Disfução Temporomandibular

Disfução Temporomandibular

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Sinais e Sintomas Associados à Otalgia na Disfunção Temporomandibular

Signs and Symptoms Associated to Otalgia in Temporomandibular Disorder

Luiz Alberto Alves Mota*, Kátia Maria Gomes de Albuquerque**, Maria Heloísa Pedrosa Santos***, Renata de Oliveira Travassos***.

1 - Mestrado. Professor Assistente de Otorrinolaringologia. 2 - Mestre em Ciências da Linguagem pela UNICAP. Fonoaudióloga do Hospital Agamenon Magalhães. 3 - Acadêmica do 9º período de Medicina da UPE.

Institução: Hospital Universitário Oswaldo Cruz (HUOC) - Rua Arnóbio Marques, 310, Santo Amaro, Recife-PE, CEP 50100-130. Endereço para correspondência: Luiz Alberto Alves Mota - Rua Venezuela, 182 – Espinheiro – Recife / PE –CEP 52020-170 – Telefone: (81)32227060 – E-mail: luizmota10@hotmail.com Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da R@IO em 18 de agosto de 2007. Cod. 302. Artigo aceito em 23 de novembro de 2007.

Introdução:A otalgia pode decorrer de causas otológicas, como otite externa, otite média, mastoidite, assim como de causas não otológicas. Especula-se que as disfunções temporomandibulares (DTM) sejam uma das causas mais comuns de otalgia por motivo não-otológico.

Objetivo:Verificar a freqüência de possíveis sinais e sintomas associados à otalgia decorrentes de DTM. Forma de Estudo:descritivo e transversal. Casuística e Método:Trata-se de um estudo com 21 pacientes todos voluntários que concordaram em participar, portadores de otalgia e DTM, atendidos no ambulatório de Otorrinolaringologia de um hospital público. Eles foram submetidos a anamnese, exame otorrinolaringológico, exame das articulações temporomandibulares (ATM), audiometria tonal limiar, imitanciometria, exame odontológico para confirmar o diagnóstico de DTM e responderam a questionário sobre sinais e sintomas de DTM.

Resultados:Houve predomínio do gênero feminino e os sintomas mais freqüentemente encontrados foram: percepção de sons articulares (95,2%), zumbidos (81%), plenitude auricular (independente do estado de repouso ou movimentação da ATM) (81%), sensação de mandíbula “presa ou travada” (52,4%), dor ou dificuldade para abrir a boca (3,3%), tonturas (26,8%), dificuldade para ouvir as pessoas (14,3%) e perda do equilíbrio (9,5%). Na avaliação audiométrica houve predomínio de exames normais em relação aos alterados.

Conclusão:Os sintomas mais freqüentemente associados com otalgia e DTM foram percepção de sons articulares, zumbidos e plenitude auricular. Palavras-chave: otalgia, disfunção, articulação temporomandibular.

Introduction:Otalgia is a symptom that can be caused by otological diseases, such as external otitis, otitis media, mastoiditis, as well as by nonotological factors. It is speculated that the temporomandibular disorder (TMD) is one of the most common causes of nonotological otalgia.

Aim:To evaluate the frequencie of signs and symptoms associated with otalgia and TMD. Study design:Descriptive and transversal. Sample and method:This is a study involving a group of 21 patients all volunteers who accept participate, with complains of otalgia that were attended to at the otorhinolaryngology ambulatory of a public hospital. The volunteers were submitted to anamneses, otorhinolaryngologic examination, temporomandibular joint (TMJ) examination, tone audiometry, immittance audiometry, odontologic examination to confirm the diagnosis of TMD and answered to a questionnaire about signs and symptoms of TMD.

Results:Among the 21 volunteers with otalgia and TMD, we found a predominance of female gender. The most frequently associated symptoms were: articulation sound perception (95,2%), tinnitus (81%), hearing plenitude (independing on rest state or TMJ movimentation) (81%), sensation of snapping or locking of the jaw (52,4%), pain or difficulty to open the mouth (3,3%), dizziness (26,8%), difficulty to hear other people’s voice (14,3%) and balance loss (9,5%). The number of normal exams in audiometric evaluation was larger in comparison to those with abnormalities.

Conclusion:The symptoms most frequently associated with otalgia and TMD were articulation sound perception, tinnitus and hearing plenitude. Key words:otalgia, disorder, temporomandibular joint.

Artigo Original

Arq. Int. Otorrinolaringol. / Intl. Arch. Otorhinolaryngol., São Paulo, v.1, n.4, p. 41-415, 2007.

A otalgia pode decorrer de causas otológicas, como otite média, otite externa, mastoidite, ou de fatores nãootológicos, que incluem condições dentárias, tonsilites, neoplasias, neuralgias e disfunções da articulação temporomandibular (DTM) (1). Especula-se que as DTM sejam uma das causas mais comuns de otalgia por motivo não-otológico (2,3).

As DTM, também chamados de distúrbios craniomandibulares, constituem um conjunto de doenças que afetam não apenas as articulações temporomandibulares (ATM), mas também áreas extrínsecas às articulações (1,4,5).

Os sintomas da DTM podem manifestar-se principalmente como estalos ou crepitação, dificuldade de abrir ou fechar a boca e dor, que pode se irradiar para várias áreas da cabeça e pescoço, como as regiões temporais, occipital, frontal, cervical, pré-auriculares e auriculares. Muitos pacientes queixam-se de sintomas auditivos associados à dor e disfunção das ATM, sendo otalgia, zumbido, plenitude auricular, tontura ou vertigem e perda auditiva subjetiva os mais comumente relatados (6,7,8,9).

Muitas hipóteses têm surgido para explicar a correlação entre sintomas auditivos e alterações temporomandibulares (1,5).

Estudos embriológicos sugerem a existência de aspectos que podem contribuir para a relação entre sintomas auditivos e DTM. A mandíbula e os ossículos da orelha média têm a mesma origem embriológica, na cartilagem de Meckel, o que poderia explicar as várias malformações da orelha média associadas a alterações mandibulares, assim como a anatomia e biomecânica da ATM, as quais estão intimamente relacionadas com estruturas e funções aurais (1).

A pressão produzida pelo deslocamento distal e posterior do côndilo mandibular sobre o nervo aurículotemporal e estruturas da orelha, especialmente sobre a tuba auditiva, pode ser responsável por alguns sinais e sintomas auditivos que caracterizam as DTM. Dentre esses sinais e sintomas, os mais comuns são: sensação de plenitude auricular, zumbido, otalgia e vertigem com nistagmo. O conjunto dessas alterações musculares, articulares e auriculares foi chamado de “Síndrome de Costen” (10).

Em 1962, na tentativa de esclarecer as causas das alterações auriculares, foi descrita uma delicada conexão entre o pescoço, processo anterior do martelo, cápsula e meniscos das ATM e ligamento esfenomandibular, denominada conexão cranial do ligamento timpanomandibular, que seria capaz de mover o martelo durante a tração da cartilagem articular da ATM (1). Também foi descoberto um ligamento que comunica o côndilo e o disco da articulação temporomandibular (ATM) com a orelha média no martelo, lateralmente ao nervo corda do tímpano (9).

Por outro lado, em 1992, postulou-se que a dor de ouvido pode ser na realidade dor da própria ATM sentida em posição mais posterior. A proximidade entre as estruturas articular e da orelha, a herança filogenética similar e o trajeto da inervação podem confundir o paciente no momento de localizar a dor (4).

Outros autores acreditam que a dor pode ser produzida por hipercontração e hiperestiramento do músculo pterigóideo lateral, que leva à hipertonia do músculo tensor do tímpano, sendo essa dor quase sempre referida em uma região diferente e distante do local de origem (9).

Visando contribuir com aspectos referentes à DTM, este estudo teve como objetivo verificar a freqüência de possíveis sinais e sintomas associados à otalgia decorrentes de DTM.

Participaram do estudo 21 voluntários portadores de otalgia e suspeita clínica de DTM, incluídos à medida que eram atendidos e selecionados no ambulatório de Otorrinolaringologia de um hospital público da cidade do Recife / PE, sendo 18 (81%) do gênero feminino e 3 (19%) do gênero masculino, com idades variando de 18 a 65 anos. Todos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Anexo 1), aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (sob o nº 28058).

Os critérios de inclusão dos voluntários na pesquisa foram: apresentar queixa de otalgia e, no exame clínico realizado pelo otorrinolaringologista, sinais e sintomas que permitissem diagnosticá-los como possíveis portadores de disfunção temporomandibular (DTM).

Foram excluídos do estudo os portadores de otite externa e/ou média ou infecção de vias aéreas superiores, mesmo que apresentassem DTM. Assim como aqueles que apresentassem suspeita de DTM sem otalgia.

Os voluntários foram submetidos a anamnese e exame otorrinolaringológico, exame das ATM, audiometria tonal liminar e imitanciometria além de responderem a um questionário sobre sinais e sintomas de DTM (Anexo 2).

Mota LAA

Arq. Int. Otorrinolaringol. / Intl. Arch. Otorhinolaryngol., São Paulo, v.1, n.4, p. 41-415, 2007.

Todos foram submetidos à anamnese e exame odontológico para confirmar o diagnóstico de DTM. O diagnóstico funcional foi realizado em três fases: anamnese, exame físico através da palpação e da ausculta, e exames complementares para análise de oclusão e por imagens (12). Uma vez que a visão deste estudo é otorrinolaringológica, não foi incluída a metodologia empregada no diagnóstico da DTM.

A audiometria tonal visou obter os limiares auditivos por condução (ou via) aérea e óssea. O equipamento utilizado nessa avaliação foi o audiômetro Interacoustics AC40. A audiometria por via aérea foi realizada nas freqüências de 250, 500, 1K, 2K, 3K, 4K, 6K e 8K Hz em uma orelha e na outra e, se os resultados fossem maiores que 25 dBNA, realizava-se a audiometria por via óssea. Nesse tipo de avaliação, foram pesquisados os limiares auditivos nas freqüências de 500 a 4K Hz.

A classificação da mínima audibilidade considerada normal é 25 dBNA em todas as freqüências testadas, segundo orientação do Conselho Federal de Fonoaudiologia (13).

O funcionamento e a integridade da orelha média foram também analisados pela imitanciometria, além da via do reflexo do estapédio. O equipamento Interacoustics AZ7 foi utilizado para realizar as medidas da timpanometria e a pesquisa do reflexo do estapédio. Caso ocorressem alterações que indicassem doença na orelha média, o(a) voluntário(a) seria excluído(a) do estudo.

Considerou-se que os indivíduos seriam normais se apresentassem a curva timpanométrica “A” (segundo a classificação de Jerger), caracterizada por um pico máximo ao redor de 0 (zero) daPa de pressão. Quanto à pesquisa do reflexo do estapédio, a sua presença foi um elemento essencial para se considerar normal a orelha média do voluntário (14).

Após a avaliação dos resultados dos exames audiológicos e do diagnóstico de DTM, todos os voluntários foram encaminhados para tratamento odontológico.

Houve diagnóstico odontológico de DTM em todos os voluntários selecionados.

Anexo 1.

Termo de Consentimento Livre e Esclarecido Solicitamos a sua autorização para utilizar os dados obtidos na consulta otorrinolaringológica (ouvido, nariz e garganta) no trabalho científico intitulado SINAIS E SINTOMAS ASSOCIADOS À OTALGIA NA DISFUNÇÃO TEMPOROMANDIBULAR, bem como em trabalhos científicos desdobrados a partir deste. Acredita-se que o mesmo trará benefícios aos voluntários atendidos e diagnosticados, permitindo, assim, sugerir o tratamento mais adequado quando necessário.

O(a) senhor(a) terá direito a perguntas e respostas em qualquer momento, assim como retirar o consentimento dado sem nenhum prejuízo para si. Não haverá ônus de sua parte. Não serão divulgados os nomes das pessoas examinadas no trabalho do pesquisador e temos o compromisso quanto a essa identificação.

Em caso de dúvidas, entrar em contato com Luiz Alberto

Eu,,
RG, de acordo com o acima

Alves Mota, fone: 32227060. Estaremos à sua disposição no tocante ao assunto. exposto, autorizo a utilização dos dados obtidos na minha consulta otorrinolaringológica para a elaboração deste trabalho.

Recife,/ /

Assinatura do voluntário: Testemunha: Testemunha: Pesquisador:

Nome:
Idade:anos Sexo: ( ) M ( ) F
Sim ( ) Não
( ) Sim ( ) Não
Sim ( ) Não
Sim ( ) Não
Sim ( ) Não

Anexo 2. Questionário. Data de nascimento: _/_ /___ 1 - Há quanto tempo você tem dor de ouvido? 2 - Você tem dificuldade, dor ou ambos ao abrir a boca? 3 - Sua mandíbula fica presa, “travada” ou sai do lugar? 4 - Você percebe ruídos nas articulações de seus maxilares? 5 - Você já teve otite? 6 - Você já teve infecção das vias aéreas superiores? 7 - Você tem alguns dos sintomas abaixo?

( ) Sensação de ouvido tapado ( ) Perda do equilíbrio ( ) Zumbido ( ) Dificuldade para andar ( ) Dificuldade para ouvir as pessoas ( ) Tonturas

Mota LAA

Arq. Int. Otorrinolaringol. / Intl. Arch. Otorhinolaryngol., São Paulo, v.1, n.4, p. 41-415, 2007.

Houve predomínio do gênero feminino sobre o masculino, encontrando-se entre eles uma relação de 6:1.

Os sinais e sintomas associados à otalgia referidos pelos voluntários em ordem decrescente foram: percepção de sons articulares, zumbido, sensação de plenitude auricular (independente do estado de repouso ou movimentação da ATM), sensação de mandíbula “presa” ou travada (observada ou não pelo examinador), dor ou dificuldade para abrir a boca (observada pelo examinador), tontura, dificuldade para ouvir as pessoas e perda do equilíbrio (referidos pelo paciente e/ou observada pelo examinador), conforme exposto na Tabela 1.

Na avaliação audiológica verificaram-se exames normais em 18 (85,7%) casos e em 3 (14,3%) constatouse perda auditiva sensorioneural.

Dentre os que apresentaram avaliação audiológica normal (85,7%), os sinais e sintomas associados foram: percepção de sons articulares, sensação de zumbido e plenitude auricular, dor ou dificuldade para abrir a boca, sensação de mandíbula “presa” ou travada, tontura, dificuldade para ouvir as pessoas e perda do equilíbrio, conforme exposto na Tabela 2.

Apesar do não pareamento do gênero e a faixa etária ampla, verificou-se predomínio da otalgia em portadores de DTM do gênero feminino, em comparação com o masculino, deve-se provavelmente à maior absorção do estresse emocional pela mulher, o que leva a uma diminuição do nível de tolerância fisiológica e aumento da hiper-atividade muscular, produzindo desequilíbrio funcional (7,15,16,17).

A presença de ruídos articulares (95,2%) não está necessariamente associada aos DTM, uma vez que tais ruídos podem ocorrer em uma doença articular assintomática chamada “ATM adaptada” (1).

O predomínio de zumbidos (81%) neste estudo é relevante e está de acordo com outros estudos já realizados (18). De qualquer forma, é necessário ter cautela ao interpretar tal dado, visto que o zumbido subjetivo pode ser causado não apenas por DTM, mas também pode ser conseqüente a doenças da orelha interna ou sistema nervoso central com ou sem perda auditiva (1).

A sensação de plenitude auricular e a tontura podem ser explicadas pelo deslocamento condilar posterior e distal, que produz pressão direta sobre o nervo aurículo- temporal, sobre as estruturas da orelha e especialmente sobre a tuba auditiva (10).

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