Anatomia para médicos - 2ª Ed.- Richard S. Snell

Anatomia para médicos - 2ª Ed.- Richard S. Snell

(Parte 1 de 4)

Titulo: Anatomia - 2ª Ed. Autor: Richard S. SnellEditora: Medsi Editora Médica e Científica LtdaPublicação: 1984

Anatomia - 2ª Ed. - Capítulo 01 – Introdução

Termos Anatômicos DescritivosTERMOS REFERENTES À POSIÇÃO

Anatomia é o estudo da estrutura do corpo a inter-relação de suas partes constituintes. Todas as descrições do corpo humano baseiam-se na suposição de que o indivíduo se encontra em posição ereta (em pé), membros superiores estendidos, aplicados ao tronco e com as palmas voltadas para a frente (Fig. 1-1).

Fig. 1-1. Termos anatômicos usados em relação à posição. Observar que as figuras estão de pé na posição anatômica.

Esta é a chamada posição anatômica. As diversas partes do corpo são, portanto, descritas em relação a certos planos imaginários.

O plano mediano é um plano vertical que divide o corpo humano em metades iguais, direita e esquerda (Fig. 1-1). Os planos situados de um ou de outro lado do plano mediano e paralelos a este são denominados paramedianos (planos sagitais). Uma estrutura situada mais próxima do plano mediano do corpo do que outra é denominada medial em relação àquela. Da mesma forma, uma estrutura mais afastada do plano mediano do que outra é lateral em relação a esta.Os planos frontais (coronais) são planos verticais imaginários, em ângulo reto em relação ao plano mediano (Fig. 1-1). Planos horizontais ou transversais situam-se em ângulo reto em relação aos planos mediano e coronal (Fig. 1-1).

Os termos anterior (ventral) e posterior. (dorsal) são utilizados para indicar, respectivamente, a frente ou o dorso do corpo (Fig. 1-1); de modo que, para se descrever a relação de duas estruturas, diz-se estar anterior ou posterior à outra na medida em que estiver mais próxima da superfície corporal anterior ou posterior.Descrevendo-se a mão, utilizam-se os termos faces palmar e dorsal em lugar de anterior e posterior, e na descrição do pé, os termos faces plantar e dorsal são utilizados em vez de face superior e inferior (Fig. 1-1). Os termos proximal e distal descrevem as distâncias relativas das raízes dos membros; por exemplo, o braço é proximal ao antebraço, e a mão é distal ao antebraço.

Os termos superficial e profundo indicam as distâncias relativas das estruturas da superfície do cor o, e os termos superior e inferior estruturas relativamente altas ou baixas, com referência às extremidades superior e inferior do corpo.

Os termos interno e externo são utilizados para descrever a distância relativa de uma estrutura do centro de um órgão ou cavidade; por exemplo, a artéria carótida interna nutre as estruturas contidas na cavidade craniana e a artéria carótida externa nutre as estruturas situadas fora desta cavidade.

O termo ipsilateral refere-se ao mesmo lado do corpo; por exemplo, a mão esquerda e o pé esquerdo são ipsilaterais; contralateral refere-se a lados opostos do corpo; por exemplo, o músculo bíceps braquial esquerdo e o músculo reto femoral direito são contralaterais.

A posição supina do corpo é a posição de decúbito dorsal; a posição em pronação é a de decúbito ventral.

TERMOS RELACIONADOS AO MOVIMENTO

O ponto em que dois ou mais ossos se conectam é conhecido como articulação. Algumas articulações não apresentam movimento (suturas do crânio); outras possuem apenas movimentos limitados (articulação tibiofibular superior), e algumas movimentam-se livremente (articulação do ombro).

Flexão é o movimento que tem lugar no plano mediano. Por exemplo, a flexão da articulação do cotovelo aproxima a superfície anterior do antebraço da superfície anterior do braço. É usualmente um movimento anterior, porém é por vezes posterior, como no caso da articulação do joelho (Fig. 1-2).

Fig. 1-2. Alguns termos anatômicos utilizados em relação ao movimento. Observar a diferença entre flexão do cotovelo e do joelho.

Extensão significa uma retificação da articulação, e usualmente ocorre numa direção posterior (Fig. 1-2).

Flexão lateral é um movimento do tronco no plano coronal frontal (Fig. 1-3).

Fig. 1-3. Termos anatômicos adicionais utilizados em relação ao movimento.

Abdução de um membro é um movimento em que este se afasta da linha mediana do corpo, no plano coronal (Fig. 1-2).

Adução do membro é um movimento em direção ao corpo, no plano coronal (Fig. 1-2). Nos dedos das mãos e dos pés, a abdução aplica-se no afastamento destas estruturas, e a adução aplica-se à aproximação (Fig. 1-3).

Rotação é o termo aplicado ao movimento de uma parte do corpo em torno de seu eixo longitudinal. Rotação medial é o movimento que resulta na superfície anterior da parte voltada para a linha mediana; rotação lateral é o movimento que resulta na superfície anterior da parte voltada lateralmente.

Pronação do antebraço é uma rotação medial do antebraço (Fig.1-3). Supinação do antebraço é uma rotação lateral deste, a partir da posição pronada, de modo que a palma da mão esteja voltada anteriormente (Fig. 1-3).

Circundução é a combinação, em seqüência, dos movimentos de flexão, extensão, abdução e adução (Fig. 1-2).

Protração é mover-se para a frente; retração é mover-se para trás (usado para descrever o movimento da mandíbula para adiante e para trás nas articulações temporomandibulares).Inversão é o movimento do pé de modo que a face plantar esteja voltada em direção medial (Fig. 1-3). Eversão é o movimento oposto do pé de modo que a face plantar esteja voltada lateralmente (Fig. 1-3).

Algumas Estruturas Anatômicas Básicas

PELEA pele é dividida em duas partes distintas, a parte superficial - epiderme -, e a parte profunda - derme (Fig. 1-4).

Fig. 1-4. Estruturas geral da pele e sua relação as camadas superficial e profunda da fáscia. Observar que os folículos pilosos estendem-se para baixo e para dentro da parte mais profunda da derme, ou mesmo para dentro da fáscia superficial, enquanto as glândulas sudoríparas estendem-se profundamente para dentro da fáscia superficial.

A epiderme é um epitélio estratificado cujas células se tornam achatadas à medida que envelhecem e afloram à superfície. Nas palmas das mãos e plantas dos pés, a epiderme é extremamente espessa para suportar o uso e o desgaste destas regiões. Em outras áreas do corpo, por exemplo na superfície anterior do braço e antebraço, ela é fina. A derme é composta de tecido conectivo denso contendo muitos vasos sangüíneos, linfáticos e nervos. Apresenta uma variação considerável de espessura, em diferentes partes do corpo, tendendo a ser mais fina na superfície anterior do que na posterior. É também mais fina nas mulheres do que nos homens. A derme da pele está conectada com a fáscia muscular subjacente ou com os ossos, através da tela subcutânea, também conhecida como tecido subcutâneo.Na derme (cório), os feixes de fibras colágenas estão dispostos, em sua maioria, em filas paralelas. Uma incisão cirúrgica através da pele, feita ao longo ou entre essas fileiras, provoca um desarranjo mínimo do colágeno, e a ferida cicatriza com um mínimo de tecido cicatricial. Por outro lado, uma incisão feita através das filas de colágeno rompe e altera a pele, resultando na produção maciça de colágeno fresco e na formação de uma cicatriz ampla e de mau aspecto. A direção das fileiras de colágeno é conhecida como linhas de clivagem (linhas de Langer); elas tendem a correr longitudinalmente nos membros e circunferencialmente (transversais) no pescoço e no tronco (Fig. 1-5).

Fig. 1-5. Linhas de clivagem da pele (modificado de Last).

A pele situada sobre as articulações é sempre dobrada num mesmo lugar, a pele enrugada (Fig. 1-6).

Fig. 1-6. Os diversos sulcos cutâneos na superfície palmar da mão e superfície anterior da articulação do punho. A relação da unha com as outras estruturas de dedo também é demonstrada.

Nestes pontos a pele é mais fina do que em qualquer outro local, estando firmemente fixada às estruturas subjacentes por faixas mais fortes de tecido fibroso.Os apêndices da pele são as unhas, folículos capilares, glândulas sebáceas e glândulas sudoríparas.

As unhas são placas queratinizadas, situadas nas superfícies dorsais das extremidades dos dedos das mãos e dos pés. A extremidade proximal da placa é a raiz da unha (Fig. 1-6). Com exceção da extremidade distal da placa, a unha é delimitada e recoberta por camadas de pele conhecidas como perioníquio. A superfície da pele coberta da unha é o leito ungueal (Fig. 1-6).

Os cabelos crescem dos folículos, que são invaginações da epiderme em direção à derme (Fig. 1-4). O folículo situa-se obliquamente em relação à superfície cutânea, e suas extremidades expandidas, chamadas bulbos capilares, penetram até a parte mais profunda da derme. Cada bulbo capilar é côncavo na sua extremidade, e a concavidade é ocupada por tecido conectivo vascular, a papila capilar. Uma faixa de músculo liso, o músculo eretor do pêlo, conecta a parte de folículo situada abaixo da superfície com a parte superficial da derme (Fig. 1-4). O músculo é inervado por fibras simpáticas, e sua contração faz com que o pêlo se movimente para uma posição mais vertical; ele também comprime a glândula sebácea e provoca a eliminação de parte de sua secreção. O estiramento do músculo também provoca a ondulação da superfície cutânea, assim chamada pele arrepiada. Os pêlos estão distribuídos em quantidade variada, sobre toda a superfície corporal, exceto nos lábios, palmas das mãos, parte lateral dos dedos, glande do pênis e clitóris, lábios menores, superfície interna dos lábios maiores, superfície plantar e parte lateral dos pés, e na parte lateral dos dedos.

As glândulas sebáceas eliminam sua secreção, o sebo, dentro das hastes dos pêlos, quando eles passam através do istmo dos folículos. Estão situadas na parte inclinada abaixo da superfície dos os folículos e permanecem no interior da derme (Fig. 1-4). O sebo é um material oleoso, que ajuda a conservar a flexibilidade do pêlo emergente. Também lubrifica a epiderme superficial em torno da abertura do folículo.As glândulas sudoríparas são longas, espiraladas e tubulares, distribuídas na superfície do corpo, exceto nas margens avermelhadas dos lábios, leitos ungueais, glande do pênis e clitóris (Fig. 1-4). Estendem-se através de toda a espessura da derme e suas extremidades, e podem estar situadas na fáscia superficial. Por conseguinte, de todos os apêndices epidérmicos, as glândulas sudoríparas são as estruturas que penetram mais profundamente.

FÁSCIASAs fáscias do corpo podem ser divididas em dois tipos: superficiais e profundas. Estão situadas entre a pele e os músculos e ossos subjacentes.

A tela subcutânea, ou fáscia superficial, é uma mistura de tecido adiposo e areolar frouxo que une a derme da pele à fáscia profunda subjacente. No couro cabeludo, parte posterior do pescoço, palmas das mãos e plantas dos pés, ela contém numerosos feixes de fibras colágenas que mantêm a pele firmemente ligada às estruturas mais profundas. Nas sobrancelhas, orelha, pênis e escroto, e clitóris, ela é desprovida de tecido adiposo.

A fáscia muscular é uma camada membranosa de tecido conectivo que reveste os músculos e outras estruturas profundas (Fig. 1-7).

Fig. 1-7. Secção transversal ao nível do terço distal do braço direito, para demonstrar a disposição das fáscias superficial e profunda. Observar como septos fibrosos estendem-se entre grupos de músculos, que dividem o braço em compartimentos fasciais.

No pescoço, forma camadas bem definidas que podem desempenhar um papel importante, determinando a via de propagação de organismos patogênicos durante a disseminação da infecção. No tórax e abdome, é simplesmente uma película fina de tecido areolar que cobre os músculos e aponeuroses. Nos membros, forma uma bainha definida ao redor dos músculos e outras estruturas, mantendo-os em Posição. Septos fibrosos que se estendem a partir da superfície profunda da membrana, entre grupos musculares, e em muitos lugares, dividem-se até o interior dos membros em compartimentos (Fig. 1-7). Na região das articulações, a fáscia profunda pode estar consideravelmente espessada, formando faixas de retenção, denominadas retináculos (Fig. 1-8).

Fig. 1-8. Retináculo extensor na superfície posterior do punho, sustentando os tendões dos músculos extensores em posição.

Sua função é manter os tendões subjacentes em posição, ou servir como roldanas ou polias ao redor das quais os tendões podem se movimentar.

MÚSCULOSExistem três tipos de músculos: esqueléticos, lisos, e cardíaco.

MÚSCULO ESQUELÉTICO

Os músculos esqueléticos são os que realizam os movimentos do esqueleto; algumas vezes são chamados músculos voluntários, e constituem-se de fibras musculares estriadas. O músculo esquelético tem duas ou mais conexões com os ossos. A conexão que se movimenta menos é referida como a origem, e a que se move mais, como a inserção (Fig. 1-9).

Fig. 1-9. Origem, inserção e ventre do músculo braquial.

Sob circunstâncias variadas, o grau de mobilidade das conexões pode ser invertido e portanto os termos origem e inserção são intercambiáveis.

A parte carnosa do músculo é denominada ventre (Fig. 1-9). As extremidades de um músculo estão ligadas aos ossos, cartilagens ou ligamentos por cordões de tecido fibroso denominados tendões (Fig. 1-10).

Fig. 1-10. Exemplo de (1) um tendão, (2) uma aponeurose, e (3) uma rafe.

Ocasionalmente, músculos planos estão ligados por uma lâmina fina mas forte de tecido fibroso denominada aponeurose (Fig. 1-10). Uma rafe é uma interdigitação das extremidades tendinosas das fibras dos músculos planos (Fig. 1-10).

ESTRUTURA INTERNA DO MÚSCULO ESQUELÉTICO

As fibras musculares são mantidas juntas por um delicado tecido areolar que se condensa na superfície para formar um revestimento fibroso, o epimísio (Fig. 1-11).

Fig. 1-11. (A) Secção transversal de um músculo, mostrando feixes e fibras musculares, envolvidos e suportados por tecido conectivo. Observar a entrada do tronco nervoso e dos vasos sangüíneos. (B) Músculo em repouso e contraído, demonstrando como fibras musculares em contração encurtam de 1/3 a 1/2 seu comprimento em repouso. Observar como o músculo fica tumefeito. (C) As diferentes formas de estrutura interna de músculo esquelético.

As fibras individuais de um músculo são dispostas em sentido paralelo ou oblíquo ao longo eixo do músculo. Considerando-se que quando se contrai um músculo encurta-se de um terço da metade de seu comprimento em repouso, segue-se então que músculos cujas fibras correm paralelas à linha de estiramento provocam maior grau de movimento, em comparação com aqueles cujas fibras correm obliquamente. Exemplos de músculos com fibras dispostas em paralelo (Fig. 1-11) são o esternocleidomastóideo, o reto do abdome e o sartório.

Os músculos cujas fibras correm obliquamente à linha de estiramento são denominados músculos peniformes (assemelham-se a uma pena) (Fig. 1-11). Um músculo unipenado é aquele em que o tendão situa-se ao longo de um dos lados do músculo, e as fibras musculares passam em sentido oblíquo a ele (por exemplo, extensor digitorum longus). Um músculo bipenado é aquele em que o tendão situa-se no centro do músculo e as fibras musculares passam dos dois lados em relação a ele (p. ex., o reto femoral). Um músculo multipenado (1) pode se dispor como uma série de músculos bipenados um ao lado do outro (por exemplo, fibras acromiais do deltóide); ou (2) pode apresentar um tendão no interior do seu centro, as fibras musculares passando de todos os lados em relação a ele, convergindo à medida que passam (por exemplo, tibial anterior).

Para um determinado volume de substâncias musculares, os músculos peniformes apresentam muito mais fibras quando comparados com os músculos de fibras dispostas em paralelo, sendo por conseguinte mais potentes; em outras palavras, a amplitude do movimento foi sacrificada pela força.

TÔNUS E AÇÃO MUSCULAR

Uma unidade motora consiste em um neurônio motor da coluna cinzenta anterior, ou de uma coluna anterior da medula espinhal e todas as fibras musculares supridas por ele (Fig. 1-12).

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