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Estudos de Psicologia I Campinas I 2(1) I 63-75 I janeiro - março2005Instituto de Ciências Humanas, Curso de Psicologia, Universidade Paulista. Campus Chácara Santo Antônio, Rua Cancioneiro Popular, 210, 04710-0, São Paulo, SP, Brasil. E-mail: <aninhabraz@ig.com.br>.

Origem e significado do amor na mitologia greco-romana Love origin and meaning according to greco-roman mythology

Ana Lúcia Nogueira BRAZ1

Resumo

O presente artigo visou compreender as possíveis origens e o significado do amor, utilizando como referência de análise a mitologia greco-romana. A escolha da abordagem mitológica justifica-se pelo fato de que, em nossa pesquisa, encontramos na cosmologia greco-romana uma das primeiras formulações e significado do amor através do mito de Eros e suas diversas repercussões. Utilizou-se dele para tornar mais claros os diferentes caminhos simbólicos concebidos para explicar a participação do amor no desenvolvimento e formação da psique individual e coletiva. Foram descritas e analisadas diferentes versões de Eros e suas possíveis influências na compreensão e vivência do amor nos tempos atuais. Em nossa análise, podemos afirmar, através do mito de Eros, que o amor é essencial para a realização e plenitude da pessoa, porque é o elemento que preenche de sentido a existência e humaniza as relações na medida em que abre espaço de existência para o outro junto a si.

Palavras-chave: amor; Eros; mitologia grego-romana; significado do amor.

Abstract

The proposal of the following paper was to identify all possible meanings of love through the Greek-Roman mythology. This mythology approach was chosen, as the Greek-Roman cosmology is one of the eldest love concepts and meanings through the Eros myth and its repercussions. This myth explores the symbolic possibilities to understand love influence on the individual and collective psiqué development. Many Eros versions have been analyzed in order to evaluate the actual love meaning possible influences. Considering Eros myth, this paper concludes love is part of human being, as it can give human being’s life and relationships meaning.

Key words: love; Eros; greek-roman mythology; love meaning.

O objetivo deste artigo é realizar uma análise inicial sobre as possíveis origens do conceito amor, seu significado e influência no contexto histórico, cultural e psicológico da civilização ocidental. Pelo fato de haver poucos trabalhos de pesquisas sobre o amor, esse é, em nossa concepção, um campo propício à pesquisa. Nesse sentido, uma investigação histórico-mitológica sobre a origem do amor poderá contribuir para desvendar um pouco mais o misterioso e interessante tema.

Num primeiro momento, procuramos analisar a etimologia da palavra e algumas definições de amor, com a finalidade de compreendê-lo de maneira ampla. Como fruto desta pesquisa inicial, encontramos na cosmologia (corpo de princípios míticos ou científicos que se ocupa em explicar a origem do universo) uma das primeiras formulações e significado do amor através do mito de Eros e suas diversas repercussões.

Por essa razão, buscaremos rever as descrições do amor em diferentes vertentes mitológicas, buscando

Estudos de Psicologia I Campinas I 2(1) I 63-75 I janeiro -.março2005 descrever o significado e o caminho do desenvolvimento amoroso, por essa ótica, com a finalidade de tornar o amor objeto de conhecimento mais profundo.

É importante lembrar que há grande influência dos mitos na história da humanidade. A psicologia, mais especificamente, utilizou-se deles para tornar claros os diferentes caminhos simbólicos concebidos para explicar o desenvolvimento do homem e a formação da psique individual e coletiva. Assim, Freud, Jung, Erich Fromm, entre outros muito contribuíram para que os mitos deixassem de ser vistos como simples lendas ou histórias e passassem a ser entendidos como soluções imaginativas elaboradas pelos povos a fim de solucionar os fenômenos inexplicáveis da natureza, os problemas de cunho emocional, pessoal e cognitivo que lhes propõem sua existência. O mito também é definido como expressão simbólica dos sentimentos e atitudes inconscientes de um povo. Por essa razão, sua importância para a psicologia é tão grande.

Para Jung (1978), os mitos são fundamentais para se compreender a espécie humana, pois através deles é que acontecem as manifestações dos arquétipos, isto é, modelos advindos do inconsciente coletivo da humanidade que constituem a base de formação da psique humana. Os arquétipos têm como função revelar atitudes dos homens, dar uma significação ao mundo e à existência humana.

Dessa maneira, é possível compreender a universalidade dos símbolos, que, segundo Brandão (1988), se apresentam em todas as culturas e épocas de forma idêntica. Eles carregam consigo a possibilidade de vislumbrarmos nossa origem apenas por meio de seu significado, e, por sua vez, facilitam a recuperação da nossa memória e, portanto, da nossa consciência e identidade como ser humano. Nesse sentido, descrever algumas das várias versões do mito de Eros, que envolve o surgimento do amor, poderá contribuir para a compreensão do seu significado nos tempos atuais, assim como poderá resgatar uma parte da identidade da origem do ser humano.

Encontramos na mitologia greco-romana uma das primeiras formulações do significado do amor através das diferentes descrições do mito de Eros, o deus do amor. Embora a mitologia bramânica (indiana) também descreva a lenda de Kama, o deus do amor, a greco-romana foi escolhida por ter influenciado de forma mais direta a cultura ocidental em que vivemos.

Algumas narrativas que serão abordadas sobre a origem de Eros tiveram como base de referência autores clássicos como Hesíodo (1987) e Platão (2000), e copiladores como Brandão (1988) e Bulfinch (2000); esses dois últimos descreveram várias versões sobre o mito de Eros que auxiliarão na compreensão e análise da temática em questão.

A origem do amor segundo a mitologia greco-romana

De forma épica e poética, Hesíodo (1987), com a obra clássica “Teogonia”, descreve como se deu a origem do universo e dos deuses segundo a mitologia greco-romana. A partir desse poema, também conhecido como novela, pode-se iniciar uma análise mais profunda da origem do amor.

Versões sobre a origem do universo e de Eros

O mito da origem do universo foi composto por

Hesíodo, no século VIII a.C. Além de ser um épico, é, provavelmente, a mais antiga descrição de Eros que chegou até nós. Para o autor, o início de tudo se deu na era panteística (relativo a panteísmo: doutrina caracterizada por uma extrema aproximação ou identificação total entre Deus e o universo, concebidos como realidade única integrada). O universo se fez a partir do Caos (Káos), do vazio essencial, isto é, do espaço incomensurável de matéria eterna e rudimentar que pertencia à esfera do não ser; era uma massa confusa, na qual se confundiam os princípios de todos os seres. Do caos surgiram os deuses primordiais. A Terra - também denominada Gaia, Geia ou Vesta original, mãe universal de todos os seres, a sagrada mãe e origem de tudo - foi a primeira a surgir depois do caos. Das profundezas e entranhas da terra, nasceu Tártaro, um deus invisível que representa o inferno. Por fim, Eros, o deus do amor, desperta; ele é o responsável pela união amorosa entre todos os seres, aquele que possibilita a procriação de tudo que há no universo. É, também, o mais belo dos deuses.

Eros é a divindade primordial ou original responsável pela união amorosa entre os seres. Com

Estudos de Psicologia I Campinas I 2(1) I 63-75 I janeiro - março2005 isso, pode-se dizer que ele é preponderante para o surgimento da vida no universo, visto que apresenta grande influência sobre todas as coisas da natureza. A energia do amor é forte e avassaladora; para Hesíodo, não há ser que possa opor resistência a Eros, pois ele é a força cósmica da fecundação e multiplicação, e, conseqüentemente, perpetuação da vida, inspirando simpatia entre os seres para que se unam. Esse deus é também responsável pela união e ordenação das diferentes forças do universo ou da afinidade universal. Nenhum ser pode se furtar da sua influência ou força, seu poder vai além da natureza animada, ele une, mistura, multiplica não só humanos, mas várias espécies de vegetais, minerais, enfim, dá vida a toda a natureza; seus domínios envolvem todos e tudo. Dessa maneira, Hesíodo deixa bastante evidente a importância que atribuiu a Eros na formação do mundo. Como dito anteriormente, essa é, provavelmente, uma das primeiras explicações sobre a origem de Eros, porém, esse mito recebeu várias versões ao longo dos tempos que serão descritas sinteticamente a fim de podermos conhecer e ampliar nosso universo de análise sobre o amor.

Em uma das variantes do mito de Eros, encontra-se a Orfinica (filosofia originada na Grécia do século VII a.C., cuja origem é atribuída a Orfeu, que tinha a idéia de transmigração, de reencarnação da alma humana, após a morte corporal). Segundo ela, o deus nasce de um ovo primordial, concebido pela união de Caos (o vazio) e Nix (noite); das duas metades de sua casca surgem Urano (Céu) e Geia (Terra); do centro desse ovo nasce Eros, energia que garante a vida, força fundamental de união do mundo. É interessante notar que somente com o ovo primordial a vida na Terra torna-se viável. Nessa versão, Eros é visto como força de ligação e coesão do universo, trazendo em si o desejo de tudo ligar e unir.

Já na versão de Parmênides de Eléia, século VI a.C., o começo de tudo se deu a partir de dois princípios contraditórios: o Dia e a Noite, que separados nada podiam gerar. A formação de todas as coisas dependeria do equilíbrio recíproco entre esses dois elementos. Para tanto, nasceu Eros já com a responsabilidade de realizar a atração e o equilíbrio entre a própria contradição. E assim o faz, sendo, pois, considerado o fundador do Universo, bem como o da existência da vida nele.

Quase da mesma maneira acontece na genealogia de Empédocles, que data, segundo Durozoi e Roussel (1993), aproximadamente, de 420 a.C. É descrito o universo como sendo produzido por forças opostas, porém complementares. Philia, o amor, atua aproximando os diferentes seres e coisas da natureza, enquanto Neikos, o ódio, no sentido contrário, busca apenas união das coisas iguais. A ligação desses dois seres promoveu a constituição dos quatro elementos fundamentais: água, terra, fogo e ar. Através do poder de coesão do amor e do ódio, surgiram os diferentes elementos da natureza e os seres do universo.

Os deuses, isoladamente, nas diversas versões cosmogônicas descritas, criaram os espaços, o dia, a noite, a terra e o inferno, nos quais não se desenvolvia vida, que só surgiu por intermédio de Eros (gerador do processo de união), que promoveu, assim, seu desenvolvimento. Pode-se notar que Eros é considerado, nessas diversas genealogias citadas, um deus poderoso e fundamental. Por isso, alguns filósofos das Academias, segundo Brandão (1988), insurgiram-se contra a tendência generalizada de fortalecer a imagem dele. Desse modo, produziram-se novas cosmogonias, que atribuíram novas origens ao tão questionado deus.

No período de domínio romano, despontaram outras versões, passando Eros a ser visto como um deus de categoria inferior, um demônio (daimóin, palavra grega que significa deus de categoria inferior, intermediário entre os deuses e os mortais), que exercia seu poder sobre os homens. Por estar entre os humanos e as divindades, pois unia o “Todo” (os deuses) ao homem, era depreciado. Na mesma direção outra índole foi atribuída ao deus do amor. Na versão de Eurípides, Eros tem duplo caráter, num momento era força perniciosa que provocava a ruína dos homens e, em outro, o poder que levava a virtude e a salvação aos homens.

No período Alexandrino, o deus perdeu sua dimensão primordial para se tornar o promotor de aventuras perversas e galantes entre os mortais. Houve uma grande mudança na maneira de compreender sua origem e função. Nessa fase, ele perdeu suas características originais de deus primordial e passou a ser considerado como uma força ou uma energia que provocava um estado de insatisfação e inquietude no ser humano.

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Muitas versões diferentes continuaram a aparecer para compor a origem e desenvolvimento de Eros. Na mais conhecida ou popular na civilização ocidental, segundo Brandão (1988), Eros foi concebido por Hermes e Afrodite Urânia, a divindade dos amores etéreos. Filho da deusa do amor e da beleza, Eros foi descrito como companheiro e auxiliar constante de sua mãe, tendo como função realizar todos os seus desejos e pedidos. Dessa maneira, ele se tornou um ser sem vontade própria, usado como um objeto realizador das vinganças de Afrodite ou, simplesmente, mediador da sua diversão.

Em outra variante pouco encontrada, de autoria incerta, Eros é representado como um garotinho louro, alado e travesso. Conta-se que Afrodite, preocupada com seu filho que não crescia, queixou-se e pediu orientação a Têmis, deus profético da lei que, com sua sabedoria, esclareceu que o menino não crescia por ser uma criança muito solitária, por não partilhar nada e por não conhecer o sentimento de troca, nem de fraternidade. Têmis afirmou também que ele haveria de crescer se compartilhasse seu desenvolvimento e vida com alguém. Por fim, o deus da lei orienta Afrodite a ter mais um filho. Seguindo sua orientação, ela dá à luz Anteros, deus do amor mútuo e compartilhado. A partir desse nascimento, Eros passa a conviver com seu irmão, dividindo a atenção da mãe. Ao experimentar o sentimento de cuidado e amizade para com o outro, ele começou a se desenvolver e se tornar o deus mais belo e formoso do Olimpo.

De acordo com a história acima, Eros só foi capaz de se desenvolver quando experimentou vivenciar uma relação de troca, de atenção e cuidados, ou seja, um relacionamento próximo e afetivo com um igual. Anteros (anti-Eros), símbolo do amor recíproco, tem como característica ser um amor mútuo e infinito, que cresce quando compartilhado. Seu nome lhe dá um caráter moderador, diferentemente de Eros que é perverso e essencialmente servo dos desejos e vontades de sua mãe. Anteros, por conseguinte, surge como oponente das maldades promovidas pelo irmão; sua função era de enriquecer a si e ao outro por meio da entrega total, da generosidade e da reciprocidade. O amor que Anteros distribuía multiplicava-se sempre que era compartilhado com o outro, ou, em outras palavras, quanto mais fosse dividido, maior se tornaria.

Com esse contato, Eros pôde se desenvolver e atingir a idade adulta. Por isso, o nascimento de Anteros prova que o crescimento e evolução são obtidos por intermédio do cuidado e amor gratuito. Amando Eros sem estabelecer condições, convivendo com suas maldades sem o julgar, estando próximo e disposto a ajudá-lo quando necessário, ele enriqueceu a si e ao irmão. Esse mito permite que se perceba a importância da reciprocidade nas relações de afetividade, nas quais o amor, para crescer, tem necessidade de ser compartilhado e multiplicado. Anteros, portanto, nasce com o objetivo de dar o sentido original ao amor fraternal, cuja característica básica é ser gratuito, mútuo e incondicional, isto é, independentemente do que é amado. Eros, ao perceber que era capaz de estabelecer uma relação amorosa, fraternal e incondicional, consegue se desenvolver e se tornar adulto, um ser único, inteiro e diferenciado.

Observa-se que essa versão é pouco conhecida e raras vezes encontrada nas diversas obras sobre o assunto. Vale salientar que é interessante e, até mesmo, estranho constatar que Anteros não é mais citado nessa e nem em outra genealogia. Não há continuidade de sua história. Nessa lenda, ele foi uma poderosa fonte de desenvolvimento e crescimento para Eros, mas logo desapareceu. Supomos que tal fato indique a desatenção e pouca importância dada aos sentimentos de fraternidade e de gratuidade ao longo da história dos homens ocidentais.

Diferentemente dessa, a alegoria que mais se tornou conhecida e preferida por poetas, escultores e pintores sobre a origem de Eros, segundo Brandão (1988), é aquela cujo deus é filho de Afrodite (deusa da vulgaridade e dos desejos incontroláveis) e Hermes (o intérprete da vontade dos deuses, patrono da ciência, aquele que conduz a luz para as trevas). Nessa narrativa, Eros é caracterizado como um garotinho alado, perverso, travesso e que jamais cresceu. De acordo com essa versão, o cupido se apresenta de olhos vendados, armado em uma das mãos com um arco e flecha, e segurando, na outra, um globo, que às vezes é substituído por uma tocha.

Tal simbologia de Eros pode ser compreendida quando se busca o sentido ou significado de cada ícone utilizado nessa representação. O primeiro símbolo é o da criança alada, muito travessa e perversa repre-

Estudos de Psicologia I Campinas I 2(1) I 63-75 I janeiro - março2005 sentando a juventude, imaturidade, irresponsabilidade e impulsividade. Essa imagem nos faz entender o quão infantil e adolescente é o amor, o que nos remete à idéia de que ele nunca chegará à idade da razão (logos), motivo de sua irracionalidade, sempre traquina e perversa, guiada somente pelo princípio do prazer.

O segundo símbolo é o arco e a fecha, uma arma de caça, indicando que o amor não é algo que venha sem esforço, pelo contrário, está ligado à luta para a conquista dos objetivos. É um instrumento de ataque e ao mesmo tempo de defesa, indicando que no amor há movimento constante, alternando tempos de tranqüilidade e de “guerra”.

O terceiro símbolo é a venda nos olhos, significando a cegueira do amor. Eros se diverte, domina, apossa-se do outro mesmo sem vê-lo, talvez isso tenha dado origem ao tão conhecido e velho ditado popular: “o amor é cego”. O deus em sua origem nunca vê quem é atingido pelas setas que despertam o amor.

O globo, representando o quarto símbolo, é traduzido como a universalidade do amor, que alcança toda a terra a ponto de ninguém poder escapar da sua força. A tocha, que, às vezes, substitui o globo, indica a força flamejante, quente e intensa do amor; é o fogo que arde constantemente no interior do ser humano.

Não é só nessa alegoria que Eros, companheiro inseparável de Afrodite e obediente de todas as suas ordens, é considerado o instrumento de vingança da deusa. Em razão da sua perversidade, deixa de ser a força unificadora, que se identificava em versões anteriores, converte-se em agente de divisão, pois está sempre servindo o princípio egoísta de Afrodite, passando a viver como um autômato, em estado de passividade.

Nas genealogias iniciais, século VII a.C., Eros é considerado o princípio gerador de vida e união, deus primordial que promove a junção das forças distintas do universo. Em detrimento disso, transforma-se, nas versões posteriores, em símbolo do egoísmo e perversidade humana como reflexo da influência de sua mãe.

Poucos são os mitos que sofreram uma transformação tão evidente e marcante ao longo da mitologia greco-romana. Talvez isso possa tanto indicar a dificuldade do homem em valorizar e dar um sentido amplo e desinteressado à existência do amor em sua vida, quanto traduzir as dificuldades do amor na vivência e consciência humana.

Por meio das narrativas citadas até agora, constatamos que Eros se transformou em mero servidor de sua mãe, cumprindo, digamos, um papel secundário nos mitos. No entanto, há uma versão em que o deus é protagonista e sua genealogia tem continuidade. Assim, em determinado momento, ao invés de impingir nos outros o amor, é irrompido por ele com uma de suas setas. Se antes o amor apenas pungia nas flechas lançadas contra os mais diferentes seres a fim de provocá-lo em cada um, agora, ao ser enfeitiçado por ele, sua vida se transforma: torna-se um ser inteiro e pleno. Essa versão, em que o deus do amor aparece mais adulto e com vida própria, é encontrada no clássico mito de Psique.

Tal lenda indica a dimensão do amor adulto e todas as dificuldades desse para se estabelecer e se manter. Devemos nos ater com mais detalhes à sua descrição por conter informações importantes, seja na questão da análise do amor maduro, seja por ser esse mito escolhido pela psicologia como símbolo de origem. Ao conhecer melhor a lenda, sua análise e compreensão poderão ser facilitadas.

O mito de Eros e Psique

Antes da analogia propriamente dita, é necessário esclarecer que “psique” é uma palavra derivada do verbo psýkhein, que significa soprar, respirar. Etimologicamente, “psique” significa sopro vital, vida, essência ou personificação do princípio da vida, princípio que anima o universo.

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