Não Diferem o Historiador e o Poeta ... O Texto Histórico como Instrumento e Objeto de Trabalho - Angélica Chiappetta

Não Diferem o Historiador e o Poeta ... O Texto Histórico como Instrumento e...

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CHIAPPETTA, Angélica - “‘Não Diferem o Historiador e o Poeta ...’ O Texto Histórico como Instrumento e Objeto de Trabalho” − Língua e Literatura, 2, 1996, p. 15-34. Departamentos de Letras - Universidade de São Paulo

" NÃO DIFEREM O HISTORIADOR E O POETA"

RESUMO: Hoje em dia a História está muito interessada em discutir as relações entre a apresentação de fatos verdadeiros e a construção de narrativas. Na Antigüidade Greco-Romana, a História era um gênero de discurso, assim, sua questões de inuentio, dispositio e elocutio eram tratadas no âmbito da Retórica. Este artigo tenta discutir como os historiadores Greco-Romanos buscavam retoricamente a aproximação da verdade. Cícero (Ad Familiares, V,12) está aqui propondo como gerir essa busca. Salústio (De Coniuratione Catilinae, 53-54) está executando essa proposição.

Palavras-Chave : história, retórica, narrativa, fides, Cícero, Salústio.

A escrita da história está sujeita a um protocolo de verdade e se especializa no particular. Desses dois limites vem grande parte de seus problemas metodológicos. Ela deve gravar eventos disparatados, efeitos ao acaso, apresentando-os por meio de um texto. Ao interpretar estes efeitos e reuni-los de maneira a fazer surgir um conjunto de causas possíveis, o historiador constrói, e não grava. Sua construção, no entanto, nunca é certa, final ou verdadeira, devendo ser constantemente revisada de acordo com novos dados e novos efeitos. O critério definitivo da narrativa do historiador são, aparentemente, os eventos e não a construção. No entanto, a narrativa tem uma maneira própria de se organizar, e esta é comum à história e à ficção. Como construção acabada, a narrativa sempre aponta para uma certa demonstração cujo princípio formal é a consistência, trabalhada a partir da articulação das relações de causa e efeito2. Na narrativa, no entanto, esta

Da Universidade de São Paulo. Veja-se, por exemplo, a discussão de Aristóteles sobre a construção do mythos na Poética, e.g. 1451a,29 e 1454a,28.

CHIAPPETTA, Angélica - “‘Não Diferem o Historiador e o Poeta ...’ O Texto Histórico como Instrumento e Objeto de Trabalho” − Língua e Literatura, 2, 1996, p. 15-34. Departamentos de Letras - Universidade de São Paulo relação é de um tipo particular em que a causa é sempre localizada depois, para explicar, não para prever3. Para uma cientificidade positivista esta relação não tem nenhum significado relevante.

Percorrendo os uso da palavra grega historia em Aristóteles, vê-se que o historiador, antes de ser um narrador de acontecimentos verídicos, é, necessariamente, um pesquisador que procura informar-se. O sentido de investigação precedeu o de narração4. A história seria o conhecimento de fatos particulares a partir do qual se elabora uma ciência, quando tais fatos são do tipo que se presta ao conhecimento científico, ou seja, quando dizem respeito a coisas que não poderiam ser de outro modo5. Mesmo nestes casos, a história não se confunde com a ciência, pois a última trata do geral, enquanto a primeira se contenta em revelar os fatos particulares com toda exatidão possível. Aristotelicamente, uma História dos Animais poderia levar a um conhecimento científico, não uma História da Guerra do Peloponeso.

Hoje, a História está constituída como uma disciplina e, no dizer de

Carlo Guinzburg, uma disciplina indicial6. Estas são disciplinas que têm por objeto casos, situações e documentos individuais e, por isso, alcançam resultados com certa margem de casualidade. Nelas, o trabalho é aparentado com o do detetive que se apóia nos indícios que consegue obter para recompor sua intriga. Atualmente, a História parece estar bastante ocupada em discutir as questões de limite que estas afirmações implicam: primeiro, como se constrói a relação de causa e efeito a partir dos indícios (que é uma questão sempre bastante discutida quanto à narrativa ficcional); segundo, como os indícios (o conhecido) estão relacionados com o desconhecido, com o que se quer conhecer, ou seja, com o acontecimento histórico.

Há, portanto, uma transição entre as estruturas do conhecimento histórico e o trabalho de configuração da narrativa. Roger Chartier propõe que a disciplina estará salva tanto do "relativismo absoluto de uma história identificada com a ficção", quanto das "certezas ilusórias de uma história definida como ciência positiva"7 se a reconstrução produzida pela narrativa garantir o protocolo de verdade. A validação do discurso histórico dependeria de se considerarem cientificamente as relações entre os vestígios docu- cf. GENETTE (1972) e COSTA LIMA (1979). cf. LOUIS (1955). cf. ARISTÓTELES. Retórica, 1356b,30-35 e Ética a Nicômaco, 1094b,1-25. GUINZBURG (1990). CHARTIER (1990), p.8.

CHIAPPETTA, Angélica - “‘Não Diferem o Historiador e o Poeta ...’ O Texto Histórico como Instrumento e Objeto de Trabalho” − Língua e Literatura, 2, 1996, p. 15-34. Departamentos de Letras - Universidade de São Paulo mentais e os fenômenos indiciados pela narrativa. Estas relações serão aceitáveis se plausíveis, coerentes e explicativas. O que implica dois tipos de controle possíveis a qualquer enunciado histórico : sua objetividade, que impede que sua negação possa ser igualmente verdadeira, e sua possibilidade, que verifica a compatibilidade com os enunciados produzidos em paralelo ou previamente. A narrativa histórica deve, portanto, ser convalidada pela disciplina histórica.

Certamente, o termo grego historia não chegou a indicar na Antigüidade o que hoje entendemos por uma disciplina. O sentido aristotélico do termo foi-se impregnando cada vez mais do de exposição das pesquisas, a ponto de não mais se distinguir nele claramente a investigação da narração. A história tornou-se um gênero do discurso e é com este sentido que ela é contraposta a ficção na

Poética8. A partir dos alexandrinos o gênero é explicitamente regulado por determinadas regras retóricas, formalizado por alguns modelos e, de certa forma, relacionado com os gêneros epidíticos seus consemelhantes e, até, com os discursos judiciários e deliberativos.

Entre os problemas da invenção retórica, a historiografia antiga apresenta dois que lhe dão um sabor muito nosso contemporâneo9: o estabelecimento de um nexo causal entre o passado e o presente, e a discussão sobre a verdade e o verossímil, ou melhor sobre o aparato utilizado na aproximação da verdade. Estes dois problemas são discutidos por Tucídides, por exemplo, nos capítulos em que trata de sua metodologia :

" Quanto aos discursos pronunciados por diversas personalidades quando estavam prestes a desencadear a guerra ou quando já estavam engajados nela, foi difícil recordar com precisão rigorosa os que eu mesmo ouvi ou os que me foram transmitidos por várias fontes. Tais discursos, portanto, são reproduzidos com as palavras que, no meu entendemineto, os diferentes oradores deveriam ter usado, considerando os respectivos assuntos e os sentimentos mais pertinentes à ocasião em que

1451a,36 e s.: " Com efeito, não diferem o historiador e o poeta por escreverem verso ou prosa (pois que bem poderiam ser postas em verso as obras de Heródoto, e nem por isso deixariam de ser história, se fossem em verso o que eram em prosa) - diferem, sim, em que diz um as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder. Por isso a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta o particular."

(tradução de Eudoro de Souza). cf. GENTILLI & CERRI (1975).

CHIAPPETTA, Angélica - “‘Não Diferem o Historiador e o Poeta ...’ O Texto Histórico como Instrumento e Objeto de Trabalho” − Língua e Literatura, 2, 1996, p. 15-34. Departamentos de Letras - Universidade de São Paulo foram pronunciados, embora ao mesmo tempo eu tenha aderido tão estritamente quanto possível ao sentido geral do que havia sido dito. Quanto aos fatos da guerra, considerei meu dever relatá-los, não como apurados através de algum informante casual nem como me parecia provável, mas somente após investigar cada detalhe com o maior rigor possível, seja no caso de eventos dos quais participei, seja naqueles a respeito dos quais obtive informações de terceiros. O empenho em apurar os fatos se constituiu numa tarefa laboriosa, pois as testemunhas oculares de vários eventos nem sempre faziam os mesmo relatos a respeito das mesmas coisas, mas variavam de acordo com suas simpatias por um lado ou pelo outro, ou de acordo com sua memória."10

Tucídides explicita o sentido aristotélico de investigação, comentado inclusive os problemas dessa tarefa, e acrescenta os problemas propriamente da narração. Verdadeira discussão sobre a possibilidade de ligar os vestígios ao evento, este discurso metodológico sobre a aproximação da verdade reconduz o problema historiográfico a uma temática própria da retórica, e em particular da eloqüência judicial, no sentido que o historiador, analogamente ao orador, deve reconstruir o acontecido a partir de testemunhos. Quando não os há, deve usar uma doxa do que seria pertinente ao caso, sabendo discernir quando basta a doxa, quando é preciso incrementá-la pela força do testemunho.

A verdade a que a historiografia Antiga buscava se aproximar era "uma vulgata consagrada pelos espíritos aos longo dos séculos"1 e, portanto, distingue-se mal o que efetivamente se passou daquilo que não poderia deixar de ter se passado e, assim, consegue a adesão do público; ou, em termos retóricos, a verdade é uma questão de persuasão.

A ueritas que Cícero, por exemplo, reclama do histotiador não é outra coisa senão a fides12. A fé, ou seja, a credibilidade emprestada à narrativa, é para Cícero uma das condições essenciais de texto historiográfico. Assim sendo, é compreensível confundir o que o autor escreveu com o que deveria

TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso, 2. (tradução de Mário da Gama Kury) VEYNE (1987),p.19 cf. CIZEK (1988).

CHIAPPETTA, Angélica - “‘Não Diferem o Historiador e o Poeta ...’ O Texto Histórico como Instrumento e Objeto de Trabalho” − Língua e Literatura, 2, 1996, p. 15-34. Departamentos de Letras - Universidade de São Paulo ter escrito para ser digno da autoridade que lhe é concedida. Nesse caso, a verdade é anônima, só o erro é pessoal e resultado de inépcia daquele que está investigando e narrando o passado.

O historiador moderno tem, a maioria das vezes, a Universidade como lugar de fala. Numa Universidade, as atividades que não podem ser avaliadas pelos pares não existem institucionalmente e, portanto, simplesmente não existem. Um historiador, agora, não escreve para simples leitores como os antigos13 ou como os escritores de ficção de hoje, mas para os outros historiadores seus colegas14. Deve, portanto, explicar os fatos e dar ao leitor meios de verificar a informação e de formular, se necessário, outra explicação. Por trás destas aparentes questões de cientificidade metodológica da pesquisa histórica, percebe-se a questão da relação do historiador com seus leitores, que deve ser regulada por um decoro externo. Para um público leigo o verossímil da autoridade é suficiente; para os especialistas, embora não esteja totalmente fora de questão, a autoridade deve-se ratificar o tempo todo, explicitando o domínio técnico de uma certa metodologia. Um historiador antigo fará o seu verossímil argumentativo derivar de seu talento retórico, o qual lhe atribui credibilidade e autoridade. Um historiador moderno deve, nos seus argumentos, evidenciar o quanto possível de verossímeis metodológicos referentes ao que há de mais avançado e supostamente científico em termos de pesquisa histórica.

Em 63 a.c., ano do consulado de Cícero, um nobre arruinado, Lúcio Eneu

Catilina, depois de perder por duas vezes as eleições para o cargo de cônsul, planejou tomar o poder por meio de um golpe. Consegue congregar adeptos vindos de várias ordens (nobres, plebeus, camponeses, desocupados urbanos) e, enquanto prepara o ataque a Roma, mantém na Etrúria um exército comandado por seu companheiro Mânlio. Graças a um segredo de alcova Cícero é informado da conjuração, Catilina foge de Roma com alguns aliados, o Senado condena à pena capital os conjurados que aí permaneceram. Um exército comandado por Caio Antonio, colega de Cícero no consulado, que compunham para o amplo público dos "refinados da cultura" em geral( cf. GUILLEMEN (1937), e deviam ser ouvidos mais do que lidos. cf.CERTEAU (1982).

CHIAPPETTA, Angélica - “‘Não Diferem o Historiador e o Poeta ...’ O Texto Histórico como Instrumento e Objeto de Trabalho” − Língua e Literatura, 2, 1996, p. 15-34. Departamentos de Letras - Universidade de São Paulo é enviado à Etrúria onde liquida o exército de Catilina que morre bravamente no campo de batalha. Alguns anos mais tarde, em 58 a.c., Cícero será exilado por ter permitido, sendo cônsul, qua cidadãos Romanos fossem executados sem julgamento.

Claro, esta é apenas uma narrativa possível para o fato. Construímo-la hoje graças aos vários vestígios que ele espalhou em muitos textos antigos, hoje nossos documentos. Sobretudo a monografia de Salústio, A Conjuração de

Catilina, provavelmente escrita entre 43 e 40 a.c., e os discursos que Cícero proferiu no momento da conjuração, As Catilinárias; além disso, temos uma série de referências esparsas, relacionadas principalmente às biografias de Cícero. Plutarco, por exemplo, reconta a conjuração e nos informa que ela se tornou o grande assunto de Marco Túlio que não perdia oportunidade de lembrar que, em seu consulado, tinha salvado a república de um dos mais perigosos golpes que já a haviam ameaçado15. De fato, o próprio Cícero encarregou-se de deixar inúmeras referências à conjuração em suas obras16. Além disso, deixa notícias de que pretendia ver seu consulado cantado em verso e prosa. Afinal, de que servem os grandes feitos, se por eles um homem bom não conseguir atingir a glória ? É isso que ele diz no discuraso que faz, em 62 a.c., em defesa do poeta Árquias17, acusado de falsificar sua cidadania Romana, e de quem Cícero esperava um poema épico sobre seu consulado. Ao historiador Luceio, havia encomendado, em 56 a.c., uma monografia sobre o mesmo tema18.

Antes de Cícero, praticamente não havia em Roma este gênero histórico: a monografia. Cícero discute-a teoricamente sem exercê-la na prática. Basicamente diz que a história é "testis temporum, lux ueritatis, uita

" Aquele foi o tempo de seu (de Cícero) máximo poder na cidade. Ele próprio, porém, se fez malvisto, não por alguma perversidade, mas pelo vezo de se gabar e enaltecer continuiamente, tornando-se odioso a muita gente. Não se ia ao Senado, a um comício, e um tribunal, sem ter de ouvir a repetição dos nomes de Catilina e Lêntulo. Por fim, até os livros e tratados ele recheou de seus gabos; sua oratória, aliás agradável e cheia de encanto, tornou-a enfadonha e cansativa para os ouvintes, porque esse feitio desagradável se lhe tinha pegado para sempre como uma fatalidade." (PLUTARCO. Cícero, 24; tradução de Jaime Bruna) Plutarco chega a sugerir que por esse motivo Cícero perdeu a adesão dos Romanos e pôde facilmente ser proscrito por Marco Antonio e Otaviano em 43 a.c.. Assim, segundo Plutarco, Cícero teria morrido por falta de assunto.

por exemplo, só no De Officiis ela é refirida três vezes: I.7, I.84, II.3. Pro Archia, XI-XI. Ad Familiares, V,12.

CHIAPPETTA, Angélica - “‘Não Diferem o Historiador e o Poeta ...’ O Texto Histórico como Instrumento e Objeto de Trabalho” − Língua e Literatura, 2, 1996, p. 15-34. Departamentos de Letras - Universidade de São Paulo memoriae, magistra uitae, nuntia uetustatis"19, e ignorá-la é permanecer sempre criança20. Tal tarefa monumental da história é para ele, acima de tudo, obra de oradores (opus oratorium maxime21). Deve seguir as regras do gênero demonstrativo22, usando o gênero médio23 e, sobretudo, deve ser ornada24 para captar a benevolência do públicao e seduzi-lo para a glória que se pretende. Objetivos que necessitam mais do que a simples enumeração dos acontecimentos, como acontece na história analística, basicamente o grande gênero histórico em Roma antes de Cícero. O historiador deve ser um narrator25, ou seja, um orador que manipula com destreza as regras da narrativa que, como diz a retórica, é a sede e o fundamento para se estabelcer a fé26.

Em 56 a.c., fingindo-se envergonhado, Cícero escreve ao historiador

Luceio, cobrando-lhe uma promessa. Este último estava compondo uma obra histórica, cobrindo os acontecimentos desde a Guerra Itálica (91-8 a.c.) até o momento. Havia prometido que escreveria também sobre o consulado de Cícero. Como compõe no gênero analístico, ou seja, relata os fatos importantes em seqüência cronológica, Cícero temia duas coisas: que o acúmulos de fatos retardasse o ponto da obra em que ele se tornaria assunto; que a seqüência cronológica embaçasse o brilho com que ele gostaria de ver-se tratado. Pede, então, ao historiador que tome inediatamente o assunto de seu consulado, que o ornamente e ilustre com suas técnicas e perícias, e que o faça na forma de uma monografia. Cícero diz que sua insistência se deve à expectativa de ter sua glória como homem bom, defensor da república, conhecida e preservada. Afinal, o benefício que os grandes feitos podem trazer é, antes de tudo, este, a glória, e é tarefa do historiador afirmá-la. Assim,

"testemunho dos tempos, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida, mensageira da Antigüidade". CÍCERO. De Oratore, 2.9.36. CÍCERO. Orator, 34.120. De Legibus, I.2.5; De Oratore, I.62. De Oratore, I.12.54. Orator, 13.41-42. Ad Familiares, V.12.7. De Oratore, I.12.54. Partitiones Oratoriae, 9.31.

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Cícero pede que Luceio produza, com sua narrativa, uma figura brilhante, da qual acha-se digno. E a glória será não só de Cícero pelos feitos, mas de Luceio pela obra. Aqui está a tradução integral da carta:

1. Um certo pudor um tanto grosseiro me dissuadiu, a mim que muitas vezes tentei falar-te em pessoa estas coisas que agora, ausente, exporei mais audaciosamente; com efeito, a carta não cora. Ardo pelo incrível desejo que, como julgo, não deve ser censurado, de que nosso nome seja ilustrado e celebrado pelos teus escritos. Embora tu, muitas vezes tenhas me afirmado que estavas para fazê-lo, todavia gostaria que perdoasses estas minhas pressas. Com efeito, o teu tipo de escritos, embora sempre fosse fortemente esperado por mim, venceu, todavia, a minha espectativa e de tal forma me apanhou e excitou que desejaria que minhas coisas fossem o mais rapidamente possível mandadas as tuas letras. Com efeito, não somente a recordação da posteridade me rapta para alguma esperança de imortalidade, mas também aquele desejo de que, ou pela autoridade do teu testemunho, ou pela benevolência da tua indicação, ou pela suavidade do teu engenho sigamos vivos.

2. E embora te escreva estas coisas, não ignoro, todavia, por quantos ônus de coisas empreendidas a já começadas tu estejas premido, mas, como vejo que tu já quase terminaste a história da guerra da Itália e da civil, e tu me disseras que começarias em seguida com as outras coisas, não quis deixar de te admoestar para que pensasses se não gostarias de entrelaçar os nossos feitos juntamente às outras coisas ou, como muitos gregos fizeram, Calístenes com a guerra Fócica, Timeu com a de Pirro, Políbio com a dos Numâncios, todos os quais separaram isto que eu chamo guerra dos seus escritos gerais, tu também, do mesmo modo, separarias a conjuração civil das nossas guerras externas. E, na verdade, não vejo interessar muito a meu louvor, mas interessa à minha pressa que tu não esperes até que chegues ao ponto, mas tome imediatamente toda aquela causa e momento; e, ao mesmo tempo, se toda a tua mente se voltar para um único argumento e uma única pessoa, já distingo com que ânimo estarão para surgir coisas mais férteis e mais ornadas.

Não ignoro o quão impudicamente ajo. Primeiro, impondo-te tal ônus (tuas ocupações podem-me negá-lo); depois, postulando que ornamentes as minhas próprias ocupações. O que fazer se não te pa-

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Pois, se te levarmos a que te encarregues disto, será, como persuado a mim mesmo, matéria digna da tua capacidade e da tua abundância. 4. Do começo da conjuração até o meu retorno do exílio parece-me que um razoável volume pode ser elaborado, no qual poderias usar teus conhecimentos das mudanças civis, ou explicando as causas das coisas mais recentes, ou sugerindo remédios para suas calamidades, enquanto repreendes o que consideras censurável e justificas o que aprovas, anotando as tuas razões em cada caso. E se julgares que podes tratar este assunto com excepcional liberdade de discurso, como é teu costume, anotarás a perfídia, as traições e a conspiração de muitos contra nós. Além disso, o que me aconteceu te suprirá, ao escrever, com grande variedade de material, que, sendo tu o escritor, possa tomar o ânimo do público ao lê-lo. Pois, não há nada mais apto para agradar o leitor que as mudanças das circunstâncias e as vicissitudes da fortuna, as quais, embora não nos tenham sido desejáveis ao experimentá-las, ao serem lidas, todavia, são agradáveis. Com efeito, a tranqüila recordação das dores passadas tem o seu deleite; 5. aos outros, sem dúvida, que não passaram por nenhuma desgraça própria, aos que observam os casos alheios sem nenhuma dor, a eles sua própria misericórdia é agradável. Com efeito, a qual de nós não deleita com alguma comiseração aquele moribundo Epaminondas junto a Mantinéia? O qual então, já no fim, mandou ser-lhe arrancado o dardo só depois foi respondido à sua pergunta se seu escudo estava salvo, porque mesmo na dor da ferida morreria tanqüilamente com louvor. De quem não é retida na leitura a atenção suscitada pela fuga e pela volta de Temístocles? E, na verdade, a ordem cronológica dos eventos nos retém muito pouco, como se fosse uma enumeração de fastos; mas os incertos e variados casos de um homem excepcional têm admi-

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6. Por isso me aconteceria mais agradavelmente, se tu estivesses nesta decisão para que, das vizinhanças dos teus escritos em que terás abarcado a perpétua história dos feitos executados, separes esta como que fábula das nossas coisas e dos nossos eventos. Com efeito, ela tem várias ações e mudanças de decisões e de circunstâncias. E nem temo que eu pareça caçar teu favor com alguma leve adulação quando demonstro isto: desejar sobretudo ser ornado e celebrado por ti. Com efeito, nem tu és tal que ignores o que sejas e que não julgues mais odiosos aqueles que não te admiram do que aqueles que, aduladores, te louvam, e nem eu sou de tal forma demente que desejasse recomendar-me à glória eterna graças a alguém que, ao me recomendar, ele próprio não perseguisse a própria glória de seu engenho. 7. Com efeito, aquele Alexandre não desejava ser pintado por Apeles e esculpido por Lysipo por causa de um favor, mas porque julgava que a arte deles serviria tanto à glória dos próprios quanto à sua. E aqueles artífices do corpo faziam simulacros conhecidos para desconhecidos; se estes simulacros não existissem, em nada seriam mais obscuros esse homens famosos. Nem menos deve ser citado aquele Agesilau de Esparta que não admitia que existesse nem uma imagem sua pintada ou esculpida, nem aqueles que trabalhavam neste tipo de coisas; com efeito, um único livro de Xenofonte, ao louvar o rei, superou facilmente todas as imagens e estátuas de todos. E isto será melhor para mim, tanto para a alegria do meu espírito, quando para a dignidade da minha lembrança, se eu tiver permanecido nos teus escritos e não no de outros, pois terá sido fornecido a mim não somento e teu engenho, como a Timoleonte o de Timeu, ou o de Heródoto a Temístocles, mas também a autoridade de um homem muito famoso e muito reconhecido nas maiores e mais importantes causas da república e, antes de tudo, aprovado; para que a mim pareça concedido não apenas o elogio que Alexandre, quando se dirigia ao Sigeu, disse ter sido atribuído por Homero a Aquiles, mas também o grave testemunho de um homem grande e brilhante. Com efeito, agrada-me aquele Heitor de Névio que não somente se alegrava em ser louvado, mas até acrescenta "por um homem louvado".

8. Se não conseguir isto de ti, ou seja, se aquela coisa te impedir (e, com efeito, não julgo ser propício que eu, ao te pedir, não

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Nós desejamos evitar estas coisas e, se aceitares nossa causa, evitaremos, e assim rogamos que faças.

Mas acaso não te admires por que, embora muitas vezes, me declarastes que tu estavas para enviar às letras muito acuradamente as decisões e os eventos dos nossos tempos, isto mesmo agora solicitemos a ti com tanto empenho e com tantas palavras; aquele desejo, de que falei no início, incita-nos à pressa, pois temos o espírito cheio de entusiasmo para que não só outros, enquanto vivemos, conheçam-nos a partir de teus escritos, mas também nós mesmos, ainda vivos, possamos fruir a nossa pequena porção de glória. 10. Se não te for molesto, gostaria que me escrevesses a respeito do que estás para fazer sobre estas coisas. Com efeito, se tomares a causa, enviarei comentários sobre todas as coisas e, se, pelo contrário, me guardares para um outro momento, conversarei contigo em pessoa. Enquanto isso, tu não descansarás e aquelas coisas que tens começadas polirás e a nós continuarás estimando.

Cícero, portanto, propõe alguns procedimentos técnicos para a escrita da história. No parágrafo 4, diz que, ao narrar, Luceio deve usar a doxa de seus conhecimentos das mudanças civis, deve explicar as coisas novas, indicar remédios para os males, vituperar e elogiar, mostrando, em cada caso, seus motivos. Ou seja, deve tornar seu discurso verossímil, urdido por relações de causa e efeito, deve propor a fides que cai bem ao ethos da sua autoridade. E mais, deve usar também o jogo com as paixões, deve moldar a perfídia e a traição de que foi vítima Cícero quando exilado, deve fazer com

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