Historias da Educação em Classe Hospitalar

Historias da Educação em Classe Hospitalar

HISTÓRIAS DA EDUCAÇÃO

Classes hospitalares: educação na dose certaPara recuperar a saúde e as aulas perdidas, crianças internadas podem e devem freqüentar a escola dentro dos hospitais

Tatiana Achcar

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação determina que o poder público ofereça formas alternativas de escolarização aos alunos com necessidades especiais. Entre eles estão as crianças hospitalizadas e, portanto, impedidas de freqüentar a escola regular. Existe quase uma centena de classes hospitalares espalhadas por vários estados do país, que oferecem a esses alunos a possibilidade de manter o curso normal da vida escolar. O funcionamento dessas classes segue estratégias e orientações da Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação.

É uma realidade difícil, com muitos altos e baixos. Há crianças cujo período de internação, ainda que longo, um dia termina com a alta. Em outros casos, porém, o final não é feliz. Conviver com esses meninos e meninas – e ensiná-los – exige, além do preparo didático e pedagógico, uma sólida estrutura psicológica, muito jogo de cintura e força de vontade. A seguir, você vai ler histórias de algumas dessas classes hospitalares. São exemplos que têm muito a ensinar.

Viver o presenteRosane Martins dos Santos dá aula na classe hospitalar do Instituto Nacional de Câncer, no Rio de Janeiro. Lidar com uma doença grave é sempre bastante doloroso. Por isso, Rosane se agarra ao presente e ao valor que ela representa para os pequenos pacientes. "É como se disséssemos para ele ‘você não vai morrer, estou aqui te ensinando’. A criança se sente produtiva, como um ser em desenvolvimento", conta.

Todo dia é um novo dia. Ao entrar no hospital, Rosane verifica quem chegou, quem saiu, quem faltou à aula e por quê. "Normalmente, quem não quer ir é porque nunca foi. Então, levo esse aluno para conhecer o espaço ou mostro as atividades no leito". Curiosamente, a resistência maior é das mães. "Elas acham que a aula será um esforço a mais para a criança e que precisam poupá-la". Felizmente, acabam se rendendo e se surpreendem ao ver o trabalho do filho exposto no mural. "As mães descobrem que a capacidade de estudar e aprender não desaparece por causa da doença. No final, chegam até a mudar o horário dos exames para não coincidir com a aula".

O conteúdo ensinado na classe hospitalar segue o da escola regular – mas Rosane dá a ele outro tom, sempre que possível recorrendo a atividades lúdicas e preocupando-se mas com o desenvolvimento de habilidades. O material ajuda. Não faltam cores nos livros e nos brinquedos didáticos para deixar tudo mais atrativo. Os mesmos temas são trabalhados com todos os alunos, da Educação Infantil à 4ª série, mas as atividades são adequadas a cada idade. "Fazer trabalhos sobre datas comemorativas, assistir a filmes e ler e ouvir histórias de livros são as prediletas. Como não se sabe se todos estarão presentes na aula seguinte, as atividades têm que começar e terminar no mesmo dia.

Esse futuro sempre incerto não desanima Rosane. "Quando a criança fica mal e precisa se afastar da escola, vou ao leito, mudo a atividade, conto história, cantamos músicas juntas, trabalhamos o ritmo, a voz. Quando ela está se despedindo da vida, faço que perceba que eu estou lá, que ela ainda é minha aluna".

Leito a leitoNo Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, é a escola que vai ao aluno. O atendimento é feito leito a leito. Isso acontece porque as doenças infecto-contagiosas impõem isolamento à criança. Para segurança de todos, os professores dão aula de luvas, máscara e avental descartáveis e estão em dia com as vacinas necessárias. Quando ficam mais fortalecidas, as crianças podem assistir a filmes e brincar com os amigos na brinquedoteca do hospital.

O trabalho educacional, como em outras classes hospitalares, é fundamental para estimular o retorno à escola original, diminuir o tempo de internação e o estresse e ajudar na recuperação das crianças. No entanto, há um agravante. "Algumas abandonam a escola por medo de sofrer preconceito e por terem dificuldade de aprender quando ficam debilitadas", explica Mariza de Freitas Pierdoná, professora de Ciências e Matemática que atende alunos da 5ª série do Ensino Fundamental a 3ª série do Ensino Médio.

No caso de pacientes com aids a realidade é ainda mais difícil, pois muitos acabam órfãos. "São alunos muito solitários, vivem em casas de apoio ou são criados pelos avós. Quando o professor chega, começa a fazer parte da vida deles como um parente. Eles nos esperam todos os dias com muita ansiedade", conta Mariza. Para cativá-los, a professora aprendeu que não pode se apresentar como alguém que está ali só para dar aula. "Tem que conversar bastante, ler histórias, propor jogos e desenhos e nunca forçar a participação. Assim a aula fica mais atrativa e leve".

No Emílio Ribas, os professores trabalham com projetos mensais temáticos, mas sempre se preocupando em desenvolver habilidades específicas de cada um. "Tive um aluno de 18 anos que não sabia tabuada e tinha muita vontade de aprender. Ele ficou radiante quando focamos o trabalho nesse ponto".

Outro projeto realizado no hospital, sobre alimentação e saúde, abordou o dia-a-dia das crianças: os meios de transmissão das doenças, como evitá-las, cuidados de higiene com o corpo, com a casa e com os alimentos. "Procuramos abordar os temas sempre de maneira interdisciplinar e de acordo com o nível de conhecimento de cada um", explica Mariza.

Como a freqüência é muito flutuante, não dá para centrar esforços somente no conteúdo. "Eles têm muita dificuldade de concentração, memorização e raciocínio. Por isso, trabalhamos muito com jogos e atividades práticas. Desenho, caça-palavra, quebra-cabeça, dobradura e tangran desenvolvem o raciocínio e são atividades que atraem e prendem a atenção", conta Mariza.

Ao professor da classe hospitalar, como se percebe, não pode faltar flexibilidade: os alunos pioram e melhoram, vêm e vão. A emoção bate forte, para o bem e para o mal. "Conviver com crianças em fase terminal não é fácil, a gente acaba se envolvendo muito. Mas o trabalho é gratificante pois me sinto útil ajudando crianças que têm uma vontade imensa de aprender e vejo que a recuperação melhora depois da aula", conta a professora Mariza.

Um vitória para todosDesde 2000, a Escola Estadual Prof. Aimar Batista Prado, mantém uma classe hospitalar no Hospital da Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP, com três salas nos setores pediátricos. A da ortopedia passa por reforma, vai ganhar uma porta de correr para facilitar a entrada de alunos que estão na maca. "É uma conquista", comemora Silvana Marinielo, assistente social e coordenadora do trabalho.

Silvana deu o primeiro passo rumo à educação de pacientes hospitalizados em 1971. "Havia muito adulto internado que não sabia assinar o nome. Procurei uma estagiária de pedagogia e começamos a alfabetizar com o programa Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral).

Com as crianças, o trabalho é diferente. "Elas precisam de vínculo, pois quando são internadas, se separam de tudo. Por isso, tentamos ao máximo evitar o rodízio de professores", conta Silvana. Trazer as coisas da rotina normal para dentro do hospital ameniza muito a internação. "Todos os dias, as crianças tomam café, tomam banho, tiram o pijama e vestem sua roupa pessoal para ir à sala de aula ou à Biblioteca Viva, um espaço de leitura e de muita contação de histórias. É a sua hora saudável", diz Silvana.

O trabalho pedagógico nos hospitais mexeu positivamente com todo mundo. "Abriu a cabeça da equipe de enfermagem e dos médicos. Hoje, eles perguntam com que mão a criança escreve e então aplicam soro no outro braço", conta Silvana. "Isso é uma vitória, valoriza o trabalho social, pedagógico e humaniza o hospital".

Alegria é fundamentalCentro de saúde de ponta, o Hospital de Base do Distrito Federal recebe crianças e jovens de 0 a 18 anos de diversas regiões do Brasil que já passaram por tantos outros hospitais sem encontrar solução para seus problemas. São pacientes afetados por doenças crônicas, câncer ou que fizeram transplante de órgãos, que exigem muito tempo de internação. Nesses casos, é possível até fazer um planejamento mais longo para o desenvolvimento escolar da criança. "Mantemos contato estreito com a escola de origem das crianças do Distrito Federal, seguimos o conteúdo, usamos o mesmo material didático, enviamos relatórios freqüentes e aplicamos provas. É um complemento do que a criança já estava aprendendo", explica Esmeralda Frânio, professora do ciclo 1 do Ensino Fundamental, há 10 anos em classes hospitalares.

A comunicação com os professores de origem é importante para saber a situação da criança. "Muitas vezes, os pais não sabem contar o que se passa, então fazemos esse intercâmbio", diz Esmeralda. O contato regular com a escola de pacientes de outros estados é mais difícil. Mesmo assim, quando os alunos recebem alta, é feita a avaliação e os resultados são encaminhados à escola regular.

Alegria é fundamental. "Não acredito em aula sem brinquedo, muito menos no hospital, onde o remédio é sempre a prioridade", diz Esmeralda. A professora comemora a sala linda e bem equipada que o Hospital de Base ganhou de uma multinacional francesa. Computadores, videocassetes, brinquedos, lápis de cor e móveis coloridos deixam o dia-a-dia mais animado e agradável. "As crianças vão sozinhas para a classe, às vezes acompanhadas das mães, que por vezes se alfabetizam conosco", explica. Segundo Esmeralda, é importante combinar atividade com brincadeira. O quebra-cabeça estimula o raciocínio lógico e facilita o raciocínio matemático; o jogo da memória trabalha o texto.

O planejamento é feito toda semana e se baseia na condição física e emocional das crianças. "É preciso ser flexível", confirma a professora. As diferenças sociais e a saúde entram no currículo: as crianças contam sobre onde moram, sobre a doença que têm, o que sabem dela e as dificuldades que enfrentam. "O atendimento é mais individualizado, afinal cada um tem uma dificuldade e uma característica social. Nós precisamos nos adaptar também à linguagem e ao vocabulário de cada região", conta Esmeralda.

Durante as quatro horas de aula, a professora dá tudo para que o aproveitamento da criança seja bom. "Elas responde ao máximo que agüentam". A batalha é também para que os professores de origem entendam e considerem a doença. "Peço para eles convidarem os alunos para uma visita ao hospital, para escreverem cartas. É importante promover o encontro para mostrar ao paciente que ele está ali por uma necessidade e precisa se curar seguir a vida", conta Esmeralda.

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