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Nº 132 NOVEMBRO DE 2005

REVISTA DE EDUCAÇÃO FÍSICA - Nº 132 - NOVEMBRO DE 2005 - PÁG.45

Roberto Machado de Souza - Sgt Ex

Marcelo Antônio Tavares - Sgt Ex

Jorge Orlando Benites Alves - Sgt Ex Marcio Juliano Pires Nunes - Sgt Ex

Anderson Alex Caracioli Machado - Sgt Ex

Herivelto Batista de Sant’Ana - Sgt Ex Wellington Guilherme Pereira - Sgt Ex

Francisco Carlos da Silva - Sgt Ex Alexandre Tempesta Lincoln - Maj Ex

Escola de Educação Física do Exército (EsEFEx) - Rio de Janeiro - RJ

_ Recebido em 30/08/2005. Aceito em 05/10/2005.

Resumo

O C 20-20, Manual de Treinamento Físico

Militar do Exército Brasileiro (Brasil, 2002), preconiza, em seu conteúdo, como um dos métodos de treinamento cardiopulmonar, o Treinamento Intervalado Aeróbico (TIA). O objetivo desse trabalho é verificar se o repouso de 90 segundos, recomendado pelo C 20-20, é suficiente para a recuperação desejada (70% da freqüência cardíaca máxima - FCMAX), bem como comparar a concentração de lactato sangüíneo após uma sessão de TIA, em grupos de militares com diferentes níveis de condicionamento físico. Participaram do estudo 35 militares voluntários, do sexo masculino, do 2° ano do Instituto Militar de Engenharia (IME), divididos em grupos, a partir dos resultados na corrida de 12 minutos do teste de avaliação física. O protocolo de FCMAX utilizado foi o de Tanaka et al. (2001). A amostra foi submetida a uma sessão de TIA com a intensidade da 1ª semana, dentro da sua faixa de esforço, com repouso correspondente ao índice obtido. Foram registradas as freqüências de chegada (FCESFORÇO) e de saída (FCRECUPERAÇÃO). Foram coletadas amostras sangüíneas para mensurar os níveis de lactato. Observou-se, como resultado, a FCESFORÇO de 193,8 bpm - 95% FCMAX, e FCRECUPERAÇÃO de 135,7 bpm - 70% FCMAX. Os indivíduos mais bem condicionados apresentaram maior concentração de lactato do que os menos condicionados, após o treinamento. A FCESFORÇO situou-se acima da prevista no C 20-20 (90% da FCMAX para treinamento cardiopulmonar). Entretanto, a recuperação mostrou-se suficiente para a continuidade do treinamento. Os militares mais condicionados conseguem remover maior quantidade de lactato do que os menos condicionados. A remoção dos mais treinados demonstrou ser mais eficiente do que a dos menos treinados.

Palavras-chave: Treinamento Intervalado Aeróbico, Freqüência Cardíaca Máxima, Freqüência Cardíaca de Esforço, Freqüência Cardíaca de Recuperação e Lactato Sangüíneo.

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O que tem em comum um jogador de voleibol numa partida, um tenista numa disputa de um set, um corredor de 800 metros que executa nos treinamentos dez tiros de 400 metros em uma pista de atletismo, ou um pelotão de fuzileiros que precisa atacar uma elevação em posse do inimigo? Todos estão utilizando um intervalo de esforço acima da intensidade que lhe é confortável. Esse aumento de esforço é seguido de um intervalo de recuperação, no qual a atividade retorna aos níveis sustentáveis de esforço.

Atletas de destaque mundial, como o corredor finlandês Paavo Nurmi (década de 30) e o tcheco Emil Zatopeck (décadas de 40 e 50), apelidado de “a locomotiva humana”, utilizavam, em seus treinamentos, intervalos de recuperação entre cargas intensas e intermediárias (trote), contribuindo, assim, para uma recuperação parcial do organismo (Hollmann e Hettinger, 1989).

Nos últimos anos, tem-se verificado que o treino intervalado passou a ser um dos métodos de treinamento utilizado por vários esportes (Brooks, 2004). Dentre eles, podemos citar as corridas, o ciclismo, a natação, o remo e o futebol, ou seja, esportes cíclicos e esportes acíclicos.

O Exército Brasileiro passou a empregar este tipo de treinamento de forma sistematizada e metódica, a partir de 1990, com a atualização do C 20-20, Manual de Treinamento Físico Militar (Brasil, 2002). O manual em questão abrange, dentre outros métodos cardiorrespiratórios para o desenvolvimento da resistência aeróbica e anaeróbica, o Treinamento Intervalado Aeróbico (TIA), com a finalidade de proporcionar ao militar condições favoráveis para atender ao enfoque operacional das missões de combate, assim como visa promover o interesse da tropa em relação à saúde.

Segundo Brasil (2002), o Treinamento

Intervalado pode ser definido como treinamento cardiopulmonar individual, onde há a alternância de estímulos de médios para fortes, com intervalo de recuperação parcial, de modo que não se instale um quadro de fadiga no organismo. Já Foss e Keteyian (2002) colocam que o treinamento intervalado é um

Abstract

The C 20-20, Manual of Military Physical Training of the Brazilian Army (Brazil, 2002), preconizes Intervalled Aerobic Training (IAT) in its content as one method of cardiopulmonary training. The aim of this study is to verify whether the pause of 90 seconds, recommended by C 20-20, is sufficient for the desired recovery (70% of maximum cardiac frequency –CFMAX, as well as to compare the concentration of blood lactate after an IAT session, in groups of soldiers with differing levels of physical conditioning. Taking part in this study, were 35 soldier volunteers, of male sex, in the 2nd year of the Military Engineering Institute (IME), divided in groups according to the results of the 12 minute run of the physical evaluation test The protocol of CFMAX used was of Tanaka et al. (2001). The sample was submitted to a session of IAT with the intensity of the 1st week, within their range of force,with rest corresponding to the indice obtained.

The frequencies of arrival (CFFORCE) and of exit

(CFRECUPERATION) were registered. Blood samples were collected to measure the lactate levels. As a result, the CFFORCE of 193.8 bpm - 95% CFMAX, and

CFRECUPERATION of 135.7 bpm - 70% CFMAX, were observed. The individuals best conditioned presented greater concentration of lactate than the less conditioned, after the training. The CFFORCE was situated above that previsted in the C 20-20 (90% of

CFMAX for cardiopulmonary training). However, recuperation showed itself to be sufficient for the continuity of training. The best conditioned soldiers managed to remove a greater quantity of lactate than those less conditioned. The removal in the most trained was shown to be more efficient than in the less trained.

Key words: Intervalled Aerobic Training, Maximum Cardiac Frequency, Cardiac Frequency of Force, Cardiac Frequency of Recuperation and Blood Lactate.

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REVISTA DE EDUCAÇÃO FÍSICA - Nº 132 - NOVEMBRO DE 2005 - PÁG.47 sistema de condicionamento físico no qual o corpo é submetido a períodos curtos, porém repetidos regularmente, de trabalho intenso, que são intermediados por períodos suficientes de recuperação.

No Exército, os Testes de Avaliação Física

(TAF), realizados três vezes ao ano, demonstram ser uma forma simples de mensurar a habilidade do militar mover seu corpo com eficiência, trabalhando maiores grupos musculares e utilizando o sistema cardiorrespiratório. Essa eficiência tem forte correlação com as atividades operacionais (Brasil, 2002). O TIA, como método cardiopulmonar, visa desenvolver a aptidão cardiorrespiratória para a realização do teste de 12 minutos.

Vale a pena ressaltar que o treinamento intervalado causa benefícios, tanto em indivíduos treinados, como em não-treinados (Volkov, 2002). Esses benefícios são: aumento da aptidão cardiorrespiratória e resistência aeróbia; aumento da resistência das fibras musculares; maior utilização total de calorias por sessão e aumento da utilização total de gordura; aumento da complacência ao exercício; e aumento no esforço de trabalho em doses manejáveis (Brooks, 2004).

Influência do exercício e do repouso sobre o treino intervalado

As mudanças metabólicas no organismo, durante o trabalho intervalado, serão conseqüências do regime escolhido entre trabalho e repouso, já que aumentando-se as pausas de repouso, diminui-se a velocidade do acúmulo do ácido lático no sangue (Volkov, 2002).

Nos exercícios com um nível de intensidade crítica, o aumento da duração das pausas entre os exercícios não influi sobre o nível da necessidade de

O2 atingido ao final do exercício, mas diminui, de modo significativo, no decorrer das pausas de repouso, antes do início de cada novo estímulo. Pode-se verificar que o aumento nos intervalos de repouso conduz a um decréscimo no nível de consumo de O2, tanto durante o trabalho, quanto no repouso do exercício

(Foss e Keteyian, 2000).

De acordo com Weineck (1991), os processos de troca aeróbica nos tecidos também são influenciados pelo repouso, pois conduz à queda de velocidade de desagregação do ATP miofibrilar dos músculos e à queda da atividade oxidante genérica no decorrer da execução do exercício.

Para McArdle, Katch e Katch (1998), o intervalo de recuperação do Treinamento Intervalado guarda uma relação direta com a duração do trabalho realizado e o sistema energético utilizado. Sendo assim, seria de 1:3 para treinar o sistema energético imediato (ATP-PC). Para o sistema glicolítico de curto prazo, o intervalo de recuperação seria o dobro do intervalo (1:2). Com o trabalho de 1:1,5, o sistema enfatizado é o aeróbico.

Do exposto, podemos perceber que a variação do tempo de repouso atua sobre os parâmetros da potência metabólica, enquanto que as variações na duração da execução do exercício nos darão os parâmetros do conteúdo metabólico aeróbico ou anaeróbico. A TABELA 1 demonstra as zonas de treinamento, a intensidade do exercício, a duração da atividade, o sistema energético atuante e o ritmo de trabalho.

TABELA 1 ZONAS DE TREINAMENTO. NÍVEIS DE INTENSIDADE. MECANISMOS DE TRANSPORTE METABÓLICO E RESPIRATÓRIO NO ORGANISMO

FONTE: ACSM, modificado por Fernandes Filho, 1999. Freqüência cardíaca

A freqüência cardíaca demonstra ser um importante preditor da intensidade da atividade física, facilitando, assim, a prescrição e controle do exercício (Trisclher, 2003). Baseado em estudo comparativo de estimativa da Freqüência Cardíaca Máxima (FCMAX), realizado por Barbosa , Oliveira , Fernandes e Fernandes Filho

(2004), foi escolhido o protocolo elaborado por Tanaka, Monahan e Seals (2001), que prevê [208 – (0,7 x idade)],

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pelo fato de apresentar menores resultados para os escores residuais, em comparação com as equações “220 – idade” e Jones (1975) [210 – (0,65 x idade)].

O repouso entre os estímulos varia de 90 a 45 segundos, conforme o condicionamento do participante. Se, ao final do intervalo, os executantes não tiverem recuperado (FCRECUPERAÇÃO acima de 70% da FCMAX ) é recomendado que o intervalo seja aumentado. Caso o intervalo já estiver em 90 segundos, deve-se diminuir a intensidade. Durante o intervalo, deve ser realizado um trote lento ou uma caminhada (Brasil, 2002).

Lactato sangüíneo

O lactato é produzido pelo organismo após a queima da glicose (glicólise) para o fornecimento de energia sem a presença de oxigênio (metabolismo anaeróbico láctico). O acúmulo desta substância nos músculos pode gerar uma hiperacidez, causando dor e desconforto logo após o exercício (McArdle, Katch e Katch ,1998).

O limiar do lactato é mensurado através dos níveis sangüíneos de ácido lático, sendo que a sua média está entre três e cinco mmol/l, de acordo com a pesquisa realizada por Foss e Keteyian (2000).

Quando um exercício torna-se mais intenso e mais longo, ocorre um aumento dos níveis de lactato, um aumento da concentração de hidrogênio e uma diminuição do pH. Isso deteriora o processo de excitação-junção, por reduzir a quantidade de cálcio liberada pelo retículo sarcoplasmático, interferindo na capacidade de fixação cálcio-troponina. A maior concentração de hidrogênio inibe a ação da enzima fosfofrutocinase, tornando a glicólise mais lenta e reduzindo a produção de ATP (Foss e Keteyian, 2000; Weineck, 1991)

Diante do exposto, o presente trabalho tem como objetivo verificar se o intervalo de 90 segundos, previsto para a primeira sessão do treinamento intervalado aeróbico, descrito por Brasil (2002), é adequado, observando-se como variáveis: intensidade, freqüência cardíaca máxima, freqüência cardíaca de esforço e freqüência cardíaca de recuperação. É, também, objetivo dessa pesquisa comparar a concentração de lactato sangüíneo após uma sessão de treinamento intervalado aeróbico em militares com níveis de condicionamento diferentes.

METODOLOGIA Amostra

Participaram da pesquisa 35 militares voluntários, do sexo masculino, do 2º ano do Instituto Militar de Engenharia (IME), idade 20,2 ± 1,7 anos, estatura 1,8 ± 0,1 metros , e massa corporal 73,6 ± 10 quilogramas. Todos os participantes eram fisicamente ativos (ACSM, 1999). Suas atividades físicas tinham uma freqüência semanal de três sessões, com duração de 45 minutos cada. Foi critério de inclusão o diagnóstico médico favorável para realização de esforço físico, bem como a realização do 1º Teste de Avaliação Física (TAF) do ano de 2005. Foram considerados critérios de exclusão a impossibilidade dos indivíduos realizarem os testes, decorrentes de enfermidades ou lesões, assim com a não-realização do 1° TAF de 2005, por qualquer motivo.

Segundo a resolução específica do Conselho

Nacional de Saúde (nº 196/96), toda a amostra foi informada detalhadamente sobre os procedimentos utilizados, concordando em participar voluntariamente do estudo, assinando um Termo de Consentimento Informado e Garantido da Proteção de Privacidade.

Instrumentos

A massa corpórea e a estatura foram medidas utilizando-se uma balança de marca Filizola, modelo Personal, com precisão de 100g e com estadiômetro com precisão de 5 m. Na corrida intervalada, foram utilizados freqüencímetros da marca Polar, modelo S-210, e cronômetro da marca Seiko, modelo S 120.

No teste do lactato, foi mensurada a sua concentração utilizando-se o lactímetro Roche, modelo Accusport, com fitas de coleta de sangue Boehringer Mannheim Roche.

Procedimentos

Através dos resultados obtidos no TAF, a amostra foi dividida em grupos de cinco indivíduos,

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REVISTA DE EDUCAÇÃO FÍSICA - Nº 132 - NOVEMBRO DE 2005 - PÁG.49 segundo o desempenho no teste de 12 minutos, tendo como faixas os índices de 20, 2300, 2400, 2600, 2700, 2800 e 3100 metros.

Posteriormente, a amostra foi submetida ao

Treinamento Intervalado Aeróbico do C 20-20 (Brasil, 2002), dentro das faixas de esforço e repouso respectivas ao índice conseguido no teste de 12 minutos. A intensidade utilizada no estudo foi a do início do treinamento, ou seja, da 1ª semana do programa de treinamento, conforme a TABELA 2.

A intensidade foi calculada acrescentando-se 200 metros ao resultado obtido no teste de 12 minutos, para estímulos de 400 metros. Portanto, se um indivíduo alcançou o índice de 2800 metros na corrida, o cálculo será feito da seguinte forma:

Os indivíduos passaram por um treinamento de adaptação ao ritmo de cada estímulo de 400m a ser executado, onde cumpriram criteriosamente os tempos estipulados por Brasil (2002), dois dias antes do teste, realizando três tiros na intensidade da 1ª semana do TIA. A TABELA 2 nos mostra os números de repetições por sessão de treinamento, o tempo da volta (estímulo/esforço) e o intervalo de repouso, de acordo com o resultado obtido no último TAF.

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