Insetos Dão Pistas Sobre Homic

Insetos Dão Pistas Sobre Homic

ano 10, número 80 | setembro e outubro de 200716 ano 10, número 80 | setembro e outubro de 2007

Como se fossemos porcos

No Distrito Federal, a criação do Núcleo de Entomologia Urbana e Forense foi uma iniciativa do Instituto de Criminalística (IC) da Polícia Civil local. O perito criminal Luciano Chaves Arantes, biólogo formado pela UnB, sentia a necessidade de ter um entomologista trabalhando com o instituto. “Precisávamos de laboratório, material e pessoal especializado em entomologia forense”, diz.

Em 2004, o Ministério da Justiça

(MJ) liberou, por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), verba de R$ 125 mil para o estabelecimento do núcleo na UnB. “Foi possível equipar o laboratório com estufas, freezer, lupas e microscópio”, comenta Pujol. Em contrapartida, o MJ solicitou a realização de cursos de entomologia forense para policiais e peritos. Já houve três edições, com mais de cem agentes capacitados.

PERÍCIA CRIMINAL De acordo com Arantes, a maior aplicação da entomologia forense é estimar o tempo de morte de um indivíduo, mas a técnica também pode ajudar a resolver outras incógnitas. Exemplos disso não faltam: “A polícia intercepta o veículo de um suspeito. Na par- te superior do automóvel, são encontrados alguns insetos. A análise mostra que eles são de outras regiões. Com isso, traça-se a rota do suspeito”, explica o perito.

Um caso citado por Arantes aconteceu nos Estados

Unidos. Um suspeito de estupro seguido de morte era interrogado pela polícia ao mesmo tempo em que outra equipe analisava o local onde o corpo havia sido encontrado. Quando voltaram, os peritos estavam cheios de picadas de carrapato. O suspeito foi então levado a fazer exames e não soube explicar a presença das mesmas picadas em seu corpo. Acabou condenado.

Nos EUA, é comum ter entomólogos forenses entre os policiais que vão à cena do crime. No Brasil, esse trabalho é feito por peritos generalistas, que são policiais treinados. Não existe regra oficial do MJ ou da polícia que defina a forma correta de coletar larvas ou insetos. O que há são recomendações em livros e manuais escritos por profissionais da área. Normalmente, cada polícia no Brasil e no exterior adota um procedimento próprio. Os materiais utilizados são pinça, pincéis para coletar ovos e larvas e rede entomológica padrão, aquela para caçar borboletas. Os vestígios são transferidos para um frasco com terra até chegarem ao laboratório.

A UnB já participou de oito investigações desde a criação do núcleo. No currículo do grupo, há casos de seqüestro seguido de morte no Amapá, assassinatos violentos no DF e disputas judiciais. A equipe soma 15 pessoas, entre professores da UnB, biólogos voluntários, técnicos, alunos de graduação e pós-graduação e estudantes de outras universidades.

data é 21 de abril de 2004. Um grupo de cientistas da Universidade de Brasília (UnB) cria em laboratório um ambiente favorável para larvas da mosca varejeira se tornarem adultas. Enquanto isso, em Rondônia, a Polícia Federal (PF) investiga um assassinato em massa. Corpos de 29 garimpeiros haviam sido encontrados em estado avançado de decomposição no Parque Indígena Aripuanã, a 500km de Porto Velho. Nenhuma pista ainda é capaz de apontar o dia do crime.

Quatro dias após o início das pesquisas na UnB, as larvas ficam adultas e dão novo rumo às investigações no estado nortista. Os insetos haviam sido coletados dos corpos dos garimpeiros durante a autópsia e enviados pela PF à universidade. Da comparação entre o tempo levado para crescerem e o ciclo de vida da espécie Paralucilia fulvinota, estima-se a idade das larvas entre cinco e sete dias. Esse é o tempo aproximado no qual os trabalhadores estão mortos.

O caso dos garimpeiros parece até um episódio do seriado norte-americano CSI: Investigação Criminal, no qual crimes são desvendados com ajuda de modernos métodos de análise, entre os quais o de insetos recolhidos do cadáver. À parte qualquer excesso cinematográfico, o seriado se baseia em uma técnica científica séria, cada vez mais em voga no Brasil: a entomologia forense. Por meio dela, os pesquisadores analisam moscas, besouros e larvas encontrados em corpos e ajudam a polícia a estimar a data da morte de uma pessoa, o possível local onde o crime ocorreu e, em alguns casos, as causas.

“As moscas são atraídas pelo cheiro e geralmente acham os cadáveres antes da polícia. Ali, elas começam uma colonização”, explica o zoólogo e taxonomista José Roberto Pujol. Ele coordena o Núcleo de Entomologia Urbana e Forense, do Instituto de Ciências Biológicas (IB) da UnB, onde as pesquisas sobre o crime de Rondônia foram feitas.

Segundo Pujol, é a partir do ciclo biológico das moscas que se calcula o tempo de habitação no cadáver. São gastos entre 10 e 15 dias desde o depósito do ovo até a formação do casulo. Como os ovos são postos normalmente no primeiro dia de morte, é possível ter uma noção de quando o crime aconteceu. Mas o pesquisador adverte que não há como determinar o dia exato: “Trabalhamos com o intervalo de morte, ou seja, dizemos que ocorreu entre o período X e Y”.

TÉCNICA ANTIGA O uso de insetos para resolução de crimes não é novidade. O primeiro caso documentado de entomologia forense está relatado em um manual de medicina legal chinês do século 13. Ele conta a história de um lavrador degolado por uma foice. Para resolver o mistério em torno do assassinato, todos os camponeses da região foram obrigados a colocar sua foice no chão, ao ar livre. As moscas pousaram em uma das ferramentas, atraídas pelos restos de sangue ainda aderidos à lâmina. Aquela era a arma do assassino.

Já a primeira estimativa de intervalo pós-morte aconteceu em 1855. Ao descobrir o cadáver de uma criança sob o piso de uma casa, o médico francês Bergeret D’Arbois estudou as larvas e os ovos da mosca Sarcophaga carnaria presentes no corpo. Descobriu que a morte havia ocorrido meses antes, o que inocentou os então moradores do local, que vivam ali há pouco tempo.

Embora algumas publicações científicas sobre o tema tenham sido lançadas nos anos posteriores, a entomologia forense só tomou força na segunda metade do século 20, quando tornou-se rotineira nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil, a técnica é recente, mas o número de adeptos, tanto nas universidades e centros de pesquisa como na polícia, vem aumentando.

Para que os pesquisadores da UnB tivessem um parâmetro sobre o desenvolvimento de insetos em cadáveres, em 2003, foi feito um treinamento a partir de simulações de mortes violentas em porcos. Esses animais têm a decomposição corpórea praticamente idêntica à do ser humano, o que atrai a mesma fauna de insetos. O experimento – aprovado pelo Conselho de Ética em Pesquisa da universidade – foi feito num descampado na Fazenda Água Limpa da UnB. Três porcos sacrificados foram deixados dentr o de gaiolas especiais para capturar insetos. Periodicamente, a equipe coletava espécimes, fotografava e filmava o processo de decomposição. No final, o grupo mapeou a ação das larvas e dos insetos adultos nos porcos e descreveu o tempo de cada uma das fases de crescimento de moscas e besouros, principais agentes da decomposição. Isso foi impor tante para conhecer o ciclo de vida dos insetos num ambiente de Cerrado, algo até então desconhecido.

Ali, as larvas são criadas em uma estufa que controla temperatura, umidade e luz, reproduzindo o meio ambiente onde foram coletadas

As moscas são atraídas pelo cheiro da carcaça até 2km de distância. Quando se encontram, entram num frenesi e começam a copular, depositando os ovos no cadáver

Os cientistas checam a espécie dos insetos e recorrem à literatura para saber o ciclo normal de vida. Quando não há dados, eles criam os insetos em condições normais (fora da estufa)

Com os dados do dia da coleta, da eclosão da mosca adulta na estufa e o ciclo normal de vida, tem-se a estimativa de intervalo pós-morte

Com pinça, pincéis e rede entomológica, os peritos criminais coletam amostras em diferentes partes do corpo da vítima e as levam ao laboratório

Cientistas da UnB ajudam na investigação de crimes que desafiam a Justiça. Eles estimam o dia da morte a partir do estudo de moscas e besouros

Uma das famílias mais importantes para a entomologia forense. São as chamadas moscas varejeiras ou da bicheira, que têm o corpo verde ou azul metálico.

Essas moscas têm listas pretas e cinzas e se colonizam em carcaças animais, fezes e matéria orgânica em decomposição. Possuem um grande número de espécies e podem invadir feridas necrosadas.

Comem a carcaça no final do estágio de decomposição, entre 50 e 70 dias da morte. Essa família é formada por cerca de 700 espécies. A maioria alimentase exclusivamente de produtos de origem animal.

Passo a passo

Insetos dão pistas sobre

Na Nova Zelândia, a polícia usou a entomologia forense para desmascarar uma rede de tráfico de entorpecentes. A partir dos insetos prensados no carregamento de maconha apreendido, foi possível decifrar a rota da droga. “Os besouros encontrados não ocor riam na ilha, eram espécies exclusivas de uma península do Oriente Médio”, conta o policial Luciano Arantes.

Coordenador do Núcleo de Entomologia Urbana e Forense da UnB, o professor José Roberto Pujol estuda e defende as moscas: “Embora sejam vetores de doenças, elas podem inocentar ou determinar a culpa de um suspeito.”

Sarita Coelho saritacoelho@unb.br entomologia forense Roberto Fleury/UnB Agência

Fotos: Roberto Fleury/UnB Agência Ilustrações: Apoena Pinheiro/UnB Agência

Veja como a coleta e o estudo do material são feitos:

Confira as famílias e espécies de insetos mais encontrados em cadáveres

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