Arquitetura, urbanismo e psicologia ambiental

Arquitetura, urbanismo e psicologia ambiental

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Sheila Walbe Ornstein1 Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - USP

Este texto apresenta os aspectos que mais induzem a uma colaboração - e a seus resultados positivos - de características interdisciplinares, envolvendo áreas do conhecimento como Arquitetura, Urbanismo e Psicologia Ambiental. Aponta para colaborações já existentes, analisando, em especial a questão da metodologia. Discute, finalmente, as possibilidades de intervenção ambiental fundamentada na interdisciplinaridade, apresentando sugestões quanto ao modo de uma ação integrada entre as diversas áreas e disciplinas.

Descritores: Psicologia ambiental. Arquitetura. Urbanismo. Pesquisa interdisciplinar.

ste texto pretende apresentar os aspectos que mais induzem a uma colaboração - e a resultados positivos - de características interdisciplinares, envolvendo áreas do conhecimento como Arquitetura, Urbanismo e a Psicologia Ambiental.

De um modo abrangente, tanto as questões metodológicas na Psicologia Ambiental como a implícita ótica da interdisciplinaridade, têm sido a-

1 Arquiteta e urbanista, Professora e ex-vice diretora (1998-2002) da Faculdade de

Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Especialista em avaliação pós-ocupação e coordenadora das áreas de ensino e de pesquisa em Avalação Pós- Ocupação do ambiente construído e do Núcleo de Pesquisa em tecnologia da Ar- quitetura e Urbanismo-USP. Endereço eletrônico: sheilawo@usp.br

Sheila Walbe Ornstein bordadas por diversos autores, principalmente psicólogos ambientais, arquitetos e outros. Recentemente Del Rio, Duarte e Rheingantz (2002) e Tassara (2001) coordenaram obras importantes no sentido da reunião de autores nacionais e internacionais, de formações científico-profissionais distintas e que vem oferecendo instigantes contribuições para o pensamento e as soluções da imbricada questão ambiental. Mais especificamente, Muir e Rance (1995) trataram do tema do projeto participativo incluindo aspectos da equipe interdisciplinar e da participação da população-alvo no processo de proje- to. A Avaliação Pós Ocupação2 (APO) também tem se prestado a diagnósti- cos e a proposições oriundos de conhecimentos interdisciplinares em função da natureza da pesquisa aplicada de que trata.

A APO, nos países mais desenvolvidos, é assim considerada uma atividade interdisciplinar dirigida, enquanto resultado, à intervenções e melhorias do ambiente construído sendo, nesses países, a coordenação de equipe feita ora por arquitetos e/ou urbanistas e/ou designers ora por psicólogos ambientais. No entanto, conceitualmente, a transdisciplinaridade, mesmo nestes países desenvolvidos, é muito pouco praticada ou implementada. No caso do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa, Portugal, pode-se concluir que muitas das ações do Núcleo de Arquitetura e Urbanismo (NAU) combinadas com aquelas do Núcleo de Ecologia Social (NESO) enquanto processo e implementação de resultados, são transdisciplinares (Cabrita, Freitas, Coelho, Menezes, Pedro, 1998) quando tratam de renovações urbanas e/ou empreendimentos habitacionais a custos controlados (de interesse social) e da satisfação de moradores. Porém, mesmo no caso do LNEC, de atuação coesa e homogênea, a interdisciplinaridade NAU – NESO é a que de fato mais ocorre.

2 Conjunto de métodos e técnicas aplicado ao ambiente em uso, o qual afere o desempenho físico deste ambiente, do ponto de vista de especialistas, e também mede os níveis de satisfação dos usuários, correlacionando estes dois levantamentos e a- nálises - dos especialistas e a opinião dos usuários - num diagnóstico comum de acertos e falhas (Evans McCoy, 1998). Este serve de insumos para alimentar programas de manutenção, uso e operação dos próprios estudos de caso e diretrizes para futuros projetos semelhantes.

Arquitetura, Urbanismo e Psicologia Ambiental: uma Reflexão Sobre Dilemas...

Mais especificamente, as questões metodológicas na Psicologia Ambiental são discutidas nas respostas, a seguir.

Questões metodológicas na Psicologia Ambiental

Com base nas pesquisas desenvolvidas nas últimas décadas não se pode dizer que existe uma especificidade metodológica na Psicologia Ambiental no que diz respeito aos estudos das biunívocas Relações Ambiente Construído - Comportamento Humano (as RACs) e, sim, uma especificidade conceitual e teórica com relação aos demais campos do conhecimento no contexto das ciências sociais aplicadas aos sistemas ambientais.

Constatam-se várias semelhanças metodológicas entre autores– pesquisadores no campo das RACs, com formações distintas, tais como arquitetos, psicólogos e geógrafos, mas com pós-graduação no campo das RACs.

Marcus e Francis (1990), Sanoff (1991) e Zeisel (1995) abordam para distintos estudos de caso (por exemplo, praças, parques e/ou equipamentos escolares dentre outros, que abrigam e atendem diferentes usuários), métodos científicos e ferramentas para levantamentos, análise de dados e apresentação de resultados, usuais nas ciências sociais como as entrevistas, os questionários, as escalas de valor, a questão da amostragem e as diferentes categorias de usuários.

Mais dirigido do ponto de vista didático, ao público-arquitetos enquanto profissionais em busca de fundamentação científica para a tomada de decisões quanto a alternativas de projeto, mas seguindo abordagens e etapas metodológicas muito semelhantes - tem-se as pesquisas aplicadas em APO, tais como o trabalho de Preiser no Federal Facilities Council (2001); Romero e Ornstein (2003) e Sanoff (2001). Todos estes autores, tais como nas Ciências da Saúde, Humanas e Sociais em geral, perseguem tomadas de decisões a partir de procedimentos metodológicos rigorosos, buscando sempre o caminho mais interessante para cada objetivo/meta a ser alcançada, a

Sheila Walbe Ornstein saber: uma abordagem mais quantitativa? Uma abordagem mais qualitativa? Estatística paramétrica? Estatística não paramétrica?

Neste sentido, percebe-se muita semelhança entre estes autores com formação em RACs e outros com intenções exclusivamente metodológicas e genéricas tais como André (1986), Babbie (1999), Lüdke (1986) e Pereira (2001), o que é necessário reiterar, não reduz a especificidade teórica e conceitual da Psicologia Ambiental mesmo quando integrada a um processo interdisciplinar de pesquisa cujos resultados se voltam nitidamente à (re)valorização ou à (re)construção ou ainda à (re)novação ambiental urbana.

Pode-se dizer, no entanto, que devido à forte demanda de síntese enquanto resultado final, os métodos de pesquisa direcionados explicitamente para a arquitetura e/ou urbanismo e design, mesmo quando subsidiados fortemente pela Psicologia Ambiental e, portanto, pelos estudos das RACs (Sanoff, 1991; Zeisel, 1995), apresentam também especificidades metodológicas devido à utilização intensiva da representação gráfica para demonstração de projetos (ou desígnios) ou mesmo de elementos visuais para demonstração de síntese de levantamentos realizados e/ou de ante-projetos alternativos. E este procedimento metodológico mais específico é observado no desenvolvimento de projetos em quaisquer escalas: da região passando pelo urbano, pelo bairro, pela quadra, pela vizinhança, pelos ambientes exteriores de um edifício, pelo edifício, por um pavimento tipo até o mobiliário (Groat & Wang, 2002; Jong & Voordt, 2002).

A interdisciplinaridade e as possibilidades de intervenção ambiental

A Psicologia Ambiental, conforme já citado anteriormente, tem relações metodológicas e científicas estreitas e inúmeras interfaces conceituais nítidas com a Sociologia (por exemplo, do trabalho) e com a Antropologia e a Geografia Urbana.

Existem também relações estreitas evidentes com a Arquitetura e Urbanismo e o design - especialmente nas etapas profissionais do processo de

Arquitetura, Urbanismo e Psicologia Ambiental: uma Reflexão Sobre Dilemas...

produção do ambiente construído voltadas ao planejamento, à programação de necessidades e à formulação de alternativas de estudos preliminares e de ante-projetos, etapas em que o homem - usuário é o centro do ambiente “em fase de concepção” ou seja, um dos focos do problema a ser resolvido, enquanto necessidades e níveis de satisfação a serem atendidas.

Neste sentido, a maioria das escolas de Arquitetura e de Urbanismo de elevado nível no exterior (por exemplo, nos EUA, os denominados colleges of environmental design e as escolas - agora já na União Européia - como a Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, Portugal ou a Faculdade de Arquitetura da Universidade de Tecnologia de Delft, Holanda, dentre outras) têm disciplinas básicas no campo das Ciências Sociais (embora não necessariamente em Psicologia Ambiental, o que ocorre mais ao nível de pós-graduação, em mestrados e doutorados, de características interdisciplinares, no campo das RACs).

Também, no país, a maioria das escolas de arquitetura e urbanismo do sistema público de ensino tem disciplinas de graduação e de pós-graduação (tal como no caso da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo) voltadas aos fundamentos sociais, algumas delas com características (inter) e (trans) disciplinares alimentadoras especialmente de proposições e intervenções em áreas de renovação urbana e de implementação da habitação de interesse social.

As (inter) relações entre as ciências sociais de um modo geral e a arquitetura, o urbanismo e o design, embora reconhecidamente necessárias, não têm sido fáceis.

As ciências sociais buscam um processo de análise a partir de métodos científicos, cujos resultados nem sempre resultam em eficácia imediata. Tal processo pode também ocorrer na pesquisa em arquitetura, no urbanismo e no design, mas no ensino (profissionalizante) e na prática profissional há que se atingir, como meta, num processo de síntese ambientes e objetos construídos. Na Arquitetura, no Urbanismo e no design, em algumas situações - e provavelmente de modo equivocado - destaca-se de um lado, o método científico e, de outro lado, a via rápida, visando encurtar etapas do pro-

Sheila Walbe Ornstein cesso para se chegar ao produto utilizando-se para isto, apenas algumas técnicas e ferramentas. Talvez esta situação - muito comum em países em desenvolvimento como o nosso - ocorra devido a exigências do cliente e à pouca compreensão que a sociedade tem do papel do projetista, do profissional de arquitetura e do urbanismo e por conseguinte, de um projeto incompleto e seu desempenho negativo no ambiente construído no decorrer do uso3 em termos de seu impacto na saúde física e mental de seus usuários

(Evans & Mc Coy, 1998).

Quando se consegue romper ou minimizar estas diferenças de procedimentos entre ciências sociais e a arquitetura, o urbanismo e o design num processo comum de atividades interdisciplinares, o impacto no desenvolvimento de projetos ambientais mais conseqüentes em termos da intervenção física, do ponto de vista da sustentabilidade e do homem a quem se destina, é visivelmente positivo. A avaliação de desempenho do ambiente construído em geral (por exemplo, voltada à formulação de roteiros - checklists de avaliação física, Brandão, 2003) e a APO em específico, têm buscado este tipo de interrelação (Abiko & Ornstein, 2002; Marcus & Francis, 1990; Ramos, 2003) dentre outras áreas do conhecimento.

É também pertinente mencionar entre as disciplinas que podem fortalecer estas relações - ainda que pesem algumas restrições sobre elas tal como a ênfase em preferências apontada por Romice - o marketing (relacionado à economia enquanto campo do conhecimento) devido à ampla experiência em termos metodológicos e empíricos nos procedimentos continuados de avaliação para gestão e controle de qualidade. (Mattar, 2000; Salomon, 2002; Departamento de Engenharia de Materiais e Construção Civil da Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais, 2003).

3 Em termos dos aspectos funcionais, do conforto ambiental, do consumo de energia, das patologias construtivas, gerando sobrecustos na sua manutenção e operação.

Arquitetura, Urbanismo e Psicologia Ambiental: uma Reflexão Sobre Dilemas...

Conclusões

Neste esforço de se responder às três questões anteriores, chega-se a algumas conclusões e questões adicionais para o futuro, as quais podem ser caracterizadas como reflexões sobre o tema:

· As relações interdisciplinares Arquitetura - Urbanismo - Psicologia (ambiental) existem como princípio, pois estas áreas do conhecimento partem das relações - ambiente (construído) - habitante e seu comportamento.

• A problematização, as análises, os diagnósticos, a definição de soluções e a implementação de diferentes intervenções, abrangendo o homem e seu habitat, seriam mais adequadamente abordadas se houvesse uma atuação de equipe (inter) ou (trans) disciplinar, sendo que os níveis de abordagem dependeriam da escala do problema, dos objetivos a serem alcançados e do nível pretendido para a solução e seu impacto ambiental. Por exemplo: na formulação de políticas ambientais; em intervenções ou renovações urbanas na escala do bairro; no desenvolvimento de projetos habitacionais de interesse social; no desenvolvimento de projetos de parques e praças; em diagnósticos de riscos ambientais com demandas de remanejamento de moradores e assim por diante.

• O trabalho integrado em equipes (inter) ou (trans) disciplinares deveria ser simulado e fomentado nos exercícios de prática profissional e de projeto de modo explícito, nas escolas de Arquitetura e Urbanismo do país, como mecanismo contemporâneo relevante de gestão da qualidade no projeto.

• No campo da interdisciplinaridade, tanto nos cursos de graduação e de pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo, como na prática profissional no país, já existe tradição na colaboração de arquitetos e urbanistas com sociólogos, antropólogos, geógrafos e historiadores, mas ainda não há - apesar da existência de alguma atuação isolada de docentes e pesquisadores conhecedores, por exemplo, das

Sheila Walbe Ornstein atividades da EDRA - Environmental Design Research Association e da IAPS - International Association for People-Environment Studies - colaboradores regulares (no ensino e na pesquisa e muito menos na prática profissional) entre arquitetos, urbanistas e psicólogos ambientais. Aparentemente, parcela dos trabalhos profissionais (macro) ambientais que poderiam ser conduzidos com a colaboração de psicólogos ambientais - devido a um número ainda reduzido destes especialistas no país, e também devido ao fato possível de arquitetos e urbanistas não conhecerem esta especialidade - são formulados por outros especialistas no campo das ciências sociais e humanas. Até mesmo nos casos em que a abordagem é mais comportamental ou seja, no campo das RACs - o tema é tratado muitos mais por arquitetos/urbanistas pesquisadores sobre o assunto.

A APO (Roméro & Ornstein, 2003) do ambiente construído, cujas atividades de ensino (graduação, pós-graduação), de pesquisa e de extensão universitária são realizados há vários anos na FAUUSP e em outras escolas de Arquitetura e Urbanismo do país, pode colaborar no incremento da prática regular das atuações (inter) e/ou (trans) disciplinares mencionadas anteriormente, voltadas à gestão da qualidade do processo de projeto (Lara & Marques, 2003; Silva & Souza, 2003) no ambiente construído, no qual o homem usuário deve ser atendido em suas necessidades, em um ambiente concebido segundo princípios da sustentabilidade.

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