Apostila de Latim Básico

Apostila de Latim Básico

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LATIM B`SICO Miguel Barbosa do RosÆrio

Apresentaçªo 5 Breves comentÆrios sobre o latim 1

Primeira Liçªo: O nome e o verbo latino; a primeira e segunda declinaçıes; primeira e segunda conjugaçıes no presente do indicativo; adjetivos de primeira classe. Presente do indicativo do verbo irregular esse e de seu composto posse 13

Segunda Liçªo: O imperativo presente ativo, o futuro imperfeito do indicativo da primeira e segunda conjugaçıes; a terceira declinaçªo; os adjetivos de segunda classe 21

Terceira Liçªo: A terceira e quarta conjugaçıes: o infinitivo presente ativo; o presente do indicativo ativo; o futuro imperfeito do indicativo ativo; o imperativo presente ativo; a quinta declinaçªo; os pronomes pessoais. O verbo irregular uelle. 35

Quarta Liçªo: O pretØrito perfeito do indicativo latino; o pronome relativo; o particípio em latim; o supino. 45

Quinta Liçªo: O imperfeito do indicativo ativo das quatro conjugaçıes; os pronomes demonstrativos; a voz passiva dos tempos do modo indicativo do infectum. 5

Sexta Liçªo: O gerœndio; o gerundivo; o gerundivo em lugar do gerœndio; os verbos depoentes; os verbos semi-depoentes. 61

SØtima Liçªo: O ablativo absoluto; outros empregos do ablativo. 67 Oitava Liçªo: O acusativo com o infinitivo. 73 Nona Liçªo: O comparativo de superioridade; o superlativo. 79

DØcima Liçªo: A interrogaçªo indireta; a expressªo da condiçªo; a formaçªo do subjuntivo. 83

DØcima Primeira Liçªo: O subjuntivo na oraçªo independente. 87 DØcima Segunda Liçªo: Oraçıes subordinadas adverbiais. 89

DØcima Terceira Liçªo: Oraçıes subordinadas substantivas com e sem conectivo. 91

DØcima Quarta Liçªo: Estilo indireto. 93

ApŒndice: Sintaxe dos Casos; paradigmas do sistema verbal e do sistema nominal; pronœncia. 95

Bibliografia 115

Apresentação

A língua em que um HorÆcio, um Vergílio, um Catulo, um Cícero escreveram nunca deixarÆ de despertar o interesse, a curiosidade e a paixªo daqueles que desejam passar pela experiŒncia estØtica de os ler no original.

Nªo somente sob o aspecto literÆrio, no entanto, o latim desperta interesse, mas tambØm sob o aspecto lingüístico, como muito bem ressalta R. Lakoff in Abstract Syntax and Latin complementation:

The Latin language has been studied probably for a longer uninterrupted period of time, and by more people, than has any other language. Because of its dominance of the intellectual and religious life of Europe over a long period even after it had ceased to be spoken, its grammar has aroused more curiosity than that of any other language. (p.1)

A large and continuing supply of data is vital both for synchronic study of a language at one point in time as, for example, a study of Ciceronian Latin and for diachronic work attempting to account for the changes observed in a language over a period of time such as a study of the differences between Ciceronian Latin and modern Spanish. (p.2)

For these reasons, a study of Latin syntax can yeld valuable information in a number of areas that we could not hope to touch in a study of a modern language, or, for that matter, of any other ancient language. (p.2)

É de meu entendimento que o material contido nas liçıes ora apresentadas fornece ao professor de latim um roteiro seguro, capaz de o ajudar a transmitir a seus alunos as noçıes bÆsicas da língua latina. A partir da sintaxe chega-se à morfologia. De fato, o desvendamento das estruturas morfológicas mostra que a palavra latina traz em si a indicaçªo de sua funçªo sintÆtica. Na frase, por exemplo, fēmĭna uirum uidet a mulher vŒ o homem , femĭna traz em si a indicaçªo de que Ø o sujeito da frase. Essa indicaçªo morfossintÆtica permite que a frase se escreva de outras formas, sem que seu sentido seja alterado: uirum femĭna uidet, uirum uidet fēmĭna, fēmĭna uidet uirum, uidet uirum fēmĭna, uidet fēmĭna uirum. JÆ o portuguŒs e as demais línguas românicas perderam essa indicaçªo morfossintÆtica, razªo por que a ordem das palavras passou a ser significativa, havendo, portanto, mudança de sentido, se se disser, por exemplo, o homem vŒ a mulher. Essa simples comparaçªo do latim com o portuguŒs mostra quªo diferente Ø a manifestaçªo sintÆtica de uma e outra língua. Seu aprendizado, por isso mesmo, se torna fascinante e permite àquele que a estuda o distanciamento necessÆrio para melhor examinar a própria língua nativa.

AlØm do mais, todos aqueles que desejam apoderar-se do sentido primeiro das palavras nªo podem deixar de buscar no latim o verivØrbio, como a personagem do conto de Guimarªes Rosa, DamÆzio, que fica intrigado com o termo famigerado e viaja longes terras para procurar descobrir o sentido dessa palavra. Vale mesmo a pena transcrever trechos do famoso conto do notÆvel escritor:

VosmecŒ agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que Ø mesmo que Ø: fasmisgerado fazme-gerado falmisgeraldo familhas-gerado ?

A língua latina tem sido, provavelmente, estudada por um ininterrupto período de tempo mais longo e por um maior nœmero de pessoas, que qualquer outra língua. Por causa de seu prestígio na vida intelectual e religiosa da Europa durante um longo período, mesmo depois que ela deixou de ser falada, sua gramÆtica tem despertado mais curiosidade do que a de qualquer outra língua.

Um grande e ininterrupto fornecimento de dados Ø vital tanto para um estudo sincrônico de uma língua em um certo ponto no tempo por exemplo, um estudo do latim ciceroniano como para um trabalho diacrônico, que busque enumerar as mudanças observadas numa língua atravØs de um período de tempo como o estudo das diferenças entre o latim ciceroniano e o espanhol atual.

Por essas razıes, um estudo da sintaxe latina pode render valiosas informaçıes em um nœmero de Æreas que nªo logramos alcançar em um estudo de uma língua moderna ou de qualquer outra língua antiga, sobre esse assunto.

VosmecŒ mal nªo veja em minha grossaria no nªo entender. Mais me diga: Ø desaforado? É caçoÆvel? É de arrenegar? Farsância? Nome de ofensa?

Agradeceu, quis me apertar a mªo. Outra vez,

Famigerado? Bem. É: importante , que merece louvor, respeito Ah, bem! soltou, exultante. aceitaria de entrar em minha casa. Oh, pois. Esporou, foi-se, o alazªo, nªo pensava no que o trouxera, tese para alto rir, e mais, o famoso assunto.

peça de humor, graça, erudiçªoEle joga com o duplo sentido da palavra, um ligado à sua

G. Rosa se serve do termo famigerado, que dÆ título ao conto, para construir uma rara origem etimológica, do latim fama + gerado, e o outro, à etimologia popular, faminto, sentido que ele esconde de DamÆzio.

Etimologia Ø uma palavra de origem grega (etumo verdadeiro + logia tratado ) que

Cícero traduziu para o latim por ueriloquium e que significa maneira de falar verdadeiro , i.e., sentido verdadeiro de uma palavra , o verivØrbio de G.Rosa. E essa busca, só consegue fazŒ-la quem conhece, pelo menos, o latim. Essa espØcie de arqueologia lingüística permanece fascinante para o espírito humano.

Feitas essas consideraçıes iniciais, julgo importante tecer alguns comentÆrios sobre a estrutura do livro e sua organizaçªo.

selecionada, no entanto, pertence à estrutura clÆssica, que Ø a modalidade examinada no livro

Busquei, nesta ediçªo, fornecer ao professor de latim uma seleçªo de frases de autores significativos do período clÆssico. Se, por vezes, o autor nªo se enquadra nesse período, a frase

Algumas recomendaçıes para melhor aproveitar-se o material contido no livro: cumpre, inicialmente, ler em voz alta cada frase, a fim de que o aluno passe a ter o domínio da pronœncia do latim clÆssico (81 a.C. a 17 d.C.). Essa questªo da pronœncia vem discutida no ApŒndice do livro. Após a leitura de cada frase, examina-se o seu conteœdo, seu significado, e, se possível, fala-se sobre o autor da frase. A seguir, examina-se a estrutura morfossintÆtica da frase traduzida para o portuguŒs e, só entªo, passa-se ao exame da frase latina, dando-lhe as informaçıes gramaticais necessÆrias para o seu entendimento. Note-se que no corpo de cada liçªo essas informaçıes estªo apresentadas, sem, no entanto, dispensarem complementaçıes, a critØrio do professor. Ao final de algumas liçıes estªo inseridos textos de autores latinos com sua respectiva traduçªo. Eles devem ser lidos e comentados.

Com a publicaçªo deste trabalho, quero oferecer aos alunos a oportunidade de terem acesso a uma língua que deixou de ser falada hÆ sØculos, mas que permanece viva atravØs de sua vasta literatura e ainda encanta a todos aqueles que a ela tŒm acesso. Examine-se, a propósito, o que nos diz o filósofo Nietzsche:

AtØ hoje nªo senti com nenhum poeta aquele mesmo Œxtase artístico que desde a primeira leitura me proporcionou a ode horaciana. O que aqui se alcançou Ø algo que, em certos idiomas, nem sequer se pode desejar. Esse mosaico de palavras, onde cada uma delas, como sonoridade, como posiçªo, como conceito, derrama a sua força à direita e à esquerda e sobre o conjunto, esse minimum em extensªo e em nœmero de sinais, esse maximum, conseguido desse modo, em energia dos signos tudo isso Ø bem romano e, se se me quiser crer, notÆvel por excelŒncia.

Estou plenamente convencido de que quem tem o domínio da gramÆtica do portuguŒs padrªo terÆ pouca dificuldade em aprender o latim, e quem se aventurar a aprender essa língua tªo sonora e tªo bela disporÆ, tenho certeza, de um instrumental rico e precioso, que o acompanharÆ por toda sua vida.

4 ROSA, J.Guimarªes. Primeiras Estórias. Rio de Janeiro:Nova Fronteira.37a. impressªo. 1988. p.13-17. Nietzsche, F. Crepœsculo dos Deuses, apud Francisco Achcar. Lírica e Lugar-comum. Sªo Paulo: Edusp. 1994.

Dados sobre o autor

Professor Titular de Latim na Escola de Letras da UniverCidade, a partir de 1997.

Professor de Latim no Curso de Letras da Universidade EstÆcio de SÆ Campus Rebouças - a partir de 2001.

Professor concursado de Língua e Literatura Latina da Faculdade de Letras da UFRJ, de 1968 a 1996, quando, entªo, se aposentou como Professor Adjunto.

Professor Titular de Língua e Literatura Latina e de Língua Portuguesa da Faculdade de Filosofia, CiŒncias e Letras Notre Dame, de 1974 a 1981.

Professor de Língua Latina da Universidade Veiga de Almeida, de 1984 a 1988.

Freqüentou, de 1968 a 1970, os cursos de lingüística oferecidos no Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, com vista à obtençªo do título de Mestre.

Defendeu, aos dez de janeiro de 1989, sua Tese de Doutoramento A GramÆtica Latina de Francisco SÆnchez de las Brozas, tendo obtido de todos os membros da Banca Examinadora o conceito A, com a recomendaçªo de publicaçªo de sua tese. Orientador: Professor Doutor Olmar Guterres da Silveira.

Trabalhou como etimólogo, de 1992 a 1994, no DicionÆrio AurØlio.

Trabalhou como lexicógrafo no Instituto Antônio Houaiss, nos meses de setembro e outubro de 1997, na seçªo de etimologia.

Fez parte da equipe que, no ano de 1999, reelaborou o DicionÆrio da Academia Brasileira de Letras, tendo feito 8.700 verbetes. Coordenaçªo Geral: Professor Doutor Antônio JosØ Chediak.

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