Pontos contra os biocombustíveis

Pontos contra os biocombustíveis

ESTAMOS PRONTOS PARA ESSE SALVAMENTO?

DANIELA CAROL MONIWA REIS

N°USP:5648502

SÃO PAULO

2007

ESTAMOS PRONTOS PARA ESSE SALVAMENTO?

Os biocombustíveis tornaram-se a nova moda do momento. A humanidade encontra-se à beira do colapso das reservas de petróleo e procura desesperadamente por novos tipos de combustíveis que movimentem suas fábricas, seu geradores, seus automóveis, mas que acima de tudo, continuem a movimentar nossas vidas. Sem dúvida alguma, há milhares de argumentos a favor da utilização dos biocombustíveis, que ressaltam suas vantagens e que os mostram como a melhor alternativa para nossa dependência por petróleo. Mas, por trás desses milhares de pontos a favor, que parecem transformar o biocombustível na solução para todos os nossos problemas energéticos, não haverá também riscos relacionados à introdução desses novos tipos de combustíveis?

Os biocombustíveis são fontes de energia renováveis produzidos a partir de produtos agrícolas como milho, soja, linhaça, pinhão-manso, mamona, cana-de-açúcar, óleo de palma, arroz e outras fontes de matéria orgânica. Como exemplos de biocombustíveis podemos citar o álcool (ou etanol), o biodiesel, o metanol, o metano e o carvão vegetal.

No Brasil, o etanol ocupa um lugar de destaque, com cerca de 43% dos veículos movidos a álcool e com um grande defensor, o Presidente Luís Inácio Lula da Silva, que alega que esse tipo de combustível reduz a emissão dos gases de efeito estufa e pode ser uma das grandes soluções para combater as mudanças climáticas que cada vez mais tomam conta do planeta. Mas esse tipo de combustível reduzirá realmente a emissão de gases nocivos tanto à nossa saúde quanto à do planeta? Estudos americanos apontaram que o uso do biodiesel lá aumentou a emissão de óxidos de nitrogênio, principal componente do "smog" das grandes cidades, responsável pela baixa qualidade do ar e causador de doenças respiratórias como bronquite e asma. A emissão de óxido de nitrogênio pode aumentar até 15% com o uso do biodiesel puro (ou B100). Além disso, a queima da palha de canaviais, lançou 750 mil toneladas de poluentes na atmosfera do Estado de São Paulo só em 2006. Os usineiros poderiam evitar o fogo e usar máquinas, mas acabam optando pela queimada, método mais barato que visa o aumento da produtividade e a redução de custos de transporte; as conseqüências para o ambiente são as constantes emissões dos óxidos de nitrogênio, de dióxido de carbono (CO2), de gás ozônio e de gases de enxofre (responsáveis pelas chuvas ácidas).

Na região de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, cujo solo é extremamente fértil, 98% da produção agrícola resume-se ao cultivo da cana-de-açúcar. Toda essa cana é voltada para a produção de etanol, colocando fim à diversidade e dando lugar a uma monocultura que beneficia pouquíssimos fazendeiros. Além de não gerar os empregos prometidos, e desenvolver-se às custas de subsídios federais e empréstimos do BNDES - Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o cultivo da cana voltado à produção de biocombustível também é apontado como fonte de trabalho escravo. Além disso, vale ressaltar que a produção intensiva de uma mesmo tipo de cultura por muito tempo leva a um esgotamento das capacidades do solo, o que pode ocasionar a destruição da fauna e flora natural, aumentando, portanto, o risco de erradicação de espécies e o possível aparecimento de novos parasitas.

Em algumas regiões do país, a mamona apresenta-se como uma opção à cana, mas há denúncias de que na região de Cáceres estariam sendo empregados agrotóxicos proibidos (devido sua alta toxidade) em lavouras de mamonas para produção de biodiesel. O Mato Grosso, por meio do Programa de Biocombustíveis de Mato Grosso, que conta com a parceria da Fapemat - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso e empresas como a Ecomat e a Real Norte, aposta todas suas fichas na produção do biodiesel a partir da soja. Argumenta-se que apesar de a soja render menos que outros produtos vegetais, o custo de produção é menor, e na relação custo-benefício, o estado sairia ganhando. Em outros termos, seria mais um argumento para se continuar a devastadora expansão da soja sobre a Amazônia, agora em nome de uma causa nobre e ecológica.

A Seção de Energia das Nações Unidas divulgou, em maio deste ano, um estudo sobre o rápido crescimento da indústria de bioenergia, intitulado Energia Sustentável: um Quadro para Tomadores de Decisão. O relatório alerta para o fato de que a plantação de grãos para geração de energia deverá ter um impacto negativo no meio-ambiente se vier a substituir florestas primárias, "resultando em grandes liberações de carbono do solo e da biomassa da floresta que cancelam quaisquer benefícios dos biocombustíveis por décadas.". Além disso, um canavial, por exemplo, não consegue armazenar tanto dióxido de carbono quanto a floresta tropical que foi derrubada para lhe ceder lugar.

De acordo com esse relatório ainda, os biocombustíveis têm um efeito duplo sobre o fornecimento de alimentos. De um lado, os grãos podem fazer com que terra, água e outros recursos sejam desviados da produção de alimentos. Por outro lado, tornando a energia mais amplamente disponível e mais barata, os biocombustíveis também podem aumentar a disponibilidade de alimentos. Verificou-se, no entanto, que a produção de biocombustíveis já parece estar causando a elevação dos preços do milho, elevação esta verificada em 2006 e 2007.

Há ainda alguns problemas técnicos envolvidos com a utilização dos biocombustíveis. O biodiesel se degradar muito rápido, podendo causar problemas para motores estacionários (geradores de eletricidade, calor, etc), como os utilizados em hospitais; também não há garantias de que os motores atingirão rendimento satisfatório com misturas de combustíveis que contenham porcentagem maiores que 5% de biodiesel. Além disso, em regiões de clima muito frio, a viscosidade do deste tipo de combustível aumenta bastante e podem ocorrer formações de pequenos cristais, que se unem e impedem o bom funcionamento do motor. Além disso, ainda não se sabe ao certo como o mercado irá assimilar a grande quantidade de glicerina obtida como subproduto da produção do biodiesel (entre 5 e 10% do produto bruto). Vale destacar também que, além de caros, alguns processos de produção de biocombústivel acabam gerando uma carga considerável de dióxido de carbono durante sua produção, devido aos adubos que levam durante o cultivo das sementes, e a locomoção tanto dos produtos naturais, que dependem de tratores agrícolas, quanto dos combustíveis já prontos, que utilizam caminhões.

Nessa altura do campeonato, é como se os biocombustíveis fossem os super-heróis que vieram para nos libertar da tirania petrolífera e, além disso, resolver nossos problemas ambientais; as vantagens para a utilização desses novos tipos de combustíveis estão sempre nas pautas dos grandes jornais e na boca de nossos políticos, mas cabe a nós questionar de que modo queremos ser salvos, e mais importante, se estamos prontos para as conseqüências desse salvamento.

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