Texto para Oficina Temática: Geografia do pote e sua representaçãoUma coisa que considero particularmente interessante é o pote. É uma dessas coisas que acompanham a civilização humana desde seus primórdios, o pote guarda em se toda a humanidade, especialmente quando ela começou a ocupar os vales argilosos das bacias hidrográficas planetárias. E para se chegar a este estágio, foi preciso construir muitas formas de ocupar os pântanos e planícies da morfologia terrestre, até porque, estes ambientes eram áreas vitais de disputas das diferentes espécies de animais que precisavam de água para tocar a vida encadeada pelo alimento, sólido, líquido e gasoso que muitas vezes eram arrancados na carne viva dos outros corpos que davam sentidos a esta cadeia de necessidades da vida.

O pote é aparentemente um trabalho das mãos, uma arte do simples amassar argila e lhe dar a forma de pote. Um pote não é tão simples quanto parece, aquele amontoado de fina argila, que guarda no vazio de sua forma a função de guardar água. Vejo em um pote, um complexo processo de construção. A escolha da argila, os experimentos, as texturas, a dureza e sua plasticidade. Vejo no pote o complexo sistema da natureza humana a associada aos princípios primários da natureza. O pote guarda em sua materialidade toda a filosofia Pré-Socrática dos quatro elementos (terra, água, fogo e ar) totalmente inter-relacionados e interdependentes. A única falta de um destes, impediria a construção do pote. O pote é um ecossistema sociocultural. O pote guarda em sua gênese os princípios de interdependência plástica.

Cada pote é uma coisa única, por mais perfeita que seja a arte do oleiro, este não faria o mesmo pote duas vezes. E mesmo que na sua memória guarde o mapa mental do pote original, nunca mais fará o pote mesmo da sua cabeça, nem o pote real, nem o original das escrituras mentais do feito. Cada pote guarda em si a experiência única de ser feito pote. O pote em sua feitura guarda o sacrifício da lenha que gerou o fogo e tanto o pote quanto as lenhas ao serem queimados libertaram seus gases, suas novas formas materiais e a umidade de suas águas. A argila que antes de pote, aceitava ser batida, sovada, amassada, agora na forma de pote se torna cristal rochoso, perdendo flexibilidade e ganhando rigidez. Esse estrutural que agora se sustenta basicamente em uma única coluna, plana e horizontal que ganha o sentido de fundo do pote e que é base desse todo. As colunas que edificaram o pote estão na mente, nas mãos e no vazio que o oleiro lhe impôs enquanto forma e fazer.

O pote só tem sentido enquanto vazio se puder ser cheio de um sentido de água, vinho, azeite ou grãos. Sem isso, o sentido do pote é seu vazio que se enche de ar. Ou seja, o sentido exterior do pote é a sua forma estética ou plástica. Sem ela não se construiria o sentido interno do vazio do pote. Um pote não é trabalho para qualquer um. Um pote pede experiência do oleiro. Da mente as mãos, dos pés a sensibilidade. O equilíbrio e o domínio no ponto da argila, nem muito mole, nem muito dura, mas no ponto de cada um dos oleiros. O pote guarda em sua forma de pote um jeito de universo aberto, mesmo que com tampa.

Depois de feito, o pote precisa passar pela cura, cheio de água em seu vazio, vai chupando toda a água pelos poros de sua parede. Chupa até a ultima gota, demonstrando um sistema completamente aberto, no qual a argila bebe toda a água. A água vai preenchendo os vazios da parede argilosa do pote até sair para sua superfície, ganhando no vazio do mundo a sua condição de liberdade. Uma experiência que mexe com o sentido da estrutura do pote, tão sólida e fechada em sua plástica.

Vê-se o pote suando, transpirando e vertendo ou minando a fina água que se guardava na concreta, aparente e impenetrável materialidade do pote. Não posso esquecer o quanto o pote é frágil em sua estrutura de barro, na permanente possibilidade de se quebrar, transformando-se em cacos; outra lembrança são os limites impostos pela parede do pote; o espaço do pote no espaço da casa, lócus em que se encontra o pote; a forma do pote em sua base, cintura, pescoço e boca que aceita tudo que lhe queiram colocar, pois é da natureza do pote admitir em seus limites que lhe encham do sentido que queiram desde que consigam lhe enfiar boca adentro, pois sua boca é o limite.

Gosto muito da seguinte cena: uma mulher de estrutura média, pele morena ou queimada pelo sol com uma barrida carregada de lua cheia que carrega em si mais ou menos oito meses e meio de gravidez, subindo uma ladeira com uma criança de mais ou menos um ano e meio escachada em seu quadril esquerdo; uma rodilha de pano e um pote cheio de água em seu vazio. A mão esquerda segura o filho, a direita corta e conta o vazio do tempo dos passos para equilibrar a barriga, o menino escanchado, o pote na rodilha e a rodilha na cabeça. Tudo isso guarda um complexo e dinâmico processo de diferentes e correlacionados equilíbrios. É esse simples equilíbrio que dá sentido ao complexo do pote em seu todo de esferas e círculos em paredes de argila que dão sentido ao vazio que busco como sentido.

A escrita é uma coisa, e o saber, outra. A escrita é a fotografia do saber, mas não o saber em si. O saber é uma luz que existe no homem. A herança de tudo aquilo que nossos ancestrais vieram a conhecer e que se encontra latente em tudo o que nos transmitiram, assim como o baobá já existe potencial em sua semente.” AUTOR DESCONHECIDO).

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