Ensaio de Transplante no Parque Botânico

Ensaio de Transplante no Parque Botânico

Ensaio de Transplantes no Parque Botânico Arbutus do Demo (Vila Nova de Paiva)

1Santos, Vasco, 2Viana, H.; 2Fernandes, J. M.; 2Barracosa, P. 1 Município de Vila Nova de Paiva, Campo da Restauração, Vila Nova de Paiva, Portugal. 2 Escola Superior Agrária de Viseu, Instituto Politécnico de Viseu, 3500-606 Viseu, Portugal.

Resumo. O transplante de árvores no Parque “Arbutus do Demo” desenrolou-se de Janeiro a Abril de 2004. Este projecto foi desenvolvido num viveiro de árvores abandonado há cerca de uma década. Foi orientado para a obtenção de um conhecimento prático aprofundado sobre a técnica de transplantes, em função da dimensão, espécie e época de transplante. O transplante de árvores serviu funcionalmente para efectuar a limpeza dos talhões do viveiro e para rearborizar um outro espaço a 100 m de distância, designado “Arbosudoe”, ardido há 4 anos. Foram transplantadas um total de 576 plantas, entre árvores e arbustos de 4 espécies botânicas diferentes. Sobreviveram 413 indivíduos ao processo de transplante, correspondendo a um total de 71,7% de taxa de sucesso. As espécies com maior número de indivíduos transplantados foram o Quercus robur L., (177) e 58,8% de sucesso, seguido da Betula pubescens Ehrh. (157) e 8,5 % de sucesso. A árvore transplantada com maior altura foi uma Betula pubescens Ehrh. com 21,30 m. A árvore transplantada com maior perímetro à altura do peito (PAP) foi da espécie Quercus robur L. com 46 cm. Após a avaliação de resultados pode ser descrita a técnica ideal de transplante, como aquela em que o indivíduo é levantado com torrão, sofre poda aérea e radicular moderada, o transporte é efectuado no próprio dia para uma cova previamente aberta de dimensões adequadas para o indivíduo. A adubação, colocação de tutores e drenos são efectuadas no momento do transplante. A primeira rega deve ser efectuada no dia do transplante, calendarizando-se as restantes consoante a necessidade da espécie e as condições climatéricas vigentes. Esta técnica será aplicada futuramente às árvores que serão removidas do Parque “Arbutus do Demo”.

Introdução

Este trabalho insere-se no plano de construção do futuro Parque Botânico “Arbutus do Demo” (Proj. INTERREG I B-SUDOE), situado ao km 73,5 da EN 323, que liga Vila Nova de Paiva a Viseu. Este espaço é composto por duas zonas contíguas separadas pela estrada nacional, exibindo duas realidades paisagísticas contrastantes. Uma das zonas designada por “Jardins da Beira” é um antigo viveiro da Junta Autónoma de Estradas, abandonado há cerca de uma década, com uma estrutura arbórea envolvente, talhões abandonados com as árvores em compasso muito reduzido e as infra-estruturas de apoio em avançado estado de degradação. A outra zona, apelidada de “Arbosudoe”, sofreu a acção devastadora de um incêndio há cerca de quatro anos, exibe actualmente uma estrutura arbórea desordenada, composta por espécies arbóreas e arbustivas autóctones. O plano paisagístico do “Arbosudoe” baseou-se essencialmente na introdução de espécies arbóreas provindas do antigo viveiro por transplante. Dada a relativa proximidade geográfica, pôde realizar-se um número elevado de transplantes, avaliar diversos tipos de técnicas de transplante em diferentes espécies arbóreas e em épocas distintas. Todas as árvores retiradas do antigo viveiro para implementação do projecto paisagístico para essa zona, foram alvo de transplantes independentemente da espécie ou dimensão.

Material e métodos Material utilizado

Para efectuar os transplantes foi utilizada uma retroescavadora com pá frontal articulada (CAT), um tractor de rastos com cabine rotativa, pá frontal articulada e pá traseira fixa (Kubota) e um tractor com reboque agrícola. Para as medições das características dendrométricas das árvores transplantadas foi utilizado um relascópio e uma fita métrica de 25 m.

Método de transplante

Os transplantes foram realizados de Janeiro a Abril de 2004. O método utilizado no transplante das árvores foi sendo alterado com o evoluir dos trabalhos no campo, com a observação de resultados entretanto obtidos, as condicionantes das espécies e com os meios materiais disponíveis. Em todas as acções de transplante o arranque iniciou-se pelo escavar em volta da árvore um sulco com um diâmetro de 1 m e uma profundidade de cerca de 0,5 m, levantando-se a árvore com a pá da máquina, que posteriormente era içada com uma cinta para o reboque. O torrão se possível era preservado como protecção do sistema radicular, independentemente da espécie arbórea. O transporte era realizado de forma cuidadosa para evitar ferimentos no tronco das árvores. Na plantação, as covas eram abertas previamente com um diâmetro apropriado às dimensões de cada árvore e efectuada uma adubação (adubo binário 0:21:21). Posteriormente a terra era cuidadosamente compactada e na superfície era construída uma caldeira, de modo a aprisionar água de rega ou precipitação. A tutoragem e a colocação de drenos efectuava-se no momento da plantação. Foi realizada a poda aérea de modo a evitar o excessivo stress hídrico e poda radicular, por forma, a evitar o enrolamento das raízes na cova.

Método usado nas medições dendrométricas

As medições da altura das árvores e do perímetro à altura do peito (PAP) foram realizadas em Julho e Agosto. Simultaneamente foram avaliados parâmetros relativos ao sucesso de vingamento e estado fitossanitários das árvores transplantadas. A última visita foi realizada no dia 19 de Setembro, para esclarecimento de situações duvidosas quanto ao sucesso do transplante.

Resultados

Os resultados obtidos neste trabalho (quadro 1) são relativos à contagem de todos os transplantes, separados por espécie e contabilizados os indivíduos transplantados com sucesso e os mortos. A todos os indivíduos transplantados

Quadro 1 - Espécies arbóreas e arbustivas plantadas, com indicação do número de indivíduos, taxa de sucesso, PAP e altura.

PAP (cm) Altura (m)

Espécies Total Árvores vivas

Árvores mortas Taxa de

SucessoMédiaMáx - Min Média Máx - Min

Total de árvores 576 413 163 71,7%

Foram medidas a altura e o perímetro ao nível do peito (PAP). Foram transplantadas um total de 576 plantas, entre árvores e arbustos de 4 espécies diferentes. Sobreviveram 413 indivíduos ao processo de transplante, correspondendo a um total de 71,7% de taxa de sucesso. A árvore transplantada com maior altura, uma Betula pubescens Ehrh. (Fig.1) media 21,30 m.

Figura 1. Árvore da espécie Betula pubescens, com uma altura de 16,3 m e 25 cm de PAP (31 de Agosto de 2004). Data de transplante, 5 de Abril de 2004.

A árvore transplantada com maior PAP foi da espécie Quercus robur L. com 46 cm. As espécies com maior número de indivíduos transplantados foram o Quercus robur L., (Fig.2) com 177 indivíduos, seguido da Betula pubescens Ehrh. com 157 indivíduos, tendo sido a taxa de sucesso de transplante mais elevada na Betula pubescens Ehrh.(8,5 %) do que Quercus robur L. (58,8%).

Figura 2. Árvore da espécie Quercus robur L. com uma altura de 8,3 m e 16 cm de PAP (31 de Agosto de 2004). Data de transplante, 19 de Março de 2004.

A taxa de mortalidade foi de 100% nas espécies Liquidambar styraciflua L. (10 indivíduos). Os indivíduos das espécies Liquidambar styraciflua L. , Junglans regia L., Quercus suber L. e Cercis siliquastrum L. transplantados, eram ainda muito jovens (aproximadamente 1 m de altura). No transplante da espécie Pinus sylvestris L. obteve-se uma taxa de sucesso de 28 % (sete indivíduos). A época de transplante revelou-se fundamental para a taxa de sucesso global. Os transplantes foram terminados no final de Abril, uma altura limite pois as árvores já se encontravam em plena actividade vegetativa.

Discussão e conclusões

A Betula pubescens foi a espécie que revelou maior resistência ao transplante. A taxa de sucesso elevada (8,5%), mostra uma espécie que suporta bem a acção de transplante, independentemente do estado de desenvolvimento do indivíduo. A falta de regas periódicas (no período estival) não se revelou fatal, apesar desta ser uma espécie considerada ripícola. Os efeitos do stress hídrico apenas se manifestaram nos indivíduos transplantados sem podas aéreas, surgindo emurchecimento e posterior aparecimento de necroses nas folhas jovens. A espécie Quercus robur com uma taxa de 58,8% correspondente a 104 árvores, apesar de ser uma espécie autóctone, revelou algumas limitações, pois em muitos casos o stress hídrico e o tipo de solo condicionaram de forma determinante o sucesso no transplante. A taxa de sucesso nesta espécie podia ser claramente superior, pois muitas das mortes ficaram a deverse numa situação pontual, ao tempo excessivo que mediou entre o arranque e a plantação. A espécie Castanea sativa revelou-se resistente ao transplante. A taxa de sucesso foi de 68,9% num total de 45 indivíduos transplantados. Os indivíduos que não resistiram ao transplante, na sua maioria não foram sujeitos a podas aéreas. Noutros casos a existência de feridas no tronco foi a causa principal do insucesso. A espécie Quercus rubra revelou uma taxa de sucesso de 67,6% num total de 34 indivíduos. Estes valores confirmam esta espécie exótica como bem adaptada. A espécie gimnospérmica Pinus sylvestris, como se previa não foi fácil de transplantar com um sucesso de apenas 28%. Contudo, devido à falta de meios ideais para a manutenção do torrão agregado às raízes, o facto de se ter conseguido obter sucesso em sete indivíduos com uma altura média de 5,3 m, pode-se considerar um resultado encorajador. A espécie Cupressus sempervirens (Fig.3) com quatro indivíduos adultos transplantados, teve uma taxa de sucesso de 50%. A causa da morte dos dois indivíduos foi a má fixação da árvore, o que provocou a sua queda devido aos intensos ventos registados nesses dias, aliado ao facto de já ter sido realizado tardiamente (24 de Março) em plena fase de crescimento. Com a Pseudotsuga menziesii obtiveram-se bons resultados, com 83,3% de taxa de sucesso, o que a transforma numa espécie com óptimas aptidões para o transplante. A morte de todos os indivíduos Liquidambar styraciflua ficou a dever-se a uma forte geada ocorrida no mês de Fevereiro. As restantes espécies, foram transplantadas em número reduzido ou possuíam dimensões muito reduzidas, não se podendo retirar conclusões significativas dos resultados obtidos.

Figura 3. Árvore da espécie Cupressus sempervirens L., com uma altura de 8 m e 4 cm de PAP (31 de Agosto de 2004). Data de transplante, 24 de Março de 2004.

Referências bibliográficas

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