Avaliação de espermograma e PSA em fisiculturistas - Artigo Científico

Avaliação de espermograma e PSA em fisiculturistas - Artigo Científico

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220Copyright© 2008 por Colégio Brasileiro de Atividade Física, Saúde e Esporte. jul/ago 2005Fit Perf JRio de Janeiro44

Endereço para correspondência: Data de Recebimento: Data de Aprovação:

EISSN 1676-5133doi:10.3900/fpj.4.4.220.p Artigo Original maio / 2005março / 2005 220-226

Avaliação de espermograma e PSA em praticantes de musculação atlética (fi siculturistas)

Thérbia Maria de Medeiros Guerra - CRN 1172-6ª região

Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde Departamento de Nutrição - Universidade Federal do Rio Grande do Norte. RN tmmg@ufrnet.br

Francisca Martins Bion – CRN 016-6ª região

Professora do Programa de Pós-graduação em Nutrição/ Universidade Federal de Pernambuco/PE franciscabion@yahoo.com.br

Maria das Graças Almeida – CRF 0489-RN

Professora do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas - Universidade Federal do Rio Grande do Norte. RN mgalmeida@digi.com.br

RESUMO: A procura por um corpo esbelto e musculoso tem estimulado atletas e/ou praticantes de diferentes atividades físicas a fazerem uso de esteróides anabolizantes - androgênicos (EAA), na esperança de, em um pequeno espaço de tempo, melhorar o desempenho e aumentar a massa muscular. Objetivou-se, neste estudo, analisar a função prostática e a produção de espermatozóides, em diferentes fases do treinamento, em 9 (nove) praticantes de musculação atlética (fi siculturistas) da Federação de Musculação do Rio Grande do Norte, ou da Federação Norteriograndense de Musculação – NABBA (National Amateur Bodybuilders Association) - RN. Os indivíduos foram selecionados de forma não probabilística intencional, todos do sexo masculino, com idades entre 25 e 45 anos, os quais faziam uso de anabolizantes por mais de três anos como forma de agentes ergogênicos. Para avaliação do PSA (Prostate Specifi c Antigen) livre e total, foi realizado um exame bioquímico, enquanto que para verifi car a formação de espermatozóides, realizou-se o espermograma. Também foi aplicada uma entrevista estruturada para se conhecer as dosagens, princípios ativos, modo de administração e/ou consumo de diferentes compostos ergogênicos, incluindo substâncias anabolizantes. Os resultados revelam um quadro compatível com a infertilidade nas diferentes fases estudadas, servindo como alerta aos riscos à saúde decorrentes de tal conduta adotada pelos atletas.

Palavras-chave: musculação atlética (fi siculturista), anabolizantes, espermograma, PSA.

GUERRA, T.M.M.; BION, F.M., ALMEIDA, M.G. Avaliação de espermograma e PSA em praticantes de musculação atlética (Fisiculturistas). Fitness & Performance Journal, v. 4, n. 4. p. 220 – 226, 2005.

Rua Dr. Luiz Antonio, 483 – Bairro Alecrim – Natal/RN – CEP.: 59030-070

Fit Perf J, Rio de Janeiro, 4, 4, 221, jul/ago 2005221

Spermogram evaluation and PSA in apprentices of athletic muscular activity (Bodybuilders)

Athletes and those who practice different types of workout programs sometimes make use of anabolic-androgenic steroids (AAS) to improve in a short while their figures, get muscles and improve their performance and mass gain. The purpose of this study is analyzing nine bodybuilding athletes’ prostate function and spermatozoid production during various training periods at Federação de Musculação do Rio Grande do Norte or at Federação Norteriograndense de Musculação - NABBA (National Amateur Bodybuilders Association) - RN. Individuals were selected according to a non-intentional probabilistic way, all males, with ages varying between 25 and 45 years old, who had taken anabolic steroids for more than three years as ergogenic agents. A biochemical exam was made in order to evaluate free and total PSA, a spermogram to examine spermatozoid formation, and a structured interview to learn different dosages, active principles, administration and/or use of different ergogenic compounds, including anabolic substances. Results showed infertility in the various analyzed stages, indicating health risks to athletes.

Keywords: bodybuilding, anabolic steroids, spermogram, PSA.

Evaluación de espermograma y PSA en Fisiculturistas Spermogram evaluation and PSA in apprentices of athletic muscular activity (Bodybuilders)

La búsqueda por un cuerpo esbelto y musculoso ha estimulado atletas y/o deportistas que practican diferentes actividades físicas a hacer uso de esteróides anabolizantes androgénicos (EAA), con el fin de, en un pequeño espacio de tiempo, mejorar el desempeño y aumentar la masa muscular. Este estudio tuvo como objetivo analizar la función prostática y la producción de espermatozoides en diferentes fases Del entrenamiento de nueve fisiculturistas de la Federación de Musculación de Rio Grande do Norte, o de la Federación Norteriograndense de Musculación - NABBA (National Amateur Bodybuilders Association)- RN, seleccionados en forma no probabilística intencional, haciendo uso de anabolizantes por más de tres años como agentes ergogénicos, del sexo masculino y situados en la faja etaria de veinticinco a cuarenta y cinco años, Para la evaluación del PSA (“prostate specific antigen”) libre y total, fue efectuado un examen bioquímico, mientras que para la formación de espermatozoides se realizó el espermiograma. También fue llevada a cabo una entrevista estructurada para conocer lãs dosis, los principios activos, la forma de administración y/o el consumo de diferentes compuestos ergogénicos, incluyendo substancias anabolizantes. Los resultados revelan un cuadro compatible con la infertibilidad en las diferentes fases estudiadas, sirviendo como alerta a los riesgos de la salud decurrentes de tal conducta adoptada por los atletas.

Palabras clave: Fisiculturismo, Anabolizantes, Espermiograma, PSA.

O uso de substâncias para melhorar o desempenho atlético é descrito desde a Antigüidade, quando já se evidenciava entre os competidores olímpicos o consumo de testículos de touro, para melhorar a performance física. Em 1972, durante a competição de “Mister América“, 9% dos atletas estreantes faziam uso ou já tinham utilizado esteróides (SILVA, DANIELSKI ,CZEPIELEWSKI, 2002).

Atualmente, os esteróides anabólicos androgênicos (EAA) parecem ser os ergogênicos mais utilizados pelos atletas, independentemente do nível técnico. Os EAA vêm sendo usados por mais de 20 anos por atletas, na esperança de melhorar o desempenho e aumentar a massa muscular. Assim, observa-se que o seu uso está disseminado em diferentes tipos de esportes, invadindo as academias, passando a ser usado por jovens adultos de ambos os sexos, na procura de um corpo perfeito em um pequeno espaço de tempo.

Os esteróides anabólicos mais utilizados no esporte são os chamados EAA sintéticos ou semi sintéticos, incluindo a Testosterona (T) e seus derivados quimicamente alterados (LAMB, 1996; LISE et al., 1999), os quais são usados, sobretudo, por pessoas entre 18 e 34 anos (PELUSO et al 2000; FONSECA, THIESEN 2000).

Segundo Pagnani, Oliveira, Santonja (2002), na década passada, os EAA tinham o seu uso restrito a um pequeno número de atletas halterofi listas de alto nível. No entanto, o doping com anabolizantes vem crescendo muito nos últimos dez anos (EHRNBORG, BENGTSSON, ROSEN, 2000; DE PALO et al, 2001; VITAL, DE

ROSE, 2004), passando a fazer parte integral do ambiente da alta tecnologia dos esportes competitivos (VITAL, DE ROSE, 2004) e sendo utilizado, indiscriminadamente, por atletas recreacionais, freqüentadores de academia, adolescentes, adultos, jovens em idade escolar, universitários (VITAL, DE ROSE, 2004), pessoas de baixa estatura, todos em busca de melhoria na aparência, na performance sexual ou de pura diversão (LISE et al., 1999).

O consumo destas substâncias vem apresentando uma freqüência ascendente em vários países e diversos estudos têm documentado os efeitos adversos à saúde decorrentes do seu uso (PERES, LUCIANO 1995; MOURA 1984; FONSECA , THIESEN 2000; ARAÚJO; ANDREOLO , SILVA 2002; LISE et al 1999; IRIARTE, ANDRADE 2002; PAGNANI, OLIVEIRA, SANTONJA, 2002; VITAL, DE ROSE, 2004 ). Além disso, 95% da produção de ampolas de esteróides anabólicos ou hormônios masculinos é usada por jovens, homens e mulheres, constituindo um problema de saúde pública ou, mesmo, de criminalidade (PAGNANI, OLIVEIRA , SANTONJA, 2002).

Mesmo sabendo da existência de implicações médicas, éticas e legais (EHRNBORG, BENGTSSON, ROSEN, 2000), muitos atletas ou esportistas amadores fazem uso dos EAA derivados da Testosterona para fi ns de hipertrofi a muscular, conscientes ou não da possibilidade de efeitos colaterais, tais como: acromegalia, alterações no metabolismo dos carboidratos, alterações cardíacas provocadas pela hipertrofi a do miocárdio e dos ventrículos, além de áreas de necrose, ginecomastia, câncer hepático e de próstata,

2Fit Perf J, Rio de Janeiro, 4, 4, 2, jul/ago 2005 aumento do colesterol LDL com diminuição do colesterol HDL, esterilidade e impotência, atrofi a dos testículos e morte (SONKSEN, 2001; DAWSON, 2001; COLAO et al., 2001, AHRENDT, 2001, BEJMA, JI, 1999, PERES, LUCIANO, 1995; PAGNANI, OLIVEIRA, SANTONJA, 2002; VITAL, DE ROSE; 2004; VITAL, 2003).

Sabendo que a (T) tem efeito tanto androgênico quanto anabolizante, os fabricantes de anabolizantes esteróides sintéticos tendem a maximizar os efeitos anabólicos, ao mesmo tempo minimizando os efeitos androgênicos. A administração exógena dessas substâncias afetam o eixo hipotálamo-hipofi sário-gonodal, resultando num feedback negativo na secreção do hormônio folículo-estimulante (FSH) e do hormônio luteinizante (LH) que, por sua vez, diminuem a produção de Testosterona endógena, resultando na redução da espermatogênese (LISE et al., 1999). Assim, a virilidade e a fertilidade normais do homem necessitam de um controle direto do eixo hipotálamo-hipofi sário-gonodal. Tradicionalmente, sabe-se que o diagnóstico da infertilidade masculina depende de uma avaliação descritiva dos parâmetros estudados após ejaculação, com ênfase na concentração, morfologia, motilidade e vitalidade dos espermatozóides.

Até o momento, na literatura médica existem poucos estudos sobre o tratamento da infertilidade causada por anabolizantes esteróides. Assim, diante da escassez de dados relativos aos efeitos dos EAA sobre a função prostática e sobre a formação de espermatozóides em atletas fi siculturistas que fazem uso destes anabolizantes, pretendese identifi car os efeitos de tal prática, com o intuito de alertar os atletas para as possíveis alterações no sistema reprodutor que podem advir daí.

Analisar a função prostática e a produção de espermatozóides em praticantes de Musculação Atlética que utilizam ergogênicos anabolizantes.

A pesquisa realizada obedeceu ao modelo descritivo e longitudinal, com duração de 12 meses; os atletas foram avaliados ao fi nal dos períodos de treinamento correspondentes às fases de hiper- trofi a, defi nição e descanso, cada uma com aproximadamente 6 (seis), 2 (dois) e 4(quatro) meses de duração, respectivamente.

A amostra foi composta por 9 atletas da Federação de Musculação do Rio Grande do Norte, ou da Federação Norteriograndense de Musculação - NABBA (National Amateur Bodybuilders Association) - RN, selecionados de forma não probabilística intencional, do sexo masculino, com idades entre 25 e 45 anos, os quais faziam uso de anabolizantes por mais de três anos; sendo excluídos os atletas que apresentassem qualquer patologia auto-referida.

Protocolo experimental

Ao fi nal de cada fase, os atletas foram avaliados através de exame bioquímico para dosagem de PSA (Prostate Specifi c Antigen) livre e total. Em seguida, foi realizado o espermograma, após uma ejaculação completa, obedecendo aos procedimentos normais para a execução do referido exame. Também foi aplicada uma entrevista estruturada para se conhecer as dosagens, princípios ativos, modo de administração e/ou consumo de diferentes compostos ergogênicos, incluindo substâncias anabolizantes.

A determinação do antígeno específi co da próstata (PSA) livre e total, para avaliação da próstata, foi realizada pela técnica de Quimioluminescência, descrita por Kuriyama et al. (1982), utilizando-se kits para PSA total e livre fornecidos pela DPC medlab, através do aparelho Immulite. Para a avaliação do espermograma, foi empregado o método preconizado por Piva (1985), após ejaculação completa.

Na procura por melhores índices de desempenho ou para superar os seus próprios recordes, atletas profi ssionais de várias modalidades esportivas, incluindo os praticantes de Musculação Atlética, modifi cam seus padrões dietéticos e/ou fazem uso de suplementos ergogênicos nutricionais e/ou fármacos. Assim, pretendem promover o ganho de massa muscular, velocidade e agilidade, além de obter melhora da aparência física, condizente com um perfi l hormonal mais anabólico (PAGNANI, OLIVEIRA, SANTONJA, 2002).

Nesta pesquisa observou-se que a faixa etária predominante dos atletas estudados variou de 25 a 35 anos. Neste contexto, Iriarte e Andrade (2002) relataram que a faixa predominante em seus estudos foi de 17 a 37 anos, apontando um uso mais precoce por parte dos atletas por eles estudados. No gráfi co 1, observa-se que a maioria dos atletas (5,56%) utilizava anabolizantes por um período de 3 a 5 anos, existindo também atletas que revelaram fazer uso há bem mais tempo: de 16 a 20 anos (2,2%).

No tocante à avaliação da produção de espermatozóides, observou-se que os atletas nunca fi zeram uma avaliação desta natureza, mesmo os que utilizavam anabolizantes por longos períodos (Gráfi co 2). Quanto à avaliação médica de rotina, os únicos exames realizados ao longo destes anos foram o

Gráfi co 1 - Tempo de uso dos esteróides anabólicos pelos praticantes de Musculação Atlética (Fisiculturistas). Natal/RN, 2003

Fit Perf J, Rio de Janeiro, 4, 4, 223, jul/ago 2005223 hemograma completo, sumário de urina, verifi cação de doença sexualmente transmissível (D.S.T.), raio-x de tórax e parasitológico de fezes.

A partir da avaliação sobre o tipo de esteróide utilizado (Gráfi co 3), verifi cou-se que os atletas fazem uso de EAA destinado ao consumo humano (EAAH) e/ou veterinário (EAAV). Observou se, portanto, que a utilização de anabolizantes de uso veterinário também é prática existente na Musculação Atlética, fato que corrobora Araújo, Andreolo, Silva (2002), em estudo sobre praticantes de musculação da cidade de Goiânia/GO.

No ano de 2003, na cidade do Natal/RN, registrou-se que 3 praticantes de musculação fi zeram uso de carrapaticida, na dosagem de 6mL, pensando tratar-se de anabolizante de uso veterinário, embora a bula recomendasse dose de 1ml/100 kg, para animais. Tal conduta provocou a morte de um deles, enquanto os outros necessitaram de hospitalização por longo período, fi cando com importantes seqüelas (AMARAL, 2003). Os sintomas relatados pelos atletas foram condizentes com os estudos de Araújo, Andreolo, Silva (2002). Quanto ao princípio ativo dos anabolizantes utilizados, observa-se na Tabela 4 que, em todas as fases do treinamento, os atletas fazem uso de anabolizantes, existindo um atleta que utiliza exclusivamente substâncias destinadas ao uso veterinário.

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