História

História

(Parte 1 de 6)

Traduzido do grego por Pierre Henri Larcher (1726–1812)

Fontes digitais desta edição

Digitalização do livro em papel

Volumes XI e XXIV

Clássicos Jackson

W. M. Jackson Inc.,Rio, 1950 Versão para o português de J. Brito Broca

Les Deux Terres 2terres.hautesavoie.net site consacré à l'ÉGYPTOLOGIE com o texto integral de Larcher: Hérodote Histoire tome I et I, Charpentier, Paris, 1850.

L'Antiquité Grecque et Latine de Philippe Remacle, François-Dominique Fournier, J. P. Murcia e Thierry Vebr

[Texte Numérisé et mis en page para François-Dominique Fournier] remacle.org

Perseus Digital Library - Tufts University w.perseus.tufts.edu

Los Nueve Libros de la Historia

Tradução do Pe. Bartolomé Pou, S. J. (1727-1802) Ed. eBooksBrasil - Agosto 2006

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Trechos colocados entre [ ] correpondem a trechos ininteligíveis na fonte digitalizada completados com a tradução em espanhol

Capa

Léonidas aux Thermopyles

Jacques-Louis David (1748-1825) Musée du Louvre, Paris

Versão para eBook eBooksBrasil USO NÃO COMERCIAL * VEDADO USO COMERCIAL © 2006 — Heródoto

Começo com uma advertência, dirigida principalmente aos estudandes de História: esta edição não passa de um aperitivo. O verdadeiro repasto está na edição francesa, integral, que pode ser encontrada na web. Lá, sim, estão todas as notas da edição original de Larcher, não incluídas nem aqui, nem na edição digitalizada, base desta — naquela, com certeza, por economia de papel; nesta, por preguiça mesmo.

Para me redimir um pouco deste pecado capital, cá foram inclusos a Nota do Editor de 1842, a “A Vida de Heródoto” e o “Plano da História de Heródoto” com que Lacher iniciava sua tradução.

Algumas discrepâncias entre a edição de Lacher e a versão para o português da fonte digitalizada foram dirimidas com a consulta ao texto original da tradução de Lacher “en ligne” e com o original, original mesmo, disponível em Perseus. Bons tempos em que, no antigo Clássico, em colégios selecionados (no Culto à Ciência em Campinas, p.ex.) se podia ter umas tinturas de grego! Mas agora, os que virão, terão Filosofia e Ciências Sociais. Pelo que vale...

Sobre a importância de se beber nas fontes, remeto o eventual leitor à discussão, sobre as traduções, travada na Conferência de Levi Carneiro, em 1938, que pode ser encontrada nas estantes virtuais: “O Problema do Livro Nacional - Levi Carneiro”.

consultandoe formatando. Rende! Mas é provável que

Este livro, como outros recém colocados na web, faz parte de uma fornada de eBooks feitos para gáudio próprio, como parte de merecidas releituras. Vai-se lendo, estudando, tenham passados muitos gatos; perdoem-lhes os miados.

Mas por que deixar no meu HD e não libertá-los, para que sigam em frente, servindo a outros? É essa a idéia básica da web e, agora, do Scribd. É por isso que estão sendo colocados antes no Scribd. À frente, talvez, em outros formatos no eBooksBrasil.

Boa leitura!

Teotonio Simões eBooksBrasil

(484 A.C. - 425 A.C.) Traduzido do grego por

Pierre Henri Larcher (1726 D.C. - 1812 D.C.)

Mais de meio século escoou desde a publicação do

Heródoto de Larcher, e durante este meio século o sucesso desta obra não cessou de crescer. É hoje um livro clássico, e os próprios sábios lhe deram o justo lugar, assinalando-o como o monumento durável de um grande trabalho que absorveu a vida inteira de seu autor.

Quando Larcher publicou esta tradução, creu necessário juntar-lhe um grande número de notas tiradas das fontes as mais sábias, e úteis seja para o estabelecimento do texto, seja para a inteligência dos fatos. Estas notas encheram quatro volumes de sua primeira edição, e seis de sua segunda. Era muito, era demais, sem dúvida; e entretanto Larcher preparava uma terceira edição, que vimos, à qual juntara um bom número de novas notas.

Acusaram-no com razão deste luxo desenfreado de erudição; e Volney, sábio notável, e ademais homem de gosto, expressou o desejo que uma mão amiga se encarregasse de desbastar este cipoal da ciência, sob o qual a árvore vigorosa de Heródoto ficava como que embalsamada. O objetivo seria eclarar e não sufocar o historiador.

É este trabalho que oferecemos hoje ao público; tentámos realizar o voto de Volney, de suprimir a erudição inútil, acolher os esclarecimentos indispensáveis, e reunir em um muito pequeno número de notas, emprestadas de outros comentadores, tudo o que pudesse facilitar o estudo do pai da história, ou, como o chamava o douto Sainte-Croix, do grande rival de Homero.

L. AIMÉ-MARTIN. 26 de maio de 1842

Heródoto, nascido em Halicarnasso no ano de 4230 do período juliano, 484 anos antes de nossa era, era Dório de extração, ilustre de nascimento. Teve por pai Lixas e por mãe Drio, que tinham um lugar de destaque entre seus concidadãos. Paniasis, poeta célebre, ao qual alguns escritores adjudicam o primeiro posto após Homero, embora outros o coloquem após Hesíodo e Antímaco, era seu tio por parte de pai ou de mãe; nada há de certo a respeito.

Paniasis nasceu, se déssemos crédito a Suidas, na 78a. olimpíada, isto é, no ano 4247 do período juliano, 407 anos antes da era vulgar. Não posso compartilhar esta opinião, porque se seguiria que Heródoto, seu sobrinho, seria 17 anos mais velho do que ele. Não ignoro que há tios mais jovens que seus sobrinhos: tenho exemplos.

Também insisto menos nesta razão do que sobre o tempo em que faleceu Paniasis, embora não possa ser fixada de maneira certa. Mas sabemos que Ligdamis, tirano de Halicarnasso, foi derrubado no anos 4257 do período juliano, 457 anos antes de nossa era. Ter-se-ia pois que fazer morrer este poeta no mais tardar em 4.256 do período juliano, 458 anos antes da era vulgar.

Se a asserção de Suidas fosse verdadeira, Paniasis teria no máximo 9 anos quando faleceu. Como, com esta idade, poderia ter feito sombra ao tirano? como poderia ter composto estas obras que lhe deram tão grande reputação? Prefiro, por esta razão, colocar seu nascimento na 68a. olimpíada. Teria pois 50 anos quando Ligdamis o mandou matar, e teria tido tempo para compor este grande número de obras que o imortalizaram. Ademais, o próprio Suidas admite que há autores que o fazem mais velho. Paniasis era conhecido pelo Heracleiade e pelo Iônicos. O Heracleiade era um poema heróico em honra a Hércules; nele o poeta celebrava as conquistas deste herói, em catorze livros contendo nove mil versos.

Diversos escritores o mencionam com distinção. Isaac

Tzetzès em seus Prolegômenos sobre a Cassanda de Licofron, Proclus em seu Chrestomatia, Suidas na palavra Paniasis, Pausanias, que até lhe cita dois versos, e o escoliasta de Píndaro, que menciona um do terceiro livro. Quintiliano, bom juiz nestas questões, nos diz que ele não igualava em eloqüência nem Hesíodo nem Antimaco, mas que ultrapassava o primeiro pela riqueza de seu tema, e o segundo pela disposição que lhe dera. Denis de Halicarnado, que não se destacava menos na crítica do que na história, nos traz também o mesmo juízo. Atenho-me a estas autoridades, às quais poderia juntar as de diversos outros autores, tais como Apolodoro, santo Clemente de Alexandria, Ateneu, etc.

O mesmo Paniasis tinha escrito em versos pentâmetros um poema sobre Codrus, Neleu e a colônia iônia, que se chamava Os Iônicos. Este curioso poema, do qual nunca seria demais lamentar a perda, porque entrava em uma infinidade de detalhes históricos sobre esta colônia, compreendia sete mil versos. Só nos restou deste poeta dois pequenos pedaços de versos com um fragmento, em que Paniasis celebra o vinho e os prazeres da mesa tomados com moderação. Stobeu e Ateneu os conservaram para nós. Podemos encontrá-los em diversas coletâneas, e muito mais corretamente na dos poetas gnômicos, publicada em 1784 em Strasburgo por Brunck, crítico cheio de gosto e de sagacidade. Há ainda cinco versos deste poeta que se podem ler em Étienne de Bizâncio, na palavra TremÛlh. Suspeito que são do Heracleida. Brunck não julgou apropriado lhes dar um lugar em sua coletânea.

Nestes belos séculos da Grécia, tomava-se um cuidado particular na educação da juventude, formando-lhes o coração, cultivando-lhes o espírito. É de se presumir que a educação de Heródoto não tenha sido negligenciada, embora ignoremos quais foram seus mestres. Não podemos sequer duvidar, quando o vemos empreender em uma idade pouco avançada longas e penosas viagens, para aperfeiçoar seus conhecimentos e para adquirir novos.

A descrição da Ásia por Decideu, a história de Lídia, de

Xantus, as da Pérsia de Helanicos de Lesbos e Charon de Lampsaco, gozavam então a mais alta reputação. Estas obras agradáveis, interessantes, foram sem dúvida devoradas por Heródoto nesta idade em que se é ávido por conhecimentos, e lhe inspiraram o vívido desejo de percorrer os países cujas descrições o haviam encantado. Não era contudo uma vaga curiosidade que o levava a viajar; ele se propunha uma finalidade mais nobre, a de escrever história. O sucesso dos historiadores que o haviam precedido não o amedrontou; pelo contrário, serviu para inflamá-lo; e embora Helanico de Lesbos e Charon de Lampsaco tivessem tratado em parte do mesmo assunto, longe de ser desencorajado, ele ousou lutar contra eles, e não se esforçou em vão em superá-los. Ele se propunha escrever, não a história da Pérsia, mas somente a da guerra que os Gregos tiveram que sustentar contra os Persas. Este assunto, simples na aparência, lhe forneceu a ocasião de fazer entrar no mesmo quadro a história da maioria dos povos com que os Gregos tinham relações íntimas, ou que lhes importava conhecer. Sentia que, para executar este plano, deveria recolher materiais, e adquirir um exato conhecimento dos países dos quais se propunha fazer a descrição. Foi com isto em vista que empreendeu suas viagens, que percorreu a Grécia inteira, o Épiro, a Macedônia, a Trácia; e, segundo seu próprio testemunho, não se pode duvidar que tenha passado da Trácia aos Citas, para além de Íster e do Boristeno. Por toda parte, observou com olhar curioso os sítios, as distâncias dos lugares, as produções dos países, os usos, os costumes, a religião dos povos; fuçou em seus arquivos e em suas inscrições os fatos importantes, a seqüência dos reis, as genealogias dos personagens ilustres; e por toda parte ligou-se aos homens mais instruídos, e dedicou-se a consultá-los em todas as ocasiões. Talvez tenha se contentado nesta primeira viagem em visitar a Grécia, e que, em seguida rumou para o Egito, passando daí para a Ásia na Cólcida, à Cítia, à Trácia, à Macedônia, retornando a Grécia pelo Épiro. Seja como for, o Egito, que mesmo hoje em dia ainda desperta o espanto e a admiração dos viajantes inteligentes, não poderia deixar de entrar no plano de Heródoto. Hecateu já havia viajado para ali antes dele e, por todas as aparências, tinha feito uma descrição do Egito. Porfírio pretende que este historiador tenha se apropriado, do Viagem da Ásia deste escritor, da descrição da fênix e do hipopótamo, com a caça do crocodilo, e que apenas fez algumas mudanças; mas o testemunho de Porfírio é mais que suspeito, pois Calímaco atribui esta Viagem da Ásia a um escritor obscuro. Acrescento, com Walckenaër, que se o historiador tivesse sido culpado deste plágio, Plutarco, que compôs um tratado contra ele, não teria deixado de denunciá-lo. Não temos nenhum escritor, seja antigo, seja moderno, que tenha dado deste país uma descrição tão exata e também curiosa. Ele nos faz conhecer sua geografia com uma exatidão que nem sempre tiveram geógrafos de profissão, as produções do país, os costumes, os usos e a religião de seus habitantes, e a história dos últimos príncipes antes da conquista dos Persas, com particuliaridades interessantes sobre esta conquista, que teriam sido para sempre perdidas que ele não as tivesse transmitido à posteridade.

Se crêssemos que nosso autor nada mais fez que recolher rumores populares, erraríamos grosseiramente. Não saberíamos imaginar os cuidados e as penas que tomou para se instruir, e para não apresentar a seus leitores nada além do certo. Suas conferências com os padres do Egito, a familiaridade que desfrutou entre eles, as precauções que tomou para que não lhe impusessem nada, são garantias seguras do que ele afirma. Um viajante menos circunspecto teria se contentado com o testemunho dos sacerdotes estabelecidos em Mênfis. Mas este testemunho, respeitável sem dúvida, não lhe pareceu suficiente. Foi a Heliópolis, e daí para Tebas, a fim de assegurar-se, por conta própria, da veracidade do que lhe haviam dito os sacerdotes de Mênfis. Consultou os colégios de sacerdotes estabelecidos nestas duas grandes cidades, que eram os depositários de todos os conhecimentos; e só depois de achá-los perfeitamente conformes com os sacerdotes de Mênfis acreditou-se autorizado a dar os resultados de seus encontros.

A viagem que Heródoto fez a Tiro nos oferece outro exemplo não menos patente da exatidão de suas pesquisas. Soubera no Egito que Hércules era um dos doze deuses nascidos dos oito mais antigos, e que estes doze deuses tinham reinado no Egito 17.0 anos antes do reino de Amasis. Tal assertiva seria bem capaz de confundir todas as idéias de um Grego que não conhecesse outro Hércules que o de sua nação, cujo nascimento não datava senão do ano 1.384 antes de nossa era, como o provei em meu Essai de chronologie, capítulo XIII. Como esta assertiva estava abalizada pelos livros sagrados e pelo testemunho unânime dos sacerdotes, ele não podia ou não ousava contestá-la. Entretanto, como queria conseguir a propósito uma certeza maior, se fosse possível, foi a Tiro para ver aí um templo de Hércules que se dizia ser muito antigo. Contaram-lhe nesta cidade que este templo fora erigido há 2.300 anos. Viu também em Tiro um templo de Hércules sobrenomeado Tasiano. A curiosidade o levou a Thasos, onde encontrou um templo deste deus, construído pelos Fenícios que, correndo os mares sob o pretexto de procurar Europa, fundaram uma colônia nesta ilha, cinco gerações antes do nascimento do filho de Alcmene. Ficou então convencido que o Hércules egípcio erá muito diferente do filho de Anfitrião; e ficou tão persuadido que o primeiro era um deus e o outro um herói, que diz lhe parecerem agir sabiamente os Gregos que ofereciam a um Hércules, que chamavam de Olímpico, sacrifícios como a um imortal, e que faziam ao outro oferendas como a um herói.

Suas excursões na Líbia e na Cirenaica precedem a viagem a Tiro. A descrição exata da Líbia, desde as fronteiras do Egito até o promontório Soloeis, hoje cabo Spartel, conforma-se em tudo ao que nos dizem os viajantes mais estimados, e o doutor Shaw em particular, não permitindo dúvida de que tenha visto este país por si mesmo. Somos ainda tentados a crer que tenha estado em Cartago; seus encontros com um grande número de cartaginenses autorizam esta opinião. Ele voltou sem dúvida pela mesma rota ao Egito, e daí enfim passou a Tiro, como já disse.

Após alguma estada nesta soberba cidade, visitou a

Palestina, onde viu as colônias que Sesostris aí tinha feito edificar; e sobre estas colônias salientou o emblema que caracterizava a lassidão de seus habitantes. Daí foi à Babilônia, que era então a cidade mais magnífica e a mais opulenta que existia no mundo. Sei que muitas pessoas esclarecidas, e des Vignoles entre outras, duvidam que Heródoto tenha viajado à Assíria. Não posso responder melhor a este respeitável sábio que me servindo dos próprios termos de um outro sábio que não o é menos do que aquele, isto é, o presidente Boudhier. Eis como ele se exprime: “Embora as passagens de Heródoto que fizeram muitos crerem que ele tenha realmente estado na Babilônia não sejam muito claras, é quase impossível duvidar que ele não a tenha visto, se nos dermos ao trabalho de examinar a descrição exata que faz nestas passagens de todas as singularidades desta grande cidade e de seus habitantes. Só mesmo um testemunho ocular poderia falar com tanta precisão sobretudo em um tempo em que nenhum outro grego havia escrito a respeito. E mais, atente-se à maneira pela qual fala de uma estátua de ouro maciço de Júpiter Belus, que estava na Babilônia, e que tinha doze côvados de altura. Ao se dizer que ele não a viu, porque o rei Xerxes a havia feito transportar, não é insinuar tacitamente que ele teria visto todas as outras coisas que disse ter visto nesta grande cidade? É forçoso também reconhecer por diversas outras passagens de sua obra, que ele tinha conferenciado nestes lugares com Babilônios e Persas sobre o que dizia respeito a sua religião e sua história. Além do mais, não é admissível que um homem que tinha percorrido tantos países diferentes para se instruir de tudo o que pudesse lhes concernir, tivesse negligenciado de ir ver uma cidade que passava por ser então a mais bela do mundo, e onde poderia recolher as memórias mais seguras para a história que preparava da alta Ásia, sobretudo tendo estado tão perto dela.“

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