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Ruy Madsen Barbosa Neto Liga de Homeopatia – Medicina Unicamp

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Bases da Homeopatia

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“Assim como um animal bem adestrado obedecerá ao dono, por maior que seja a perplexidade em que se encontre e por maior que seja a necessidade de adotar novos padrões de comportamento, assim também o racionalista convicto se curvará à imagem mental de seu mestre, manter-se-á fiel aos padrões de argumentação que lhe foram transmitidos e aceitará esses padrões, por maior que seja a perplexidade em que se encontre, mostrando-se incapaz de compreender que ‘a voz da razão’ a que dá ouvidos é apenas o efeito causal tardio do treinamento que recebeu.”

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Ao meu médico Dr. Rodolfo Fernandes de Oliveira, pelo exemplo e incentivo

Agradecimentos

Ao Dr. Milton Lopes de Souza, à Dra Saeko Suzuke, à Dra Rosalia Matera de Angelis, ao Dr Nelson Filice de Barros, ao Dr Joaquim Murray Bustorff Silva, ao Dr Matheus Marim, aos colegas do departamento de Homeopatia da Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas e aos amigos da Liga de Homeopatia da Medicina Unicamp.

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“Na arte de curar, salvadora de vidas, deixar de aprender é um crime”. Samuel Hahnemann

Este manual é conseqüência de cinco anos passados a frente da Liga de Homeopatia dos estudantes de Medicina da faculdade de ciências médicas da Universidade Estadual de Campinas e da convivência e aprendizado com grandes amigos médicos homeopatas.

Quando nos deparamos com a falta de uma disciplina que abordasse os fundamentos dessa especialidade médica dentro do currículo da graduação em Medicina, iniciamos um trabalho do qual já se avistam os frutos. A presença dessa liga de iniciativa estudantil, dentro de uma das mais respeitadas universidades do país, possibilita o acesso a discussões e pesquisas, levando o aluno de medicina a formar sua própria opinião sobre a racionalidade homeopática.

Alguns obstáculos aparecem para os que querem pensar diferente, para os que ousam marchar em sentido contrário ao da maioria. Essas pedras vão se tornando, aos poucos, partes fundamentais do caminho. A Homeopatia, assim como todas as culturas não hegemônicas, está acostumada às pedras e sabe fazer delas degraus.

O estudo da história de seu fundador, Samuel Hahnemann, e de seus seguidores, demonstra que a racionalidade homeopática foi obrigada a crescer sozinha, com pouca ajuda. Uma história da qual os homeopatas devem se orgulhar. Apesar das pedras habituais e das intencionalmente atiradas, não houve queda permanente, pois sempre a Homeopatia esteve fortemente fundamentada e sempre manteve seu ideal - a cura. Hoje a Homeopatia é uma medicina adulta, especialidade médica, opção barata e eficiente. Não se pode admitir uma formação médica que não contemple o estudo da medicina dos semelhantes.

A falta de uma obra acessível, destinada aos alunos de medicina e que cobrisse em poucas linhas os pontos fundamentais da doutrina homeopática, nos levou a confecção destas Bases da Homeopatia. As obras mais importantes dos mestres homeopatas, bem como alguns de seus casos clínicos ilustrativos estão presentes em capítulos curtos. Trata-se de um curso com duração de um semestre da Liga de Homeopatia da medicina da Unicamp. Esperamos estar contribuindo para a formação de um raciocínio crítico e uma postura verdadeiramente científica dos estudantes.

Estudar tudo aquilo que não prejudique e que possa ser usado em benefício dos pacientes – este é o dever do médico.

O autor. Campinas, janeiro de 2006.

Bases da Homeopatia

SUMÁRIO
Contexto5
Hahnemann7
Organon8
Homeopatia no Brasil9
Os Fundamentos1
A Experimentação em homens sãos1
Lei dos Semelhantes1
Conceito de Saúde e Doença14
A Energia Vital17
A Consulta Homeopática20
A Matéria Médica2
Diagnóstico23
Hierarquização24
Repertório Homeopático25
Farmácia Homeopática30
Fontes31
Preparo32
Doses e Potências35

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37
Similar x Similimum41
Agravação homeopática42
Prognósticos43
Unicismo e Pluralismo45
Efeito primário e secundário47
Enfermidades agudas e crônicas48
Miasmas49
Psora50
Sicose54
Sífilis5
Importância dos miasmas56
Racionalidades médicas59
Homeopatia e Pesquisas61
A Natureza do medicamento homeopático64
Atividade farmacodinâmica das ultradiluições67
Hipóteses para o mecanismo de cura homeopático68

Leis de Hering,Supressão E Exoneração Bibliografia.............................................................69

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O estudo da história da Medicina, matéria da qual pouco (ou nada) se fala durante a formação médica, é um passo fundamental para se entender os conceitos e as práticas atuais. De onde vem o que é ensinado nas faculdades? Existem outras formas de se pensar a saúde, a doença e o tratamento? Se a experiência nos mostra que há varias práticas, então, por que uma determinada prática conquistou a posição de medicina oficial?

Os povos do Oriente pensam sobre a medicina há milênios. As racionalidades médicas orientais mais importantes e utilizadas são a Medicina Tradicional Chinesa e a Medicina Ayurvedica. Essas racionalidades milenares não são ensinadas aos alunos de medicina.

Como nasceu a medicina oficial do Ocidente - aquela que é ensinada durante a formação dos médicos?

A Grécia antiga abrigou duas grandes escolas médicas nas cidades de CNIDO e COS. Em Cnido predominava o raciocínio analítico (decompor o todo em seus elementos constituintes). Em Cos predominava o raciocínio sintético (reunião dos elementos em um todo). Tais diferenças de pensamento levam a diferentes atitudes médicas. Para o médico de Cnido o que deveria ser estudado era a doença e a forma de se intervir nela. Já para o médico de Cos o importante era entender o doente em sua totalidade e aguardar as reações naturais.

Hipócrates (460-350 a.C.), o pai da medicina, foi professor em Cós. Era um talentoso observador da natureza. Ficou famoso pelos seus aforismos, sentenças breves que transmitem seus conselhos médicos. Provavelmente, o Corpus hipocraticus (conjunto de obras atribuídas a Hipócrates) não foi escrito só por uma pessoa, mas por um grupo de alunos do grande médico que lançou as bases da medicina ocidental.

Hipócrates se opõe à medicina mística, ensina a observar os sinais dos males que afligiam os doentes. Conclui que a doença é um processo natural. Os sintomas são reações do organismo. Como Hipócrates (e seus seguidores) não possuía uma terapêutica sistematizada, sua principal preocupação era não atrapalhar a força imaterial que naturalmente conduz à cura.

Para o pai da Medicina, a função do médico deveria ser a de ajudar a vis medicatrix naturae, ou seja, a força natural de cura. Seus tratamentos baseavam-se em orientações comportamentais, higiênicas e dietéticas.

Hipócrates concluiu que existem três maneiras de se tratar:

“contraria contariis curentur” (sejam os contrários curados pelos contrários)- base da Alopatia. “similia similibus curentur” (sejam os semelhantes curados pelos semelhantes)- base da Homeopatia. “vis medicatrix naturae” – força de cura natural, a defesa do organismo.

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Esses caminhos apontados por Hipócrates foram sendo usados e comprovados ao longo da história da medicina.

O maior nome da Medicina após Hipócrates é o de Galeno (138 – 201 d.C.). Grande anatomista e fisiologista. Foi médico dos gladiadores. Não aceitava a concepção hipocrática de “poder curativo da natureza”. Concebia o corpo humano como um instrumento da alma. As doenças eram, para ele, localizadas em órgãos do corpo. Para ele toda alteração correspondia a uma lesão em algum órgão. Propagou o método de cura pelos contrários, mas reconhecia a existência do método dos semelhantes. Seus pensamentos dominaram a medicina durante séculos.

Como veremos são dois tipos de visão que predominam na história da medicina: o Mecanicismo e o Vitalismo. Grandes médicos ora defendem uma concepção, ora a outra.

Os mecanicistas viam o homem como uma máquina, a doença como um defeito da máquina e a tarefa do médico como o conserto da máquina. Tal visão, baseada na filosofia grega, tem seu ápice na filosofia de René Descartes e na física newtoniana.

Os vitalistas, por sua vez, conservaram a visão de totalidade do ser vivo, viam a doença como um desequilíbrio da força imaterial que mantém a vida.

No período do renascimento destaca-se o nome de Paracelso (1493 – 1541 d.C.), o médico dos pobres. Indignou-se com a medicina de sua época e queria reformá-la. O verdadeiro médico, para ele, deveria basear-se na observação da natureza e não divagar em textos sem fim como fizeram Hipócrates e Galeno.

tornava indicada para tratar a icterícia (coloração amarelada da pele e mucosas)

Paracelso aceitava a Força vital conforme o ensinamento de Hipócrates, mas ao contrário deste, não se limitava a aguardar a reação do organismo, buscava meios de estimular a força vital. Com sua doutrina das assinaturas, Paracelso administrava substâncias que tivessem características (cor, forma, odor e sabor) semelhantes aos sintomas e órgãos afetados dos doentes. Por exemplo: a flor da Eufrásia é semelhante à íris, portanto era recomendada para doenças dos olhos. A cor amarela da açafroeira a

No século XVII surge Thomas Sydenham (1624 – 1689). Foi chamado de Hipócrates britânico. Também defendia a observação da natureza como base para a medicina. O dever do médico, para Sydenham, era ajudar a força vital a manter o equilíbrio, por isso os tratamentos que usava eram as orientações higiênico-dietéticas, tal como Hipócrates fazia dois mil anos antes.

No século XVIII predominavam os tratamentos mecanicistas, que visavam eliminar do corpo aquilo que estaria causando a doença. Os métodos empregados eram: a sangria (retirada de sangue usando-se ventosas, sanguessugas e lancetas), administração de substâncias que causassem diarréia e vômito, além de irritativos sobre a pele. Acreditavam estar, desta forma, eliminando as impurezas.

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O final do século XVIII e o início do século XIX são marcados pelo nascimento da Homeopatia com Samuel Hahnemann.

Para Hipócrates o princípio da ética médica era, em primeiro lugar, não prejudicar (em latim: PRIMUM NON NOCERE). A medicina do século XVIII, no entanto, prejudicava e muito os doentes. Tratava-se de uma medicina iatrogênica.

Neste contexto surge o médico alemão SAMUEL HAHNEMANN (1755-1843), que exerce a profissão até os 34 anos, quando decide abandonar a carreira por insatisfação com os efeitos nocivos da prática médica.

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