BORGES, JANICE R. P. A Construção Social dos Riscos Sócio-Ambientais no Uso de Agrotóxicos. In: BORGES, J.R.P. A Situação de Vulnerabilidade Sócio-Ambiental em Assentamentos da Reforma Agrária – representações e práticas cotidianas. São Carlos: RiMa Editora/FAPESP. 2008.

CAPÍTULO 4

A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS RISCOS SÓCIO-AMBIENTAIS NO USO DE AGROTÓXICOS

A título de contextualização

O tema deste capítulo teve sua origem em um projeto de pesquisa que deu continuidade a outro projeto, que tinha como objetivo central compor um quadro profundo e abrangente da situação de vulnerabilidade dos agricultores familiares dos Assentamentos Monte Alegre e Guarani, localizados na Região Administrativa de Ribeirão Preto, SP, Projeto FAPESP “Condições de Vida e Qualidade do Saneamento Ambiental em Assentamentos a Reforma Agrária Paulista”/01/12451-0, desenvolvido, entre 2002 e 2005, como projeto de pós-doutorado da autora, junto ao Departamento de Medicina Social, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo.

Os resultados da referida pesquisa apresentaram uma descrição detalhada e um mapeamento dos problemas, a partir das percepções dos agricultores, desenvolvendo um processo interativo entre a existência/inexistência de problemas/agravos, por meio do vivido e do concebido e reforçando as conhecidas desigualdades e privações sofridas pela população rural.

Introdução

O controle de pragas e doenças na agricultura, desde os mais remotos tempos, sempre chamou a atenção do homem. Até poucas décadas atrás, os sistemas de produção agrícola dependiam exclusivamente de tradicionais mecanismos de controle biológico natural – o sistema de rotação de culturas, por exemplo, era utilizado para eliminar insetos, ervas daninhas e doenças, pelo simples fato de quebrar seus ciclos de vida (Altieri, 1992).

Historicamente, a diversidade na agricultura demonstrou ser uma maneira de os agricultores se protegerem das pragas e doenças. Porém, com o advento da agricultura moderna, a estrutura ambiental de vastas áreas foi simplificada, substituindo a biodiversidade natural por um pequeno número de plantas cultivadas. Investiu-se mais, também, na expansão da fronteira agrícola, na monocultura extensiva e no enquadramento técnico da produção agrícola, com a disseminação do uso em larga escala de insumos industriais, entre eles os agrotóxicos (Santandreu et al., 2005).

Criados como armas químicas na Segunda Guerra Mundial, no pós-guerra esses agentes tóxicos foram transformados pela indústria no lucrativo negócio de defensivos agrícolas, garantindo os interesses de agentes financeiros e industriais. Não sendo realizado um levantamento prévio do custo/benefício, para a saúde pública e para o ambiente, do uso desses produtos.

De acordo com Silva e Fay (2004: 30), os principais inseticidas utilizados após a Segunda Guerra Mundial foram os “compostos inorgânicos e/ou inibidores da síntese do ATP, os quais são necessário para a atividade muscular”. Mas, citam-se também os inseticidas que provocam toxicidade neurológica: o piretróide e a nicotina.

A partir de então, os defensivos têm sido o centro de debates entre cientistas, ambientalistas, produtores agrícolas, industriais, comerciantes e governo, por conta dos sérios impactos sócio-ambientais, diretos e indiretos, que podem causar – estudos têm comprovado que a exposição do produtor rural a essas substâncias pode levar a graves danos à saúde, como os de ordem respiratória, gastrointestinal, neurológica, dermatológica, cardiovascular e do aparelho locomotor, dependendo da freqüência e duração da exposição ao agente tóxico (Azevedo e Chasin, 2003; Antle e Pingali, 1994; Soares, 2003; Bull e Hathaway, 1986).

No Brasil, a instituição de mecanismos de controle e proteção ambiental, entre as décadas de 1970 e 1990, se expressa na criação de órgãos ambientais, como a Secretaria Nacional de Meio Ambiente, na estruturação da Divisão de Ecologia Humana e Saúde Ambiental (Minayo e Miranda, 2002), no desenvolvimento de centros de intoxicação e de laboratório de toxicologia humana, como o Sistema Nacional de Toxicologia (SINITOX), e na ampliação da legislação.

No final da década de 1980, foi promulgada a Lei 7802/89, a Lei de Agrotóxicos, que proíbe a comercialização de certos agrotóxicos, além de classificá-los de acordo com sua toxicidade: Classe I (altamente tóxico) e Classe II (extremamente tóxico). Em estudo recente, Garcia et al. (2005) concluem que a Lei dos Agrotóxicos não foi eficaz no aproveitamento de instrumentos previstos na regulamentação da lei, uma vez que produtos de maior toxidade continuam a ser comercializados. Cita-se, como exemplo, o Tamaron, um agente organofosforado, classificado na Classe II, comercializado como acaricida e inseticida, que age por contato, ingestão ou de forma sistêmica e ainda é empregado em várias regiões do país. Em geral, os agrotóxicos organofosforados causam seqüelas neurológicas após intoxicação aguda, isto é, em curto prazo e com rápida absorção do agente tóxico, ou pela exposição crônica, ou seja, a longo prazo e com exposição repetida durante longo período de tempo.

Há anos o SINITOX tem denunciado os relevantes percentuais de trabalhadores intoxicados por agrotóxicos e chama a atenção para a suspeita de subnotificação de casos, pelo fato de os trabalhadores temerem represálias por parte dos empregadores. De acordo com Guivant (2003), 20.000 trabalhadores morrem por ano devido à exposição a pesticidas.

Os danos causados por esses agentes tóxicos também podem atingir, indiretamente, outros membros da comunidade, por meio da ingestão de alimentos e água contaminada, por exemplo. De qualquer forma, a realidade é que o uso de agrotóxicos hoje, no Brasil, se constitui num quadro preocupante. O país, em 2005, era o quarto colocado na lista dos maiores consumidores de agrotóxico do mundo (Preservação, 2005). Hoje, ocupa o segundo lugar.

Os agrotóxicos também são divididos, segundo seus diferentes modos de ação, em três classes: inseticidas (agrotóxicos de importância agrícola e econômica, para proteger as plantas contra o ataque de insetos, destacando-se os arseniais), fungicidas e herbicidas. Há ainda os rodenticidas, os moluscicidas e acaricidas.

Estudos sobre o que leva os agricultores a legitimarem o uso desses agentes tóxicos e sobre as percepções de risco no uso de agrotóxicos, com o intuito de compreender as motivações desses atores sociais, são instrumentos da maior valia para o sucesso de políticas e estratégias voltadas à justiça socioambiental. Citam-se, entre eles, as notáveis contribuições de Guivant (1995, 2003), Freitas (2000) e Peres (2001).

Para Guivant (1995, 2003), do ponto de vista dos agricultores, há a busca por estratégias que sirvam ao interesse de maximizar a produção, para satisfazer o crescente consumo da família e acumulação de capital em nível de propriedade. Já o uso inadequado de agrotóxicos advém do conflito entre o conhecimento prático do agricultor e o dos técnicos, em que os agricultores se sentem com o controle na implementação dos agrotóxicos, “aplicando-os à sua maneira”. Estamos diante de um problema não somente econômico e social, mas também cultural.

Segundo Freitas (2000), esse problema cultural tem como pressuposto o fato de que sociedades diferentes ou diferentes grupos populacionais reagem de maneiras distintas diante de um mesmo risco. Assim, a construção social do risco de cada indivíduo é constituída a partir de sua trajetória de vida e de seus valores culturais. Peres (2001), completando o pensamento de Freitas, destaca que é difícil obter de uma população ‘leiga’ (cujos saberes diferem, em sua origem e construção, daqueles dos avaliadores técnicos que trabalham o conceito) uma definição do que é risco, pois, para esse grupo, risco é muitas vezes sinônimo de perigo. Assim, os riscos podem passar despercebidos pelos usuários, colocando-os numa situação de vulnerabilidade.

Nas Ciências Sociais, o quadro teórico do conceito de risco tem avançado no caminho de considerá-lo uma marca fundamental da sociedade contemporânea e do atual estágio da modernidade – aplicada com larga tradição e dedicação ao desenvolvimento de políticas públicas e com preocupação pelo bem-estar da população sujeita a diferentes tipos de situação de vulnerabilidade.

Assim sendo, risco pode ser definido como a percepção do perigo, da catástrofe possível, existindo apenas em relação a um sujeito que o apreende por meio de representações mentais e com ele convive por meio de práticas específicas. Dessa forma, não haverá risco sem um sujeito que o perceba (Veyret, 2007). Sobre essa constatação, Douglas (1970, 1990) destaca que as posturas e escolhas assumidas pelos sujeitos estão diretamente relacionadas a um âmbito maior: a sociedade. Daí se poder concluir que uma situação de vulnerabilidade de dada população ou grupo social está estreitamente relacionada às desigualdades de distribuição de riscos que afetam desigualmente à população e certos grupos sociais (Beck, 1992).

Dessa forma, pode-se afirmar que a construção de risco é um processo social em que cada sociedade realiza suas combinações sobre medo e confiança (Douglas, 1990).

Diante desse quadro surge a certeza da importância dos estudos de representação social de risco, para a compreensão das motivações que levam os indivíduos a agirem de formas tão diversas diante de uma situação tão delicada/danosa como o uso, armazenamento e disposição final de resíduos de agrotóxicos.

Assim sendo, o objetivo do presente capítulo é analisar a construção social do risco, no contexto da agricultura familiar, quanto ao uso, armazenamento e disposição final de resíduos de agrotóxicos, com o intuito de compreender a situação de vulnerabilidade à qual essas famílias se encontram expostas. Para tanto, tem-se como estudo de caso as famílias dos Assentamento Monte Alegre e Guarani, SP, considerando fatores sócio-demográficos, práticas de trabalho relacionadas ao uso de agrotóxicos, intoxicação humana referida e risco de contaminação ambiental associada a seu uso, armazenamento e disposição final dos resíduos.

A Construção Social dos Riscos no Uso de Agrotóxicos

Percepção das características dos lotes

Está comprovado cientificamente que o uso de agrotóxico em áreas onde ocorre erosão ou inundação intensifica um problema já grave, visto que essas características do ambiente funcionam como elemento potencializador da contaminação dos corpos d’água, via carreamento dos agentes tóxicos pela água das chuvas ou da irrigação, por exemplo.

No Assentamento Monte Alegre, 28% dos lotes têm problemas de erosão e 25,5%, predisposição à inundação, o que aumenta as chances de o local ser contaminado por agrotóxicos. É sabido que o impacto ocorre à medida que os sedimentos e partículas transportam substâncias químicas que são absorvidas em suas superfícies, que, por sua vez, podem contaminar os corpos d’água. A contaminação dos solos e das águas pode se dar tanto por aplicação direta quanto por escoamento (Martim, 1995). No Assentamento Guarani não foram observadas erosão nem áreas propícias à inundação.

Tabela 4.1 Uso de agrotóxicos por área: Assentamentos Monte Alegre e Guarani, SP, 2006.

Uso de agrotóxicos

Área

Monte Alegre

Guarani

N

Percentual

N

Percentual

Sim

163

92,0

103

38,49

Não

17

8,0

72

81,82

Geral

180

100,0

175

100,0

Práticas de trabalho e problemas de saúde associados ao uso de agrotóxicos

Quanto ao uso de agrotóxicos em Monte Alegre, verifica-se que, dos 180 lotes amostrados, em 92% deles se fazia uso desse tipo de produto “em pequena quantidade” e “por poucas horas por dia”, “somente em determinada época do plantio” ou fase “da criação” (Tabela 4.1).

Em 34 lotes, pelo menos um membro da família apresentou problemas de saúde ao entrar em contato com agrotóxicos: neurológico (11%), respiratório (18%), dermatológico (16%), gastrointestinal (23,8%), cardiovascular (5%) e do aparelho locomotor (1,6%) (Tabela 4.2).

Os entrevistados afirmam ter sentido “dor de barriga”, “tontura”, “batedeira no coração”, “coceiras”, “vômito”, “dor de cabeça”, “desmaio”, etc.

Quanto aos produtos utilizados foram citados “veneno de formiga”, DAP, “fungicida granulado”, HANDAPE, “o mais barato”, organofosfato, “pré-emergente”, Decis, DEDRIN-BODOC e Tamaron (produto altamente tóxico que age por contato, ingestão ou de forma sistêmica).

Tabela 4.2 – Problemas de saúde referidos pelos agricultores, por área: Assentamentos Monte Alegre e Guarani, SP, 2006.

Problemas de saúde mais freqüentes referidos pelos agricultores ao lidarem com agrotóxicos

Assentamento

Monte Alegre

Guarani

Sim

Não

Sim

Não

N

Percentual

N

Percentual

N

Percentual

N

Percentual

Respiratórios

8

4,44

172

95,56

3

3,06

95

96,94

Cardiovasculares

2

1,11

178

98,89

1

1,02

97

98,98

Neurológicos

16

8,94

163

91,06

9

9,18

89

90,82

Do Aparelho Locomotor

1

0,56

179

99,44

2

2,04

96

97,96

Digestivo

9

5,00

171

95,00

9

9,18

89

90,82

Dermatológico

2

1,14

173

98,86

6

6,12

92

93,88

No Assentamento Guarani, dos 175 lotes estudados, em 103 agrotóxicos são usados. Em 29 lotes alguém se sentiu mal nas últimas semanas após lidar com agrotóxico. Os entrevistados relataram problemas respiratórios (3,0%), cardiovasculares (1%), neurológicos (9%), do aparelho locomotor (2%), digestivos (9%) e dermatológicos (6%) (Tabela 4.2).

Uso de equipamento de proteção individual

Tabela 4.3 – Tipo de proteção utilizada, por área: Assentamentos Monte Alegre e Guarani, SP, 2006.

Fazem uso de proteção?

Área

Monte Alegre

Guarani

N

Percentual

N

Percentual

Sim

117

65,00

47

26,86

Não

49

27,23

56

32,00

NSA

14

7,77

72

41,14

Geral

180

100,00

175

100,00

O único método utilizado para a pulverização dos agrotóxicos é o manual, ou seja, tanque da bomba carregado nas costas do aplicador. Do total de lotes que afirmaram utilizar agrotóxicos no Monte Alegre, em 49 não se usa proteção individual (Tabela 4.3). E do total dos entrevistados que disseram utilizar algum tipo de proteção (6,5%), foram citados como equipamentos de segurança: macacão impermeável (4,8%), luvas (29,5%), botas impermeáveis (44%), máscara (36%), camisa de mangas compridas (80,4%), calça comprida (87%) e lenço (27%) (Tabela 4.4). Muitos entrevistados afirmaram não utilizar proteção porque “não gosta”, “usa pouco veneno”, “o local de trabalho é quente e a proteção esquenta muito”, “não tenho dinheiro para comprar”, etc.

Tabela 4.4 – Uso de equipamentos de proteção: Assentamentos Monte Alegre e Guarani, SP, 2006.

Equipamentos utilizados

Assentamento

Monte Alegre

Guarani

Sim

Não

Sim

Não

N

Percentual

N

Percentual

N

Percentual

N

Percentual

Macacão

6

4,88

117

95,12

10

20,41

39

79,59

Luvas

36

29,51

86

70,49

26

55,77

23

44,23

Botas

54

44,26

68

55,74

15

30,61

34

69,39

Máscara

44

36,36

77

63,64

22

44,90

27

55,10

Camisa de mangas compridas

99

80,49

24

19,51

28

57,14

21

42,86

Calça comprida

107

86,99

16

13,01

31

63,27

18

36,73

Lenço

34

27,20

91

72,80

15

30,61

34

69,39

No Assentamento Guarani, em 103 dos 175 lotes os entrevistados afirmaram utilizar agrotóxicos, porém, em apenas 47 deles utiliza-se algum tipo de proteção individual (Tabela 4.4). Foram citados como proteção: macacão impermeável (20,4%), luvas (55,7%), botas impermeáveis (30,6%), máscara especial (45%), camisa de mangas compridas (57%), calça comprida (63%), lenço (30,6%). Destaca-se o fato de os assentados utilizarem “proteções” que não têm efeito na prática, mas que em suas representações do que venha a ser proteção são tidas como eficazes.

Armazenamento de agrotóxicos

O armazenamento dos agrotóxicos é também de suma importância para a gestão ambiental e uma questão de saúde pública. Esses agentes químicos armazenados de forma incorreta ou em ambientes suscetíveis, como, por exemplo, próximos a corpos d’água, podem provocar danos gravíssimos.

Hoje, é fato a preocupação com os impactos ambientais causados pela má administração de resíduos no passado. Na literatura específica e em manchetes de jornais e revistas são freqüentemente relatados tristes casos de impactos sócio-ambientais irreversíveis.

Nos assentamentos estudados foram observadas as seguintes formas de armazenamento de agrotóxicos. Em Monte Alegre: em depósitos longe da residência (57%), em depósitos próximos da residência (29,7%), em depósitos longe de corpos d’água (1%) e na residência (3,5%) (Tabela 4.5).

Já no Assentamento Guarani os agrotóxicos são armazenados em depósitos longe da residência (39%), em depósitos próximos da residência (32%), em depósitos longe de corpos d’água (0%) e na residência (9%).

Observa-se que nos dois assentamentos a estocagem em depósitos longe da residência é a prática mais usual. Porém, é necessário conhecer o tipo de construção usada e como esses agentes químicos se encontram armazenados em seu interior.

Tabela 4.5 – Formas de armazenamento das embalagens de agrotóxicos, por área: Assentamentos Monte Alegre e Guarani, SP, 2006.

Formas de armazenamento

Assentamento

Monte Alegre

Guarani

Sim

Não

Sim

Não

N

Percentual

N

Percentual

N

Percentual

N

Percentual

Depósitos longe da residência

95

57,23

71

42,77

38

39,58

58

60,42

Depósitos próximos à residência

50

29,76

118

70,24

32

32,65

66

67,35

Depósitos próximos aos corpos d’água

2

1,19

166

98,81

0

0,00

98

100,00

Depósitos longe dos corpos d’água

22

13,10

146

86,90

0

0,00

98

100,00

Na residência

6

3,57

162

96,43

9

9,18

89

90,82

A céu Aberto

1

0,60

167

99,40

10

10,20

88

89,80

Outros

18

10,71

150

89,29

12

12,24

86

87,76

Disposição final dos resíduos agrotóxicos

O destino dado às embalagens vazias é também uma externalidade séria. Sabe-se que as embalagens, mesmo quando vazias, continuam representando riscos sócio-ambientais.

Até bem pouco tempo atrás, o destino final desses resíduos eram os cursos d’água e os terrenos. O solo era tido como um filtro. Hoje, sabe-se que o solo é um reservatório de produtos químicos, interferindo diretamente nos outros compartimentos ambientais (Carvalho, 1980).

Sendo assim, a disposição dos resíduos sem os cuidados necessários pode poluir as águas superficiais e subterrâneas presentes na área de despejo e adjacências, contaminando poços e podendo causar intoxicações.

Pelas declarações dos entrevistados, observa-se que a prática de queimar os resíduos tornou-se uma “tradição” entre os assentados, assim como a de enterrar as embalagens vazias. Por conta desses sumidouros naturais, cria-se a ilusão de que o que não se pode mais ver não oferece mais perigo/risco.

Tabela 4.6 – Disposição final dos resíduos/embalagens: Assentamentos Monte Alegre e Guarani, SP, 2006.

Resíduos de agroquímicos

Assentamento

Monte Alegre

Guarani

Sim

Não

Sim

Não

N

Percentual

N

Percentual

N

Percentual

N

Percentual

Incinerados

82

48,81

86

51,19

60

61,22

38

38,78

Enterrados

43

25,60

125

74,40

18

18,37

80

81,63

Jogados em água corrente

1

0,60

167

99,40

1

1,02

97

98,98

Outros

55

32,74

113

67,26

19

19,39

79

80,61

No Monte Alegre 48,8% dos resíduos são incinerados, 32%, devolvidos à loja ou postos autorizados e 25,6% são enterrados. Já no Guarani foram observadas as seguintes práticas: incinerar (61%), devolver à loja ou postos autorizados (19%) e enterrar (18%) (Tabela 4.6).

Observa-se, por meio dos dados apresentados, o grau de risco a que esses trabalhadores se encontram expostos.

Perfil dos usuários de agrotóxicos

Por meio da análise de correspondências múltiplas, Gráficos 4.1 e 4.2, observa-se que o uso de agrotóxicos é uma prática comum no Assentamento Monte Alegre. Entre esses usuários, em geral, varia o nível de escolaridade (antigo curso primário incompleto, ensino fundamental incompleto, ensino fundamental completo, ensino médio completo) ou são analfabetos. Residem em domicílios satisfatórios, quanto à metragem da construção, e têm à disposição hospitais públicos, Programa de Saúde da Família e equipe e posto de saúde. A renda desses assentados varia entre nenhuma, menos de um salário mínimo e um salário mínimo.

Gráfico 4.1 – Características dos usuários de agrotóxicos, por área de estudo, segundo metragem da moradia, atendimento à saúde, tipo de armazenamento do lixo doméstico, escolaridade e renda.

Variáveis incluídas nos Gráficos 4.1 e 4.2

Metragem

31NS = condições precárias e/ou insastifatórias; 31S = condições satisfatórias; 31MS = condições mais que satisfatórias. OBS. Para as variáveis abaixo, o código (número) seguido de S representa que a moradia apresenta a característica; quando seguida de N, não a apresenta. Por exemplo: 511S = tem hospital; 511N = não tem hospital; Atendimento à Saúde: 511 = hospital; 512 = centro de saúde; 513 = posto de saúde; 514 = farmácia; 517 = posto saúde da família; Uso de Agroquímicos : 61 = uso de agrotóxico no lote; lixo armazenado em casa; 381 = recipiente fechado; 382 = recipiente aberto; 383 = não armazena em casa; 384 = queima; Escolaridade: analfabeto; primário incompleto; primário completo; primeiro grau incompleto; primeiro grau completo; segundo grau completo; superior; outro. Renda: nenhuma; menos de 1 salário mínimo; 1 salário mínimo; 2 salários mínimos; mais de 2 salários mínimos.

Variáveis Suplementares : Área: ARA = Araraquara ; PRA = Pradópolis

Gráfico 4.2 – Características dos usuários de agrotóxicos, por área de estudo, segundo metragem da construção, tratamento dado à água consumida, renda.

Conclusões

Por meio das reações físicas citadas pelos entrevistados, associadas ao uso de agrotóxicos, observou-se uma proporção preocupante de agricultores rurais intoxicados, com destaque para o Assentamento Monte Alegre. Como a amostra foi aleatória e, por isso, representativa da população estudada, a situação, alarmante, reforça a necessidade de estudos mais aprofundados, com coleta de amostras de sangue dos assentados, de água e de solo, nas áreas de estudo, para detecção de resíduos de agrotóxicos. O resultado das análises é de grande importância pelo fato desses produtos terem efeito acumulativo, o que pode levar os trabalhadores a desenvolverem a forma crônica da intoxicação, assim como à contaminação dos recursos naturais.

Outro aspecto agravante é o fato da agricultura familiar empregar o trabalho de crianças e adolescentes da família ou pelo simples fato desses grupos sociais ficarem expostos aos produtos no momento das aplicações e, ainda , pela alimentação.

É possível afirmar que o aumento de risco de intoxicação está, também, associado ao baixo nível de escolaridade dos assentados. Por outro lado, a literatura tem destacado o fato de que programas de qualificação para o trabalhador rural são de extrema relevância, pois é positivo o impacto dessa iniciativa em relação aos índices de doenças provocadas pela intoxicação por agrotóxicos, independente da escolaridade da clientela (Lyznicki, 1997). Os meios de comunicação são também importantes canais para esses programas.

O item “armazenagem” mostrou que praticamente metade dos assentados entrevistados tem consciência dos riscos/danos que os agrotóxicos podem causar, por isso os mantêm acondicionados em depósitos longe das residências. Porém, há a outra metade, que opta por práticas inadequadas, pondo em risco a saúde sócio-ambiental.

A decisão de incinerar e/ou enterrar os resíduos/embalagens permite observar a construção do pensamento desses trabalhadores, bem como sua percepção de risco, demonstrando que, erroneamente, associam o “fim” do perigo à “invisibilidade” das embalagens e dos “restos” de produto. É o mesmo caso daqueles que preferem jogar os resíduos nos corpos d’água, como se fossem sumidouros naturais que dessem fim aos efeitos deletérios.

A partir dos resultados discutidos até agora, é possível afirmar que para esses entrevistados existe uma hierarquia de riscos, a qual é modificada de acordo com o ‘estado’ em que se encontra o produto agrotóxico, ou seja, como se os produtos ainda em condições de uso representassem um perigo maior do que seus resíduos, daí a prática de queimar e enterrar. Nota-se que a percepção de risco, neste caso, está associada à combinação de perigo/medo e confiança e que a hierarquia de riscos depende de valores culturais – haja vista o percentual daqueles que devolvem as embalagens em concordância com as normas técnicas estabelecidas, isto é, nas casas especializadas.

Assim sendo, podemos afirmar que a construção da percepção de risco desses trabalhadores está associada a símbolos encontrados em fatos e experiências de seu cotidiano.

No tocante ao uso de equipamento de proteção individual, sabe-se que, na prática de pulverização manual de agrotóxicos, o equipamento considerado ideal é o macacão impermeável, acompanhado de botas e luvas de borracha e de máscara com filtros especiais para produtos químicos específicos. Entretanto, observou-se que isso dificilmente ocorre nos assentamentos. Do ponto de vista da percepção de risco, apesar de reconhecerem os agrotóxicos como “perigosos” e afirmarem se proteger, a maioria acha que está segura usando calças compridas, camisa de mangas longas, botas (de borracha ou não) e lenço cobrindo o nariz e a boca. Por outro lado, parcela considerável declara que a proteção ideal extrapola seu poder aquisitivo ou é muito quente para nosso clima. E ainda há aqueles que acreditam que, por utilizarem pequena quantidade dos produtos, encontram-se livres de contaminação/intoxicação.

Conclui-se, assim, que há de três grupos distintos de usuários: aqueles que reconhecem os agrotóxicos como nocivos e se protegem, mas não o fazem adequadamente por falta de informação; aqueles que reconhecem os agrotóxicos como nocivos, mas se ‘arriscam’ a não se proteger por motivos que vão desde de ordem econômica a desconforto físico; e, por fim, o grupo composto por pessoas totalmente desinformadas e desprotegidas.

Em síntese, essas conclusões apontam para o alto grau de risco de intoxicação/contaminação humana e ambiental na área, assim como ressaltam a necessidade de estudos toxicológicos aprofundados, de campanhas de informação e de cursos de qualificação desses agricultores familiares, sendo ainda hoje necessário investir no processo de educação e saúde e busca de técnicas alternativas.

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