guia pratico de PSF

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(Parte 3 de 6)

Na retaguarda do PSF de Piraju, funciona uma equipe formada por psicólogas, assistente social, fonoaudióloga, fisioterapeuta e educadora de saúde. Os usuários contam ainda com o Ambulatório de Especialidades, nas áreas de pediatria, ginecologia, cirurgia, cardiologia, oftalmologia e ortopedia.

O PSF foi implantado em Piraju em 1995, quando o

SUDES já existia na cidade, com 4 unidades básicas de saúde. Também facilitou a instalação do PSF o fato de a medicina já estar se descentralizando em Piraju. Os médicos já iam para periferia. Além disso, todo bairro de Piraju tem uma Associação de Amigos, o que ajudou na contratação dos agentes.

Para garantir a implantação e estruturação do programa, o município firmou convênio com o Ministério da Saúde Pública cubano. Na verdade, a inspiração maior para a implantação do PSF em Piraju foi o modelo de medicina existente em Cuba.

Desde o início do PSF na cidade, a notícia do bom atendimento foi passando de boca em boca, gerando um fenômeno cada vez mais freqüente: muitas pessoas de municípios vizinhos falsificam seus endereços para serem atendidas pelas Unidades de Saúde da Família de Piraju.

Desde março de 2000, as 8 equipes do PSF de Piraju dão atenção a 100% da área urbana. Para a zona rural, um ônibus funciona como unidade móvel do PSF, com instalações para consultório médico e odontológico e estrutura para exames de prevenção de câncer de mama e papa nicolau.

A ação do PSF melhorou a qualidade de vida da população em todo o município. Evoluiram os indicadores de saúde, os índices de vacinação. Passou a existir controle das causas principais de doenças, intensificando-se a promoção e proteção da saúde. O PSF possibilitou maior justiça e eqüidade em saúde, obedecendo aos princípios do SUS. Não há privilégios. Toda a população é tratada da mesma forma e participa espontaneamente de grupos como o dos idosos e o das mulheres, que fazem ginástica orientadas por voluntárias da área de educação física.

Banhada pelo Paranapanema,um dos únicos rios não poluídos do estado de São Paulo. Atrai turistas com suas represas,cachoeiras e vales.Tem 28 mil habitante.Implantou o PSF em 1995.As oito USF em atividade dão cobertura a 100% da área urbana,onde vive mais de 90% da população.

Inspiração que veio de Cuba PSF em Piraju

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Um dos mais ambiciosos projetos de Saúde da Família do Brasil foi o lançado em São Gonçalo-RJ, no dia 29 de julho de 2001. Para uma população de cerca de 1 milhão de habitantes, há 179 equipes, cada uma com 1 médico, 1 enfermeiro e 2 auxiliares de enfermagem; só aí são 716 profissionais. Além deles, as equipes de Saúde da Família contam com os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) que, em São Gonçalo, são 1.647 pessoas das próprias comunidades onde atuam.

No total, portanto,foram 2.363 empregos gerados numa cidade em que o desemprego é um problema grave, que se soma a outros até mais preocupantes, como o tráfico de drogas e a ocupação caótica de 100% do território municipal.

Em São Gonçalo, foi preciso esmiuçar o mapa do município, quadra por quadra, para evitar a superposição das áreas de atuação dos agentes comunitários. Usou-se um mapa que já existia, feito por satélite, para produzir a setorização. Cada equipe de PSF pegou seu pedaço de mapa sabendo onde ficam os seus lotes. Em seguida, os agentes saíram colhendo informação rua por rua, casa por casa. A digitação dos dados foi sendo feita pelos surdos-mudos de uma instituição local.

Na setorização, mesmo um local desabitado (campo de futebol, encosta de morro, beira de mangue, barranca de rio, etc.) tem que ser considerado. Porque há muita invasão em São Gonçalo. Determina-se, no mapa, quem é o ACS daquele ponto sem morador, de maneira que mais tarde, quando ocorrer uma invasão ali, já se saiba quem é o agente responsável pela área.

O resultado foi o levantamento mais detalhado que já se obteve no município. As equipes do PSF sabem quan- tos edifícios, apartamentos, casas ou casebres há em cada canto de São Gonçalo. A informação colhida pelas equipes do PSF vai ser útil também para outras áreas. O pessoal do meio ambiente, por exemplo, está ansioso por saber o que o PSF levantou em torno dos rios, nascentes, valões, etc.

Como esses, a cidade tem muitos pontos específicos, sem igual no resto do país. Um deles é o Jardim Catarina, o maior loteamento plano da América Latina, cercado de mangues, estrada de ferro, rodovias. Ali vão funcionar 20 equipes do PSF.

A descentralização será fundamental para quando o diagnóstico detalhado da saúde em São Gonçalo, com dados levantados pela primeira vez, tomar a forma da “epidemia” preconizada pela ex-secretária de Saúde, Ana Tereza da Silva Pereira Camargo. Os doentes e as doenças existem, mas só agora começarão a ser notificados, gerando assim a impressão de um surto epidêmico que surgiu de um momento para outro. Para as situações previsivelmente mais complicadas, estarão sendo usados dois pólos equipados para os casos de Hansen, mais dois para os casos de tuberculose.

Outra providência inicial, em São Gonçalo, foi a adaptação de postos e de pessoal que já existiam no serviço desaúde local. Fizeram-se também cursos para capacitação de 50 médicos e 50 enfermeiras. Foi preciso usar gente de todos os pólos de capacitação do Rio de Janeiro.

A adoção do Programa Saúde da Família era indispensável, em São Gonçalo, porque a rede municipal de saúde estava desestruturada. Era preciso reordenar a Atenção Básica, era preciso organizar outros níveis de atenção. A implantação do PSF num município tão populoso e tão problemático já representa uma grande conquista, em si. É uma experiência a ser acompanhada e amparada com atenção especial.

São Gonçalo

Começou a implantar o PSF em julho de 2001,com 179 equipes e planos de cobertura de 100% do município.Somando médicos,enfermeiros,auxiliares de enfermagem e ACS,a implantação do PSF representou a criação de mais de 2.0 empregos – e o desemprego é um dos maiores problemas da cidade.Outro problema grave é o tráfico de drogas.Tem mais de 1 milhão de habitantes (embora o Censo 2000 tenha indicado 900 mil).

Levantamento de rua por rua,casa por casa

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Atenção completa, consultas sem filas

No município de Vitória, o PSF foi implantado em fevereiro de 1998, como uma estratégia para con- solidar e aprimorar o Sistema Único de Saúde (SUS). Atualmente são 31 equipes distribuídas em 1 unidades de saúde, atendendo a uma população de 140.901 moradores (45% do total). A meta da Secretaria Municipal de Saúde é atender a toda a população até 2004.

Em Vitória, os eixos do PSF são a saúde da criança, da mulher, do idoso, prevenção de hipertensão, diabetes, tuberculose e hanseníase, ações de saúde mental e bucal. Os resultados apurados mostram uma cobertura de 100% das gestantes onde o PSF foi implantado: todas recebem orientação para o parto, vacinas, fazem exames de DST/ Aids, aprendem a importância do aleitamento materno.

Vitória

A capital do Espírito Santo é um arquipélago costeiro,com 24 ilhas e 81 quilômetros quadrados,onde vive uma população de 266 mil habitantes.Implantou o PSF em 1998. Atualmente,31 equipes,distribuídas em 1 USF,atendem a 45% da população.Na área coberta,100% das crianças estão com as vacinas em dia,100% das gestantes recebem orientação para o parto,vacinas e fazem exames de DST/Aids.A previsão é de cobertura de 100% da cidade até 2004.

O programa identifica todos os casos de crianças com diarréias, imuniza 100% das crianças nas áreas atendidas, cadastra os diabéticos, previne e trata a hipertensão e outras doenças que podem causar problemas no coração, derrames.

Cada família cadastrada recebe pelo menos uma visita mensal do Agente Comunitário de Saúde. Os demais profissionais são acionados na medida das necessidades: enfermeiros e médicos visitam os pacientes acamados e os demais em situação de risco. Além da atenção na unidade de saúde, é assegurado o atendimento de especialistas, quando necessário. E nada daquelas filas das noites e madrugadas, que não garantem vagas: as consultas são previamente agendadas.

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Davi Capistrano, ex-prefeito de Santos-SP, foi um conselheiro importante para a implantação do PSF em

Vitória da Conquista. Outra pessoa decisiva foi o secretário de Saúde, Jorge Solla.

Vitória da Conquista é um bom modelo de implantação, manutenção e expansão do Programa Saúde da Família, no Brasil. Em Conquista, como dizem os da cidade, o PSF está de fato integrado na estrutura de saúde local. Laboratórios, hospitais, profissionais especializados — em toda a rede de saúde de Vitória da Conquista, a Saúde da Família é hoje o núcleo principal.

A população (pobres e ricos) conta com equipamentos de saúde modernos. O computador constitui presença natural, rotineira na Saúde da Família em Vitória da Conquista.

Do centro da cidade à área rural mais remota, a informação sobre qualquer problema de saúde de qualquer cidadão chega rapidamente a um banco de dados informatizado. Chega por rádio, no caso das localidades mais afastadas. Chega por telefone (inclusive orelhão), naqueles pontos onde já existe telefonia instalada. Chega pela internet, onde funcionam computadores.

Nesse banco de dados informatizado, estão armazenadas — e atualizadas, graças ao trabalho permanente dos Agentes Comunitários de Saúde — informações sobre a situação de saúde de todos os moradores daquelas áreas cobertas pelo PSF. Quando atende a um desses moradores, o médico o conhece pelo nome, possivelmente já esteve na casa dele, e vê na ficha todas as informações a respeito do paciente.

Vitória da Conquista

O médico aparece todo dia e fica o dia todo

O atendimento do PSF tem como prioridade, em

Conquista, a periferia, onde não existe nenhum serviço de saúde. Um exemplo é o distrito de José Gonçalves, onde antes o médico aparecia a cada dois ou três meses. Ficava só na parte da manhã, no posto mal equipado e atendia a umas 60 pessoas, demorando 2 ou 3 minutos com cada uma.

Com o PSF, inicialmente o médico aparecia uma vez por semana, em José Gonçalves, ficando o dia todo. Depois, passou a ir duas vezes por semana e acompanhado da enfermeira, da auxiliar de enfermagem e tendo seu trabalho precedido pelas visitas dos agentes comunitários de saúde (ACS) às casas dos moradores.

Hoje, os 25 mil moradores do distrito de José Gonçalves contam com a presença do médico todo dia, o dia inteiro, de segunda a sexta. Há duas equipes do PSF que se revezam em José Gonçalves. São equipes completas, com médico, enfermeira, auxiliar de enfermagem, quatro ACS cada.

Como no restante do município, a hipertensão é a doença que mais aparece em José Gonçalves. Os remédios para hipertensos chegam a representar 50% do material distribuído à comunidade. Antes, a maioria das pessoas nem sabiam que sofria de hipertensão. Dormiam mal, sentiam indisposição para todo tipo de trabalho, queixavamse de dor de cabeça constante — e achavam que isso era normal. A partir do momento em que passaram a receber o atendimento e os medicamentos constantes para a hipertensão, descobriram o que é de fato uma vida normal.

Na sala de espera, na unidade de José Gonçalves, a

TV passa filmes sobre hipertensão, vacinação, cuidados com higiene, o que fazer com o lixo. Ali, na Unidade de Saúde da Família, fica sempre um profissional de nível superior, de segunda a sexta, o dia inteiro: se a enfermeira sai para ver um paciente em casa, o médico fica na unidade. Se ele sai, ela fica.

A Equipe de Saúde Bucal, em José Gonçalves, se divide entre as duas equipes de saúde. Fica dez dias com a equipe 1, depois dez dias com a equipe 2. Os agentes comunitários também participam da atenção à saúde bucal. Por falta de sala-gabinete dentário, dentistas fazem trabalho preventivo, de orientação. Em 2000, a prefeitura de Conquista comprou mais de 100 mil escovas de dentes.

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Com mais de 300 mil habitantes,a 520 quilômetros de Salvador,tem mais de 900 metros de altitude e inverno rigoroso,com temperaturas abaixo dos 10º C.Implantou o PSF em 1998.É hoje um dos municípios com melhor estrutura de Saúde da Família,no Brasil,incluindo atenção à saúde bucal (em 2000,o município comprou 100 mil escovas de dentes). Antes do PSF,a mortalidade infantil registrava taxa de 4 mortos por 1.0 nascidos vivos.Atualmente, a proporção está em 23 mortos por 1.0 nascidos vivos. Hipertensão é a doença que mais aparece.Remédios para hipertensos chegam a ser 50% dos medicamentos distribuídos.

Pertencentes à comunidade onde atuam, os Agentes

Comunitários de Saúde são capacitados para ajudar a melhorar a qualidade de vida de seus vizinhos

O agente é

O Agente Comunitário de Saúde (ACS) é capacitado para reunir informações de saúde sobre a comunidade onde mora. É um dos moradores daquela rua, daquele bairro, daquela região. Tem bom relacionamento com seus vizinhos. Tem condição de dedicar oito horas por dia ao trabalho de ACS. Orientado pelo médico e pela enfermeira da unidade de saúde, vai de casa em casa e anota tudo o que pode ajudar a saúde da comunidade.

Em sua grande maioria, os agentes são mulheres.

Contamos aqui sobre o trabalho de cinco agentes: Izete, da Ilha do Combu, perto de Belém; Cleison, de Brumadinho,perto de Belo Horizonte; Ivaneide, de Caruaru, Pernambuco; Ana Lúcia, de Pedras de Fogo, na Paraíba, perto de Campina Grande; e Sílvia de Piraju, São Paulo.

a gente

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Ferver a água,usar plantas da região

Izete dos Santos Costa, 37 anos, nasceu, cresceu e sempre viveu na Ilha do Combu, onde é Agente Comunitária de Saúde. Antes (e desde os 9 anos de idade) era empregada doméstica: “Aqui não tem muita opção de emprego”.

O trabalho de Agente Comunitária de Saúde é duro, mas compensador: “São oito horas diárias, umas oito visitas por dia. Mas ganho R$ 204, o dobro do que ganhava em meu emprego anterior”.

Ainda mais compensador, para Izete, é fazer parte de um trabalho que está ajudando a melhorar a vida da sua comunidade: “A assistência à saúde melhorou 100% com a implantação do PSF”.

Como a ilha é cortada por rios e igarapés, as visitas dos cinco agentes em ação na Ilha do Combu têm que ser feitas em pequenas canoas, ou cascos, como se diz na região: “Cada agente tem seu casco e seu remo. Às vezes a maré está agitada, ou passa uma lancha e balança o casco”.

Os principais problemas dos moradores, segundo Izete, são a desnutrição, devido à carência alimentar, e a diarréia, causada pela pouca água potável. Nas visitas, ela ensina a ferver a água, a colocar gotas de água sanitária (hipoclorito) antes de beber: “As casas não têm água encanada, nem esgoto. Os moradores bebem a água do rio”.

Outro problema do Combu é o alto índice de anemia entre as crianças, segundo levantamento feito pelo PSF em parceria com o hospital da Universidade Federal do Pará. Izete conhece bem esse problema: “A alimentação é pobre. Nós orientamos as mães a utilizarem as plantas da região, como a verônica e o cipó”.

Vigilância contínua à saúde

Cleison Morais Pinto, 19 anos, é agente comunitário de saúde em Inhotim, distrito de Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte. São dois agentes na mesma equipe, ele e Ivone de Jesus. “Somos os caçaenfermos”, brinca Cleison.

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