Bunyan, John - O Peregrino

Bunyan, John - O Peregrino

(Parte 1 de 11)

O Peregrino John Bunyan

Um dos autores mais influentes do Século 17, John Bunyan (1628 - 1688) foi um fenômeno cultural singular cuja aparição na historia das idéias cristãs possui um caráter surpreendente se levarmos em conta quem Bunyan era e sua historia de vida, o contexto histórico em que vivia e o ambiente cultural e teológico ao qual pertencia. Apesar de todas estas forças adversas e contra qualquer expectativa, Bunyan produziu uma obra literária, não só de grande repercussão e influęncia no mundo protestante como também de reconhecido valor literário.

Sua obra - prima, O Peregrino, só perde para a Bíblia em numero de exemplares vendidos e influęncia nos círculos cristãos mais conservadores.

Todas as obras alegóricas de Bunyan, incluindo esta, já foram livros muitos populares nos países de língua inglesa, notadamente na Escócia e nos Estados Unidos. Os tempos mudaram, os gostos mudaram, as idéias mudaram, e os livros de Bunyan caíram no esquecimento. Vale a pena, entretanto, ler estas antigas alegorias não só pela sua beleza literária, reconhecida pelos críticos desde o movimento romântico, mas também pela natureza edificante das idéias aqui presentes. Bunyan emociona e motiva, provoca a reflexão e eleva o espírito humano é contemplação dos mistérios da fé cristã.

John Bunyan _

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Capítulo 1

Começa o sonho do autor – Cristão, convencido do pecado, foge à ira vindoura e Evangelista o dirige a Cristo.

Caminhando pelo deserto deste mundo, parei num sítio onde havia uma caverna; ali deiteime para descansar. Em breve adormeci e tive um sonho.

Vi um homem coberto de andrajos, de pé, e com as costas voltadas para a sua habitação, tendo sobre os ombros uma pesada carga e nas mãos um livro (Isaías 64:6; Lucas 14:3; Salmo 38:4; Habacuque 2:2). Olhei para ele com atenção e vi que abria o livro e o lia; e, à proporção que o ia lendo, chorava e estremecia, até que, não podendo conter-se por mais tempo, soltou um doloroso gemido e exclamou: “Que hei de fazer?” (Atos 2:37 e 16:30; Habacuque 1:2-3).

Neste estado voltou para sua casa, diligenciando reprimir-se o mais possível, a fim de que sua mulher e seus filhos não percebessem sua aflição. Como, porém, o seu mal recrudecesse, não pôde por mais tempo dissimulá-lo, e, abrindo-se com os seus, disse por esta forma:

“Querida esposa, filhos do coração, não posso resistir por mais tempo ao peso deste fardo que me esmaga. Sei com certeza que a cidade em que habitamos vai ser consumida pelo fogo do céu, e todos pereceremos em tão horrível catástrofe se não encontrarmos um meio de escapar. O meu temor aumenta com a idéia de que não encontre esse meio.”

Ao ouvir estas palavras, grande foi o susto que se apoderou daquela família, não porque julgasse que o vaticínio viesse a realizar-se, mas por se persuadir de que o seu chefe não tinha em pleno vigor as suas faculdades mentais.

E, como a noite se avizinhava, fizeram todos com que ele fosse para a cama, na esperança de que o sono e o repouso lhe sossegariam o cérebro. As pálpebras, no entanto, não se lhe cerraram durante toda a noite, que passou em lágrimas e suspiros.

Pela manhã, quando lhe perguntaram se estava melhor, respondeu negativamente, e que a moléstia cada vez mais o afligia. Continuou a lastimar-se, e a família, em lugar de se compadecer de tanto sofrimento, tratava-o com aspereza. Esperava, sem dúvida, alcançar por este modo o que a doçura não pudera conseguir até ali: algumas vezes zombavam dele; outras repreendiam-no;e quase sempre o desprezavam.

Só lhe restava o recurso de se fechar no seu quarto para orar e chorar a sua desgraça, ou o de sair para o campo, procurando na oração e na leitura lenitivo a tão indescritível dor.

O Peregrino _

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Certo dia, em que ele andava passeando pelos campos, notei que se achava muito abatido de espírito, lendo, como de costume, e ouvindo-o exclamar novamente: “Que hei de fazer para ser salvo?”

O seu olhar desvairado volvia-se para um e outro lado, como em busca de um caminho para fugir; mas, não o encontrando de pronto, permanecia imóvel, sem saber para onde se dirigir.

Vi, então, aproximar-se dele um homem chamado Evangelista (Atos 16:30-31; Jó 3:23) que lhe dirigiu a palavra, travando-se entre ambos o seguinte diálogo:

Evangelista – Por que choras?

Cristão – (Assim se chamava ele). – Porque este livro me diz que eu estou condenado à morte, e que depois de morrer, serei julgado (Hebreus 9:27), e eu não quero morrer (Jó 16:21-2), nem estou preparado para comparecer em juízo! (Ezeq. 2:14).

Evangelista – E por que não queres morrer, se a tua vida é cheia de tantos males?

Cristão – Porque temo que este pesado fardo que tenho sobre os ombros, me faça enterrar ainda mais do que o sepulcro, e eu venha a cair em Tofete (Isaías 30:3). E, se não estou disposto a ir para este tremendo cárcere, muito menos para comparecer em juízo ou para esse suplício. Eis a razão do meu pranto.

Evangelista – Então, por que esperas, agora que chegaste a esse estado? Cristão – Nem sei para onde me dirigir.

Evangelista – Toma e lê. (E apresentou-lhe um pergaminho no qual estavam escritas estas palavras: “Fugi da ira vindoura”). (Mateus 3:7).

Cristão – (Depois de ter lido). E para onde hei de fugir?

Evangelista – (Indicando-lhe um campo muito vasto). Vês aquela porta estreita? (Mateus 7:13-14).

Cristão – Não vejo. Evangelista – Não avistas além brilhar uma luz? (Salmo 119:105; I Pedro 1:19). Cristão – Parece-me avistá-la.

Evangelista – Pois não a percas de vista; vai direito a ela, e encontrarás uma porta; bate, e lá te dirão o que hás de fazer.

John Bunyan _

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Capítulo 2

Vendo-se abandonado por Obstinado e Flexível, prossegue Cristão a sua viagem. O Pântano da Desconfiança.

Cristão deitou a correr na direção que lhe havia sido indicada; mas a mulher e os filhos, ao verem-no fugir, seguiram atrás dele, suplicando que voltasse para casa. Cristão não lhes deu ouvidos, e, continuando a carreira com mais velocidade, gritava em altas vozes: “Vida, vida, vida eterna!” (Lucas 14:26). E, sem olhar para trás (Gên. 19:17; I Coríntios 4:18), continuou até ao meio da planície. Acudiram também os seus vizinhos (Jeremias 20:10). Uns zombavam dele, outros ameaçavam-no, e outros ainda gritavam-lhe que voltasse. Entre estes últimos havia dois que estavam resolvidos a ir agarrá-lo e trazê-lo à força para casa. Chamavam-se Obstinado e Flexível. Apesar da considerável distância a que se achava o fugitivo, os dois vizinhos, redobrando esforços, conseguiram alcançá-lo.

– Que pretendeis de mim? Perguntou-lhes Cristão.

– Queremos que voltes conosco.

– É impossível, respondeu Cristão. A cidade em que habitais, e onde eu também nasci, é a cidade da Destruição. Se lá morrerdes, sereis enterrados num lugar mais fundo do que o sepulcro, onde arde fogo e enxofre. Eia, pois, vizinhos, tomai bom ânimo e vinde comigo.

Obstinado – Que dizes? Havemos de deixar os nossos amigos e as nossas comodidades?

Cristão – Certamente, amigo: porque tudo isso nada é, em comparação com a mais diminuta parte do que eu procuro gozar (Romanos 8:18). Se me acompanhardes, gozareis de tudo isto juntamente comigo, porque no lugar para onde me dirijo há muito, e para todos (Lucas 15:17). Vinde, e tereis a prova.

Obstinado – Mas que coisas são essas que procuras, em troca das quais abandonas tudo o que há no mundo?

Cristão – Procuro uma herança incorruptível, que não pode contaminar-se nem murchar (I Pedro 1:4), reservada com segurança no céu (Hebreus 1:16), para ser dada, no devido tempo, aos que a buscam diligentemente. Assim o declara o meu livro; lede, se quereis, e convencer-vos da verdade.

Obstinado – Ora, deixa-te lá dessa questão de livro; queres voltar para a tua casa, ou não? Cristão – Isso nunca; porque já pus a mão no arado. (Luc 9:62).

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Obstinado – Nesse caso, vizinho Flexível, deixemo-lo partir, e vamos nós para casa. Há muita gente a quem falta o juízo, em cuja cabeça, encasquetando-se algo, é bastante para que se julgue mais atilado do que os sete sábios da Grécia reunidos.

Flexível – Nada de injúrias. Se o que ele diz é verdade, não pode haver dúvida de que as coisas que busca alcançar são incomparavelmente superiores às que possuímos. Diz-me o coração que ele está muitíssimo certo no que afirma, e eu me sinto inclinado a acompanhálo.

Obstinado – Então, enlouqueceste também? Ora, toma o meu conselho, e vem para casa comigo. Sabes lá onde esse doido seria capaz de te levar? Anda daí.

Cristão – Deixa-o falar, amigo Flexível; acompanha-me e terás não só a prova do que já te disse, mas ainda muito mais. Se duvidas da minha palavra, lê este livro; daquele que é seu Autor (Hebreus 9:17-21).

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