Enfermagem e a Gestão Ambiental

Enfermagem e a Gestão Ambiental

Reflexões sobre a participação da enfermagem em questões ecológicas.

Maria Celeste Soares Ribeiro e Maria Rita Bertolozzi

Introdução

Dado que enfermagem é responsável pela maior parte da prestação da assistência no Brasil, foi realizada revisando na literatura de enfermagem para verificar como a temática ambiental tem se colocado em seu âmbito de práticas.

A questão ambiental: Aspectos históricos e culturais.

  • O ecologismo surgiu em 1968, nos Estados Unidos e na Europa. Acreditavam que o meio ambiente está diretamente relacionado com a organização da sociedade e a forma que o homem se organiza na natureza.

  • A literatura aponta o I Congresso Internacional para a proteção da natureza como certidão de nascimento do ecologismo, em 1923.

  • Deste I Congresso Internacional ocorreu a instalação da agência internacional para a proteção da natureza, Bruxelas.

  • Em 1948 a UNESCO e (UICN) publicou estudos sobre a proteção da natureza.

  • Em 1968 a ONU começou a falar sobre problemas ambientais.

  • Em 1972 a proposta “crescimento zero” buscava evitar uma catástrofe ambiental mundial. Buscava interromper o crescimento de determinados países e assim parar a degradação ambiental.

  • Em 1983 foi criada a Comissão Mundial das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e desenvolvimento (CMAD), tinha o objetivo de estudar a situação de degradação ambiental e propor soluções.

  • Criação do conceito de desenvolvimento sustentável em 1983 (CMAD) que é uma modalidade de desenvolvimento sem degradação do meio ambiente.

  • Desenvolvimento dos meios de comunicação mundializou a preocupação dos problemas ambientais.

  • Para Viola, a busca por qualidade devida por parte das “camadas mais educadas” fez com que mundializasse o movimento ambientalista.

  • A partir da década de 80, os riscos ambientais globais foram mais percebidos como alterantes da qualidade de vida.

  • Brasil, primeira associação (AGAPAN), Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, que tinha como prioridade a luta contra os agrotóxicos.

  • Movimentos ecológicos brasileiros foram diversos. Esses movimentos foram originados no interior do próprio estado através da criação de instituições para gerir o meio ambiente. De inicio esses movimentos referiam-se apenas as questões que se restringiam ao ambiente físico unindo temas como degradação ambiental e a ausência de políticas públicas na área, tendo como exemplo deste último, Chico Mendes.

  • A realização da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD) ECO-92, Rio de Janeiro, que teve como um dos resultados a elaboração de documento denominado Agenda 21, que é um programa de ação ainda que sob o formato de recomendações, para ser colocado em prática pelos 172 países signatários. Essa conferência destacou as repercussões gerais da deterioração continua do meio ambiente e suas conseqüências para a saúde da população mundial, particularmente nos grandes centros urbanos.

  • Na constituição brasileira de 1988, fica claro quanto a esfera de responsabilidade relativa a conservação do meio ambiente “do poder público e da coletividade”. No que se refere ao Sistema Único de Saúde encontrava-se como suas atribuições “colaborar na proteção do meio ambiente”.

Diferentes concepções sobre a questão ambiental

  • Diegues aponta algumas distinções entre o que denomina como “escolas do pensamento ecológico”. Essas diferentes interpretações constituem as bases sobre as quais operam os movimentos em defesa do meio ambiente. Destaca-se:

A ecologia profunda => Tem como princípio os “... valores intrínsecos da vida humana e não humana”, sendo incompatíveis o crescimento da população com a ida não humana.

A ecologia social => Os seres humanos são consideradas “... não como uma espécie diferenciada (...) mas constituída de grupos diferentes como: pobres e ricos; brancos e negros”.

O eco-socialismo/marxismo => Acreditava0se que, o “homem produz o meio que o cerca e é ao mesmo tempo seu produto” (...); a natureza é parte de nossa história (...) é sempre histórica; a coletividade é ao mesmo tempo parte e criação da natureza (...); a sociedade é ao mesmo tempo parte e criação da natureza.

  • Segundo Salum, o pensamento ambientalista divide-se em:

Ecologismo fundamentalista (ecologia profunda)

Ecologismo realista (ecologia social)

Ecossocialismo (eco-socialismo/marxismo)

Ecocapitalismo (exerce o papel de guardião ecológico da sociedade)

A enfermagem e a questão ambiental

  • Florence Nightingale, no seu livro “notes on mursing” (1859) apresenta uma série de observações sobre a importância do ambiente adequado a prevenção de enfermidades, ao tratamento de doentes, e ainda em relação á sua recuperação. Destaca a relevância do arejamento e do aquecimento do ar interior, a ausência de ruídos, a iluminação, a higiene do piso, parede mobiliária, roupas e objetos. Em relação a solução dos problemas ambientais.

  • Na mesma linha de raciocínio, Edmondson e Willianson desenvolveram um programa de educação ambiental em conjunto com agências de proteção ao ambiente, para habilitar enfermeiras no trabalho junto a comunidade, em especial junto ás populações expostas a resíduos perigosos, enfatizando a necessidade de enfocar a cidadania nessas ações.

  • Quanto a saúde ocupacional e sua interface com o meio ambiente, alguns autores reportam-se ao trabalho desenvolvido pela Associação dos Enfermeiros em Saúde Ocupacional dos Estados Unidos, na promoção da integração da saúde ambiental na pratica de enfermeiras do trabalho e destacam que os riscos á saúde, decorrentes desses profissionais junto a população para a intensificação dos riscos ambientais.

  • Um outro estudo discute o risco ambiental na perspectiva do risco da inalação de anestésicos em sala cirúrgica pelos trabalhadores desse setor.

  • Outro estudo destaca a poluição do ar em decorrência do uso de desinfetantes pelos profissionais da saúde.

O Conselho Internacional de Enfermeiras – CIE, em 1990 elaborou um documento que ressalta o “papel da enfermagem” na promoção da saúde através da conservação do meio ambiente. Destacam-se essas ações:

  • Contribuir para a conscientização da população sobre os riscos ambientais e as conseqüências dos danos ambientais para a saúde;

  • Promover cursos sobre saúde e meio ambiente;

  • Incentivar a inclusão de questões relativas ao meio ambiente nos cursos de enfermagem;

  • Promover atividades multidisciplinares sobre o meio ambiente aos alunos de enfermagem;

  • Mobilizar a comunidade para que conheça e elimine os riscos relacionados ao uso de contaminantes químicos e para que se utilize de materiais que não contaminem o ambiente.

  • O documento propõe ainda medidas especificas relacionadas a potabilidade da água; a produção de alimentos e a utilização de fontes alternativas de energia como a solar e a eólica.

  • Recomenda também o controle da natalidade e considera atividades relacionadas a segurança dos ambientes de trabalho, propondo que as enfermeiras lutem pelos seus direitos que em geral defendem a identificação de riscos e a realização de pesquisas na área da saúde e segurança no trabalho. Por fim o documento cita as atividades relacionadas ao preparo dos trabalhadores em caso de desastres.

Essas atividades propostas pelo CIE constituem um avanço. Por outro lado não há dúvida que são atividades de caráter focal que não propõem a reflexão sobre as condições político-econômicas.

Paradigmas da questão ambiental:

  • O egocêntrico (O que é melhor para o individuo é o melhor para a sociedade)

  • O homocêntrico (As decisões são tomadas com base no bem comum que é o bem maior para o maior número de pessoas)

  • O ecocentrismo (Considera o ambiente como totalidade, como algo vivo), recomenda-se que as enfermeiras adotem esse paradigma.

Ainda nessa linha de pensamento, a preocupação das enfermeiras com o meio ambiente reflete a substituição do pensamento moderno pelo pós-moderno. Afirma-se que algumas enfermeiras estão efetuando um modo (pós-moderno), pois se preocupam em rever suas práticas e colaborar com a conservação do ambiente e com o futuro da humanidade.

  • Um artigo australiano destaca a enfermagem como uma forma de ir além das soluções positivistas incorporadas tradicionalmente pela enfermagem, orientando as práticas na vertente da práxis ecocêntrica.

  • A literatura nacional evidenciou-se escassa na produção cientifica.

  • No inicio da década de 90 Takayanagui concluiu que: ter consciência ecológica está diretamente ligado a uma postura de preservação e de cuidarmos para com o meio ambiente em que se vive (...), não significa simplesmente mudar o comportamento e sim mudar o modo de pensar e de sentir essas situações, de forma a conviver com o meio físico.

Um outro estudo concluiu que “...a manipulação e disposição adequada de Resíduos Sólidos de Serviços de Saúde (RSS) podem contribuir efetivamente para a melhoria da saúde humana e preservação do meio ambiente”, e recomenda que se realizem treinamentos com todos os profissionais que manipulem esse tipo de resíduo pois a “...ação educativa (...) conscientiza estes profissionais da contribuição de todos para a segurança da saúde pública e ambiental.”

É interessante apontar a tarefa de proceder a revisão bibliográfica sobre a questão ambiental permitiu verificar a grosso modo, que é no meio âmbito da literatura nacional que se apresentam interpretações mais progressistas que evidenciam conceitos mais ampliados sobre o meio ambiente, que vão alem do caráter estritamente físico, e que envolvem a participação da comunidade ou mesmo o como o locus que abriga condições para superar as desigualdades sociais.

No 51º Congresso, em 1999, evidencia-se maior número de trabalhos enfocando o ambiente.

A temática saúde ambiental e ensino de enfermagem foi abordada em um estudo que apresentou um exemplo de inserção da temática na graduação em enfermagem, possibilitando aos alunos o conhecimento da realidade ambiental das populações que residiam na área de abrangência de uma determinada unidade de saúde.

Considerações finais 

A revisão bibliográfica a respeito da questão meio ambiente e enfermagem revelaram de modo geral, que a preocupação das enfermeiras se localiza principalmente em relação à reprodução de resíduos e conseqüente contaminação ambiental e é fato que isto tem resultado em algumas propostas de ação. Alguns destes estudos destacam a necessidade permanente da sensibilização dos profissionais quanto às alterações ambientais, objetivando o desenvolvimento de uma consciência ecológica. Quando a questão relativa ao meio ambiente articulada à saúde ocupacional, verifica-se que a maior parte dos autores preocupa-se com a poluição ambiental, estritamente no que se refere à exposição dos trabalhadores da equipe de enfermagem. Poucos destacam o problema da emissão de (gases) poluentes que atinge a maior parte da população.

Grande parte dos artigos visualizam os problemas ambientais nos seus aspectos locais, não os relacionado aos processos de produção e consumo, fato que pode impedir a percepção do risco à sustentabilidade da vida no planeta. Não custa lembrar que as classes desfavorecidas, além de mais expostas á contaminação e poluição ambiental, possuem menos recursos para a prevenção e recuperação da saúde quando sofrem danos decorrentes das alterações ambientais. Vale lembrar ainda que é no âmbito das classes mais abastadas, que tem acesso ao consumo que se produz a maior quantidade de resíduos e é no interior das grandes empresas que se usufrui desenfreadamente da natureza, exaurindo-a agressivamente no que se refere ao uso dos recursos naturais.

Assim, tratar da questão relativa ao meio ambiente assume uma relevância fundamental na atualidade, principalmente para os trabalhadores de saúde e, dentre eles os que integram a força de trabalho de enfermagem, pois a vida saudável depende de um planeta saudável.

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