Educação e sensibilização no espaco urbano turiSmo em torno do jardim

Educação e sensibilização no espaco urbano turiSmo em torno do jardim

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Educação e sensibilização no espaço urbano: turismo em torno do jardimJaqueline Costa Castilho Moreira e Gisele Maria Schwartz

Caderno Virtual de Turismo ISSN: 1677-6976Vol. 6, N° 4 (2006)

Resumo

Este estudo, de natureza qualitativa, objetivou apontar possibilidades de ressignificação do espaço urbano, utilizando-se as estratégias da arte e do lúdico, para implementação da sensibilização quanto ao turismo local. Desenvolvido através de uma revisão de literatura e uma pesquisa-ação, fomentou-se o projeto "Ribeirão Preto Turístico", composto de uma exposição artística e uma gincana lúdica, sendo aplicado nas escolas da rede oficial de ensino. Os dados analisados descritivamente sugerem que tais estratégias conseguem aprimorar o sentido de apreensão da cidade enquanto potencial turístico, tornando-se primordial uma ação interdisciplinar, no sentido de implementar políticas públicas e a valorização do turismo local.

Palavras-chave: escola, turismo local e lazer.

Abstract

This research, of a qualitative nature aimed to point out the urban space ressignification possibilities, utilizing the art and the recreation to implement sensibility about local tourism. The study was consisted of two phases: a literature review about the thematic and the second one was related to an exploratory research, developed by an action-research, fomenting the project "Ribeirão Preto Turístico". This project consisted of an art exposition, aggregating a competitive game applied in the official schools. Data were descriptively analyzed and suggested that those strategies can implement the sense of apprehension of the city as a touristic potential, being crucial an interdisciplinary action, aiming to implement public politics and amplifying the local tourism.

Keywords: school, local tourism and leisure.

w.ivt-rj.net

Laboratório de Tecnologia e Desenvolvimento Social

Educação e sensibilização no espaço urbano: turismo em torno do jardim

Jaqueline Costa Castilho Moreira (jackycastilho@uol.com) e Gisele Maria Schwartz (schwartz@rc.unesp.br)*

Educação e sensibilização no espaço urbano: turismo em torno do jardimJaqueline Costa Castilho Moreira e Gisele Maria Schwartz

Caderno Virtual de Turismo ISSN: 1677-6976Vol. 6, N° 4 (2006)

Introdução

Este estudo é resultado da reflexão sobre a necessidade de um aprofundamento do olhar e da sensibilidade sobre os aspectos ambientais referentes ao espaço urbano, com suas inúmeras belezas naturais e culturais existentes pelos munícipes. Tomou-se por foco a cidade de Ribeirão Preto (SP), com o intuito da valorização do espaço geográfico urbano, enquanto antropossistema, para o crescimento do turismo local.

Essa valorização pode catalisar novas atitudes relacionadas à descoberta de soluções nos âmbitos político, cultural e econômico, no sentido de viabilizar a melhoria na ocupação, com menor impacto. Isso afeta diretamente a consideração dos aspectos do lazer e do turismo nesse contexto, numa tentativa de salvaguardar a cultura local.

O espaço urbano, freqüentemente, é relegado a planos secundários e, inúmeras vezes, desprestigiado enquanto elemento do lazer e do turismo, em função da massificação cotidiana e do desconhecimento. Essa atitude catalisou a busca por alternativas sobre as possibilidades de ressignificação do turismo local e da valorização do entorno, tendo como instrumentos de sensibilização a arte e o lúdico.

A idéia principal versou sobre a apresentação de uma exposição itinerante de 25 pinturas, que objetivava, através dos quadros, sensibilizar e despertar o interesse do público local pela cidade de residência, focalizando suas belezas, a cultura, a geografia e os lugares interessantes e atraentes. Nessas pinturas foram utilizadas várias técnicas, retratando as paisagens e os casarões da cidade.

Agregados a essas obras foram utilizados os conceitos de Patrimônio Histórico, Patrimônio Natural e Turismo, além dos textos criados pela historiadora Benedita Luiza da Silva e pela bióloga Olga Kotchetkoff

Henriques, como subsídios técnicos para as legendas dos quadros, fotos e mapas, fomentando olhares críticos, para se implementar uma visão da situação atual em que a cidade se encontra, sua urbanização, preservação e condições estruturais e funcionais (das básicas ao lazer), oferecidas aos moradores.

Com esse material foi produzido um multimídia, com o mesmo nome que o projeto, difundido através de CD-ROM, principalmente nas escolas e em órgãos públicos e privados, com o intuito de sensibilizar e aguçar o conhecimento sobre os ambientes da cidade em foco.

Acreditando ser essa estratégia uma excelente forma de estimular o interesse, a descoberta, a apreciação, o conhecimento e a consciência de preservação sobre a cidade, o presente artigo tem por objetivo disseminar os procedimentos utilizados, colaborando no desenvolvimento dessa temática nas escolas, bem como, na contextualização escola-cidadania.

Revisão de literatura: um tour pela cidade

São várias as explicações para a procedência da expressão francesa tour. Alguns autores apontam sua derivação do latim tornus; Kellman e Fernández (1986, p. 60), relembram que sua etimologia faz alusão ao "desplazamiento circular", deslocamento que sempre retorna ao seu ponto de origem, ou ainda mais modernamente, citando Krippendorf (1989, p.19), ao fazer um tour: "... o homem viaja para voltar".

Relegando o ideal aristocrático de

Veblen (1974), que relaciona o tempo livre, a prática de elementos estéticos e formativos, aplicados a uma valorização subjetiva da natureza das viagens a terras estrangeiras, muito comum no Renascimento, filósofos como Miguel de Montaigne (por volta de 1500) e Jam Amos Commenius (em torno de

*Jaqueline Costa Castilho Moreira é Mestranda em Ciências da Motricidade Humana pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho- Instituto de Biociências, UNESP de Rio Claro; Especialista pela UNICAMP em Atividades Motoras Adaptadas, Licenciada Plena em Educação Física pelo Centro Universitário Moura Lacerda de Ribeirão Preto, Bacharel em Comunicação pela Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo, Membro do Laboratório de Estudos do Lazer da UNESP em Rio Claro.Atualmente Professora Efetiva da Rede Estadual de São Paulo. Endereço eletrônico: jackycastilho@uol.com

Gisele Maria Schwartz é Doutora em Psicologia da Educação e do Desenvolvimento Humano, pelo IPUSP. Professora Livre Docente nos cursos de graduação em Educação Física e pósgraduação em Ciências da Motricidade na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Instituto de Biociências, Departamento de Educação Física - UNESP - RIO CLARO, na Linha de Pesquisa: Estados Emocionais e Movimento. Coordenadora do LEL - LABORATÓRIO DE ESTUDOS DO LAZER, do DEF/IB/UNESP - RIO CLARO/SP. Endereço eletrônico: schwartz@rc.unesp.br

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Caderno Virtual de Turismo ISSN: 1677-6976Vol. 6, N° 4 (2006)

1600), referendados em Kellman e Fernández (1986, p. 57 e 58), já vislumbravam que a aprendizagem exclusivamente em livros era limitada, e que era relevante expor o estudante ao contato direto com a realidade, costumes, leis e obras de outros povos. Assim, os autores evidenciam que:

No es posible concebir que exista, em esta época, uma persona bien educada (aristocrata ou burguês) sobre la que van a recaer los destinos de um país o de um grupo determinado, que no haya tenido la experiência de um intercambio cultural directo com diversos pueblos, a través de los viajes. (Kellman e Fernández, 1986, p. 59).

Com intenções pretensamente educativas, o Grand Tour acrescido do sufixo "ismo" e do ancestral desejo humano de fazer novas descobertas e de aprender algo, passa a ser chamado de turismo.

Dessa forma, o turismo, encontrando-se institucionalizado e ampliado, passa a projetar características estereotipadas da própria burguesia de uma época: viagens ostentosas, privilégio de classes, exclusividade, motivação cultural, educativa e artística, descanso, saúde, adequado manejo comercial, além de outras motivações como: prazer, diversão, fuga do ambiente cotidiano, liberdade e recuperação de energias para um novo ciclo de trabalho produtivo.

Envolvendo a produção de um conjunto de relações sociais, de espaços e ambientes naturais ou urbanos e de uma complexa rede de manutenção (hospedarias, tabernas, formas de deslocamento, outros serviços e atividades vinculadas), o Grand Tour, agora turismo, possibilita até os dias atuais, mecanismos de expansão, econômica, política, religiosa ou cultural.

Concorda com essa descrição Betrán (2003), ao afirmar que o turismo representa uma fonte de oportunidades, tanto de fruição e lazer, quanto de campo de trabalho, tornando-se uma indústria bastante promissora, chegando à posição de primeiro setor da economia mundial nos anos 90.

No entanto, Betrán (2003) também aponta que as mudanças políticas, econômicas, culturais e sociais, transformaram, inclusive, a estrutura do dispêndio do tempo livre. Sobre este aspecto, o autor relata as alterações quanto às escolhas dos destinos turísticos, as motivações, bem como, um novo escalonamento do tempo gasto, o qual deixa de abranger um único período longo e anual, para ser distribuído em diversos períodos mais curtos durante o ano.

Corroboram com essas, as evidências anteriormente apontadas por Krippendorf (1989, p.16), ao discorrer sobre a mobilidade nos dias de folga dos habitantes das cidades, constatando que 30% dos sujeitos de seu estudo, na época, usufruíam o tempo livre em excursões ou passeios curtos e 10% em viagens de férias.

As pesquisas de Beni (1997) também apontam um aumento crescente, do que ele chama de segundas férias, caracterizadas por serem mais curtas e com destino mais próximo da cidade de origem.

Disseminado o direito ao lazer no tempo livre, viabilizado estrutural e financeiramente, veiculado pelas mídias como forma de inserção social, o turismo de massa e os excursionismos têm sido estimulados.

Esse turismo para todos, de acesso politicamente correto, infelizmente, em função de seu mau planejamento quanto ao fluxo de visitantes, da inexistência de uma conciliação entre necessidades e interesses entre viajantes e viajados, da desorientação quanto aos investimentos de capitais públicos, do consumismo desenfreado e do uso indiscriminado dos recursos naturais e urbanos dos locais de destino, gera efeitos bastante negativos e destrutivos, em longo

Educação e sensibilização no espaço urbano: turismo em torno do jardimJaqueline Costa Castilho Moreira e Gisele Maria Schwartz

Caderno Virtual de Turismo ISSN: 1677-6976Vol. 6, N° 4 (2006) prazo, tanto no destino turístico a que se pretende, quanto para seus ambientes físicos e sociais.

Porém, esse quadro pessimista, pode ser revertido, na medida em que a população do destino seja sensibilizada para a necessidade de atitudes conservacionistas e passe a se comprometer com a valorização e preservação da local e de seu ambiente geográfico específico. Deve-se considerar o turismo para além da perspectiva de deslocamento e exploração de espaços distantes, ou ainda como fuga do cotidiano, uma vez que a oportunidade de conhecer a cidade onde se vive, pode proporcionar uma satisfação real, por conciliar, sob uma nova perspectiva, a necessidade de experiências significativas e a possibilidade de intervenção nos âmbitos social e, até mesmo, político, fomentando a superação da viagem como único momento de manifestação turística, como relata Serrano (1997).

"Ficar em casa de vez em quando", conforme salientava Krippendorf (1989, p. 216) significa ter oportunidade de desfrutar as inúmeras instalações e serviços da indústria do turismo existentes na própria cidade, ou reavaliar as políticas de cultura, dos eventos, shows, áreas públicas de lazer, das quais, como munícipes, nem sempre se tem clareza ou se está informado. Essa pode se tornar uma opção bastante interessante, especialmente se, aliado a esses passeios curtos, houver a conscientização sobre novas possibilidades de compreensão sobre a importância do lazer, do usufruto saudável do tempo livre, da disseminação das idéias preservacionistas, da riqueza do turismo local e de reflexões nesses vários âmbitos, relacionados com o contexto municipal.

A ampliação da geopolítica do corpo que sente e vive seu entorno é fundamentada na perspectiva do reconhecimento das dimensões socioespaciais da urbanização, diretamente relacionadas ao consumo turístico do ambiente e das experiências de reapropriação sensível do espaço, causando possíveis transformações, inclusive no modus vivendi de uma população, expressas nas representações sobre urbanização e cultura, observados por Lopes Júnior (1997).

A polissemia de oportunidades referentes às opções de se apreender o entorno é diretamente proporcional às possibilidades e às iniciativas individuais e grupais de se inscrever os espaços locacionais nos eventos pedagógicos, uma vez que já está comprovada a riqueza territorial brasileira e a dinâmica de suas paisagens. Tal fato torna-se desafiador, a mobilização de ações efetivas, no sentido da oferta de opções que viabilizem a ênfase no crescimento de núcleos de pequeno ou médio porte, muitas vezes, ainda estagnados economicamente, mas, com potenciais de características geomorfológicas e climáticas favoráveis à destinação turística.

Esse movimento de refuncionalização do espaço, aos olhos de Mascarenhas de Jesus (2003), requer, tanto do geógrafo, quanto de outros profissionais, um olhar atento, no sentido de favorecer a dinâmica de formação de novos destinos, para além dos modismos ditados pela mídia, especialmente, vislumbrando-se a oportunidade de promoção do entorno.

Estas ações, como evidencia Santos (1996), expressam uma faceta da sociedade contemporânea, merecendo um olhar mais aguçado. Porém, algumas inquietações se fazem presentes, como a que diz respeito a quais processos permitem que acidentes geográficos ou locais históricos recebam novos significados ou novos usos, que vão além da contemplação cênica, aos olhos de um cidadão, incrementando o turismo local?

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