Escola da Ponte

Escola da Ponte

Escola pública situada em uma pequena zona rural portuguesa é alvo da visita de centenas de brasileiros por ano, tema de teses de mestrado e doutorado, foco de polêmica entre educadores e fonte de inspiração de projetos alternativos no Brasil.

O BRASIL DESCOBRE PORTUGAL – Carolina Costa

Muitos portugueses nunca ouviram falar na pequena escola, no norte de Portugal, situada em uma cidade de quase 10 mil habitantes. Como o ditado diz que a grama do vizinho é sempre mais bonita, quase mil brasileiros já atravessaram o Atlântico, em 2005, para conhecer o jardim da Escola da Ponte, em Vila das Aves, cidadezinha a 30 km do Porto, encravada em uma zona rural, sem castelos, vinícolas ou qualquer outro ponto turístico.

Há tantos educadores interessados no que se passa entre as poucas paredes dessa escola que os próprios alunos elaboraram um manual com os direitos e deveres dos visitantes, entre eles o direito de "ser guiado por um aluno na visita à escola" e o dever de "fazer o máximo de silêncio possível em cada espaço". A intenção é fazer com que as caravanas de professores que aportam na escola não atrapalhem muito o andamento das aulas. Afinal, são os alunos os mais interessados em ter sossego e concentração para estudar. Parece estranho? Pois é, essa autonomia é um choque também para os visitantes.

Para uma escola que completou 29 anos há dois meses, a migração de educadores do Brasil é um movimento recente, que nos últimos quatro anos vem se intensificando mês a mês. O sucesso que a Escola da Ponte tem entre professores brasileiros se deve a dois motivos. Além do óbvio interesse por uma pedagogia livre, que estimula a autonomia dos alunos, destrói a figura do professor autoritário e agrega os pais nas instâncias decisórias, há o idioma comum e um livro que descreve a escola como um lugar onde alunos e professores convivem em harmonia, em busca de um modelo de ensino mais eficaz.

Escrito pelo educador e colunista da Folha Rubem Alves, o livro "A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir" (Papirus, 120 págs., R$ 24,50) é o primeiro guia de viagem a que recorrem os brasileiros antes de se lançarem ao mar no descobrimento de Portugal. Publicado em 2001, o livro já está em sua oitava edição. A visibilidade repentina fez com que o educador português José Pacheco, 53, mentor da pedagogia da escola e professor aposentado, dedicasse mais tempo a outra ponte -a aérea, entre Brasil e Portugal. Só na última visita aos colegas brasileiros, entre o final de outubro e o final de novembro, foram cerca de 20 palestras, em cinco Estados. "Quando isso começou no Brasil, pensei que fosse só curiosidade. Pensei "mitificaram a escola", e lá foi o velhote para o Brasil. Depois, percebi que há pessoas realmente interessadas em mudar a escola tradicional", pondera o "velhote", como Pacheco gosta de se auto-denominar. Tendo de vir ao Brasil tantas vezes, ele comprou um sítio em Joanópolis, em São Paulo, perto da divisa com Minas Gerais.

Além das visitas-relâmpago, que costumam durar um ou dois dias, há professores brasileiros que fazem a ponte e ficam por lá para estudar a proposta da escola. É o caso de Cláudia Santa Rosa, 34, professora da rede pública de Natal (RN), que foi para Vila das Aves há dois meses e deve acompanhar as aulas até abril de 2006, quando volta para o Brasil e encerra sua tese de doutorado pela UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte).

Ao lado da professora da PUC-MG (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais) Thaís Costa, 28, que estuda a escola portuguesa in loco há dois meses, Cláudia mapeou três perfis distintos do visitante brasileiro. Segundo elas, existe o tipo "Ponte em um dia", quase sempre o turista que vai para Portugal a passeio e aproveita para conhecer a escola. Há o visitante "prolongando o mito", que se deslumbra com a escola sem perceber seus problemas. Por fim, há o "pesquisador-crítico" -categoria na qual as duas professoras se incluem-, que procura compreender a essência e a prática da Ponte. "Não estamos atrás do projeto perfeito, sabemos das dificuldades que surgem no dia-a-dia, mas a Ponte é inspiradora de sonhos e fazeres", diz Cláudia.

O volume de brasileiros na escola tem sido tamanho que, além da pesquisa que as professoras estão fazendo, individualmente, para o doutorado, elas têm feito um levantamento conjunto só com os visitantes do Brasil. Os dados preliminares apontam uma média de três brasileiros por dia a passear entre as salas de aula das duas unidades da escola e a encher os alunos com dezenas de perguntas. As mais comuns: há divisão por série? E um professor para cada disciplina? O aluno faz provas?

As respostas para essas e outras perguntas costumam causar surpresa e gerar ainda mais dúvidas. Não, os alunos não são divididos por série ou faixa etária e sim entre iniciação, consolidação e aprofundamento, de acordo com seus avanços pessoais e o tempo em que estão no projeto. Há professores especializados, mas as aulas não são separadas em disciplinas. Os alunos selecionam quais serão seus projetos de estudo durante uma quinzena, formam um grupo e escolhem um professor para acompanhá-los durante todo ano, o tutor. Ao término da quinzena, reúnem-se, checam se alcançaram os objetivos e iniciam uma nova quinzena. Quando consideram que sabem o suficiente, pedem que o professor lhes faça uma avaliação. Se vão bem na prova, passam para outro assunto, caso contrário, voltam a se dedicar ao tema.

Além dos três tipos de visitante brasileiro apontados pelas pesquisadoras Cláudia e Thaís, há ainda o militante, aquele que quer fazer parte do projeto e não apenas ser um espectador. Alexandre Pereira, 32, formado em artes cênicas, é o principal representante desse perfil. Em 2003, enquanto estudava para se formar em pedagogia, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Alexandre assistiu a uma palestra com José Pacheco. Saiu do evento determinado a conhecer a escola de perto e, enquanto dirigia sua moto de volta para casa, em Niterói, pensava em como arranjar os R$ 3.000 da passagem e um dinheiro a mais, que o mantivesse em Vila das Aves. Estava sentado na resposta. "Olhei para baixo e tive um estalo. Vendi a moto (uma Honda XLX 350, ano 90) e consegui o preço exato da passagem", conta. Logo percebeu que tinha subestimado o valor do euro e, um mês depois, em janeiro de 2004, teve de voltar para o Brasil. "Não consegui trabalho. Voltei desconsolado", lamenta. Sem se dar por vencido, Alexandre passou 2004 e 2005 guardando dinheiro. Seu esforço foi recompensado e, há dois meses, ele é estagiário na Ponte. Já em Portugal, Alexandre se deparou com problemas mais complexos. Como não recebe nem um centavo pelas aulas, ele trabalha distribuindo jornais de madrugada. Ganha o equivalente a R$ 600 (um professor licenciado em início de carreira ganha cerca de R$ 2.700 na rede pública de Portugal). Gasta R$ 300 para morar em uma casa de família e o restante vai para gás, transporte e refeição na escola -almoço e material didático são pagos pelos pais dos alunos, como em toda a rede pública portuguesa. Para o jantar, às vezes conta com a sopa de dona Ernestina, sua primeira locadora, que se condoeu da situação do brasileiro. "Se não tenho sopa, vou dormir sem jantar", conta. "É o preço."

Todo esse sacrifício para dar aulas, de graça, em uma escola com 40 professores e 220 alunos, torna o mito ainda maior. Quem chega à Ponte imaginando encontrar um lugar encantado, o paraíso escolar na Terra, fica desanimado logo nos portões. Não há playground colorido, material didático especial, computadores de última geração. Embora a pintura já esteja um pouco velha, o chão é tão limpo quanto o pequeno refeitório onde é servido o almoço, entre os turnos da manhã e da tarde. Por todas as paredes, os mesmos cartazes de cartolina simples, com desenhos de alunos e recortes de revistas. Parece uma escola pública brasileira, das menores e mais comuns que há por aqui.

Um olhar mais atento, no entanto, revela as pequenas diferenças. Nas paredes da Ponte é que está seu segredo. Ao lado dos cartazes alegres de desenhos, um papel convida os alunos a participarem da assembléia, momento em que os estudantes resolvem conflitos, tiram dúvidas e definem regras. Em outra parede, uma chapa apresenta propostas para a melhoria da escola. Na sala Rubem Alves, como foi nomeada pelos alunos, estão estampados todos os conteúdos curriculares exigidos pelo Ministério da Educação para as disciplinas de inglês, geografia, história, português e ciências; em outra sala, está o programa de matemática. São essas as diretrizes que os alunos seguem ao escolher os temas que vão trabalhar durante uma quinzena. Eles sabem que, ao concluir um ciclo, devem saber tudo o que seus colegas estudaram em escolas tradicionais. A forma é que é diferente.

Enquanto nas escolas tradicionais o professor especialista dá uma matéria por vez para alunos separados em turmas homogêneas, na Ponte, ele lida com assuntos variados e alunos de idades diferentes. Em uma mesma sala ficam três professores, tirando dúvidas e sugerindo pesquisas na internet ou nos livros. As salas nem têm uma cadeira a mais para o professor, o que exige uma grande disposição física dos docentes.

As diferenças não páram por aí. No topo da hierarquia da escola não estão diretores, coordenadores e professores. Está o conselho de pais, responsável pelo que a Ponte é e será. O comprometimento das famílias é tamanho que alguns pais viajam 120 km por dia só para que seus filhos freqüentem as aulas. A entidade tem também um contrato de autonomia inédito na rede educacional de Portugal. É a única escola pública que pode fazer sua própria seleção de professores.

O que se faz na Escola da Ponte, no entanto, não é propriamente novidade. As bases de uma educação democrática e alternativa foram criadas em um movimento maior, a Escola Nova, em meados do século 20. Desse tronco, surgiram práticas libertárias de educação, como a inglesa Summerhill (1921), a norte-americana Sudbury Valley School (1968) e a brasileira Te-Arte (1975), entre outras (leia mais à pág. 18).

Tal como o movimento da Escola Nova, a Ponte também recebe muitas críticas. Ao longo de suas quase três décadas de existência, tem sido acusada de permitir que os pais tomem decisões pedagógicas, de promover excesso de autonomia, de acreditar ingenuamente na espontaneidade docente e discente, de exigir pouco dos alunos.

Como era de se esperar, todas essas críticas são rebatidas pelos pais e professores da Ponte. Uma pesquisa realizada por três doutores da Universidade de Coimbra dá respaldo aos defensores das práticas da escola. Durante dez anos, entre 1991 e 2001, os pesquisadores acompanharam o rendimento escolar de alunos de quinta e sexta séries, comparando os estudantes vindos da Ponte com os das 20 melhores escolas públicas portuguesas. "Nossos alunos se saíram melhor em todas as áreas avaliadas. E lembre-se de que são aqueles expulsos das outras escolas", argumenta Pacheco. De fato, a Ponte se especializou em lidar com os alunos rejeitados por outras escolas, seja pelo comportamento indisciplinado, às vezes até violento, seja por terem repetido de ano muitas vezes ou apresentarem algum tipo de dificuldade de aprendizado. "É por isso que digo, não existe aluno com dificuldade de aprendizado, existe professor com dificuldade de "ensinagem'", critica. Muitos brasileiros parecem estar alheios à polêmica sobre a Ponte. Segundo especialistas, nos últimos quatro anos, cerca de dez escolas com projeto pedagógico alternativo surgiram no Brasil. Algumas delas não negam a fonte de inspiração, como é o caso da Escola Municipal de Ensino Fundamental Desembargador Amorim Lima, em São Paulo, que completará 50 anos em 2006, mas que, desde 2004, vem implantando um projeto democrático. Neste ano, 620 dos 840 alunos fazem parte da nova proposta, que deve envolver todos os estudantes até 2006. "Nosso jeito de pensar a escola ainda está muito preso ao modelo tradicional. A LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional] brasileira é maravilhosa, mas é muito mais avançada do que a gente", comenta Ana Elisa Siqueira, diretora da Amorim. A psicóloga e colunista da Folha Rosely Sayão, que prestou consultoria à Amorim, concorda com a diretora, mas faz ressalvas às tentativas de desenvolvimento de projetos semelhantes ao da escola portuguesa: "Olhamos a Ponte e esquecemos que ela é fruto de um projeto de 30 anos. No começo, nem banheiro tinha. O grupo de pais saiu da simples melhoria física e buscou melhorias pedagógicas". Rosely aponta alguns obstáculos na criação de escolas democráticas no Brasil. "O problema nas escolas brasileiras não é envolver os pais, é "des-envolver'", brinca. Segundo ela, a relação entre família e escola está "muito sem fronteiras". Além de um compromisso ético, político e profissional, ela argumenta que também seria necessário estabelecer relações democráticas no universo escolar. "Hoje, há uma idéia de democratismo, não de democracia. Existem papéis sociais assimétricos. É um equívoco colocar alunos, pais e professores no mesmo patamar."

Outras entidades foram beber das mesmas fontes que a Ponte, mas surgiram com um projeto diferenciado, embora tão alternativo quanto o da escola portuguesa. É o caso da Lumiar, criada em 2003, em São Paulo (leia mais à pág. 17), e que hoje é responsável pela implantação de outros dois projetos democráticos, um em Campos do Jordão e outro em Mairinque, ambas cidades no Estado de São Paulo.

Em setembro deste ano, abriu seus portões a Teia Multicultural, em São Paulo, de educação básica e ensino fundamental. Com uma proposta que privilegia as artes e a cultura, a Teia foi idealizada pela atriz e pedagoga Georgya Correa, ao lado das professoras Elaine Naldi Martins e Rosa Bertholini. Por enquanto, a escola conta com três alunos, entre 2 e 4 anos, uma secretária, um zelador e as três sócias-fundadoras, trabalhando em período integral. Professores de dança, teatro, capoeira, música e inglês devem ser contratados em breve.

Já em Garopaba (SC), um grupo de educadores pretende abrir no ano que vem o Centro Educacional Porto Seguro. "Garopaba há de ser a "jóia da coroa", mas não convém que muitos saibam que ela existe, para que ninguém a sufoque", alerta Pacheco, que tem acompanhado de perto o surgimento da escola.

Em Florianópolis, a Escola Estadual de Ensino Fundamental Professora Antonieta de Barros aguarda um retorno oficial para implantar um projeto semelhante ao da Ponte. "Estamos tão desesperados com a educação tradicional que não temos nada a perder", afirma a diretora Mara Vieira de Bona, que ficará um mês na Ponte em dezembro. A Antonieta de Barros tem 45 anos e 289 alunos vindos de regiões carentes. Em 2003, quando Mara assumiu a diretoria, soube da experiência da Ponte e quis fazer algo semelhante: "A relação entre alunos e professores já mudou, mas queremos mudar mais". E os problemas da Ponte? "Tenho 20 anos de magistério e busco essa escola dentro de mim há muitos anos. Quando a gente está apaixonada, não vê defeitos." É justamente dos profissionais envolvidos em projetos como esses que surgem as críticas às entidades que vêm se adaptando a uma pedagogia mais livre. "Muitas escolas estão começando a realizar assembléias -até porque isso está na moda-, tentando dar um falso direito ao diálogo, mas, infelizmente, não mudam sua concepção quanto ao direito de livre expressão nem investem em um tratamento mais respeitoso aos alunos", contesta Elaine, da Teia Multicultural. A preocupação da pedagoga não é sem motivo. Para desânimo dos mais afoitos, os educadores alertam que mesmo um projeto sistematizado como o da Ponte não pode ser copiado, como se fosse uma receita de bolo. "O olhar de quem vai visitar a Ponte é muito focado", comenta Rosely Sayão. "Soube de uma escola que implantou o Recreio Bom [nome de um dos grupos de responsabilidade da Ponte] só porque viu em Portugal." Para ela, esse tipo de iniciativa passa uma imagem de que a escola inova quando, na verdade, não muda nada em sua estrutura. "O grande mérito da Ponte foi ter tido a ousadia de pensar uma escola diferente, fundamentada no mundo contemporâneo. Se 10% dessas iniciativas conseguirem compreender a magnitude de um projeto assim, vai ser um avanço para a educação brasileira", alerta Rosely. É como diz Pacheco: "As coisas belas são bem frágeis".

AS ESCOLAS INVISÍVEIS – José Pacheco

O Brasil desconhece o que tem de melhor. Uma reforma silenciosa, marginal às tentativas oficiais de reforma, está acontecendo por aí

Perguntam os meus patrícios por que razão eu viajo tanto para o Brasil. E eu explico. Se comparadas ao Brasil, as escolas européias dispõem de melhores recursos. Porém, acumulam-se as teses sobre o mal-estar docente, sem que se vislumbre a cura para a maleita dos professores. As escolas do "primeiro mundo" converteram-se ao mundo digital, mas mantêm e reforçam práticas de ensino obsoletas. Os excelentes profissionais que elas albergam possuem saberes suficientes para romper o círculo vicioso do insucesso, mas o insucesso mantém-se e prospera. As escolas portuguesas têm meios para se firmarem como espaços de democratização, mas estão acomodadas, cínicas.

Há, no Brasil, muitos professores que dão sentido às suas vidas dando sentido à vida das crianças e das escolas. Sinto-me um privilegiado por encontrar no Brasil tanta generosidade e responsável ousadia.Em cada viagem, junto mais uma ou duas novas escolas ao já extenso rol. No extremo norte do país, um colégio busca a forma ideal de escola que dê a todos garantias do exercício da cidadania e da realização pessoal. Num hospital do Sul, uma equipe de professores, técnicos de serviço social, animadores e voluntários suavizam os dias de crianças doentes. Num lugarejo perdido no Nordeste, a fé pedagógica faz milagres e produz um ensino que faria inveja a muito colégio (dito) de elite. Junto ao mar de Santa Catarina, crescem as paredes de uma escola sem paredes, que concretizará o sonho de um pequeno grupo de educadores.

Em São Paulo, um jardim-de-infância feito à medida da criança comove o visitante mais insensível. Na periferia da metrópole, professores e pais juntam-se a amigos e pesquisadores para dar forma a um projecto que transformou "sala de aula" em "espaço de estudo". No Rio de Janeiro, os sonhos de uma escola ganham forma, fazendo das crianças pessoas mais sábias e felizes. Sob o "mar de Minas", uma mulher empenha-se na humanização de uma academia de polícia.

Um dos obstáculos à mudança nas escolas é o predomínio de uma cultura pessoal e profissional dos professores, que os convida à acomodação. Essa cultura é reforçada pela formação que se vai fazendo. O modo como os professores aprendem é o mesmo com que ensinam. Assim como certas teorias e pedagogos permanecem invisíveis, também são invisíveis certas escolas. Mas estas por uma boa razão: uma visibilidade social precoce volta-se contra esses projectos de mudança. Poderão pensar os mais cépticos que se trata de um devaneio. Pois que pensem. O Brasil desconhece o que tem de melhor. Uma reforma silenciosa, marginal, está acontecendo por aí. Os professores que habitam as escolas invisíveis não recebem reconhecimento público. Por vezes, recebem injustiça, mas dão lições de resiliência. São mal-remunerados, mas não usam o baixo salário como álibi. Não auferem de benefícios nem aspiram à celebridade. Fazem milagres com os recursos de que dispõem, que o Brasil não é pobre em recursos humanos, ele desperdiça recursos. Os educadores anônimos que habitam as escolas invisíveis tecem uma rede de fraternidade. Geram esperança, neste Brasil condenado a acreditar que, pela educação, há-de chegar a uma cidadania plena.

José Pacheco, 53, é professor aposentado e idealizador da Escola da Ponte, em Portugal. Em 2004, recebeu a Ordem da Instrução Pública, maior premiação que o governo português concede a profissionais da área de educação. Este texto mantém a grafia original portuguesa.

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