(Parte 3 de 3)

Ao longo dos séculos, acreditou-se que o amor, através da fusão de duas almas e dois corpos, tornaria o homem pleno. Essa maneira de compreender a origem da espécie humana vem exercendo grande influência no pensamento ocidental no que diz respeito à escolha amorosa, considerada por muitos o ato mais importante da vida.

Outro elogio contido na obra “O Banquete” é de

Fedro, que caracteriza o deus do amor como força vital e imortal da humanidade, visto “que Eros é, entre os deuses, o mais antigo, o mais carregado de glória, e Senhor soberano de proporcionar a virtude e a

Estudos de Psicologia I Campinas I 2(1) I 63-75 I janeiro - março2005 felicidade aos homens nesta vida e depois da morte” (Platão, 2000, p.50). Segundo Fedro, Eros é primordial e o responsável pela vida no universo, ele promoveu a união do universo e é, portanto, a semente de toda a vida em sociedade. De acordo com Fedro, a função de Eros é de intermediário, porque está entre o Olimpo e a Terra. Ele elucida o que vem do Céu à Terra e viceversa. Isso é o que o torna capaz de preencher o vazio existente entre os homens e os deuses. Fedro coloca Eros como responsável pela existência do amor divino e também como aquele que não apenas liga as almas humanas aos deuses, mas é encarregado pela união de todos os animais, plantas e objetos.

Essa explicação sobre a origem de Eros nos ajuda a entender a razão de muitas pessoas definirem o amor, por um lado, como um sentimento superior e divino, que está acima das vontades humanas, que eleva o ser amado e o amante a uma sensação de imortalidade e onipotência, e, por outro lado, como um sentimento que em sua ausência promove uma sensação de incapacidade, inferioridade e conseqüentemente de depreciação e infelicidade.

Ainda na obra “O Banquete”, durante o elogio atribuído a Sócrates, menciona-se que a sacerdotisa Diotima define Eros como um deus inferior pelo fato de estar entre o Céu e a Terra. Diotima inicia seu diálogo descrevendo a origem de Eros: tudo começou em uma festa no Olimpo, quando os imortais reunidos festejavam o nascimento de Afrodite, a bela deusa do amor. Todos estavam alegres e bebendo o néctar que estimulava a expansão da despreocupação e alegria. Terminada a festa, Penia (deusa da pobreza) entrou no salão com o objetivo de pedir os restos do banquete. Antes de fazer o pedido, porém, vislumbrou a figura de Poros (deus dos grandes meios ou também deus da riqueza) que, embriagado pelo excesso de néctar, afastou-se dos imortais, entrou no jardim de Zeus e despencou de sono. Penia, que vivia sempre à procura de coisas materiais, de recursos para sobreviver, resolveu, naquele instante, ter um filho de Poros. Para isso, dirigiu-se ao jardim e, sem ruído, deitou-se junto a ele. Ao abraçá-lo, Poros despertou. Penia, então, o convidou a desfrutar de sua companhia e de seu corpo, e o deus aceitou. A deusa, assim, atingiu seu objetivo. Poros, sem muita consciência, engravidou Penia, que concebeu o filho desejado: Eros (amor), gerado no dia do nascimento de Afrodite, sendo para sempre seu servo e companheiro.

Eros sempre foi ambíguo, pois herdou do pai (grandes meios ou riqueza) a coragem, decisão e energia, tornando-se um astuto caçador, ávido do que é belo e prazeroso. Por outro lado, herdou de sua mãe (pobreza) a carência permanente e o destino de andarilho. Não é mortal nem imortal, ora germina ora vive, uma vez que morre, outra de novo renasce. Marcado por uma carência constante, herdada de sua mãe, não é sábio, mas se esforça sempre para conhecer e ir mais além, aventurar-se em busca de novos conhecimentos, pois ama a sabedoria e a filosofia que herdou do pai, Poros.

Essa alegoria, segundo Brandão (1988), é uma das primeiras genealogias que se manifestou contra aquela tendência generalizada que classificava Eros como um dos mais importantes deuses mitológicos de uma época. Nota-se que pelo fato de passar por toda a arte sagrada das imolações e purificações, é um ser perdido, que não tem seu espaço no Olimpo nem na Terra, está sempre à procura de seu lugar e nunca o encontra.

O amor, dessa forma, é duplo e maniqueísta em sua origem. Orientado pela beleza e filosofia (ou estética e inteligência/razão), qualidades herdadas do pai, e pela mortalidade, ausência de meios materiais e mentais, e pelas carências advindas da mãe, Eros foi concebido pelo princípio da falta. Se analisarmos a origem do amor utilizando essa alegoria, seria possível explicar as insatisfações constantes de muitos daqueles afetados por ele. Muitos amantes são insaciáveis, querem sempre mais de seus parceiros, cobram de seus pares mais atenção, mais dedicação, mais afeto, suas exigências são intermináveis mesmo quando repletos de amor. Isso por que o amor, talvez, em seu princípio, seja orientado pela carência, falta constante e também pelo desejo de ir além dos recursos que tem.

Já foi ressaltado, de alguma forma, neste presente trabalho, que o desejo se manifesta primeiro por um corpo belo (estética), depois por belas atividades e ocupações (lógica e filosofia). Porém, o homem nunca se satisfaz, parece que não sabe exatamente o que quer e qual seu lugar. Assim, o amor é elevado a um plano ideal, que transcende o físico ou material, sem, porém, excluí-los. Por estar entre o Céu e

Estudos de Psicologia I Campinas I 2(1) I 63-75 I janeiro -.março2005 a Terra tem algo de divino e mítico e, por outro lado, tem seu perfil terreno, mortal e finito. Assim Eros deixa de ser, segundo Brandão (1988), um deus poderoso, como em outras genealogias, passando a ser uma energia eternamente insatisfeita numa busca inquietante de algo que não existe, pois tem a carência nascida de sua origem e, em contrapartida, vontade de tentar sempre alcançar uma plenitude que nunca conquistará.

Com essa alegoria, Platão aponta como responsabilidade do ser humano dar ascensão intelectual e espiritual à força de Eros. Nesse sentido, a elevação do amor é uma questão de inteligência e, portanto, essencialmente masculina, lado herdado de Poros. O intelecto, nessa versão platônica, é considerado também um elemento importante e fundamental para a compreensão e vivência do amor. Emoção e razão passam a fazer parte do mesmo fenômeno, o equilíbrio entre esses dois aspectos é o ponto de maior importância para o desenvolvimento do processo amoroso.

Essas várias percepções de Platão, presentes na obra “O Banquete”, influenciaram a compreensão da origem e significado do amor naquela época e acredita- -se ainda continuar interferindo nas diferentes maneiras de se compreender suas muitas características.

Discussão e reflexões sobre o mito de Eros

A presente discussão consiste na reflexão sobre as principais características do mito de Eros e sua repercussão na vivência e compreensão do amor. Quanto à sua procedência, podemos dizer que o amor está na base, na origem da vida na terra e do ser humano. Segundo a cosmogonia, Eros é o responsável pela união de tudo que existe, portanto, sem ele a vida na terra seria impossível. Também podemos destacar a importância do amor na fase inicial da vida, e os riscos de desorganização interna e imaturidade quando ele não está presente. Noções presentes na versão de Eros e Anteros.

O amor também é visto como uma vivência que proporciona um encontro verdadeiro com o Eu supremo e divino, que compõe o sentido da existência e fortalece a sensação de pertencer a algo maior, dando um significado à existência. Esse amor único é também desligado do tempo, por isso é considerado atemporal e imperecível, algo que não passa, pois tem sua porção divina, como descrito por Fedro.

Segundo Aristófanes, podemos compreender melhor o desejo freqüente das pessoas que amam em estabelecer contatos físicos constantes com seus amados, pois esses contatos ampliam a sensação de bem-estar e prazer. Desse modo, tal manifestação está ligada ao interesse primitivo da pessoa e sua satisfação imediata; o outro se torna seu objeto de prazer. Isso provoca o aumento da tensão e do receio em perder o objeto de prazer, propiciando o surgimento de emoções conflitivas de medo, dor e raiva, características encontradas em muitos amantes.

Ao perderem uma relação de amor, as pessoas reagem, inicialmente, tornando-se frias, distantes e tristes, seus olhos ficam sem brilho, perdem a energia ativa de vida, a dor se torna visível, o corpo se retrai, os gestos se apresentam lentos, a expressão é triste, pesada e sem brilho, há, inicialmente, um fechamento para novos relacionamentos, surge uma desorganização interna, enfim, tendem a perceber a vida como sem graça, sentem-se desmotivadas. A pessoa tem a sensação de estar longe de seu centro, perdida e solitária, como se estivesse morrendo.

Outro aspecto importante para o estabelecimento de relações amorosas é o cognitivo, ligado à razão, pensamentos objetivos, troca de idéias, planos e projetos. Evidenciado na compreensão de Sócrates do surgimento do amor, esses itens precisam estar presentes, e é importante que sejam traçados juntos pelos amantes, pois possibilitam o aumento do desejo de permanecerem unidos, pois seria uma maneira de dar um pouco de segurança aos amantes que possuem sua porção de insegurança, herança mítica de Penia.

O mito de Eros, descrito de formas tão diversas, aponta sua complexidade, importância e dinâmica. A partir de nossa análise, podemos afirmar que a maneira de se expressar e sentir o amor se transforma ao longo da existência, pois esse é um processo interativo e evolutivo. Enfim, o amor é essencial para a realização e plenitude da pessoa, porque é o elemento que preenche de sentido a existência e humaniza as relações na medida em que abre espaço de existência para o outro junto a si.

Estudos de Psicologia I Campinas I 2(1) I 63-75 I janeiro - março2005

É importante, antes de encerrar, ressaltar que acreditamos que essa reflexão seja apenas uma pequena contribuição para ampliar a compreensão, o debate e o aprofundamento teórico sobre o sentido e os efeitos desse fenômeno tão complexo, importante e causador de tanto impacto sobre o nosso bem-estar e o da sociedade.

Acreditamos que não baste discutir o amor, é necessário criar condições para que ele se desenvolva e produza seus frutos: indivíduos plenos, felizes, confiantes, que assumam suas responsabilidades, e, conseqüentemente, possibilitem relações muito mais produtivas, construtivas e felizes.

Referências

Brandão, J.S. (1988). Mitologia Grega (4a ed., v.1-2, p.250). Rio de Janeiro: Vozes.

Bulfinch, T. (2000). O Livro de ouro da Mitologia: a idade da fábula; história de deuses e heróis (12a ed., p.101). Rio de Janeiro: Ediouro.

Cabral, A., & Nick, E. (1974). Dicionário Técnico de Psicologia. São Paulo: Cultrix.

Dantas de Araujo, D.R. (2000). O amor no feminino: ocultamento ou revelação. Dissertação de Mestrado. Instituto de Psicologia; Universidade de São Paulo: São Paulo.

Durozoi, G., & Roussel. A. (1993). Dicionário de Filosofia (3a ed.). Campinas: Papirus.

Hesíodo (1987). Teogonia: a origem dos deuses. São Paulo: Tecnoprint.

Houaiss, A. (2001). Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva.

Fromm, E. (1971). A arte de amar. Belo Horizonte: Itatiaia.

Jung, C. (1978). O Homem e seus símbolos (3a ed.). Rio de Janeiro: Nova fronteira.

Platão. (2000). O Banquete (3a ed., p.50-70). Mem Martins, Portugal: Europa-América.

Teilhard de Chardin, P. (1967). La energía humana. Madrid: Taurus.

Recebido para publicação em 17 de maio e aceito em 30 de novembro de 2004.

(Parte 3 de 3)

Comentários