patrimonio histórioco de hidroalndia

patrimonio histórioco de hidroalndia

UNIVERDIDADE ESTADUAL VALE DO ACARAÚ (UVA)

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS - CCH

DISCIPLINA: EDUCAÇÃO PATRIMONIAL

PROFESSORA: WALTER ROBERTO

ALUNO: JOSÉ GENÁRIO MESQUITA BEZERRA

ÁGUAS SULFUROSAS DE HIDROLANDIA

Sobral

Julho de 2007

Introdução

A presente pesquisa tem por finalidade buscar um pouco da memória sobre as Águas sulfurosas encontradas em Hidrolândia em 1963, fazendo uma discussão sobre a forma como as pessoas encararam aquele fato e discutir a relação dessa com a nova concepção de patrimônio histórico. Perceber o quanto a mesma é capaz de representar a coletividade hidrolandese e qual o seu papel na construção da identidade do povo de Hidrolândia, uma vez que foram essas águas que deram o atual nome da cidade.

Fazer um estudo sobre esse assunto é buscar registrar a memória desses sujeitos que participaram nesse processo, pensando nisso é que busquei conhecer pessoalmente essas pessoas e usar da oralidade como fonte para compreender os processos pelos quais essas pessoas passaram e como se construiu na memória coletiva dessa sociedade a noção de representatividade e como eles elegem os símbolos que representam a cidade.

Breve histórico da cidade di Hidrolândia

O pequeno povoado de Hidrolândia surgiu no século XIX situada na região Nordeste do Ceará, com uma extensão de 764 km2 cedida por duas cidades, Santa Quitéria e Ipú, ficando vinculada a Santa Quitéria por ter doado maior parte da terra, com quem se limita ao Norte e Leste; ao Sul com Nova Russas; ao Oeste com Ipú, Pires Ferreira e Varjota conhecida também como Araras.

Essa área tinha o nome de Terra de Cajazeiras ou Fazenda Cajazeiras, por ser uma localidade de muitos pés de Cajás, estas por estarem situadas próximas as margens do Rio Batoque que eram bastante frondosas e serviam de abrigo para os animais e os andantes que passavam por aquele local com destino a Fortaleza e outras localidades. Posteriormente, teve o nome de Cajueiro dos Timbós, Cajazeiras dos Timbós sendo que Timbó também é uma planta com efeito narcótico para peixes depois Cajazeira de Santa Quitéria, o que se conclui é que estes nomes foram dados realmente devido as árvores de grande poste que tinha no local.

Esse pedaço de terra era limitado por dois rios, ao leste: Rio do Macaco e ao Oeste: Rio Acaraú. E por dentro da área passa o Rio Batoque citado acima que corta a cidade no sentido longitudinal. Só em 1882 pelo decreto Lei 2005 de 06 de Outubro é que foi passada a categoria de Distrito de Cajazeiras.

Em 1934 com o progresso e aumento da população a localidade foi elevada a categoria de “Vila”, passando a denominação de Vila Cajazeiras dos Timbós. Na época surgiu também outras fazendas como Tapera do Velho Vicente Ferreira; Fazenda Andradas, da família que se instalou à beira de uma grota, passando esta mesma a chamar-se Grota dos Andradas; Fazenda Nova de Vicente Camelo Timbó; Fazenda Alto Alegre de João Antônio de Paiva; Fazenda campinas de Sebastião Otaviano; Fazenda Morro de Domingos Timbó; Cacimba Funda de Manoel Timbó; Fazenda Alto Bonito de José Timbó de Paiva e Passa Bem de Elmiro Timbó, entre outras menores.

Em 1943 com a continuação do progresso a Vila de Cajazeiras dos Timbós foi elevada a categoria de Distrito do Município de Santa Quitéria pelo decreto Lei N.º 1114 de 30 de dezembro de 1943 na gestão do Prefeito Francisco de Assis Lobo.

Em 1950 através de forças políticas o prefeito não procurou consultar a população tomou a iniciativa de mudar o nome do Distrito de Cajazeiras dos Timbós para Batoque conforme Lei N.º 8299 de 05 de Novembro de 1955 1. Justificando o nome do Rio anteriormente já citado. Além de Ter outros sentidos como o nome de um serrote situado a 4 km aproximadamente da sede.

Com tanta mudança de nomes a população já estava insatisfeita, e desta vez houve muitos protestos, mas o nome permaneceu até a data da emancipação. Essas informações são relatos de Antônio de Abreu Barros, Antenor Camelo Timbó ambos falecidos. Mas seus filhos tinham guardo vivos o relato desse episódio comentado por seus pais.

Águas Sulfurosas de Hidrolândia – CE

Quando falamos em patrimônio estamos nos referindo a tudo que pode representar a coletividade, sendo natural ou criado pelo próprio homem, sendo que existem dois tipos de patrimônio, o material e o imaterial, sendo o imaterial a cultura as tradições, e o material os prédios ou algo natural, a idéia que se construiu durante muito tempo era de que o patrimônio era apenas material, isso ocorria por que as pessoas que elegiam o que era ou não patrimônio eram os que produziam essas materialidade, somente a partir do final do século XIX e inicio do século XX é que se veio a ampliar a noção de patrimônio uma vez que surgem novas tendias históricos e pela primeira vez historiadores poderam participar na escolha do que seria então considerado patrimônio da humanidade, pois antes que faziam essa demarcação eram engenheiros e arquitetos.

Hoje buscar identificar o patrimônio de uma sociedade é adentrar no universo do conhecimento dos sujeitos que criaram os símbolos e significados dentro da mesma, é compreender a sua vivencia suas necessidade e perceber a relação que esses sujeitos tem com o seu patrimônio, ou seja com os objetos ou tradições que são capazes de representar esses sujeitos em sua coletividade.

“Quando se invoca a expressão patrimônio histórico, essas categorias fundantes podem ser exacerbadas de tal forma que se perdem, em muitas ocasiões, horizontes constitutivos das sociedades estudadas e que estudam. Estes são marcados por alianças, diferenças e conflitos, pela multiplicidade de experiência da temporalidade social que significa pluralidade na construção de referencias e identidades e, portanto, na definição de patrimônios.”2

É nesse que podemos estabelecer a relação do Chafariz das Águas Sulfurosas de Hidrolândia com a coletividade dessa cidade, mesmo partindo para o patrimônio imaterial uma vez que a religiosidade popular vem trazer a noção de milagre, ainda está na memória coletiva a que foi a essas águas que deram o atual nome da cidade, sendo que foi através destas que a cidade ficou conhecida na região.

No ano de 1963 a prefeitura municipal de Batoque atual Hidrolândia, realizou a escavação de um poço profundo e a construção de um Chafariz para abastecer a cidade. Quando encontraram água foi retirado uma amostra para analise, justamente para saber a qualidade da água, após o resultado foi constatado que a mesma era imprópria para o consumo pois possuía uma quantidade muito grande de sal, dentre os quais enxofre e magnésio em grande quantidade, contudo junto com o exame laboratorial vinha uma explicação junto que a água devido o enxofre era imprópria para o consumo porém tinha poder cicatrizante.

O estado também divulgou nota na empresa sobre o fato, uma vez que é muito difícil encontrar tais águas, sendo que no Brasil sói existem dois desses poços um em Hidrolândia e outro em uma cidade da Bahia, com essa divulgação na mídia de que as águas encontradas em Batoque, atual Hidrolândia tinham propriedades medicinais, logo começa a aparecer visitantes, em sua maioria pessoas simples que procuravam cura para suas enfermidade. Como nos fala seu Gerardo Maciel cidadão hidrolandese, hoje com 81 anos:

“ Naquele época vou te dizer uma coisa o barracamento que tinha aqui, barracal o povo vinha de fora de toda parte, ...... a prefeitura começou em 58 de 58 prá cá caminhão cheio de gente pra se banhar e se tratar na água .....ai veio uma moça que fazia pena do maranhão, mocinha nova de 18 anos mais ou menos e essa moça era os peitos , pescoço os braços as pernas a viria, as muer que diziam que ela não mostrava os homens que era uma ferida só, usaram um tambom grande que dava bem na boca dela, com quinze dia tava tudo saradim, com quinze dia a moça se curou, ficava dentro dagua passava o dia todo e a noite. ... passou muitos dias aqui o pessoal dela ... tinha uma venda danada aí .... é o pessoa vendia comida .... tudo, tudo, tudo era bebida ... o comercio naquela época era pouco, era pouco negociante nu, tian mercado num tian nada .... as barracas eram do compadre Pedro Bastião mais a dona francisquia muer dele, Antonio Eurico mais a Maria Noca mulher dele.3

Para se entender o universo da memória que se tem sobre as águas sulfurosas de Hidrolandia se faz necessário ouvir os moradores que presenciaram o surgimento do movimento das águas sulfurosas como o senhor Gerardo Camelo Maciel, é importante perceber quer no momento da entrevista o sujeito retorna ao passado para buscar aquelas informações que estavam na sua mente para reviver aquelas experiências, é relevante a sua fala quando afirma que aqui em Hidrolandia não existia nem comercio e que veio muita gente de fora para a cidade em busca de cura na água.

Nesse momento é necessário adentrar para outra questão, a religião católica é muito forte no Brasil e no Nordeste ser comum a prática do catolicismo popular com crenças em santos e milagres, com isso ocorreu uma verdadeira romaria a cidade em busca mesmo de um milagre nas águas sulfurosas. Que agora já lhe era atribuída poder de cura ale do natural, ou seja a fé do povo era tanta que não importava se ficassem curados da primeira ou tivessem que vir outras vezes como afirma Le Goff em seu livro Les Rois Thaumaturges:

“Observou ainda que alguns doentes retornavam para serem tocados uma segunda vez, o que sugere que sabiam ter o tratamento fracassado, mas que o fato não destruía sua fé. “O que criava a fé no milagre era a idéia de que deveria haver um milagre”4

Para adentrar na memória dessa coletividade é necessário está atento ao seu modo de vida, suas crenças a forma como elas constroem sua existência, lutas diárias pela vida e suas perspectivas de sobrevivência, a idéia do milagre. Naquele momento da história a idéia do milagre fez co quem uma grande multidão de pessoas fossem a cidade de Batoque o que levou ao crescimento do comercio local e de toda a cidade. Tornando se naquele momento com o fato mais importante para aquela cidade, essa construção se deu de varias formas Batoque ficou conhecida como a cidade das Águas Sulfurosas, o que levou em 1966 a mudarem o nome da cidade como forma de manter viva a idéia das águas milagrosas e tentar manter o turismo que já estava diminuído significantemente naquela época. Hidrolândia significa cidade das águas, e recebeu esse no0me justamente e homenagem as águas sulfurosas.

A fotografia representa bem o momento em que vinham muitas pessoas de outras regiões para a cidade em buscada água :

1968 - Fotos do arquivo pessoal de Luis Gleizer Negreiros Rosa.

Hoje ainda é linguagem corrente na memória coletiva o poder milagroso das águas sulfurosas, atualmente foi feito uma noiva análise da água e foi constatado que a quantidade de enxofre está diminuído, pois o chafariz não está sendo preservado, foi construído alguns banheiros pela prefeitura e não havendo as instalações sanitárias adequadas está poluído o lençol de água.

Mesmo com pouca quantidade de sais muitas pessoas de Hidrolândia ainda freqüentam o chafariz para usar a água como tratamento, sendo muito comum ouvir depoimentos de pessoas que afirmam ter se curado com as águas do Chafariz . mesmo sendo considerado como parte integrante da vida da cidade sendo capaz de representar a coletividade daquele povo, as águas sulfurosas de Hidrolândia não é reconhecido como patrimônio histórico,apenas na memória dessa população. Pois o patrimônio que mais facilmente é reconhecido é aquele que mostra a força dominante do estado ou da igreja, ou mesmo de uma família rica que de certa forma patrocina o tombamento de suas memórias.

“ O patrimônio histórico que mais visível e acessível costuma derivar se certas instituições que preservam em sua memória uma forma de legitimar identidades e poderes - Estados e Igreja, por exemplo.”

Mostrando que nem só as construções materiais urbanísticas ou rurais são patrimônio, a memória dos sujeitos dentro de sua cultura tem um significado próprio, sendo considerando patrimônio da coletividade as relações ocorridas em meio social, como a religiosidade popular com a fé em milagres com das águas sulfurosas, partindo desse pressuposto o Chafariz das águas sulfurosas é um patrimônio material que vai além da materialidade, pois transcende a tênue linha nesse caso entre a realidade palpável e o imaginário popular tão calcada na religiosidade simples do homem do sertão nordestino.

Conclusão

Foi com o intuito de conhecer um pouco da história das águas sulfurosas que me dispus a fazer essa pesquisa, durante o seu desenvolvimento e quando me deparei com os documentos sobre esse passado recente de nossa cidade pude perceber que pouco havia sido escrito sobre a mesma, ainda assim era notável certa satisfação nas paginas escritas sobre Hidrolândia um fato em particular, quando se falava sobre as águas sulfurosas, foi aí que me chamou atenção para esse universo do patrimônio histórico, da questão da representatividade.

Atualmente mesmo estando um tanto esquecido o chafariz das águas sulfurosas foi o grande responsável por tornar a cidade de Hidrolândia conhecida na zona norte do estado do Ceará, esse fato ficou na memória da cidade e ainda é lembrado pelos seus moradores com muito entusiasmo, sendo vez ou ouro motivo de discussão sobre a forma como a água foi sendo esquecida.

Existem muitos silêncios sobre as águas sulfurosas de Hidrolândia, principalmente no que se referem à religiosidade do povo, os relatos de milagres, serão mesmo comprovados? Ou seria uma forma de criar um turismo religioso na cidade para que a mesma crescesse? ou será que a água tem realmente esse poder de cura? São questionamentos que por horas não podem ser respondidos, mas que pode surgir a possibilidade de uma pesquisa mais profunda sobre o assunto.

Referência Bibliográfica

Diário Oficial do Estado, edição de 29 de Novembro de 1955, Pág. 27.

LE GOFF, J. (1983) “Préface” à reedição de BLOCH (1924) Les Rois Thaumaturges

MARCO, A. da silva, história, o prazer em ensino e pesquisa. São Paulo. Ed brasiliense, 1995, p.44,

Gerardo Camelo Maciel, aposentado de 81 anos residente no bairro de nova Hidrolandia, entrevista cedida em 20/09/2007.

1 Diário Oficial do Estado, edição de 29 de Novembro de 1955, Pág. 27.

2 MARCO, A. da silva, história, o prazer em ensino e pesquisa. São Paulo. Ed brasiliense, 1995, p.44,

3 Gerardo Camelo Maciel, aposentado de 81 anos residente no bairro de nova Hidrolandia, entrevista cedida em 20/09/2007.

4 LE GOFF, J. (1983) “Préface” à reedição de BLOCH (1924) Les Rois Thaumaturges.

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