A caracterização e o papel dos costumes urbanos do Rio de Janeiro nos romances de Manuel Antônio de Almeida e Machado de Assis

A caracterização e o papel dos costumes urbanos do Rio de Janeiro nos romances...

(Parte 1 de 2)

Maria Célia Azevedo da Silva[1]

Cite este artigo: SILVA, Maria Célia Azevedo da. A caracterização do papel dos "costumes" urbanos do Rio de Janeiro nos romances de Manuel Antônio de Almeida e Machado de Assis. Revista Habitus: revista eletrônica dos alunos de graduação em Ciências Sociais – IFCS/UFRJ, Rio de Janeiro, v. 3, n. 1, p.6-75, 30 mar. 2006. Anual. Disponível em: <w.habitus.ifcs.ufrj.br>. Acesso em: 30 mar. 2006.

Resumo: Este ensaio pretende mostrar o papel intrínseco dos costumes cariocas do século XIX na composição da forma romanesca. Para tal, após a conceituação do estilo “romance de costumes”, far-se-á um breve histórico dos costumes cariocas nos anos oitocentos, seguida de uma abordagem dos mesmos em romances específicos e de uma reflexão sobre o papel dos costumes na forma dos mesmos.

Palavras-chave: sociologia da literatura, análise sociológica, romance, costumes, dinâmica social, crítica literária.

1. O conceito

romance oitocentista brasileiro, sobretudo o categorizado “de costumes”, constituiuse num instrumento de descoberta e interpretação social, muito condizente com a demanda expressional do século XIX. Segundo CANDIDO (1964:109), o panorama do nacionalismo literário completou-se com a inserção do estilo realista na prosa romanesca, que resultou em uma realidade elaborada de forma comparativa, analítica, objetiva, extraída da observação direta (realidade esta, não transposta, da sociedade, como um “documento” e sim reconstruída na ficção), formando um sistema imaginário e duradouro, que em muito revelou a dinâmica social brasileira, com todas as suas contradições.

O realismo, enquanto método de composição, com seu efeito desmistificador, pautado nos acontecimentos da sociedade, constitui os próprios enredos dos romances realistas. Assim, a abordagem de costumes, hábitos, tipos sociais, expressões de cotidianidade, relações sociais, acontecimentos históricos, em relatos particulares, intrínseco à composição de personagens específicos, locais (o que denota uma peculiaridade característica do romance brasileiro), revelam uma dinâmica social, manifesta pela coerência destas características com a narrativa, promovendo, como bem colocou CANDIDO, o ajustamento ideal entre forma literária e o problema humano que ela exprime (p. 110). Eis, portanto, o conceito de romance de costumes: o estudo das relações humanas em sociedade através do levantamento de acontecimentos, tipos soci-

Revista HabitusVol. 3 - Nº 1 - Ano 2005 w.habitus.ifcs.ufrj.br 1 ais, usos, costumes, convenções, paisagens, cenas, épocas, lugares, quer no tempo ou no espaço, produzindo um amplo conjunto de realidade que, uma vez observada, é transformada mediante as posições intelectuais e afetivas do autor, originando assim enredos imaginários, abundante em conflitos tanto entre indivíduo e grupo quanto entre o autor e os padrões sociais.

2. Brasil em tempos modernos – miscelânea de costumes

ARRUDA (2002) traça um perfil do Brasil e, sobretudo do Rio de Janeiro do século XIX, mostrando como as características dessa modernidade culminaram num estilo próprio da prosa romântica. Com a vinda de D. João VI (1808) e o estabelecimento da Corte Imperial no Rio de Janeiro, grandes contrastes foram ressaltados entre a vida da população fluminense e a corte. Apesar dos transtornos políticos, que culminaram na transformação total da administração imperial, foi inaugurada uma monarquia “original”, pois a colônia passara a sediar a capital do Império. Apesar do choque cultural e social iniciais, a corte foi bem recepcionada, alegrando-se, sobretudo com a presença do rei. A transferência da família real mudou a aparência física da cidade, principalmente no âmbito cultural. Surgiram os primeiros teatros, bibliotecas, academias literárias e científicas, jornais, com vistas a atender às necessidades da corte e da burguesia que nascia no entorno da cidade.

Ao passar à condição de Reino Unido, houve a incorporação de rituais que envolviam cerimônias, missas, festas religiosas e uma etiqueta real, com fins de reprodução, na cidade, da vida da Corte portuguesa, engrandecendo uma situação no mínimo paradoxal, pois esse encontro com a nova civilização americana provocou muitas influências na composição cultural a qual pretendia-se reproduzir. A vinda da família real trouxe o aprimoramento das festas populares, aparecendo o desfile de “carros de idéias”, um prenúncio do que mais tarde se configuraria o carnaval.

As mudanças trazidas pela Corte portuguesa acarretam em uma série de costumes, ao mesmo tempo originais e ambíguos. A discrepância entre os hábitos rurais e urbanos vão coexistir no espaço comum da cidade. Esse antagonismo foi marcado pelo duplo domicílio da classe dominante dos grandes proprietários fluminenses e dos fazendeiros rurais, que valorizavam a vida no campo, mas precisavam manter-se “atualizados”, predominando posteriormente na vida política da capital. O cotidiano familiar transplantava para a cidade velhos hábitos do campo como: descuido com o corpo e aparência, indolência para o trabalho doméstico (essas famílias possuíam animais e escravos para auxiliar no serviço doméstico; no século XIX, toda vida urbana da capital dependia exclusivamente de mão de obra escrava), refeições fartas, com horário de almoço às 9 horas da manhã e jantar às 16:30 horas, entre outras.

A população pobre da cidade habitava no Centro, em cortiços, e a classe dominante em chácaras muito confortáveis, sobretudo em bairros da Zona Norte e Sul da cidade, no alto dos morros. A distribuição sócio-espacial da cidade seria modificada posteriormente, com a expulsão dos pobres dos cortiços e a condução das elites à Zona Sul. A vida social da cidade era marcada por distrações pequenas, porém tradicionais: passeio à Tijuca, piqueniques no Jardim Botânico e degustação de feijoada em São Cristóvão.

Revista HabitusVol. 3 - Nº 1 - Ano 2005 w.habitus.ifcs.ufrj.br 2

As avenidas centrais eram locais de passeio à tarde; a fidalguia costumava circular pela

Rua do Ouvidor, que nesta época concentrava o que de melhor havia na moda de luxo das vitrines francesas. A Rua do Ouvidor era o lugar do desfile dos elegantes e também era uma espécie de “gazeta viva”, lugar de “boa roda”, onde circulavam toda sorte de notícias, invenções e prosas.

As visitas também eram (e continuam por ser) um traço marcante na sociabilidade brasileira. Instalavam-se os amigos para passar o dia, apreciar as refeições ou encontravam-se depois do jantar para conversar; também havia os convites para saraus e festas familiares variadas.

ARRUDA (2002), afirma que a modernidade do século XIX no Brasil foi marcada pela procura da auto-afirmação nacional, enfatizando-se a definição de uma identidade própria, debatendo o esforço totalizador da nossa realidade – o da experiência acumulada. Neste sentido, no que diz respeito à literatura, o romance realista, de costumes urbanos, ao contrário do romance naturalista, buscou essa identidade através da abordagem das contradições entre a cultura burguesa, dominante, e a dos humildes, populares, revelando estas contradições (que coexistiam) como determinantes e estruturantes na formação social brasileira. O romantismo se revigorou pelas experiências brasileiras, tanto no campo intelectual quanto no campo cultural, sob o ideal da unidade nacional, reavivando o binômio tradicional colonial, homem-terra.

O Brasil tem culturas, costumes, língua e tradições unificadas, embora nãohomogêneas; porém, no século XIX, houve uma hegemonia da cultura carioca, fenômeno explicado por congregar no Rio de Janeiro, diversos grupos heterogêneos. O nacionalismo brasileiro moderno surgiu a partir da instalação da Corte portuguesa na cidade, fazendo desta a capital do Império; continuou pelo Segundo Reinado, adentrando pelo período republicano, sempre com forte influência européia, principalmente francesa.

O romance de costumes urbanos no século XIX, possui como “marco” das suas abordagens e representações sociais, o advento da burguesia. CANDIDO (p.113), caracteriza essa classe como um novo estrato formado nas cidades (por fazendeiros imigrantes, comerciantes enriquecidos e pelo desenvolvimento da burocracia), de hábitos cultos, curiosos, que em contraste com a ignorância e rusticidade da elite agrária, criou problemas de adequação da conduta, passando a determinar as condições objetivas (e, portanto, subjetivas) para o desenvolvimento da análise e o confronto entre o indivíduo e a sociedade.

Uma peculiaridade brasileira no século XIX consistiu na combinação de métodos aristocráticos de governo com princípios democráticos, isso apesar do poder centralizador do Imperador. Esta contradição explícita na condução governamental constitui-se apenas como um exemplo de muitas outras que por aqui se formaram, devido à coexistência de uma ordem patrimonialista, burocrática, oriunda do processo de ocupação e colonização portuguesa, com a influência dos padrões europeus baseados nos ideais de igualdade, fraternidade e democracia tão em voga no período. Neste sentido, não houve uma transposição literal das características européias para a nossa realidade (embora a imitação destas fosse um traço notável, mais no âmbito cultural do que no político), pois, ao esbarrar num modo de vida singular, marcado, sobretudo pela ideologia do favor, pela indolência (repulsa ao trabalho regular) e pelo patrimonialismo estatal (con-

Revista HabitusVol. 3 - Nº 1 - Ano 2005 w.habitus.ifcs.ufrj.br 3 cessão de cargos públicos e políticos), obtemos um cenário único ao desenvolvimento de nosso gênero romanesco que, de igual modo, consegue transpor a existência de “cópia” do romance europeu, passando a revelar traços realmente nacionais.

Com fins a buscar esses traços que, sobretudo nos ajudem a compreender um pouco da condição humana dos nossos antecessores dos oitocentos (do qual temos muito hoje e, creio, sempre teremos) passemos, portanto, à análise de dois romances brasileiros, que revelam uma dinâmica peculiar da nossa sociedade, quase que de cunho psicológico, através da abordagem dos costumes de duas classes cariocas do século XIX: a alta burguesia, em Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis e a pequeno-burguesa em Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida.

3. Memórias póstumas de Brás Cubas – os costumes da “gente abastada”

Esse magnífico romance de Machado de Assis, ao mostrar a “frívola” vida do fidalgo

Brás Cubas, nos surpreende ao revelar os conflitos ideológicos e morais que a burguesia sofria e que não eram problematizados e tão pouco requeriam atenção da Coroa. O mundo de Brás Cubas incluía as mais contundentes características de um Rio de Janeiro elegante, sobretudo na prática de costumes condizentes com sua condição social. Vejamos:

Sua adolescência fora toda marcada pela realização dos caprichos e desejos, sobretudo amorosos, que seu pai orgulhosamente realizava; constituiu-se num homem elegante, um verdadeiro gamenho, que utilizava os últimos figurinos da moda européia, sempre muito preocupado com a aparência, um verdadeiro janota. Como todo rapaz abastado, deveria ser devidamente “encarreirado” e, portanto, formou-se bacharel em Coimbra, com vistas a seguir uma carreira marcada por duas características que se fundiam numa só: casamento e deputação. Sim, todo fidalgo deveria almejar a carreira política.

Quanto aos relacionamentos, embora se deixando enamorar por Marcela, moça leviana e interesseira, e posteriormente manter um “flerte” com Eugênia, de origem humilde, coxa e bastarda, sua consciência de “homem de posses e de prestígio” o fez ouvir as recomendações de seu pai e concentrar seu interesse numa típica moça da elite. Esta seria Virgília, uma daquelas, suponho (por serem estas as características das mocinhas abastadas de então), que possuía boa formação na leitura e na escrita, falava francês, era exímia nos afazeres de agulha, leitora de romances entre outras qualidades.

Quanto à vida social, era marcada por festas, concertos, bailes (pelos quais se tornou um exímio dançarino), saraus e teatros, onde cultivava suas relações de amizade e conveniência e se atualizava, em conversas políticas e intelectuais, por onde conseguia assunto para seus artigos, encaminhados à periódicos da cidade. Quanto à religiosidade, possuía “valores cristãos” – ressaltando aqui que os fazia notar – presente em práticas filantrópicas como no caso da devolução da moeda de ouro que encontrara (fato que tornou público e notório, ao fazê-lo saber a cidade

Revista HabitusVol. 3 - Nº 1 - Ano 2005 w.habitus.ifcs.ufrj.br 4 por meio de carta pública ao governo) e da esmola generosa que deu a Quincas Borbas, por exemplo.

Porém, ao fim de seu relato póstumo, deixou clara sua frustração por ter conduzido sua vida em um caminho que deu no “lugar nenhum”. Tantos desejos, porém muitos conflitos, contribuíram para que sua existência se resumisse num vazio, produto da incongruência entre os intensos desejos e a falta de objetivos. SCHWARZ (1987: 115-125), atenta para um traço marcante nesta composição de Machado de Assis, que se constitui num aspecto consideravelmente psicológico da realidade, neste exemplo particular, da elite brasileira: a volubilidade.

O cálculo egoísta de Brás Cubas está na conjugação da filantropia (que revelava seus traços mais sensíveis como amor e generosidade) e do lucro (manter-se em posição privilegiada); porém, o mesmo esconde um desejo de notoriedade, pautado numa carência pessoal; notoriedade esta que a abastança financeira não lhe deu, não no sentido de representação externa do país, posto que era o que realmente importava aos padrões políticos de então. A necessidade de reconhecimento pelo “mundo civilizado” constituía-se num conflito quando a busca por esse resultava na acomodação aos padrões burgueses brasileiros que, ao contrário de outras nações de onde se tentava “copiar” a civilidade, ainda estava pautada em relações escravocratas, o que ocasionava um certo “desprezo” por esses padrões. Neste sentido, como bem pontuou SCHWARZ, a transposição literária em Memórias dá-se pelo "despeito objetivo, que era da situação histórica, uma incongruência ideológico-moral imposta pela atualidade aos brasileiros esclarecidos, incluída neste último adjetivo, a implicação de classe que ele trazia" (p.125).

4. Memórias de um sargento de milícias – os costumes da “pequena burguesia”

Manuel Antônio de Almeida escreveu um romance profundamente representativo do

Brasil. Ao mostrar a classe média, suprimindo o trabalho e a classe dirigente, revela aspectos de um segmento social composto pelo pequeno empregado público, os pertencentes às patentes baixas da carreira militar, os pequenos comerciantes, os caixeiros e os remediados em geral. ARRUDA (2002), ao citar SODRÉ (p. 75), afirma que o surgimento de uma pequena burguesia consiste em uma peculiaridade do desenvolvimento histórico brasileiro muito importante, tanto do ponto de vista político, quanto cultural. Em relação ao aspecto político, esta ansiava por posições, partilhavam dos mesmos desejos da alta burguesia; quanto ao cultural, compartilhavam dos gostos e valores estéticos importados do ocidente europeu. É neste contexto que a classe representada por Manuel Antônio de Almeida se encaixa, no contexto do romance, uma vez que, por não ter os mesmos privilégios da classe abastada, irá incorrer em comportamentos que visam, ao mesmo tempo, angariar uma possível ascensão social, e conseguir isenção, ou seja, manter-se impune à transgressão da ordem, tudo por meio das relações de favor e amizade (e atitudes infames como o furto), que caracterizam a maior parte das “posses”, de qualquer gênero, dos personagens do romance. Não se trata aqui de uma mudança significativa de vida por meio do trabalho e sim pela esperteza e flexibilidade nas relações, atitudes e fugas, atributos peculiares, sobretudo ao protagonista do romance, Leonardo Filho, que, ao final, como que “por

Revista HabitusVol. 3 - Nº 1 - Ano 2005 w.habitus.ifcs.ufrj.br 5 acaso”, se casa com a mulher “desejada”, além de obter um posto superior nas milícias e herdar cinco heranças.

Os costumes caracterizados na obra estão presentes na religiosidade “exacerbada” das personagens, religiosidade esta rigorosamente praticada, sobretudo mediante a certeza da presença dos fidalgos que ocupavam os lugares de honra nas missas e procissões, bem como uma certa recorrência à feitiçaria, caracterizando uma mistura religiosa, praticada conforme a necessidade, como atesta o capítulo 4 intitulado Fortuna. Concluindo, a prática cristã dava-se mais por conveniências sociais e a segunda, por interesse e, por incrível que pareça, era onde estava a “fé”. Há também a mancebia, ou seja, relações de matrimônios não formais, como a de Leonardo Pataca e a Maria, e posteriormente, a Cigana.

O trabalho não era uma atividade praticada por todos os livres. Muitos viviam de malandragem, furtos e parasitismos. Outro aspecto relevante é a caracterização de uma personagem que vive à margem da sociedade: o Chico Juca, bem como a ridicularização e redução ao nível dos demais do mestre-de-cerimônias, que ocupavam elevada posição social, um dos poucos representantes desta no romance.

Os personagens fazem o leitor acreditar que o que realmente importa é o que lhes parece ser e que, em se tratando de valores, as provas de suas atitudes não são mais que meras razões. Para eles, os valores não se provam, mas antes, se aceitam ou rejeitam. Esse “tratamento” dado aos fatos parece ser estrutural no desenvolvimento do enredo, que movido por confusões e imprevistos, sem julgamento moral, faz com que as conseqüências das ações mal sucedidas tornem-se simplesmente cômicas. Embora essas situações sejam quase sempre muito alegóricas, são também estruturadas no realismo, calcada na representação dos costumes e cenas do Rio dos tempos do rei. Assim, procurando a partir dos costumes populares e das relações entremeadas pelo interesse das personagens, num “mundo sem culpa”, o romance revela uma dinâmica social muito peculiar, caracterizada pela tolerância corrosiva e a disposição acomodatícia. SCHWARZ (i1987: 133).

5. A forma como elemento estruturante da dinâmica social brasileira

Neste sentido, podemos concluir que os costumes constituem elementos estruturantes da forma dos romances, sendo esta mesma que sintetiza a dinâmica social brasileira, uma síntese profunda do movimento histórico (SCHWARZ: 135). Machado de Assis (1873), salientou a importância da literatura brasileira, sobretudo dos seus autores, alimentarem-se dos assuntos que lhe oferece sua região (1957: 135). Porém, para que as obras literárias não fossem empobrecidas, as características sociais, seus assuntos e acontecimentos, quer no tempo ou no espaço, deveriam estar implícitas num sentimento íntimo, que torne o autor homem de seu tempo; ou seja, devem se destacar pela originalidade “imaginativa”, por uma liberdade de criação que poderia mostrar a identidade nacional como um processo vivo de infinitas virtualidades, sentido, concebido e reinventado a qualquer propósito (SCHWARZ: 137). Neste sentido, podemos arriscar a afirmação de que Machado de Assis, enquanto crítico literário e romancista, foi o primeiro

Revista HabitusVol. 3 - Nº 1 - Ano 2005 w.habitus.ifcs.ufrj.br 6 a indicar a importância da abordagem da realidade brasileira estar no âmbito da forma e não apenas no conteúdo.

“O romance brasileiro não está isento de tendências políticas e geralmente de todas as questões sociais (...). Esta casta de obras conserva-se aqui no puro domínio da imaginação, desinteressada dos problemas do dia e do século, alheia às crises sociais e filosóficas. Seus principais elementos são, como disse, a pintura dos costumes, a luta das paixões, os quadros da natureza, alguma vez o estudo dos sentimentos e dos caracteres; com esses elementos, que são fecundíssimos, possuímos já uma galeria numerosa e a muitos respeitos, notável” (ASSIS, 1957, p. 139-140).

Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, os costumes compõem o “pano de fundo” da forma do romance, construindo uma crônica do Rio de Janeiro do século XIX; porém a dinâmica social está, como bem observou SCHWARZ (p.119), nos movimentos oscilantes pelos quais o protagonista passa, fruto de sua volubilidade que intercala seu amor-próprio, com os desejos de atenção e reconhecimento que o acometiam, constituindo, este movimento, o princípio formal do romance; tudo o mais é submetido a este movimento. Neste enredo em particular, a volubilidade de Brás Cubas representa, no procedimento literário em questão, a inconstância da burguesia, à qual a ideologia da classe inevitavelmente está submetida. Na combinação de elementos satíricos e torpes, conjuga-se o desprezo pela ordem burguesa e a vontade de pertencer a ela. Estes são os princípios configurativos do romance. Neste sentido, SCHWARZ, conclui:

“(...) se é justa a nossa observação, a lei da prosa machadiana seria algo como a miniaturização ou o diagrama do vaivém ideológico da classe dirigente brasileira, articulada com o mercado e o progresso internacionais, bem como com a escravidão e o clientelismo locais. Um vaivém que resume um vexame pátrio, mais não se esgota nele, pois diz respeito também à história global de que o mesmo Brasil é parte efetiva, ainda que moralmente condenada: a ordem burguesa no seu todo não se pauta pela norma burguesa” (p. 124-125).

CANDIDO (1993), no seu profundo ensaio A Dialética da Malandragem, concluiu que a dinâmica social empregada em Memórias de um Sargento de Milícias é intrínseca ao correlativo formal do mesmo, caracterizado pela transição das personagens pelas esferas polares da ordem e da desordem. Leonardo Filho, protagonista, desde cedo é caracterizado como “malandro”, aquele que sempre escapa a uma transgressão e faz de tudo para se beneficiar, seja de maneira lícita ou ilícita. Não há polarização e nem juízo de valor empregados nesta dinâmica; há uma combinação de ordem e desordem no sistema de relações das personagens, sem redução a nenhuma das duas esferas. Os costumes populares aqui retratados, o clima cômico e elementos folclóricos, ainda que restritos a abordagem da classe pequeno-burguesa, constituem elementos estruturantes dessa dialética, que corresponde à própria forma do romance.

Os dois romances diluem a individualidade na categoria intuição, o que os aproxima ao menos neste sentido. No mais, embora tratando de universos sociais opostos, lado a lado dão conta de uma compreensão global da sociedade dos oitocentos.

Revista HabitusVol. 3 - Nº 1 - Ano 2005 w.habitus.ifcs.ufrj.br 7

“São dois exemplos desencontrados, modos de ver incompatíveis, mas escolhido com propósito de indicar a generalidade social de uma certa experiência. Ambos comportam o sentimento da contradição entre a realidade nacional e o prestígio ideológico dos países que nos servem de mo- delo” (SCHWARZ: 30).

[1] Maria Célia Azevedo da Silva: Graduanda do 7º período do curso de Ciências Sociais da UFRJ. Trabalho de conclusão da disciplina Sociologia da Literatura, sob orientação do Professor Doutor André Botelho.

(Parte 1 de 2)

Comentários