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A VITRINA DE LUZBEL Aulo Sanford de Vasconcelos

“E então Miguel venceu e expulsou Luzbel. Porém não exterminou o Mal que logo abaixo edificou um novo reino, paralelo, por tantos exaltado.”

“Mal saídos da contrição espiritual da Igreja, entregavam-se às mais reprováveis condutas mundanas assim que as sombras da noite vinham camuflar, com o seu manto, as suas depravadas práticas, chafurdando-se em paixões pecaminosas, sendo titulares, todos esses hipócritas, de cadeiras cativas na imensa vitrina de Luzbel.”

Gumercindo Limeira, personagem de A Vitrina de Luzbel

A. Sanford de Vasconcellos: Juiz aposentado de Florianópolis, autor de onze livros:

“O homem da madrugada” (1972) “Carrossel” (1982) “ Ave Selva” ( 1984) “Cavalo voa ou flutua?” (1986) “Falai baixo” (1989) “O Dragão vermelho do contestado” (1998) “Chica Pelega” (2000) “O monólogo de um Deodato Alvim” (2002) “Alexandre, o publicano” (2004) “A Vitrina de Luzbel” (2008)

Para entender o que é a “Vitrina de Luzbel”:

Segundo a Bíblia, Luzbel (outro nome de Lúcifer), era o anjo mais bonito do paraíso – Lúcifer significa “portador da luz”. No entanto, ele quis ser maior que o próprio Deus e se rebelou contra ele. Acabou sendo expulso do paraíso juntamente com seus seguidores. Mas não foi destruído completamente: ele é o diabo e até hoje tenta trazer incautos para o seu lado.

Que relação tem isso com o livro? Um dos personagens, o Gumercindo Limeira, ao observar o comportamento das pessoas, chega à conclusão de que o mundo é uma imensa vitrine de Luzbel, isto é, uma vitrine do diabo e todas as suas mazelas. Eis a explicação do título.

Enredo:

I. Lupércio Odrigo Mendes, o Babão, andava encantado com uma jovem chamada Astronildes. Apesar de já ter uma amante, não via a hora de substituí-la pela bela garota.

Mas sua primeira tentativa de aproximação tinha sido um fiasco: foi perseguido por três homens gigantescos e de voz apavorante: o tio e os dois primos da garota.

Iria fazer agora uma nova tentativa. Mas não era tolo de voltar lá novamente. Pediu ao velho amigo

Euclades Ferreira, o Bodinho, subir o morro e levar bombons e um bilhetinho seu.

Bodinho a princípio recusou: “Não vou, Babão. Não vou mesmo. Peça outra coisa, que talvez eu faça, menos essa de bancar o teu cafetino.”

Mas Babão foi tão insistente que Bodinho acabou concordando só para se ver livre do chato. Subiu então o morro levando os mimos.

Babão esperou embaixo, impaciente. Minutos depois Bodinho descia correndo – mesmo sendo manco – entrou no Fusca e pediu para o amigo tocar o carro bem rápido. Ele tinha sido perseguido pelos protetores da moça. Havia caído e machucado joelhos e cotovelos. Além disso estava furioso com Babão, pois acreditava que aquilo só podia ser armação sua.

I. Na juventude aqueles malandros andavam sempre juntos: Babão, o galego Mila, o Cicão, o Xandoca, o Dobes, o Ronildo, o Avelino, o Cento e Um e o Bodinho.

Pardal jamais se misturava com os demais. Era introspectivo, preferia ler revistas em quadrinhos de super-heróis. Tinha poucas amizades. Seu hobby era caminhar tentando acertar cusparadas em pedras, ou outros alvos.

Teve, como todos os rapazes, uma paixão pela Gigi, prima de Babão. Era grande e se necessário, sabia partir para a briga, por isso Babão e os outros o deixavam em paz.

I. A prima Gigi tinha se casado com o pequeno Nelo (seu Agnelo), empresário muito rico e – dizem – envolvido com superfaturamentos.

Lupércio Odrigo Mendes, o Babão, acabou virando empregado da prima Gigi, a pedido dela. O pequeno Nelo não gostava de Babão, mas teve de aceita-lo. Era motorista e “faz-tudo” para Gigi.

A prima gostava de ouvir suas histórias picantes de aventuras sexuais – reais ou um pouco inventadas. Babão era apaixonado pela prima e não perdia uma chance de dizer isso para ela. Gigi não levava a sério, ria, e não dava a menor chance. Babão achava que, com insistência, acabaria conseguindo o que desejava.

Haveria uma pescaria a bordo do iate do pequeno Nelo. Babão já havia convidado o amigo Cento e

Um. Mas Nelo simplesmente barrou a presença dele. Como explicar isso ao Cento e Um? Cento e Um era um bom amigo. Além disso, Babão queria que ele fizesse a limpeza do iate depois, poupando-o do trabalho pesado.

IV. O corpo de uma jovem mulata é encontrado na areia da praia. A noite anterior foi de temporal então todas as provas tinham sido apagadas.

Mas o delegado Pardal concluiu que a garota havia sido estuprada e assassinada. O único indício era uma pedra grande e pontuda que parece ter sido usada para afundar o crânio da vítima. Era Marlene Coelho, 19 anos, balconista, moradora do Morro da Carlita.

Espinoza, Boccaccio

V. Gumercindo Limeira era formado em filosofia e lia centenas de livros: Nietzche, Freud, Marx,

Trabalhava em um banco e detestava o trabalho que era muito aquém de sua inteligência. Em seu pequeno apartamento tinha seus livros e muitos pôsteres de mulheres nuas nas paredes. Sua obsessão era a literatura. Sabia que um dia ainda seria um grande escritor. Escrevia páginas e páginas, mas sempre era recusado pelas editoras.

O pai dele foi alfaiate e alcoólatra. Foi abandonado pela esposa quando Gumercindo era pequeno.

Ela fugiu com um espanhol que dizia blasfêmias: “Me cago em Diós! Me cago em Diós e em todos los santos!”

VI. Lico Barbosa – pai do pequeno Nelo e sogro de Gigi, não se conformava com o que a cidade tinha virado! Aterraram a praia e construíram arranha-céus em volta de sua casa (que teimava em não vender por valor nenhum).

Achava que o filho – o pequeno Nelo – não devia ter casado com Gigi, uma moça inculta e extremamente vulgar.

Mas o que mais detestava era aquele Babão. Não cansava de dizer ao filho que aquele sujeito não prestava. A sua casa só foi vendida quando o velhinho morreu.

VII. Babão foi à praia com Gigi. Tentava conquistar a prima – sem sucesso – e contava casos que ouvia por aí, fofocas.

Falava agora de um certo espanhol. A mulher dele, a alemoa, havia abandonado marido e um filho pequeno para ficar com ele.

Tiveram dois filhos: Ronivaldo e Avelino. Mas Babão dizia que o que se comentava por aí é que o

Ronivaldo era mesmo filho do pai do Cento e Um. Cento e Um e Ronivaldo eram até parecidos.

Prima Gigi pediu que Babão massageasse seus pés enquanto ela tomava sol. Pediu que ele continuasse a contar a história de sua última aventura:

“Vamos, continuo curiosa em saber como se desenrolou mais essa tua indecente e reprovável aventura, na praia deserta, sob o temporal...” O detetive Pardal não ouvia a conversa, mas também estava na praia, observando o Babão.

VIIIGumercindo Limeira tinha pesadelos horríveis, e portanto, também tinha insônia. Tinha até medo de

dormir por conta dos pesadelos de sempre.

Seu prédio tinha o Morro da Carlita aos fundos. Uma noite ele viu um cena que o deixou excitado: um homem puxava uma garota para trás de um muro. A garota não queria ir, mas levou um tapa. A reação dela foi surpreendente: beijou o agressor apaixonadamente. Depois sumiram atrás do muro.

A moça, Gumercindo soube depois que se chamava Odete. O homem era o Babão. Mais tarde, Gumercindo saiu para dar um passeio e acabou encontrando o Babão contando casos num bar. Ali perto, espreitando, estava também o detetive Pardal.

XI. Centou e Um tocava na banda do coreto e levava uma vida sossegada com a amásia Marlene Peituda, vulgo Pomboca.

Babão assistia junto com o povo a apresentação. Quem estava no meio da multidão? Astronildes! A jovem que vivia reclusa e escondida pelos tios.

Finalmente ele tinha a chance de aproximar-se dela. Lupércio Odrigo Mendes, o Babão, já teve incontáveis amásias, mas acreditava que a Astronildes poderia substituir seu grande amor: a prima Gigi.

Mas com quem estava Astronildes se encontrando no escurinho? Com Bodinho! “Claro que era ele.

O Euclades Ferreira. Era mesmo o Bodinho, sim, o capenga torpe! O velhaco! O traidor!”

Naquela noite em que desceu correndo o morro, Bodinho tinha conhecido e gostado de Astronildes, mesmo já sendo casado e tendo sete filhos. Babão não perdoava a traição do ex-amigo.

Desconsolado, foi para um bar beber. Desabafou com Cento e Um e Marlene Peituda. Acabou bebendo até tarde.

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