Power Point

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“O drama que propicia a peça em questão — as duras rédeas dos tribunais do Santo Ofício — é baseado num fato histórico ocorrido em 1750, tempo distante, longe das perseguições de censura, no Brasil do século passado. Assim, Dias Gomes, de forma metafórica, entre frestas, afasta-se aparentemente da nossa realidade para aprofundá-la, com máscaras pretéritas que, por conseguinte, permitem a inalterabilidade de ânimo daqueles que não estão dentro dos corredores medievais no qual o Brasil esteve soterrado nas décadas de 60 e 70 do século passado. Logo, é o artístico que propicia o político-ideológico. É a arte que protesta contra a ditadura militar instaurada em abril de 64. É o teatro que torna presente, em cena, o passado recente. É meio de conscientização que talvez não operacionalize as transformações radicais, mas ajude a questionar e a pensar o Brasil de hoje. “

  • “O drama que propicia a peça em questão — as duras rédeas dos tribunais do Santo Ofício — é baseado num fato histórico ocorrido em 1750, tempo distante, longe das perseguições de censura, no Brasil do século passado. Assim, Dias Gomes, de forma metafórica, entre frestas, afasta-se aparentemente da nossa realidade para aprofundá-la, com máscaras pretéritas que, por conseguinte, permitem a inalterabilidade de ânimo daqueles que não estão dentro dos corredores medievais no qual o Brasil esteve soterrado nas décadas de 60 e 70 do século passado. Logo, é o artístico que propicia o político-ideológico. É a arte que protesta contra a ditadura militar instaurada em abril de 64. É o teatro que torna presente, em cena, o passado recente. É meio de conscientização que talvez não operacionalize as transformações radicais, mas ajude a questionar e a pensar o Brasil de hoje. “

“...tragédia da incomunicabilidade humana (...) para mostrar que a capacidade de comunicação dos homens entre si é muito relativa e que a linguagem, em vez de ser um elo entre os homens, pode se transformar numa terrível fonte de mal-entendidos e de destruição(...)”

  • “...tragédia da incomunicabilidade humana (...) para mostrar que a capacidade de comunicação dos homens entre si é muito relativa e que a linguagem, em vez de ser um elo entre os homens, pode se transformar numa terrível fonte de mal-entendidos e de destruição(...)”

Metalogismo

  • Metalogismo

  • Solilóquio Reflexivo

  • Interrogativa Retórica

  • Estruturas Negativas

  • (...) Ouve-se o ruído de soldados marchando. A princípio, dois ou três, depois quatro, cinco, um pelotão. Soa uma sirene de viatura policial, cujo volume vai aumentando, juntamente com a marcha, até chegar ao máximo. Ouvem-se vozes de comando (...). (p.26)

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  • PADRE BERNARDO: Aqui estamos, senhores, para dar início ao processo. Os que invocam os direitos do homem acabam por negar os direitos da fé e os direitos de Deus, esquecendo-se de que aqueles que trazem em si a verdade têm o dever sagrado de estendê-la a todos, eliminando os que querem subvertê-la, pois quem tem o direito de mandar tem também o direito de punir. (...) Devemos deixar que continue a propagar heresias, perturbando a ordem pública e semeando os germes da anarquia, minando os alicerces da civilização que construímos, a civilização cristã? (p. 26)

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  • BRANCA: Esta tarde. Pedi a ele que ficasse mais um pouco pra conhecer você. Mas ele tinha hora de chegar no colégio. Os jesuítas se submetem a uma disciplina muito rigorosa. Parecem militares.

  • AUGUSTO: E ninguém menos militar do que Cristo. Se Ele voltasse à terra e entrasse para a Companhia de Jesus, ia estranhar muito. (p.38)

PADRE: É preciso que você entenda... Sou um simples soldado da

  • PADRE: É preciso que você entenda... Sou um simples soldado da

  • Companhia de Jesus. Estou sujeito a uma disciplina e devo cumprir

  • ordens. Muitas vezes, do lado do inimigo há um irmão nosso; mas do

  • nosso lado está o Cristo, que é nosso capitão. Devemos obedecer-Lhe,

  • porque Ele tem o comando supremo. (p.70)

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  • VISITADOR: Não é você, isoladamente; são milhares que, como você, consciente ou inconscientemente, propagam doutrinas revolucionárias e práticas subversivas (...). (p.101)

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  • BRANCA: Todos são obrigados. Obrigados a denunciar, a prender, a torturar, a punir, a matar. Mas obrigados por quem? (p. 125)

BRANCA: (Acompanha a saída do Padre, envaidecida com as suas últimas palavras. Depois desce até a boca de cena, dirigindo-se à platéia.) Ele disse isso, sim. Disse que eu era um dos tesouros do Senhor e precisava cuidar de mim. Não que eu fosse vaidosa a ponto de acreditar. Mas ele viu que eu era uma boa moça e o Demônio não era pessoa das minhas relações. Muito menos podia estar em meu corpo, pois é coisa provada que Satanás quando vê uma cruz corre mais do que o ‘não-sei-do-que’ diga. Ele tinha um crucifixo e devia saber disso. Tanto que voltou, alguns dias depois. (p. 37)

  • BRANCA: (Acompanha a saída do Padre, envaidecida com as suas últimas palavras. Depois desce até a boca de cena, dirigindo-se à platéia.) Ele disse isso, sim. Disse que eu era um dos tesouros do Senhor e precisava cuidar de mim. Não que eu fosse vaidosa a ponto de acreditar. Mas ele viu que eu era uma boa moça e o Demônio não era pessoa das minhas relações. Muito menos podia estar em meu corpo, pois é coisa provada que Satanás quando vê uma cruz corre mais do que o ‘não-sei-do-que’ diga. Ele tinha um crucifixo e devia saber disso. Tanto que voltou, alguns dias depois. (p. 37)

  • BRANCA:(...)(Dirige-se à platéia.) Vêem vocês o que eles estão fazendo comigo? Estão me encurralando entre o Cão e a parede. Será que foi para isso que me prenderam aqui e me tiraram o sol, o ar, o espaço? Para que eu não pudesse fugir e tivesse de enfrentar o Diabo cara a cara. É justo, senhores, que para me livrar dele me entreguem a ele, noites e noites a sós com ele, sem saber por quê, nem até quando, sem uma explicação, uma palavra, uma palavra, ao menos. Não sei... não sei o que eles pretendem. Já não entendo mesmo o que eles falam. Deve ter havido um equívoco. Não sou eu a pessoa... Há alguém em perigo e que precisa ser salvo, mas não sou eu! É preciso que eles saibam disso! Houve um equívoco! (Grita.) Senhores! Guardas! Senhores padres! Venham aqui! (p. 85 )

PADRE BERNARDO: Nós que tudo fizemos para salvá-la, para arrancar o Demônio de seu corpo. E se não conseguimos, se ela não quis separar-se dele, de Satanás, temos ou não o direito de castigá-la? Devemos deixar que continue a propagar heresias, perturbando a ordem pública e semeando os germes da anarquia, minando os alicerces da civilização que construímos, a civilização cristã? Não vamos esquecer que, se as heresias triunfassem, seríamos todos varridos! (p. 26-27)

  • PADRE BERNARDO: Nós que tudo fizemos para salvá-la, para arrancar o Demônio de seu corpo. E se não conseguimos, se ela não quis separar-se dele, de Satanás, temos ou não o direito de castigá-la? Devemos deixar que continue a propagar heresias, perturbando a ordem pública e semeando os germes da anarquia, minando os alicerces da civilização que construímos, a civilização cristã? Não vamos esquecer que, se as heresias triunfassem, seríamos todos varridos! (p. 26-27)

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  • BRANCA: Oh, a minha cabeça... Por que me fazem todas essas perguntas, por que me torturam? Eu sou uma boa moça, cristã, temente a Deus. Meu pai me ensinou a doutrina e eu procuro segui-la. (p. 29)

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  • BRANCA: Se um texto da Sagrada Escritura pode ter duas interpretações opostas, então o que não estará neste mundo sujeito a interpretações diferentes? (p. 58)

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  • SIMÃO: Eu bem lhe disse... eu bem que me opus sempre... Esses livros —

  • para quê? Uma moça aprender a ler — para quê? Que ganhamos com isso? Estamos agora marcados. (Sai.)(p. 82)

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  • BRANCA: (Deitada de bruços, atrás da grade. Sua atitude revela abandono e perplexidade. Há um longo silêncio, antes que ela comece a falar.) Se ao menos eu pudesse ver o sol... (Pausa.) Será que é essa a melhor maneira de salvar uma criatura que está na mira do Diabo? Tirar-lhe o sol, o ar, o espaço e cerceá-la de trevas, trevas onde o Diabo é rei? (p. 85)

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  • SIMÃO: Em primeiro lugar, o homem tem a obrigação de sobreviver, a qualquer preço; depois é que vem a dignidade. De que vale agora para nós, para os pais dele, para você, para ele mesmo, essa dignidade? (p.134)

Trecho da obra , pág. 33-35

  • Trecho da obra , pág. 33-35

  • PADRE BERNARDO: Eu sei. Você foi o instrumento. Não estou sendo ingrato. Sei que arriscou a vida para me salvar.

  • BRANCA: Não foi tanto assim. O rio aqui não é muito fundo e a correnteza não é lá tão forte. Quando a gente está acostumada...

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  • PADRE BERNARDO: Deus lhe conserve essa alegria e lhe faça todos os dias praticar uma boa ação, como a de hoje.

  • BRANCA: Não é fácil. Acho que as boas ações só valem quando não são calculadas. E Deus não deve levar em conta aqueles que praticam o bem só com a intenção de agradar-Lhe. Estou ou não estou certa?

  • PADRE BERNARDO: Bem...

BRANCA: Não foi querendo agradar a Deus que eu me atirei ao rio para salvá-lo. Foi porque isso me deixaria satisfeita comigo mesma. Porque era um gesto de amor ao meu semelhante. E é no amor que a gente se encontra com Deus. No amor, no prazer e na alegria de viver. (Ela nota que o Padre se mostra um pouco perturbado com as suas palavras.) Estou dizendo alguma tolice?

  • BRANCA: Não foi querendo agradar a Deus que eu me atirei ao rio para salvá-lo. Foi porque isso me deixaria satisfeita comigo mesma. Porque era um gesto de amor ao meu semelhante. E é no amor que a gente se encontra com Deus. No amor, no prazer e na alegria de viver. (Ela nota que o Padre se mostra um pouco perturbado com as suas palavras.) Estou dizendo alguma tolice?

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  • PADRE: Não vai à missa, aos domingos, ao menos?

  • BRANCA: Nem todos os domingos. Mas não pense que porque não vou diariamente à igreja não estou com Deus todos os dias. Faço sozinha as minhas orações, rezo todas as noites antes de dormir e nunca me esqueço de agradecer a Deus tudo o que recebo Dele.

PADRE: Gostaria de discutir com você esses assuntos. Não hoje, porque estamos ambos molhados, precisamos trocar de roupa.

  • PADRE: Gostaria de discutir com você esses assuntos. Não hoje, porque estamos ambos molhados, precisamos trocar de roupa.

  • BRANCA: Vamos lá em casa, o senhor tira a batina e eu ponho pra secar. Posso lhe arranjar uma roupa de meu pai, enquanto o senhor espera.

  • PADRE:(A proposta parece assumir para ele uns aspectos de tentação.) Não... isso não é direito...

AUGUSTO: (Segura-a pelos braços, como para chamá-la a si.) Branca, não fale assim. Você está sendo injusta consigo mesma.

  • AUGUSTO: (Segura-a pelos braços, como para chamá-la a si.) Branca, não fale assim. Você está sendo injusta consigo mesma.

  • BRANCA: Não, não estou. É que começo a me conhecer. E estou descobrindo coisas... Coisas que não descobri nem mesmo nos livros que você me deu. Padre Bernardo talvez tenha razão...

  • AUGUSTO: (Com desagrado.) Padre Bernardo!

  • BRANCA: Sim, Padre Bernardo deve ter razão, toda criatura humana está em perigo!

  • AUGUSTO: Não você, Branca!

  • BRANCA: Sim, eu, eu sim! (Atira-se nos braços dele e faz-se pequenina, pedindo proteção.) Augusto, não podemos esperar até setembro!

  • AUGUSTO: Por quê?

  • BRANCA: Não me pergunte, eu não saberia responder. Só sei que o mundo, que me parecia tão simples, começa a ficar muito complicado para mim. Eu mesma já não me entendo... nos seus braços eu me sinto segura.

  • AUGUSTO: Em setembro, você virá de vez para os meus braços, virá de vez...

  • BRANCA: Não, não me deixe desamparada até lá! Eu não posso esperar tanto!

O Santo Inquérito “comunica” a incomunicabilidade entre os personagens, de forma a denunciar, explicitamente, a opressão do dominador sobre o dominado, para tanto, Dias Gomes faz uso dos recursos expressivos apresentados manipulando o texto.

  • O Santo Inquérito “comunica” a incomunicabilidade entre os personagens, de forma a denunciar, explicitamente, a opressão do dominador sobre o dominado, para tanto, Dias Gomes faz uso dos recursos expressivos apresentados manipulando o texto.

  • A metaficção, recurso literário presente na obra, parece ordenar uma única perspectiva do autor: manter-se fiel àquilo que acredita – o humanismo.

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