(Parte 1 de 4)

Rev Esc Enferm USP 2006; 40(4):515-23. w.e.usp.br/reusp/

A interação enfermeira-recém-nascido durante a prática de aspiração orotraqueal e coleta de sangue515Rolim KMC, Cardoso MVLML.

Karla Maria Carneiro Rolim1, Maria Vera Lúcia Moreira Leitão Cardoso2

RESUMO Refletindo nossa vivência como enfermeiras na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN), assim como da urgência em assistir o recém-nascido (RN) internado, objetivamos descrever a interação entre enfermeira e RN durante a prática do cuidado na aspiração orotraqueal, na coleta de sangue para exames laboratoriais com ênfase nas respostas fisiológicas e comportamentais. Pesquisa exploratória, descritiva, na qual utilizamos a Teoria de Paterson e Zderad (1976). Realizada numa maternidade pública, em Fortaleza-CE, com seis enfermeiras e 21 bebês de risco. Coletamos os dados no período de abril a junho de 2003. Os resultados demonstraram que os RNs, ao interagirem com os enfermeiros, apresentaram aumento da freqüência cardíaca, diminuição da saturação de oxigênio, expressão de choro, agitação, tranqüilidade, calma. O enfermeiro, na maioria das vezes, utilizou o toque técnico, mas pudemos presenciar, as relações Eu-Tu e Eu-Isso com base na Teoria Humanística a qual pode ser praticada no cotidiano do cuidado ao bebê.

DESCRITORES Relações enfermeiro-paciente. Cuidados de enfermagem. Prematuro. Unidades de Terapia Intensiva Neonatal.

A interação enferA interação enferA interação enferA interação enferA interação enfermeira-recém-meira-recém-meira-recém-meira-recém-meira-recém-nascidonascidonascidonascidonascido durante a prática de aspiracãodurante a prática de aspiracãodurante a prática de aspiracãodurante a prática de aspiracãodurante a prática de aspiracão orotraqueal e coleta de sangueorotraqueal e coleta de sangueorotraqueal e coleta de sangueorotraqueal e coleta de sangueorotraqueal e coleta de sangue*****

Recebido: 27/10/2004 Aprovado: 05/12/2005

* Extraído da dissertação “ A enfermagem e o recém-nascido de risco: refletindo sobre a atenção humanizada”, Universidade Federal do Ceará/UFC, 2003. 1 Mestra em Enfermagem Clínico-Cirúrgica. Doutoranda em Enfermagem pela UFC. Enfermeira da Maternidade-Escola Assis Chateaubriand- MEAC/UFC. Integrante do Projeto “Saúde do Binômio Mãe-Filho”, UFC. Professora do Curso de Enfermagem da Universidade de Fortaleza-UNIFOR. karla.rolim@uol.com.br 2 Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta do DENF/FFOE/UFC. Coordenadora do Projeto “Saúde do Binômio Mãe-Filho”, UFC. cardoso@ufc.br

RESUMEN Reflexionando en nuestra vivencia como enfermeras en la Unidad de Cuidados Intensivos Neonatal (UTIN), así como en la urgencia de asistir al recién nacido (RN) internado, tuvimos como objetivo describir la interacción entre enfermera y RN durante la práctica del cuidado en la aspiración orotraqueal y en la recolección de sangre para exámenes de laboratorio con énfasis en las respuestas fisiológicas y de comportamiento. Se trata de una investigación exploratoria, descriptiva, en la cual utilizamos la Teoría de Paterson y Zderad (1976). Se llevó a cabo en una maternidad pública, en Fortaleza- CE, con seis enfermeras y 21 bebés de riesgo. Recolectamos los datos en el período de abril a junio del 2003. Los resultados demostraron que los RNs, al interactuar con los enfermeros, presentaron aumento de la frecuencia cardiaca, disminución de la saturación de oxígeno, expresión de llanto, agitación, tranquilidad, calma. El enfermero, la mayoría de las veces, utilizó el toque técnico, pero pudimos presenciar, las relaciones Yo-Tú y Yo-Eso, basada en la Teoría Huma-nística, la misma que puede ser practicada en el cotidiano del cuidado al bebé.

DESCRIPTORES Relaciones enfermero-paciente. Atención de enfermeria. Prematuro. Unidades de terapia intensiva neonatal.

ABSTRACT Reflecting on our experience as nurses in the Neonatal Intensive Care Unit (NICU), as well as on the urgency in the assistance to hospitalized newborns (NB), we aimed at describing the interaction between nurses and NBs during the practice of care in the oral tracheal aspiration and in the blood collection for laboratory exams, with emphasis on the physiological and behavioral responses. This is an exploratory and descriptive research, in which we used the Paterson and Zderad Theory (1976). It was conducted in a public maternity ward in Fortaleza, State of Ceará, with six nurses and 21 babies at risk. The data was collected in the period from April to June, 2003. The results showed that, when interacting with nurses, NBs show increased heart rate, decreased oxygen saturation, weeping expression, agitation, tranquility, calmness. Most of the times nurses used the technical touch, but, as we could observe, the relations I-Thou, and I-It, based on the Humanistic Theory, which can be applied in the babies’ everyday care.

KEY WORDS Nurse-patient relations. Nursing care. Infant, premature. Intensive care units, neonatal.

Rev Esc Enferm USP

2006; 40(4):515-23. w.e.usp.br/reusp/516A interação enfermeira-recém-nascido durante a prática de aspiração orotraqueal e coleta de sangue Rolim KMC, Cardoso MVLML.

A criação e a implementação de ambientes para cuidados intensivos constituem um direito e uma necessidade de todos os seres humanos, meta a ser perseguida pelos profissionais de saúde, incluindo-se aí a enfermeira, que deve ser comprometida em prover conforto e bem-estar ao processo de viver e morrer, utilizando cuidados que preservem e estimulem a vida.

A atenção ao recém-nascido (RN) deve ser estruturada e organizada, pois este faz parte da população sujeita a riscos. A assistência, portanto, não deve ser direcionada somente para condutas técnicas operacionais, mas também para uma tecnologia associada ao acolhimento, desenvolvendo uma visão esclarecedora, que vem do “olho do coração” do cuidador para o ser que está sendo cuidado em sua integralidade, respeitando sua individualidade.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, o recém-nascido pré-termo (RNPT) é aquele que nasce com idade gestacional inferior a 37 semanas; é, por necessidade vital, separado de sua mãe e conduzido à Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN), onde se deparará com um

As luzes são contínuas e fortes, e o nível sonoro é alto. O bebê passa a ser excessivamente manuseado, cerca de 134 vezes em 24 horas, durante a fase mais crítica, tanto por

Na tentativa de melhorar o estado de saúde do RNPT, os profissionais que dele cuidam realizam muitos procedimentos como intubação, ventilação mecânica, inserção de cateteres, além de punções venosas que podem prolongar-se por muitos dias, favorecendo a um processo de excessivos episódios de manuseio. O recém-nascido permanecerá por algum tempo em uma incubadora, longe do carinho e do aconchego de sua mãe, sentirá não o cheiro do leite e da pele materna, mas o odor de substâncias usadas em procedimentos, na lavagem das mãos dos cuidadores e nos lençóis de seu leito.

Essa assistência, muitas vezes, não demonstra cuidado direcionado para a preservação da individualidade do bebê, podendo ocorrer a qualquer hora de acordo com as necessidades da equipe de saúde e, geralmente, não é modificada levando em consideração os sinais emitidos pelo bebê, seja pela pele, pelo choro e pelas mímicas as quais podem demonstrar desagrado.

A enfermagem atua fazendo, refazendo, construindo e reconstruindo o cuidado, no qual o RN se comporta não como objeto, mas como sujeito ativo e receptivo, percebendo e interagindo com o cuidador. Assim, acreditamos que o cuidado a ser implementado na UTIN necessita ser vivenciado em sua totalidade, na tentativa de reduzir manu- seios excessivos que possam comprometer o bem-estar do bebê, provocando nele manifestações de estresse, dor, alterações fisiológicas e comportamentais.

Sabemos que o avanço tecnológico e a criatividade humana têm contribuído para a cura e o tratamento de muitas doenças que acometem bebês. Nosso interesse profissional é de buscar modificações na atenção ao RN de risco, em um ambiente onde a tecnologia não seja tão importante que se sobreponha às situações humanas e no qual o bebê vivencia a necessidade de lutar pela sua sobrevivência.

Em uma UTIN, onde a prioridade é salvar vidas, ainda percebemos certa valorização acentuada da técnica, exigindo conhecimentos especializados, uma equipe de profissionais qualificada e competente no uso de equipamentos e materiais, porém acreditamos que a tecnologia deva ser utilizada como meio para o cuidado e não como o seu fim. O cuidado aqui relatado tem ações humanizadas de enfermagem, quando o RN é assistido individualmente com respeito. Os caminhos a serem percorridos pela enfermeira para atingir os objetivos assistenciais são os que preservam aspectos humanos, técnicos e éticos.

Ademais, quando nos detemos à temática, consideramos que o ser humano é um ser individual necessariamente relacionado com outros homens no tempo e no espaço, é dotado de sentimentos e de valores que lhes são inerentes, e cujo bem-estar físico, psicológico, social e afetivo deve ser estimulado e mantido.

Enfatizamos a nossa vivência e a preocupação com os bebês de risco na UTIN, além da grande responsabilidade do que é sermos enfermeiras intensivistas. Quando o RN está enfermo, a habilidade para adaptação e ajustamento no ambiente extrauterino apresenta-se alterada e facilmente se descompensa, levando o bebê a instabilidades de funções fisiológicas, afetando também seu desenvolvimento neuromotor.

Este ambiente tão tecnicista não tem o objetivo de eliminar os cuidados, mas de propiciar tempo para que os cuidadores permaneçam perto do paciente, olhando-o, tocando-o, dialogando com ele e até velando seu sono tranqüilo, enquanto monitores fornecem os dados vitais(3). O meio ambiente estressante, barulhento e com iluminação excessiva da UTIN predispõe o bebê a desenvolver complicações clínicas, como bradicardia, apnéia e deficiência

Humanizar este ambiente implica sensibilizar pessoas ao envolvimento, à flexibilidade e à singularidade a olhar as situações de enfermagem, buscando uma relação harmônica na qual o profissional e o RN possam juntos estimular e

Rev Esc Enferm USP 2006; 40(4):515-23. w.e.usp.br/reusp/

A interação enfermeira-recém-nascido durante a prática de aspiração orotraqueal e coleta de sangue517Rolim KMC, Cardoso MVLML.

serem estimulados na busca do bem-estar e de estar melhor. A observação dos sinais emitidos pelo RN é essencial, uma vez que a falta de respostas comportamentais e choro não é, necessariamente, indicativo de falta de dor. As instituições de saúde devem desenvolver e implementar cuidados de prevenção à dor e ao estresse do RN, utilizando-se, entretanto, de programas educacionais que sensibilizem os profissionais quanto à utilização de estratégias e individuali-

Surge um paradigma: o cuidado não pode ocorrer a qualquer hora, de acordo com as necessidades da equipe de saúde. Há um interesse cada vez maior em compreender o bebê, avaliando e adequando os procedimentos de cuidado, sendo um dos passos do cuidado humanizado a observação das respostas comportamentais e fisiológicas do bebê ao manuseio. Devem ser observados pela enfermeira os sinais emitidos por ele como choro, mímicas de desagrado, mudanças de coloração da pele, e planejar e executar ações de consolo, promovendo segurança, favorecendo a organização motora e sensorial, visando diminuir danos à sua recuperação. O entendimento, pela enfermeira, da concepção do ser humano na sua totalidade favorece a determinação do cuidado integral.

Os procedimentos técnicos que permeiam a assistência ao bebê de risco estão relacionados a vários agravantes da saúde, como os distúrbios respiratórios, os quais são considerados como uma das principais causas de mortalidade no período neonatal, sendo também responsáveis pela maior parte das admissões em UTIN(6). Estes distúrbios são de origens diversas, incluindo-se as causas pulmonares, seguidas daquelas que necessitam de intervenções cirúrgicas e de urgência. Os bebês que apresentam estes distúrbios necessitam de suporte ventilatório mecânico por

A avaliação laboratorial é de extrema importância na assistência de RN com distúrbios respiratórios. Exames como hemograma, glicemia, hemocultura e gasometria arterial são indispensáveis no diagnóstico de doença respiratória. Particularmente necessário é um exame radiológico do tórax. Após os resultados destes exames, são prescritas as altera-

A aspiração da cânula ou tubo orotraqueal é realizada pela enfermeira e de preferência com ajuda de outro profissional, com a finalidade de manter permeável a via respiratória. Para isso, utiliza um equipamento e segue uma ordem lógica de execução, de acordo com seu discernimento técnico e com atitudes humanizadas, o que é entendido como meio de confortar, conversar, tranqüilizar, acariciar e propor-

Uma criança intubada não pode fazer uso da palavra, não chora, mas continua pensando; em seu peito existe um coração que sente, e ele pode se comunicar sim, com o rosto, com as mãos e com o corpo(8). Esta situação em que o bebê não verbaliza seus sentimentos contribui para o descaso ao choro, e ele pode chamar a atenção do profissional, fazendo uso de outros sinais, como agitação, cianose, queda de saturação e até mesmo vômitos, podendo estas altera-

O fator desconforto deve ser observado com muita atenção pela enfermeira, pois, por muitas vezes, é necessária a restrição dos movimentos do bebê na incubadora para evitar a desconexão do tubo orotraqueal do suporte ventilatório mecânico. Para evitar este desconforto, o desgaste físico e psicológico do RN, a enfermeira poderá dispor de um toque carinhoso, procurando promover sensação de segurança e tranqüilidade ao bebê, posicionando-o confortavelmente no leito, mantendo suas mãos livres e na altura dos lábios, estimulando, assim, a sucção não nutritiva.

É a sua percepção, o seu olhar holístico para com o bebê, que conduz à observação do chamado deste paciente feito por meios não verbais, denotando a rejeição ao suporte ventilatório e às condições de dor, irritação ou quaisquer outras vivenciadas e sentidas por ele. O manuseio realizado de forma huma-nizada pela enfermeira é uma atitude que implica estar com o bebê, experenciando a totalidade do momento do encontro, sendo responsável, ético, competente, empático, dedicado, atencioso, afetivo, interagindo por meio do olhar, do toque, da fala e de outras ações que favoreçam

A busca da diminuição da morbimortalidade perinatal e o compromisso com o cuidado que priorize o bem-estar do bebê, no qual a avaliação e a adequação dos procedimentos respeitem e promovam a vida humana, justificam sobremaneira a realização deste estudo, tornando-nos convictas de que a profusão das informações que envolvem a assistência baseada na humanização é o caminho a ser traçado por aqueles que almejam qualidade em suas ações.

Assim, ousamos estudar nesta pesquisa o cuidado de enfermagem a ser oferecido ao bebê na UTIN, incluindo procedimentos realizados diariamente pelo enfermeiro como a coleta de sangue para exames laboratoriais, que se configura como importante no manejo de distúrbios respiratórios e, na maioria das vezes, de acordo com seus achados, realizam-se alterações na terapêutica do bebê; e a conduta da enfermeira frente à aspiração orotraqueal, que deve ser compreendida muito além da manutenção das vias desobstruídas, pois nesta ocasião, durante o desempenho dos cuidados, deverá ser percebida pela enfermeira a sincronia do bebê com o aparelho de ventilação mecânica e os

A observação dos sinais emitidos pelo

RN é essencial, uma vez que a falta de respostas comportamentais e choro não é necessariamente, indicativo de falta de dor.

Rev Esc Enferm USP

2006; 40(4):515-23. w.e.usp.br/reusp/518A interação enfermeira-recém-nascido durante a prática de aspiração orotraqueal e coleta de sangue Rolim KMC, Cardoso MVLML.

movimentos utilizados por ele como tentativas de comunicação. São os chamados do bebê.

Refletindo nossa vivência como enfermeiras atuantes na

UTIN, assim como da urgência em assistir o RN de risco, este estudo teve como objetivo descrever a interação entre enfermeira e recém-nascido internado em UTIN durante a prática do cuidado na aspiração orotraqueal, na coleta de sangue para exames laboratoriais destacando suas respostas fisiológicas e comportamentais.

Pesquisa exploratória-descritiva, desenvolvida numa abordagem qualitativa, tendo como foco essencial o cuidado de enfermagem realizado pela enfermeira na UTIN ao recém-nascido de risco. O referencial teórico-metodológico foi a Teoria Humanística de Paterson e Zderad, que compreende os fundamentos e significados humanos da enfermagem para direcionar o desenvolvimento do cuidado respeitando-se o contexto e a relação humana.

O local escolhido para execução desse estudo foi a Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) de uma maternidade de referência na cidade de Fortaleza-Ceará. Esta é considerada de nível terciário, constituindo referência para atendimentos obstétrico e neonatal de alta complexidade.

Os sujeitos da pesquisa enquadraram-se em dois grupos: o primeiro composto por seis enfermeiras atuantes na UTIN, nos períodos da manhã e da tarde. Justificamos esta escolha por serem estas, membros da escala fixa, possuindo maior tempo de permanência contínua e familiarização com as rotinas do dia, visto que as enfermeiras da escala noturna trabalham doze horas e, em seguida permanecem por 48h afastadas da UTIN em regime de descanso e folga. Essas profissionais atuam no cuidado aos bebês considerados de risco, realizando procedimentos, como a venopunção, a aspiração orotraqueal e das vias aéreas superiores. Escolhemos denominar as enfermeiras participantes com cognomes de anjos, pois, anjos são todos os que estão ao nosso lado o tempo todo, inspirando, guiando e protegendo.

A enfermagem desenvolvida como uma experiência existencial descrita por Paterson e Zderad(9) permite que a enfermeira reflita e descreva fenomenologicamente os chamados e respostas que surgiram na relação com outro e o conhecimento adquirido por meio da experiência, assim, reconhecendo o outro em sua singularidade, como alguém que luta para sobreviver, para vir a ser, confirmar sua existência e entendê-la. Trata-se de uma teoria que ressalta a prática da enfermagem humanística; o seu significado; a experiência existencial; a descrição fenomenológica; o fenômeno da enfermagem com o bem-estar; o potencial humano; a transação intersubjetiva; o diálogo vivo, desenvolvido pelo en-

(Parte 1 de 4)

Comentários