Situação pós-colonial

Situação pós-colonial

O termo pós-colonialismo é, a rigor, mais profundo do que, a princípio, apenas observando a metalinguagem do vocábulo ‘pós’, possamos imaginar. O prof. Dr. Igor José de Renó, em seu mini-curso denominado “Pós-Colonialismo”, asserta que o termo referia-se às “heranças coloniais” deixadas em um país, em sua cultura, sua sociedade. Nos dias atuais, de acordo com os novos estudos, o termo remete às massas que vivem uma ‘situação pós-colonial’: populações marginalizadas, colonizadas culturalmente, grupos sem representação, minorias. Mediante tais estudos, verificou-se a necessidade de se ouvir aqueles que não têm suficiência representacional. A prof. Dr.ª Shirley Carreira afirma que o pós-colonialismo “é uma tentativa de ‘ouvir’ as ‘margens’, incluindo-se aí, todas as minorias raciais, as mulheres e os homossexuais”.

O pós-colonialismo é uma desconstrução – ou seja, uma análise – das relações binárias introduzidas pela visão eurocêntrica através do marxismo e do nacionalismo. O prof. Luiz Manoel S Oliveira exemplifica esses relações binárias da seguinte forma:

Homen X mulher = relação de gênero

Branco X preto = relação de etnia

Civilizado X incivilizado = colonialismo

Bom X mau = conceito de valores

Cristão X pagão = religião

Professor X aluno = relação de conhecimento (grifo meu)

Adulto X criança = infantização

Podemos perceber que em primeiro plano aparece sempre o dominador, o poder; em segundo plano há a presença do dominado, as minorias, as vozes sem representação. Tais vozes localizadas como subalternas, com a descentralização passam a ser representadas. O que é a descentralização? É a interpenetração dos discursos, a desarticulação das estruturas binárias.

Uma vez delineado o assunto deste artigo, passemos adiante explicitando alguns elementos importantes para a compreensão do pós-colonialismo, elementos estes que chamaram a atenção dos teóricos pós-colonialistas.

A questão da subalternidade

Os teóricos pós-coloniais revelam que essas massas marginalizadas são localizadas como subalternas nas narrativas oficiais dos estados coloniais. Segundo o prof. Dr. José Igor de Renó o subalterno é considerado através das literaturas como “um incapaz que foi produzido pelos discursos dos dominadores”, e acrescenta “os estudos subalternos pretendem revelar os mitos, cultos, revoltas e ideologias que estão ocultos nas narrativas das elites, que negam a autonomia aos subalternos”.

Identidade X Alteridade

Quem sou eu? Certamente para responder essa pergunta, pensaremos sobre nossa história, sobre nossa vida, assumindo nosso lugar antropológico, isto é, construímos nossa identidade de acordo com o conjunto de conhecimentos - cultura local e/ou nacional – por nós assimilados. Essa identidade é formada no âmbito do sujeito e no âmbito nacional. No caso dos estudos pós-coloniais, percebemos que o ‘eu’ é exatamente o ex-colonizador, que se apresenta como modelo, padrão a ser imitado. Dessa forma confirma-se o binarismo que coloca a Europa como centro e as demais culturas como periferia. A proposta pós-colonialista é de desconstrução dessas bases, proporcionando representação aos que anteriormente eram marginalizados.

Ao aportar em um determinado lugar, o imigrante sofre rupturas: de lugar, de língua, de raízes. Muitas vezes por ter, de alguma forma, fortalecido em si um sentimento de deslocamento, de não pertencimento, não consegue superar essas barreiras culturais que, por vezes, “são ofensivas a sua própria cultura” diz a prof. Dr. ª Shirley Carreira. Tal sentimento parece fluir de uma visão eurocêntrica, que considerava outras culturas e indivíduos como “o outro”, punha-se como ‘modelo’, como ‘correto’. Elevando dessa forma, mais uma vez, a cultura européia em detrimento das demais culturas: africana, asiática, latino-americana.

Nos países que foram colonias européias – mais especificamente a Índia, colônia da Inglaterra – a literatura produzida após a retirada do ex-colonizador, é chamada de Literatura pós-colonial. Esta aborda questões referentes às situações de marginalização que esses povos, antes colonizados, sofreram.

Salman Rushdie é um representante da literatura de migração. Ele rejeita o termo pós-colonial, pois afirma ver nele um raciocínio de ‘centro’ e ‘periferia’. Rushdie diz-se um homem ‘traduzido’ – aquele que dialoga com outras culturas sem ser absorvido por elas, nem absorvendo-as por completo, mas experimentando uma troca – por isso, diz, “dá-se (ao homem traduzido) o direito de contestar as formas estereotipadas e preconceituosas criadas pelos colonizadores”.

Kiran Desai, também representa a literatura de migração, - produção de escritores que, como Rushdie, vivem fora da Índia. Em sua obra “The inheritance of Loss”, aborda a questão do imigrante indiano em outro país, mais especificamente, em Nova York, Estados Unidos– um centro multicultural. Ela transfere para esse âmbito os conflitos de culturas, de raízes. Tendo sido colonizados pelos ingleses, que deixaram suas heranças marcadas em sua cultura, os indianos deparam-se, com grande impacto, com uma cultura diversa. Nesse lugar que os acolhe encontra pessoas vindas de vários lugares do mundo, tendo costumes diversos dos seus. Vem à tona a questão da identidade, da alteridade, as relações binárias ficam evidentes, gerando a necessidade de se repensar o lugar antropológico dos indivíduos.

Diferentemente, a escritora Arundhati Roy representa a literatura pós-colonial – pois sem ter jamais saído da Índia aborda as diferenças sociais e políticas do país. Em sua obra entitulada “O Deus das pequenas coisas”, aborda temáticas como: sistemas de classes, a questão da mulher, questão do colonizado frente ao colonizador, o estado psicológico do povo indiano.

Nessa literatura, o segundo plano, as minorias, são representadas, ouvidas, e têm a possibilidade de reinscrever a história. O primeiro plano, do dominador, fica desnudo diante de uma visão de mundo diferenciada, aberta, sem preconceitos estereotipadores, que servem apenas para direcionar as culturas ao ‘modelo’ eurocêntrico.

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