadeamento (ver Capítulo 1). b. Se possível, selecione um comportamento que ficará sob controle de reforçadores naturais depois de ser modelado. 2. Selecione um reforçador adequado. Veja a Figura 3-3 e as “Diretrizes para Aplicação Eficaz do

Reforçamento Positivo”. 3. O plano inicial. a. Faça uma lista de aproximações sucessivas do comportamento terminal, começando com o comportamento inicial. Para escolher o comportamento inicial, encontre um comportamento que já faça parte do repertório do aprendiz, que mais se assemelhe ao comportamento terminal e que ocorra ao menos uma vez durante um período de observação. b. Suas etapas iniciais ou aproximações sucessivas geralmente são “hipóteses”. Durante seu programa, você pode modificá-las de acordo com o desempenho do aprendiz. 4. Implementando o plano. a. Informe ao aprendiz sobre o plano, antes de começar. b. Comece reforçando imediatamente após cada ocorrência do comportamento inicial. c. Nunca passe para uma nova aproximação antes que o aluno tenha dominado a anterior. d. Caso você não tenha certeza de quando passar o aprendiz para uma nova aproximação, utilize a regra a seguir. Passe para a etapa seguinte quando o aprendiz realizar corretamente a etapa atual, em seis de cada dez tentativas (geralmente com uma ou duas ocorrências menos perfeitas do que o desejado e uma ou duas ocorrências nas quais o comportamento estará melhor do que no passo atual).

e. Não reforce a mesma etapa um número excessivo de vezes e evite o subreforçamento de qualquer etapa. f. Caso o aluno pare de trabalhar, talvez você tenha avançado rápido demais; é possível que os passos não estejam de tamanho correto; ou o reforçador talvez não seja eficaz. (1) Primeiro, verifique a eficácia de seu reforçador. (2) Caso o aluno fique desatento ou demonstre sinais de tédio, é possível que os passos estejam curtos demais. (3) Desatenção e tédio podem significar também que você progrediu rápido demais.

Nesse caso, retorne à etapa anterior, por mais algumas tentativas, e depois tente novamente a atual. (4) Caso o aprendiz continue a ter dificuldade, apesar do retreino em etapas anteriores, acrescente mais etapas no ponto de dificuldade.

1. Identifique os três estágios básicos de qualquer procedimento de modelagem, como apresentados no início deste capítulo, e descreva-os através de um exemplo (o caso de Carlos ou um exemplo seu). 2. Explique como a modelagem envolve aplicações sucessivas dos princípios de reforçamento positivo e extinção. 3. Para que se preocupar com modelagem? Por que não aprender apenas o uso direto de reforçamento positivo para aumentar um comportamento? 4. Defina modelagem. 5. Qual um outro nome dado à modelagem? 6. Em termos dos três estágios de um procedimento de modelagem, descreva como os pais podem modelar o filho a dizer uma determinada palavra. 7. Liste cinco dimensões do comportamento que podem ser modeladas. Dê dois exemplos de cada. 8. Faça a diferenciação entre modelagem e esvanecimento. 9. Como você sabe que tem suficientes aproximações sucessivas ou de etapas de modelagem de tamanho correto? 10. Por que é necessário evitar o sub-reforçamento de qualquer passo da modelagem? 1. Por que é necessário evitar reforçar um número excessivo de vezes qualquer passo da modelagem? 12. Dê um exemplo de como a modelagem pode ser usada acidentalmente para desenvolver um comportamento indesejado. Descreva alguns dos passos de modelagem de seu exemplo. 13. Dê um exemplo de como a não aplicação da modelagem pode ter um resultado indesejado. 14. Dê um exemplo, de sua própria experiência, de um comportamento final desejado que pode ser desenvolvido melhor através de outro procedimento que não a modelagem. Explique por que a modelagem provavelmente não seria eficaz no desenvolvimento desse comportamento. 15. Como você sabe se está permitindo um número suficiente de repetições reforçadas em cada uma das aproximações? 16. A que se referem os modificadores de comportamento com a expressão comportamento terminal num programa de modelagem? Dê um exemplo.

17. Por que nos referimos ao reforçamento positivo e à extinção como sendo princípios e à modelagem como sendo um procedimento? (Dica: ver Capítulo 1)

A. Exercício Envolvendo Terceiros

Pense numa criança normal, com idade entre dois e sete anos, com quem você tenha contato (por exemplo: irmão, irmã, vizinho). Especifique um comportamento real dessa criança que você poderia tentar desenvolver através da utilização de um procedimento de modelagem. Identifique o ponto inicial que você escolheria, o reforçador e as aproximações sucessivas que você usaria.

B. Exercícios de Auto-Modificação

1. Examine de perto muitas de suas habilidades — por exemplo: habilidades de interação pessoal, habilidades em relações sexuais e habilidades de estudo. Identifique duas habilidades específicas que provavelmente foram modeladas por outras pessoas, quer consciente, quer inadvertidamente. Identifique dois comportamentos específicos que provavelmente foram modelados pelo ambiente natural. Para cada exemplo, identifique o reforçador e pelo menos três aproximações pelas quais você provavelmente passou durante o processo de modelagem. 2. Selecione um de seus déficits comportamentais, talvez um que você tenha listado no final do Capítulo 2. Delineie um programa completo de modelagem que você (com um pouco de ajuda por parte de seus amigos) poderia usar para superar tal déficit. Assegurese de que seu plano siga as diretrizes apresentadas acima para a aplicação eficaz da modelagem.

1. A modelagem parece ser útil na modificação não apenas de comportamento externo, mas também de comportamento interno. Por exemplo: R. W. Scott e colegas (1973) demonstraram que a modelagem poderia ser usada para modificar o ritmo cardíaco. Neste estudo, o aparelho que monitorava o ritmo cardíaco estava ligado à parte de imagens de um aparelho de TV ao qual o indivíduo assistia. Apesar do som da TV permanecer continuamente ligado, a imagem só aparecia quando o ritmo cardíaco do indivíduo se modificava, em algumas pulsações por minuto, em relação a seu nível anterior. Quando o ritmo cardíaco do sujeito permanecia em um novo nível por três sessões consecutivas, a imagem da TV era usada para reforçar uma nova mudança no ritmo cardíaco. Num caso que envolvia um paciente psiquiátrico que sofria de ansiedade crônica e apresentava um ritmo cardíaco moderadamente elevado, os investigadores modelaram várias reduções no ritmo cardíaco do indivíduo. De maneira interessante, quando o ritmo cardíaco do cliente era reduzido a um nível inferior, relatórios de sua enfermaria indicavam que “ele parecia menos ‘tenso’ e ‘ansioso’” e que “ele fazia menos solicitações de medicação”.

Em outros estudos, informações sobre os processos fisiológicos de uma pessoa, tais como ritmo cardíaco ou tensão muscular, são mostradas numa tela ou, de alguma forma, disponibilizadas imediatamente para o indivíduo. Tais técnicas, que são chamadas de biofeedback, permitem que os indivíduos tenham controle sobre os processos fisiológicos que estão sendo monitorados. Aplicações clínicas do biofeedback o têm utilizado, com sucesso, para reduzir ataques epilépticos, ao ajudar os indivíduos a controlar a atividade elétrica associada a seus ataques; para reduzir a pressão sangüínea, permitindo assim que pacientes hipertensos utilizem menos medicação; e para reduzir dores de cabeça crônicas, ritmo cardíaco acelerado e ansiedade (Schwartz e Andrasic, 1998).

2. Com que velocidade você deve passar de uma etapa para a seguinte? Qual deve ser a duração de cada passo? Uma razão para não haver respostas específicas para essas perguntas é a dificuldade de medir a duração específica das etapas e reforçar consistentemente respostas que satisfaçam uma determinada duração. O discernimento humano simplesmente não é rápido o suficiente, ou preciso o suficiente, para assegurar que determinado procedimento de modelagem está sendo aplicado consistentemente, a fim de fazer comparações entre esse e outros procedimentos de modelagem consistentemente aplicados. Isso é particularmente verdadeiro quando a topografia é o aspecto do comportamento que está sendo modelado. Os computadores, no entanto, são precisos e rápidos, podendo, portanto, ser úteis na resposta a questões fundamentais sobre os procedimentos de modelagem mais eficazes (Midgley, Lea e Kirby, 1989; Pear e Legris, 1987). Por exemplo: usando duas câmaras de vídeo conectadas a um microcomputador programado para detectar a posição da cabeça de um pombo dentro de uma câmara de teste, Pear e Legris (1987) demonstraram que um computador pode modelar a direção em que o pombo move sua cabeça.

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