manual de linguistica:subsdios para a formaçao de professores indigenas na aea de linguagem

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(Parte 1 de 5)

Brasília, dezembro de 2006

Manual de

Lingüística:

subsídios para a formação de professores indígenas na área de linguagem

Marcus Maia

Edições MEC/UNESCO

Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva

Ministro da Educação Fernando Haddad

Secretário-Executivo José Henrique Paim Fernandes

Secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade Ricardo Henriques

SECAD - Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade Esplanada dos Ministérios, Bl L, sala 700 Brasília, DF, CEP: 70097-90 Tel: (5 61) 2104-8432 Fax: (5 61)

Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura Representação no Brasil SAS, Quadra 5, Bloco H, Lote 6, Ed. CNPq/IBICT/UNESCO, 9º andar 70070-914 - Brasília - DF - Brasil Tel.: (5 61) 2106-3500 Fax: (5 61) 32-4261 Site: w.unesco.org.br E-mail: grupoeditorial@unesco.org.

Manual de

Lingüística:

subsídios para a formação de professores indígenas na área de linguagem

Marcus Maia

© 2006. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad), Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e Projeto Trilhas de Conhecimentos – LACED/Museu Nacional

Conselho Editorial da Coleção Educação para Todos Adama Ouane Alberto Melo Célio da Cunha Dalila Shepard Osmar Fávero Ricardo Henriques

Coordenação Editorial Antonio Carlos de Souza Lima

Projeto Gráfico e Diagramação: Andréia Resende Assistentes: Jorge Tadeu Martins e Luciana Ribeiro Ilustrações: Chang Whan Apoio: Rodrigo Cipoli Cajueiro e Francisco das Chagas de Souza / LACED

Tiragem: 5000 exemplares

Os autores são responsáveis pela escolha e apresentação dos fatos contidos nesse livro, bem como pelas opiniões nele expressas, que não são necessariamente as da UNESCO e da SECAD/MEC, nem comprometem a Organização e a Secretaria. As indicações de nomes e a apresentação do material ao longo deste livro não implicam a manifestação de qualquer opinião por parte da UNESCO e da SECAD/ MEC a respeito da condição jurídica de qualquer país, território, cidade, região ou de suas autoridades, nem tampouco a delimitação de suas fronteiras ou limites.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Manual de Lingüística: subsídios para a formação de professores indígenas na área de linguagem / Marcus Maia

- Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade; LACED/Museu Nacional, 2006.

1. Línguas Indígenas2. Lingüística. 3. Bilingüismo. 4. Índios do Brasil. I. Maia, Marcus.

Parceiros

Este livro integra a série Vias dos Saberes, desenvolvida pelo Projeto Trilhas de Conhecimentos: o Ensino Superior de Indígenas no Brasil / LACED – Laboratório de Pesquisas em Etnicidade, Cultura e Desenvolvimento / Museu Nacional – UFRJ, em parceria com a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad), e contou com o financiamento do fundo Pathways to Higher Education Initiative da Fundação Ford e da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

A iniciativa Pathways to Higher Education (PHE) foi concebida para complementar o International Fellowships Program – IFP da Fundação Ford, e tem como proposta investir recursos em vários países até o ano de 2010 para promover projetos que aumentem as possibilidades de acesso, permanência e sucesso no ensino superior de integrantes de segmentos educacionalmente sub-representados em países nos quais a Fundação Ford mantém programas de doações. Enquanto o IFP apóia diretamente indivíduos cursando a pós-graduação por meio da concessão de bolsas de estudo, a PHE tem por objetivo fortalecer instituições educacionais interessadas em oferecer formação de qualidade em nível de graduação a estudantes selecionados para o programa, revendo suas estruturas, metas e rotinas de atuação. Na América Latina, a PHE financia projetos para estudantes indígenas do Brasil, do Chile, do México e do Peru.

Sumário

Ricardo Henriques9

Apresentação

Antonio Carlos de Souza Lima1
Introdução17

Prefácio

1.1 Linguagem e língua23
1.2 Infinitude discreta24
1.3 Comportamentalismo e cognitivismo25
1.4 O problema de Platão e o problema de Orwell26
1.5 Aquisição e aprendizagem da linguagem30
1.6 Competência e desempenho31
particulares34
1.8 Descritivismo e prescritivismo36
1.9 O preconceito lingüístico40
1.10 Língua oral e língua escrita41
1.1 A forma da gramática4
1.12 As funções da linguagem46
Atividades sugeridas49
Leituras adicionais51

CAPÍTULO 1 I A Linguagem Humana: conceitos fundamentais 1.7 Princípios da gramática universal e parâmetros das gramáticas

2.1 A estrutura da linguagem53
2.1.1 O signo lingüístico54
2.2 A fonética59
2.2.3 A classificação dos contóides69
2.2.4 A classificação dos vocóides73
2.2.5 A prosódia75
2.2.6 A sílaba75
2.2.7 O vocábulo fonético76
2.3 A fonologia76
2.3.1 A análise fonêmica79
2.4 A morfologia82
2.4.1 Classes de palavras83
2.4.2 Categorias lexicais e categorias funcionais87
2.4.3 Lexemas e morfemas87
2.4.4 Tipos de morfemas89
2.5 A Sintaxe90
2.5.1 As estruturas sintáticas91
2.5.2 Valência verbal93
2.5.3 A delimitação dos sintagmas94
2.5.4 Argumentos e adjuntos97
2.5.5 A ambigüidade estrutural97
2.5.6 As funcões sintáticas100
2.5.7 Tópico e foco105
2.6 A semântica108
2.6.1 Campos semânticos1
2.6.2 Linguagem e pensamento113
2.6.3 A lexicografia114
2.7 A pragmática118
2.7.1 O contexto119
2.7.2 Os atos de fala120
2.7.3 A dêixis121
2.7.4 A análise do discurso126
Atividades sugeridas127
Leituras adicionais148
3.1 Variação diatópica152
3.2 Variação diastrática158
3.4.1 A lingüística histórico-comparativa169
Atividades sugeridas172
Leituras adicionais175
4.1 A abordagem tipológica178
4.2 A tipologia lingüística179
4.3 A tipologia de ordem vocabular182
4.3.1 Os universais de Greenberg185
4.3.2 As generalizações de Lehmann187
4.4 A tipologia de marcação de casos200
Atividades sugeridas204
Leituras adicionais209

CAPÍTULO 4 I A Tipologia Lingüística

5.1 Perspectiva212
5.2 O período214
5.3 Articulação das orações no período215
Atividades sugeridas217
Leituras adicionais225

CAPÍTULO 5 I Oficina do Período

6.1 Uma agenda ecolingüística228
6.1.1 A natureza das línguas231
6.1.2 As estruturas das línguas232
6.1.3 A classificação das línguas232
6.1.4 O uso das línguas233
6.1.5 A tradição de escrita das línguas233
6.1.6 A política lingüística234
6.2 Uma mente, duas línguas235
6.2.1 A compreensão de orações adjetivas ambíguas236
6.2.2 A transferência de padrões de ordem vocabular240
Atividades Sugeridas248
Leituras Adicionais255

Apresentação

A Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (SECAD/MEC) tem enorme satisfação em publicar, em parceria como o Laboratório de Pesquisas em Etnicidade, Cultura e Desenvolvimento (LACED), ligado ao Departamento de Antropologia do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o presente livro, parte da série Vias dos Saberes.

Uma de nossas mais importantes missões é propor uma agenda pública para o Sistema de Nacional de Ensino, que promova a diversidade sociocultural, extrapolando o seu mero reconhecimento, patamar já afirmado em diversos estudos sobre nossa sociedade, os quais, em sua grande maioria, derivam em celebrações reificantes da produção cultural de diferentes grupos sociais, que folclorizam manifestações produzidas e reproduzidas no dia-a-dia das dinâmicas sociais e reduzem os valores simbólicos que dão coesão e sentido aos projetos e práticas sociais de inúmeras comunidades.

Queremos interferir nessa realidade transformando-a, propondo questões para reflexão que tangenciem a educação, tais como: de que modo reverteremos a histórica subordinação da diversidade cultural ao projeto de homogeneização que imperou – ou impera - nas políticas públicas, o qual teve na escola o espaço para consolidação e disseminação de explicações encobridoras da complexidade de que se constitui nossa sociedade? Como convencer os atores sociais de que a invisibilidade dessa diversidade é geradora de desigualdades sociais? Como promover cidadanias afirmadoras de suas identidades, compatíveis com a atual construção da cidadania brasileira, em um mundo tensionado entre plu- ralidade e universalidade, entre o local e o global? Como transformar a pluralidade social presente no micro-espaço da sala de aula em estímulo para rearranjos pedagógicos, curriculares e organizacionais, que compreendam a tensão gerada na sua positividade, a fim de ampliar e tornar mais complexo o diálogo entre realidades, perspectivas, concepções e projetos originados da produção da diversidade sociocultural? Como superar a invisibilidade institucionalizada das diferenças culturais, que valida avaliações sobre desempenho escolar de crianças, jovens e adultos sem considerar as suas realidades e pertencimentos sociais?

O impulso pela democratização e afirmação dos direitos humanos na sociedade brasileira atinge fortemente muitas das nossas instituições estatais, atreladas a projetos de estado-nação comprometidos com a anulação das diferenças culturais de grupos subordinados. Neste contexto, as diferenças culturais dos povos indígenas, afro-descendentes e de outros povos portadores de identidades específicas foram sistematicamente negadas, compreendidas pelo crivo da inferioridade e, desse modo, fadadas à assimilação pela matriz dominante.

A proposta é articular os atores sociais e gestores para que os desafios que foram postos estabeleçam novos campos conceituais e práticas de planejamento e gestão, renovadas pela valorização da diversidade sociocultural, que transformem radicalmente posições preconceituosas e discriminatórias frente à pluralidade cultural que nos caracteriza.

Esperamos contribuir não só para difundir as bases conceituais para um renovado conhecimento da sociodiversidade dos povos indígenas no Brasil contemporâneo, como também para fornecer subsídios para o fortalecimento dos estudantes indígenas no espaço acadêmico e tornar mais complexo o conhecimento dos formadores sobre essa realidade e sobre as relações que se estabelecem no convívio com as diferenças culturais. Finalmente, esperamos que a sociedade aprofunde sua busca pela democracia com superação das desigualdades sociais.

Ricardo Henriques

Secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (Secad/MEC)

Prefácio

Nas trilhas das universidades: as línguas e a educação de indígenas

Vias dos Saberes é uma série de livros destinada a fornecer subsídios à formação dos estudantes indígenas em cursos de nível superior. Os textos visam agregar à experiência de cada um pontos de partida para a composição dos instrumentos necessários para aguçar a percepção quanto aos amplos desafios à sua frente, diante de metas que têm sido formuladas pelos seus povos, suas organizações e comunidades. Entre as metas estão: a da sustentabilidade em bases culturalmente diferenciadas, em face do Estado nacional, das coletividades indígenas no Brasil do século XXI; a da percepção de seus direitos e deveres como integrantes de coletividades indígenas e enquanto cidadãos brasileiros; a de uma visão ampla dos terrenos históricos sobre os quais caminharão como partícipes na construção de projetos variados de diferentes futuros, na qualidade de indígenas dotados de saberes técnico-científicos postos a serviço de seus povos, mas adquiridos por meio do sistema de Ensino Superior brasileiro, portanto, fora de suas tradições de conhecimentos.

A estas devemos agregar ainda duas outras metas fundamentais: a da consciência política da heterogeneidade das situações indígenas no Brasil, diante da qual se coloca a total impropriedade de modelos únicos para solucionar os problemas dos índios no país; e a da presença, em longa duração, que vem desde os alvores das conquistas das Américas, dos conhecimentos tradicionais indígenas em meio à construção dos saberes científicos ocidentais, não-reconhecida e não-remunerada, todavia, pelos mecanismos financeiros que movem o mundo capitalista contemporâneo, e sem qualquer valorização positiva que não beire o folclórico.

Num plano secundário, os volumes de Vias dos Saberes buscam também servir tanto à formação dos “formadores”, isto é dos docentes do sistema universitário brasileiro, quanto à dos estudantes não-indígenas, em geral bastante ignorantes da diversidade lingüística, dos modos de vida e das visões de mundo de povos de histórias tão distintas como os que habitam o Brasil e que compõem um patrimônio humano inigualável, ao menos para um mundo (Oxalá um dia o construamos assim!) que tenha por princípio elementar o respeito à diferença, o cultivo da diversidade, a polifonia de tradições e opiniões e que se paute pela tolerância, como tantos preconizam no presente. Como denominador comum que aproxima os quase 220 povos indígenas – falantes de 180 línguas, com cerca de 734 mil indivíduos (0,4% da população brasileira) apontados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Censo de 2000, como “indígenas” – há a violência da colonização européia com suas variadas histórias, desde os mais crus episódios de guerras de dizimação e de epidemias – em períodos recuados da história desse nosso pedaço do continente americano – até as mais adocicadas formas de proteção engendradas pelo republicano (e colonialista) Estado brasileiro contemporâneo.

Os quatro volumes desta série foram especialmente pensados para atender aos debates em classes de aula – em cursos regulares ou em cursos concebidos, de forma específica, para os estudantes indígenas, como as licenciaturas interculturais – e às discussões em trabalhos de tutoria, grupos de estudos, classes de suplementação, cursos de extensão, além de muitos outros possíveis espaços de troca e de diálogo entre portadores de tradições culturais distintas, ainda que alguns deles – indígenas e não-indígenas – já tenham sido submetidos aos processos de homogeneização nacionalizante que marcam o sistema de ensino brasileiro de alto a baixo.

Se reconhecemos hoje, em textos de caráter primordialmente programático e em tom de crítica, que a realidade da vida social nos Estados contemporâneos é a das diferenças socioculturais – ainda que estas se dêem em planos cognitivos muito distintos e em escalas também variadas de lugar para lugar – e que é preciso fazer do conflito de posições a matéria de um outro dia-a-dia, tenso e instável mas rico em vida e em possibilidades para um novo fazer escolar, na prática, estamos muito longe de “amar as divergências” e de construir as aproximações provisórias possíveis entre mundos simbólicos apartados. Que fique claro: não é apenas uma espécie de mea culpa bem-intencionada e posturas simpáticas e pueris que porão termo a práticas geradas por estruturas de dominação colonial de longo prazo, de produção da desigualdade a partir das diferenças socioculturais, estas consideradas como signo de inferioridade. Tal enunciação prescritiva da busca de “novas posturas” mal disfarça o exercício da violência (adocicada que seja), única caução de uma “verdade” também única e totalitária. É preciso ir bem mais adiante.

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