Análise do Tratamento Térmico sobre Aço Sae 1045

Análise do Tratamento Térmico sobre Aço Sae 1045

(Parte 1 de 2)

ESTUDO DO TRATAMENTO TÉRMICO SOBRE A CONFORMAÇÃO DO AÇO 10451

Buerger, G. R.; Domingues, T. G.; José, D. R.; Manske, G. A.; Oliveira, R. D.; Vieira, L. N. 2

Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC/CCT C P 631 – CEP 89223-100 – Joinville- SC

Resumo

Este trabalho tem por objetivo estudar o comportamento da conformação do aço 1045 quando submetido à diversos tratamentos térmicos. Diversas amostras foram submetidas aos seguintes tratamentos: normalização, recozimento, têmpera à óleo e têmpera a salmoura. Através dos ensaios mecânicos de compressão e dureza, suas propriedades foram comparadas entre si e com as propriedades das amostras não-tratadas. Metalografias foram realizadas para caracterizar a micro-estrutura das amostras a fim de validar os tratamentos térmicos realizados e analisar as amostras no estado pósconformadas. As amostras temperadas obtiveram alta dureza, e a têmpera a óleo apresentou uma taxa de compressão de 2%. A amostra não tratada e as amostras recozidas e normalizadas plenamente apresentaram taxas de compressões similares, em torno de 75%. Palavras chaves: tratamento térmico, conformação mecânica, aço SAE 1045.

Abstract

annealed and normalized samples presented similar compression rates, around 75%

This paper has the objective to study the behavior of 1045 steel when submitted to several heat treatments. Several samples were submitted to the following heat treatments: normalizing, full annealing, oil tempering and brine tempering. Through mechanical tests of compression and hardness, the specimen’s properties were compared among each other and with the non-treated samples. Metallographies were made to characterize their micro-structures, in order to validate the heat treatments made and to analyze the post-conformed specimens state. The tempered samples have shown high hardness, and the oil tempering process influenced the deformation significantly, yielding a compression rate of 2%. The non-treated sample and the Key-words: heat treatment, metalworking processes, 1045 SAE steel.

(1) Trabalho apresentado na disciplina de Processos de Fabricação, do curso de graduação em

Engenharia Mecânica da Fundação Universidade do Estado de Santa Catarina. (2) Alunos do curso de graduação em Engenharia Mecânica da Fundação Universidade do Estado de Santa Catarina.

1) INTRODUÇÃO:

Em diversas aplicações os materiais fornecidos por processos de produção convencionais possuem características inadequadas que podem influenciar negativamente o seu desempenho e até mesmo comprometê-lo. Empenamentos, tensões internas e estruturas indesejadas surgem com frequência e afetam as propriedades do material. Para solucionar esses problemas alguns tratamentos térmicos podem ser empregados, envolvendo aquecimento e resfriamento subsequente, dentro de condições controladas de temperatura, tempo, ambiente de aquecimento e velocidade de resfriamento [1]. Na maioria dos casos os tratamentos térmicos são aplicados a ligas Fe- C, em especial aos aços.

Com 0,45% de carbono em sua composição, o aço SAE 1045 é classificado como aço de médio teor de carbono com boas propriedades mecânicas e tenacidade bem como boas usinabilidade e soldabilidade quando laminado a quente ou normalizado [2]. As suas aplicações compreendem eixos, peças forjadas, engrenagens comuns, componentes estruturais e de máquinas, virabrequim [3].

O objetivo do presente trabalho é o estudo dos efeitos de diferentes tratamentos térmicos, a saber, têmpera, recozimento e normalização no aço SAE 1045.

A realização dos tratamentos térmicos exige o conhecimento da curva T do material, que relaciona as principais variáveis deste com o comportamento da microestrutura; conforme exibido na Figura 1.1.

Figura 1.1: Diagrama T do Aço SAE 1045

A têmpera consiste em resfriar o aço, após austenitização, a uma velocidade suficientemente rápida para evitar as transformações perlíticas e bainíticas na peça em questão. Deste modo, obtém-se a estrutura metaestável martensítica. Uma célula unitária dessa estrutura cristalina consiste simplesmente em um cubo de corpo centrado que foi alongado em uma das suas dimensões. Muito diferente da ferrita C, todos os átomos de carbono permanecem como impurezas intersticiais na martensita, restringindo dessa maneira o movimento de discordâncias [4].

Enquanto a têmpera consiste em realizar um resfriamento rápido para obtenção de um novo arranjo cristalino, o recozimento visa eliminar quaisquer tratamentos mecânicos e térmicos a que o material tenha sido anteriormente submetido. A temperatura de recozimento pode variar de acordo com a sua finalidade que são: recozimento total, recozimento para alívio de tensões e esferoidização. Os principais objetivos alcançados são remoção de tensões, diminuição da dureza, melhora da ductilidade, ajuste do tamanho de grão, produção de estruturas definidas entre outras. De modo geral, em todos os processos de recozimento o material é submetido a uma temperatura elevada por um período de tempo prolongado, sendo ele então resfriado lentamente.

A normalização é um tratamento muito semelhante ao recozimento, pelo menos quanto aos seus objetivos. A diferença consiste no fato de que o resfriamento posterior é menos lento ao ar, por exemplo, resultando assim numa estrutura cristalina mais fina do que a produzida no recozimento, e consequentemente propriedades mecânicas superiores [1]. Tem-se que a normalização é geralmente obtida a temperaturas de 5 a 85 °C acima da temperatura crítica superior e mantido por tempo suficiente até que a liga seja completamente transformada em austenita. O tratamento é então encerrado pelo resfriamento, normalmente ao ar [4].

Neste trabalho o aço SAE 1045 foi submetido aos tratamentos de têmpera, recozimento e normalização e após caracterização seus valores de dureza foram determinados. Realizaram-se também ensaios de compressão para verificar o comportamento aos tratamentos térmicos realizados mediante comparação.

2)METODOLOGIA EXPERIMENTAL:

2.1 Tratamentos Térmicos Os tratamentos térmicos foram realizados em um forno mufla convencional no

Laboratório de Tratamentos Térmicos da UDESC/Joinville. Para tal, as amostras foram envolvidas em arame e submersas em um granulado com pequeno teor de carbono, a fim de evitar a descarbonetação da superfície.

A têmpera foi realizada a 880 °C, com 20°C/min de taxa de aquecimento e 40 min no patamar de temperatura máxima, respeitando a recomendação de 1h por polegada de seção transversal de material [2]. Foram utilizados dois meios de resfriamento: óleo e salmoura. O resfriamento em óleo apresenta menor taxa de resfriamento, ao passo que a salmoura é o meio mais severo dentre os comumente usados [1], fato que se deve à redução dos primeiro e segundo estágios da têmpera, no qual há formação de filme e bolhas de vapor sobre a peça, respectivamente [5]. No meio de salmoura foi utilizado 10% de massa de sal de cozinha.

Para o recozimento a temperatura usada foi 830 °C, com taxa de aquecimento de 20 °C/min e 40 min sob a temperatura de recozimento. O resfriamento lento dentro do forno atende às recomendações, com um valor na ordem de 25°C/h [5].

O tratamento de normalização utilizou temperatura de 880°C na qual as amostras permaneceram por 40 min após aquecimento de 20 °C/min. Depois de retiradas do forno, as amostras foram resfriadas ao ar sobre uma base de concreto.

2.2 Amostras As amostras foram usinadas de uma barra cilíndrica laminada a quente, comumente comercializada, de modo a ficar com 10 m de diâmetro e 20 m de comprimento. A composição avaliada por espectroscopia em uma amostra com diâmetro maior revelou a seguinte composição, apresentada na Tabela 2.1:

Tabela 2.1: Composição química das amostras,

2.3 Conformação Dois grupos de amostras foram formados. Ambos foram submetidos aos tratamentos térmicos mencionados, mas apenas um deles foi conformado, para posterior comparação dos resultados.

Foi utilizada uma máquina universal de ensaios mecânicos (Figura 2.3.1) para conformar as amostras, sendo que a carga utilizada foi de 300 kN com uma taxa de deslocamento de 5 m/min. Empregou-se lubrificante sólido nas faces dos corpos de prova para garantir uma melhor qualidade nas conformações.

Figura 2.3.1: Máquina de ensaios universais

As dimensões das amostras foram medidas antes e depois da conformação e foi calculada a taxa de conformação para cada amostra com a seguinte equação:

sendo ε a taxa do conformação, l∆ a variação de comprimento no ensaio de compressão e 0l o comprimento inicial da amostra. 2.4 Metalografia Com a conclusão dos processamentos térmicos e mecânicos, as amostras foram embutidas em baquelite, lixadas e polidas (0,3 µm) e atacadas com Nital 1%. Foram tiradas fotos das microestruturas reveladas através de microscopia ótica.

A metalografia das amostras conformadas foi feita na sua seção transversal a fim de mostrar a orientação dos grãos devido ao trabalho a frio. A metalografia das amostras restantes foi feita na sua face circular.

2.5 Ensaios de Dureza Ensaios de dureza Rockwell foram realizados nas amostras a fim de analisar o efeito dos tratamentos térmicos e da conformação mecânica.

3) RESULTADOS E DISCUSSÃO

3.1 Taxa de conformação Para cada amostra foi calculado a taxa de conformação, como mencionado anteriormente. Os resultados estão contidos na tabela 3.1.

Tabela 3.1: Taxas de conformação das amostras estudadas,

Amostra Taxa de

Conformação

A tabela 3.1 mostra que as amostras temperadas em salmoura e em óleo sofreram pouca deformação, se comparadas às outras. Observa-se um fenômeno interessante na amostra temperada a óleo: apesar de apresentar uma dureza comparável à amostra temperada em salmoura [Tabela 3.2], sua taxa de conformação foi muito superior. Houve rompimento, inclusive, desta mesma amostra ao final do ensaio, mostrada na Figura 3.1.1.

Figura 3.1.1: Rompimento da amostra temperada em óleo durante a conformação realizada.

Como pode ser visto ainda na tabela 3.1, a taxa conformação das amostras não temperadas são similares. A maior taxa de conformação obtida provém do tratamento de Recozimento pleno, conforme o esperado segundo a literatura.

Figura 3.1.2: Gráfico comparativo entre os ensaios de compressão.

A figura 3.1.2 mostra os resultados dos ensaios de compressão realizados na máquina universal de ensaios mecânicos. Como pode ser observado, a amostra que apresentou a maior taxa de deformação foi a que sofreu o tratamento térmico de recozimento pleno. Em seguida tem-se a amostra normalizada, seguida da amostra bruta. Essas três mantiveram patamares similares de conformabilidade. Vê-se que os tratamentos de têmpera conferem ao material uma alta resistência mecânica e uma grande região elástica. A taxa de conformação demonstrado por estas últimas é muito inferior quando comparada às restantes.

3.2 Dureza Rockwell A tabela 3.2 apresenta os valores de dureza obtidos na escala Rockwell B.

Tabela 3.2: Durezas obtidas em ensaios de dureza Rockwell B.

Tratamento Térmico

Sem tratamento

Recozimento Normalização Têmpera em salmoura

Têmpera em óleo

Amostras não

Amostras

Os valores da tabela 3.2 estão demonstrados graficamente na figura 3.2, a seguir:

Figura 3.2: Gráfico dos valores de dureza Rockwell B das amostras.

A figura 3.2 mostra a diferença substancial entre as durezas das amostras sem tratamento, recozidas e normalizadas, o que indica a presença de encruamento, evidenciado também pelas grandes taxas de conformações presentes nessas amostras. Por outro lado, as amostras temperadas apresentaram pouca diferença na dureza, o que condiz com o pequeno encruamento obtido na conformação das mesmas.

Comparando os valores da figura 3.2 tomando como parâmetro o tratamento térmico realizado, nitidamente se percebe uma diferença de microestruturas, como será explicitado a diante. A martensita, resultado dos tratamentos de têmpera, tem dureza mais elevada que grãos de perlita grosseira ou fina em matriz ferrítica, característica dos tratamentos de recozimento e normalização para esse material. O efeito é uma dureza muito maior para as amostras temperadas, como pôde ser observado. As amostras sem tratamento tem origem num processo de trabalho a quente e portanto também possuem dureza inferior às temperadas, com uma estrutura de grãos de perlita em matriz ferrítica.

3.3 Metalografia

A figura 3.3 mostra a microestrutura do aço SAE 1045 na condição bruta, como fornecida pelo fabricante.

Figura 3.3: Amostra de SAE 1045 no estado bruto, atacada em Nital 1%. Ampliação de 500x.

Pode-se ver a matriz ferrítica, a parte clara, e os grãos de perlita, a parte escura. A equiaxidade dos grãos mostra que não houve trabalho mecânico a frio nessa direção.

Na figura 3.4 tem-se a mesma condição sem tratamento térmico de uma amostra conformada.

Figura 3.4: Amostra de SAE 1045 sem tratamento térmico, conformada, atacada em Nital 1%. Ampliação de 500x.

Tem-se a mesma microestrutura da amostra bruta da figura 3.3, no entanto fica claro a orientação dos grãos, não mais equiaxiais, consequência do trabalho a frio realizado.

Os tratamentos de recozimento são mostrados nas figuras 3.5 e 3.6, respectivamente. A figura 3.5 apresenta o estado sem conformação, enquanto na figura 3.6 tem-se conformação mecânica a frio.

Figura 3.5: Aço SAE 1045 recozido, atacado em Nital 1%. Aumento de 500x.

Figura 3.6: Aço SAE 1045 recozido, conformado a frio, atacado em Nital 1%. Aumento de 500x.

Confirmando o grande encruamento presente nas amostras recozidas pode-se ver a orientação dos grãos na figura 3.6, enquanto que na figura 3.5 os grãos estão, de uma maneira geral, equiaxiais. Comparando as microestruturas das amostras recozidas e sem tratamento (figuras 3.5 e 3.3, respectivamente) percebe-se que os grãos obtidos no recozimento são menores que no estado bruto. Isso se deve à recristalização que acontece ao fim da austenitização do processo de recozimento. O surgimento de novos e pequenos grãos faz com que se tenham grãos menores que no estado bruto. Um subsequente crescimento de grãos aconteceria caso o tempo de recozimento fosse estendido além do empregado.

A seguir, as figuras 3.7 e 3.8 mostram as microestruturas formadas nos tratamentos de normalização. Na figura 3.7 tem-se uma amostra normalizada antes da conformação. O estado após conformada está apresentado na figura 3.8.

Figura 3.7: Metalografia de um aço SAE 1045 normalizado e atacado em Nital 1%. Ampliação de 500x.

Figura 3.8: Metalografia de um aço SAE 1045 normalizado, conformado e atacado em Nital 1%. Ampliação de 500x.

Como nos outros casos anteriores, está clara a presença de encruamento na figura 3.8, deixando os grãos alongados em uma direção. Um resultado plausível se comparado à tabela 3.1 que mostra uma taxa de compressão significativa para as amostras normalizadas.

Vê-se também, no estado apenas normalizado (figura 3.7), grãos menores que no estado bruto (figura 3.3) e que no estado recozido (figura 3.5). Isso se deve ao início do processo de recristalização que, assim como no recozimento, está presente na normalização, logo após a austenitização completa da estrutura cristalina do aço. Como o resfriamento do recozimento é mais lento, dentro do forno, as altas temperaturas favoreceram um crescimento de grão não notado na normalização, na qual a taxa de resfriamento é mais alta uma vez que as amostras são resfriadas ao ar quiescente.

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