Apostila Ergonomia e a cor nos ambientes de local de trabalho

Apostila Ergonomia e a cor nos ambientes de local de trabalho

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ambientes de locais de trabalho1

Apostila Ergonomia e cor nos Juliane Figueiredo

1.1. Introdução

Durante boa parte da história da humanidade, as edificações raramente refletiram preocupações com seus ocupantes, promovendo insatisfações por parte dos usuários e inadequações na execução das tarefas que se destinavam a abrigar. Atualmente, diversos estudos têm revelado que locais de trabalho com condições ambientais favoráveis, ou seja, que atendam às necessidades de seus usuários aos níveis, fisiológico e simbólico, exercem impactos positivos sobre os mesmos, resultando em melhor desempenho e maior produtividade.

Uma das causas mais freqüentes de ‘estresse ambiental’ é a ausência de estímulos no ambiente. Sendo assim, Bins Ely (2003)i considera importante conhecer os elementos do ambiente que podem causar os estímulos sensoriais – perceber e receber as informações – e provocar respostas ao nível do corpo - o comportamento.

Dentre os elementos ambientais existentes no local de trabalho, a cor apresenta-se como um dos elementos que pode provocar sensações e promover bem estar emocional. No entanto, segundo Mahnke (1996)i não basta simplesmente “colorir” os espaços de trabalho é preciso que a escolha das cores esteja adequada à função do espaço, às características da tarefa e dos usuários que vivenciam esse espaço. Em outras palavras, o projeto cromático deve preocupar-se com as questões envolvidas na adequação e usabilidade dos espaços de trabalho.

1.2. Estudos das interações homem e ambiente construído

Os estudos sobre a relação ambiente construído e comportamento humano são de suma importância para analisar e avaliar até que ponto os ambientes produzidos contribuem positivamente na realização das atividades e na promoção do bem estar do indivíduo.

1 Todo este material faz parte da dissertação de mestrado: FONSECA, Juliane Figueiredo. A contribuição da ergonomia ambiental na composição cromática dos ambientes construídos de locais de trabalho de escritório. Rio de Janeiro, 2004. 292p. Dissertação de Mestrado - Departamento de Departamento de Artes e Design, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

É importante observar e registrar como o usuário do ambiente o percebe e o experiencia.

Em outras palavras, compreender em que medida o ambiente construído influencia o comportamento do usuário, mas também, como este se molda àquele ambiente, modificando-o ou não, no decorrer de seu uso, originando assim um novo padrão de ambiente construído.

Neste aspecto, as preocupações e ações dos ergonomistas se apresentam como oportunas, no sentido de contribuir com a adequação dos ambientes através do conhecimento das necessidades dos usuários no desenvolvimento de suas tarefas e atividades.

Dentre os elementos ambientais existentes no local de trabalho a cor apresenta-se como sendo uma das causadoras de estímulos sensoriais e promotoras do bem estar. Neste sentido, pretende-se apresentar diversos aspectos inerentes à cor, que se forem explorados adequadamente podem auxiliar na obtenção de ambientes mais agradáveis e funcionais.

1.3. CROMOLOGIA: o estudo físico da cor

O mundo do homem é em grande parte definido pela luz. A luz é uma condição básica para que a percepção visual ocorra. Sem luz os olhos não podem observar forma, cor, espaço ou movimento. A luz exerce, sobre o homem não cientista, verdadeiro fascínio por seus múltiplos efeitos e complexidade. Para o físico, a luz nada mais é do que uma forma de energia radiante, medida comumente em comprimentos de onda.

De todo o espectro eletromagnético, apenas os raios luminosos compreendidos na faixa de 400nm a 800nm de comprimento de onda são vistos pelo homem. O estímulo oriundo dessas ondas provoca a sensação luminosa denominada ‘luz’, responsável pelo fenômeno cromático. Os raios luminosos de comprimento de onda menores a 400nm (os ultravioletas) e os maiores a 800nm (os infravermelhos) não são visíveis devido à autoproteção natural do aparelho óptico humano.

800 nm400nm

Figura 1 – Espectro eletromagnético

COR Comprimento de onda (nm) vermelho ( limite) 700 vermelho 700-650 laranja 650-600 amarelo 600-580 verde 580-550 cyan 550-500 azul 500-450 violeta 450-400 violeta (limite) 400

O espectro eletromagnético proporciona ao ser humano não só a impressão luminosa mas também a impressão da cor. O fenômeno do cromatismo, do ponto de vista físico, pode ser explicado através da teoria da composição da luz branca (por exemplo a luz solar), formulada por Isaac Newton (1642-1727). Na sua experiência, Newton observou que um raio de luz solar (luz branca), ao passar através de um prisma sofre uma refração. O que resulta na decomposição da luz branca em certo número de raios de luz de comprimentos de onda diferentes, os quais formam todo o espectro colorido visível, do vermelho ao violeta. Porém, este espectro colorido

sé é percebido pelo olho humano quando projetado sobre uma superfície branca. Ao fazer passar o espectro através de um segundo prisma semelhante ao primeiro, mas em posição invertida é possível recombinar as cores para obter luz branca. Um fenômeno semelhante, à experiência de Newton, é o arco-íris. Resultado da refração da luz solar ao passar através das gotas de chuva, que comportam-se como prismas.

Figura 2 – Refração da luz branca

1.4.A percepção da cor

Segundo Guimarães (2000)i,

A cor é uma informação visual, causada por um estímulo físico, percebida pelos olhos e decodificada pelo cérebro. O estímulo físico, ou meio, carrega consigo a materialidade de uma das fontes, ou causas da cor – a cor-luz ou cor-pigmento2. O cérebro - e o órgão da visão como sua extensão – é o suporte que decodificará o estímulo físico, transformando a informação da causa em sensação, provocando, assim, o efeito da cor.

Considerando a cor como uma informação visual, Farina (1982)iv coloca que, sobre o indivíduo que recebe a comunicação visual, a cor exerce uma ação tríplice: a de impressionar, a de expressar e a de construir. A cor é vista: impressiona a retina. É sentida: provoca uma emoção. E é construtiva, pois, tendo um significado próprio, tem valor de símbolo e capacidade, portanto, de construir uma linguagem que comunica uma idéia.

Esta característica pode ser explorada de diversas formas no ambiente. Através do esquema de cores aplicados no ambiente de trabalho é possível criar uma imagem corporativa a ser transmitida aos funcionários e clientes. É possível diferenciar, através das cores, os vários departamentos existentes em uma empresa, não só em termos de localização, mas em termos da natureza da tarefa realizada. Por exemplo, para atividades monótonas pode-se utilizar uma composição cromática mais estimulante e para atividades de concentração uma menos

2 Quando a sua fonte é formada por luzes coloridas emitidas, naturais ou produzidas pela filtragem ou decomposição da luz branca, o estímulo recebe o nome de cor-luz; quando é formada por substâncias coloridas ou corantes que cobrem os corpos, e a luz que age como estímulo é obtida por refração, recebe o nome de cor-pigmento.

estimulante. Estes são apenas alguns exemplos de como a cor pode ser usada para transmitir certas mensagens nos locais de trabalho, mais adiante esta questão voltará a ser abordada.

Pedrosa (1982)v considera que há a ocorrência de dois fenômenos distintos: o da percepção e o da sensação da cor.

O fenômeno da percepção da cor é bastante mais complexo que o da sensação. Se neste entram apenas os elementos físico (luz) e fisiológico (o olho), naquele entram, além dos elementos citados, os dados psicológicos que alteram substancialmente a qualidade do que se vê.

A mesma noção é ratificada por Mahnke (1996)vi, que considera que “ver” realmente a cor é um processo complexo resultado da interação da percepção visual do estímulo com o mundo interno do indivíduo: suas condições psicológicas.

1.5.Qualidades da cor

As qualidades da cor estão relacionadas com a forma como a mesma pode ser percebida pelo indivíduo. Pretende-se apresentar neste item, algumas formas de percepção da cor e as reações geradas, quando aplicadas em espaços internos e nos objetos. A partir daí pode-se ter o conhecimento de que tipos de reações se podem extrair das cores.

Cores quentes e frias

Segundo Pilotto (1980)vii as cores podem ser classificadas em dois grupos em função das reações que provocam nos indivíduos. As cores pertencentes ao primeiro grupo são as cores quentes, enquanto as do segundo grupo são as cores frias. Esses dois grupos são facilmente identificados traçando-se uma linha reta passando pelo centro do círculo cromático (Figura 4). Legenda (em sentido horário):

VM – vermelho LR – laranja AM – amarelo VdAm – verde-amarelo VD – verde VdAz – verde-azulado CY – cyan AN – anil AZ – azul VI – violeta MG – magenta VmAz – vermelho- azulado

Figura 3– Círculo cromático Fonte: Guimarães (2000)

Cores quentes Cores frias

As cores quentes são psicologicamente dinâmicas e estimulantes, sugerindo vitalidade, excitação e movimento. As cores frias são calmantes, suaves e estáticas, dando a sensação de frescor, descanso e paz.

Em relação aos efeitos das cores nos espaços internos, Pilloto (1980)viii considera que o uso adequado das cores torna possível obter certos efeitos de alteração dos espaços que as contém. O autor coloca:

As cores quentes aproximam e parecem aumentar os objetos, porque, para enfocá-los, o cristalino do olho precisa acomodar-se da mesma maneira que quando enfoca os objetos mais próximos. As cores frias parecem distanciar-se e reduzem as dimensões aparentes dos objetos. Se forem colocados dois objetos iguais a uma mesma distância, um pintado de vermelho e outro de azul, o objeto vermelho parecerá mais próximo. As cores escuras criam a sensação de aproximação, enquanto que as claras dão a impressão de maior amplitude.

As cores quentes parecem sair de seus planos, aproximam-se dos nossos olhos, são salientes e agressivas. Devem ser usadas em ambientes que não recebem muita luz natural, pois aquecem e iluminam o espaço. Em ambientes que recebem muita luz natural devem ser evitadas, pois transmitem, neste caso, sensação de abafamento e diminuem o espaço, acabando por se tornarem cansativas e pesadas. Em relação ao emprego de cada uma das cores quentes, pode-se afirmar, que:

• vermelho: deve aparecer na arquitetura de interiores em pequenas áreas, excluindo-se aqueles ambientes em que haja interesse em criar um clima de excitação, como, por exemplo, em teatros. Quando usado em paredes, faz com que elas avancem, diminuindo, aparentemente, o espaço interno. Por suas características de excitação e movimento, não beneficia a atividade mental. Tem maior poder de atração, poré, cansa facilmente. Aumenta, aparentemente, os objetos.

• amarelo: como o vermelho, reduz, aparentemente, o espaço interno, pois também é uma cor que avança. É a cor mais visível. Por irradiar muita luz, não deve ser usado em superfícies muito extensas, mas sim deve partir de pontos. Em paredes estimula, mas é, ao mesmo tempo, irritante. É indicado para sala de aula de crianças com deficiência intelectual, por ser considerada a cor que mais estimula a atividade cerebral. É contra-indicado em pisos, pois, com sua extraordinária claridade transmite forte impressão de estar avançando.

• alaranjado: assim como o vermelho e o amarelo, quando usado amplamente diminui aparentemente, o ambiente. Por ser facilmente distinguido é fartamente utilizado como símbolo de ‘alerta’ nas sinalizações de indústrias, identificando peças perigosas. As cores frias transmitem a sensação de frescor e amplitude. Criam ilusões de profundidade, transformando pequenos espaços em ambientes mais espaçosos. Não são

adequadas para ambientes com pouca luz natural, pois, neste caso, transmitem sensação de frio e solidão. Em relação à utilização de cada uma das cores frias, tem-se que:

• verde: é a cor que menos cansa a vista e, por isso, é amplamente utilizado em mesas de jogos e quadros escolares. É muito empregado em arquitetura de interiores, por não causar fadiga e sugerir frescor, natureza e tranqüilidade. Aumenta, aparentemente, as dimensões internas do ambiente.

• azul: assim como o verde, pode ser usado em grandes superfícies sem se tornar cansativo e aumenta, aparentemente, as dimensões internas do ambiente. Conduz ao relaxamento e é adequado em ambientes de descanso. Quartos azuis transmitem sensação de espaço e serenidade. O azul claro torna o teto, aparentemente, mais alto, leve e celestial. O azul deve ser equilibrado harmoniosamente com outras cores nos ambientes para não criar um clima de tristeza. Em relação ao uso do branco, cinza e preto nos ambientes, tem-se que:

• branco: traz claridade e alegria, quando usado como acessório. Realça as cores próximas, tornando-as mais atrativas. Um ambiente completamente branco torna-se frio e impessoal.

• cinza: é usado como contraste para cores intensas. É de grande harmonia com todos os tipos de composição de cores. Se usado em demasia, sombreia o ambiente.

• preto: leves toques de preto dão um aspecto requintado ao ambiente, porém, em demasia, cria um clima de tristeza, até mesmo em ambiente formalmente luxuosos.

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