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A Cultura do Milho A Cultura do Milho

Grandes Culturas – Professor Fábio de Lima Gurgel

1. Importância e Economia de Produção

O milho representa um dos principais cereais cultivados em todo o mundo, fornecendo produtos largamente utilizados para a alimentação humana, animal e matérias-primas para a indústria, principalmente em função da quantidade e da natureza das reservas acumuladas nos grãos.

Cultura das mais tradicionais, ocupa posições significativas quanto ao valor da produção agropecuária, área cultivada e volume produzido, especialmente nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. No entanto, apesar de sua grande importância, da evolução gradativa das quantidades produzidas e rendimentos obtidos, a produção de grãos por unidade de área ainda não traduz o potencial genético dos materiais recomendados pela pesquisa.

Essa defasagem entre os rendimentos potenciais e os observados na prática pode ser atribuída a diversos fatores, inclusive os de ordem econômica. Certamente, porém, os níveis de tecnologia adotados por grande parte dos produtores não correspondem às exigências dos cultivares selecionados para semeadura. Consequentemente, a transferência das informações fornecidas pela pesquisa, aliada à experiência adquirida, assume relevância crescente, criando condições para atualização constante daqueles que se dedicam à agricultura.

O desenvolvimento da produção e do mercado de milho devem ser analisados, preferencialmente, sob a ótica das cadeias produtivas e dos sistemas agroindustriais (SAG). O milho é insumo para produção de uma centena de produtos, porém na cadeia produtiva de suínos e aves são consumidos aproximadamente 70% do milho produzido no mundo e entre 70 e 80% do milho produzido no Brasil. Assim sendo, para uma melhor abordagem do que está ocorrendo no mercado do milho, torna-se importante, além da análise de dados relativos ao produto milho “per si”, também uma visão, ainda que superficial, do panorama mundial e nacional da produção e consumo de carne de suíno e frango e de como o Brasil se posiciona neste contexto, para que seja possível o melhor entendimento das possibilidades futuras do milho no Brasil.

Os maiores produtores mundiais de milho são os EUA, China e Brasil, que, em 2005, produziram 280,2; 131,1 e 35,9 milhões de toneladas, respectivamente.

De uma produção total, no ano de 2005, de cerca de 708 milhões de toneladas, cerca de 75 milhões são comercializadas internacionalmente (aproximadamente 10% da produção total em 2005, com uma expectativa de 1,5% em 2006). Isto indica que o milho destina-se principalmente ao consumo interno. Deve-se ressaltar que, dado seu

Grandes Culturas – Professor Fábio de Lima Gurgel baixo custo de mercado, os custos de transporte afetam muito a remuneração da produção obtida em regiões distantes dos pontos de consumo, reduzindo o interesse no deslocamento da produção a maiores distâncias, ou em condições que a logística de transporte é desfavorável.

O mercado mundial de milho é abastecido basicamente por três países, os

Estados Unidos (46 milhões de t de exportações em 2005), a Argentina (14,0 milhões de t em 2005) e a África do Sul (2,3 milhões de t em 2005). A principal vantagem destes países é uma logística favorável, que pode ser decorrente da excelente estrutura de transporte (caso dos EUA), proximidade dos portos (caso da Argentina) ou dos compradores (caso da África do Sul). O Brasil eventualmente participa deste mercado, porém, a instabilidade cambial e a deficiência da estrutura de transporte até aos portos têm prejudicado o país na busca de uma presença mais constante no comércio internacional de milho.

Os principais consumidores são o Japão (16,5 milhões de t em 2005), Coréia do

Sul (8,5 milhões de t em 2005), México (6,0 milhões de t em 2005) e Egito (5,2 milhões de t em 2005). Outros importadores relevantes são os países da Sudeste de Ásia (2,9 milhões de t em 2005) e a Comunidade Européia (2,5 milhões de t em 2005). Nestes dois últimos casos, além das importações ocorre um grande montante de trocas entre os países que compõem cada um destes blocos.

A produção de milho no Brasil tem se caracterizado pela divisão da produção em duas épocas de plantio. Os plantios de verão, ou primeira safra, são realizados na época tradicional, durante o período chuvoso, que varia entre fins de agosto na região Sul até os meses de outubro/novembro no Sudeste e Centro Oeste (no Nordeste este período ocorre no início do ano). Mais recentemente tem aumentado a produção obtida na chamada "safrinha", ou segunda safra. A "safrinha" se refere ao milho de sequeiro, plantado extemporaneamente, em fevereiro ou março, quase sempre depois da soja precoce, predominantemente na região Centro-Oeste e nos estados do Paraná e São Paulo. Verifica-se um decréscimo na área plantada no período da primeira safra, em decorrência da concorrência com a soja, o que tem sido parcialmente compensado pelo aumento dos plantios na "safrinha". Embora realizados em uma condição desfavorável de clima, os plantios da "safrinha" vem sendo conduzidos dentro de sistemas de

Grandes Culturas – Professor Fábio de Lima Gurgel produção que tem sido gradativamente adaptados a estas condições, o que tem contribuído para elevar os rendimentos das lavouras.

Produção Brasileira de Milho

Safra 2001 2002 2003 2004 2005 Produção (1.0 t)

Total 42.29035.267 47.411 42.192 39.040

1ª Safra 35.833 29.086 34.614 31.617 29.319

2ª Safra 6.457 6.181 12.797 10.574 9.721 Área plantada (1.0 ha)

Total 12.973 12.298 13.226 12.822 12.297

1ª Safra 10.546 9.413 9.664 9.465 9.195 2ª Safra 2.426 2.885 3.563 3.357 3.102

Rendimento (kg.ha-1) Total 3.2602.8683.5853.291 3.175

Fonte: CONAB (2006)

A baixa produtividade média de milho no Brasil (3.175 kg por hectare) não reflete o bom nível tecnológico já alcançado por boa parte dos produtores voltados para lavouras comerciais, uma vez que as médias são obtidas nas mais diferentes regiões, em lavouras com diferentes sistemas de cultivos e finalidades. O milho é cultivado em

Grandes Culturas – Professor Fábio de Lima Gurgel praticamente todo o território, sendo que 90 % da produção concentraram-se nas regiões Sul (43 % da produção), Sudeste (25 % da produção) e Centro - Oeste (2% da produção). A participação dessas regiões em área plantada e produção vem se alterando ao longo dos anos.

O milho é uma planta da família Gramineae e da espécie Zea mays. Comumente,

2. Origem e Evolução o termo se refere à sua semente, um cereal de altas qualidades nutritivas. É extensivamente utilizado como alimento humano ou ração animal. Acredita-se que seja uma planta de origem americana, já que aí era cultivada desde o período précolombiano e desconhecida pela maioria dos europeus até a chegada destes à América. É um dos alimentos mais nutritivos que existem. Tem alto potencial produtivo, e é bastante responsivo à tecnologia. Seu cultivo geralmente é mecanizado, se beneficiando muito de técnicas modernas de plantio e colheita. Tudo parece indicar que a cultura do milho tenha começado onde hoje se localizam o México e a América Central há milhares de anos. Seu nome, de origem indígena caribenha, significa “sustento da vida”. Alimentação básica de várias civilizações importantes ao longo dos séculos, os Maias, Astecas e Incas reverenciavam o cereal na arte e religião. Grande parte de suas atividades diárias eram ligadas ao seu cultivo. O milho era plantado por índios americanos em montes, usando um sistema complexo que variava a espécie plantada de acordo com o seu uso. Esse método foi substituído por plantações de uma única espécie.

Com as grandes navegações do século XVI e o início do processo de colonização da América, a cultura do milho se expandiu para outras partes do mundo. Hoje é cultivado e consumido em todos os continentes e sua produção só perde para a do trigo e do arroz.

Cristóvão Colombo, descobridor da América, foi quem observou pela primeira

vez a existência do milho na costa oeste de Cuba. Isso ocorreu em 5 de novembro de 1492. Nos dias de hoje, no ano de 2006, 514 anos depois, o que se conhece do milho é muito diferente do que Cristóvão Colombo constatou, porque naquele tempo o milho tinha a forma de um arbusto, chamado de teosinto. Diversas teorias e hipóteses questionam se o milho realmente se originou do teosinto.

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Teosinto x Milho Moderno/ Tamanho da espiga de milho atual, comparada com a espigueta do teosinto

Evolução da Espigueta do Teosinto até a Espiga de Milho Atual

Mas existem evidências genéticas e citológicas de que o milho e o teosinto são

Grandes Culturas – Professor Fábio de Lima Gurgel bastante aparentados. Eles tem o mesmo número e homologia de cromossomos (n = 20). Outros autores afirmam que o milho foi domesticado a partir do teosinto. O que importa é que o resultado final da seleção natural e da domesticação produziu uma planta anual, robusta e ereta, com 1 a 4 metros ou mais de altura, que é “esplendidamente construída para a produção de grãos”, pois de uma espiga produzindo cerca de 15 a 20 grãos, foram obtidas variedades com espigas de cerca de 500 grãos; e que também não pode viver sem a proteção do homem. A foto a seguir apresenta diversas espigas de milho, o que mostra um pouco da variabilidade genética existente entre espécies nativas/selvagens. Toda esta variabilidade constitui a matériaprima para o programa de melhoramento genético da cultura do milho.

No Brasil, o cultivo do milho vem desde antes da chegada dos europeus. Os

índios, principalmente os guaranis, tinham o cereal como o principal ingrediente de sua dieta. Com a chegada dos portugueses, o consumo aumentou e novos produtos à base de milho foram incorporados aos hábitos alimentares dos brasileiros.

O plantio de milho na forma ancestral continua a praticar-se na América do Sul,

nomeadamente em regiões pouco desenvolvidas, no sistema conhecido no Brasil como de roças.

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3. Ecofisiologia e Fenologia

O milho, sendo uma planta de origem tropical, exige, durante o seu ciclo vegetativo, calor e umidade para se desenvolver e produzir satisfatoriamente, proporcionando rendimentos compensadores.

Os processos da fotossíntese, respiração, transpiração e evaporação, são funções diretas da energia disponível no ambiente, comumente designada por calor; ao passo, que o crescimento, desenvolvimento e translocação de fotoassimilados encontram-se ligados à disponibilidade hídrica do solo, sendo que seus efeitos são mais pronunciados em condições de altas temperaturas onde a taxa de evapotranspiração é elevada.

Independentemente da tecnologia aplicada, o período de tempo e as condições climáticas em que a cultura é submetida constituem-se em preponderantes fatores de produção. Dentre os elementos do clima conhecidos para se avaliar a viabilidade e a estação para a implantação das mais diversas atividades agrícolas, a temperatura e a precipitação pluvial são os mais estudados.

Para a cultura do milho, muito se tem estudado sob o ponto de vista de suas exigências climáticas, sempre objetivando o aumento do rendimento agrícola. Assim, algumas condições ideais para o desenvolvimento desse cereal podem ser apontadas: (i) por ocasião da semeadura, o solo deve apresentar-se com temperatura superior a 10oC, aliado à umidade próxima à capacidade de campo, possibilitando o desencadeamento dos processos de emergência; (i) durante o crescimento e desenvolvimento das plantas, a temperatura do ar deverá girar em torno de 25oC e encontrar-se associada à adequada disponibilidade de água no solo e abundância de luz; (i) temperatura e luminosidade favoráveis, elevada disponibilidade de água no solo e umidade relativa do ar, superior a 70%, são requerimentos básicos durante a floração e enchimento dos grãos e (iv) ocorrência de período predominantemente seco por ocasião da colheita.

Temperaturas do solo inferiores a 10oC e superiores a 42oC prejudicam sensivelmente a germinação, ao passo que, aquelas situadas entre 25 e 30oC propiciam as melhores condições para o desencadeamento dos processos de germinação das sementes e emergência das plântulas. Por ocasião do período de florescimento e maturação, temperaturas médias diárias superiores a 26oC podem promover a aceleração

Grandes Culturas – Professor Fábio de Lima Gurgel dessas fases, da mesma forma que temperaturas inferiores a 15,5oC podem prontamente retardá-las.

Com relação à luz, a cultura do milho responde com altos rendimentos a crescentes intensidades luminosas, em virtude de pertencer ao grupo de plantas “C4”, o que lhe confere alta produtividade biológica. O milho é, originalmente, uma planta de dias curtos, embora os limites dessas horas de luz não sejam idênticos e nem bemdefinidos para os diferentes cultivares. Com a redução de 30 a 40% da intensidade luminosa, ocorrerá um atraso na maturação dos grãos, principalmente em cultivares tardios, que mostram-se mais sensíveis à carência de luz.

A incidência de ventos no milharal pode aumentar a demanda de água por parte da planta, tornando-a mais suscetível aos períodos curtos de estiagem, além de promover o acamamento da cultura. Da mesma forma, ventos frios ou quentes podem ocasionar falhas na polinização, constituindo-se, frequentemente, em importante fator limitante na produção de milho de algumas regiões.

Plantas de milho apresentando de quatro a 10 folhas, quando submetidas a ventos, podem ser significativamente prejudicadas quanto ao crescimento e desenvolvimento. A evidência de folhas apresentando bordas esbranquiçadas e secas, bem como enrolamento pode ser atribuído à incidência de ventos. Ainda, plantas instaladas em solos arenosos e sem cobertura, podem sofrer o efeito abrasivo de partículas deslocadas pela ação do vento.

Com relação a exigência por água, as fases mais críticas são a de emergência, florescimento e formação do grão. No período compreendido entre 15 dias antes e 15 dias após o aparecimento da inflorescência masculina, o requerimento de um suprimento hídrico satisfatório aliado a temperaturas adequadas tornam tal período extremamente crítico. A cultura exige um mínimo de 350-500 m de precipitação no verão para que produza a contento, sem a necessidade da utilização da prática de irrigação.

O consumo de água por parte do milho, em um clima quente e seco, raramente excede 3,0 m/dia, enquanto a planta estiver com altura inferior a 30 cm. Todavia,

Grandes Culturas – Professor Fábio de Lima Gurgel durante o período compreendido entre o espigamento e a maturação, o consumo pode se elevar para 5,0 a 7,5 m diários.

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